Permitindo sentir

𝘖𝘶ç𝘢 𝘦𝘯𝘲𝘶𝘢𝘯𝘵𝘰 𝘦𝘴𝘵𝘪𝘷𝘦𝘳 𝘭𝘦𝘯𝘥𝘰 ·♩♪♫

𝘖𝘶𝘵 𝘓𝘰𝘶𝘥 - 𝘋𝘢𝘷𝘪𝘯𝘢 𝘔𝘪𝘤𝘩𝘦𝘭𝘭𝘦

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Houve uma pausa. Uma tensão palpável se instaurou entre eles, como se o ambiente ao redor absorvesse a gravidade daquele momento.

Chifuyu sentiu o impacto das palavras como um soco. A sinceridade crua no rosto de Ryusei apenas intensificava o nó em seu estômago. Ele apertou as alças da mochila que ainda pendia em seus ombros, tentando disfarçar as mãos trêmulas.

"Você não entende," Chifuyu sinalizou, os movimentos tensos, carregados de emoção reprimida. "Não é só sobre suportar a vida. É sobre... como tudo ficou errado entre nós."

Ryusei deu um passo à frente, a hesitação evidente em seu corpo, mas seus olhos fixos em Chifuyu sustentavam algo que ele não podia ignorar: arrependimento, misturado com uma vontade sincera de corrigir o que havia quebrado.

"Talvez não entenda mesmo," Ryusei sinalizou de volta, às mãos firmes, mesmo que sua voz mental parecesse vacilar. "Mas estou aqui para tentar, Chifuyu. Mesmo que signifique que tenha que ouvir coisas que vão doer."

Chifuyu desviou o olhar novamente, sentindo o fardo crescente de seus próprios sentimentos. Ele nunca quis que chegassem a esse ponto, nunca quis que tudo entre eles fosse cercado por esse misto de mágoa e confusão.

Chifuyu detestava tudo isso. A sensação de não poder manter-se distante.

Ele suspirou profundamente, sentindo o calor abafado do espaço pressionando seu peito. "Você não devia estar aqui," ele sinalizou finalmente, quase em um sussurro. "Mas, droga, Ryusei, não quer dizer que eu não queira você aqui."

As palavras flutuavam no ar como algo frágil e indefinido, e, por um instante, Ryusei ficou imóvel, assimilando o que aquilo significava.

Então, com calma, ele colocou o chocolate quente e o mousse de limão sobre o balcão próximo, um gesto pequeno, mas que parecia simbolizar algo maior: ele estava ali para ficar, para ouvir, para enfrentar o que fosse necessário porque cacete ele deveria ter feito isso a muito tempo já.

"Então vamos começar, Chifuyu," Ryusei sinalizou, mantendo o olhar firme no mais novo. "Sem barreiras desta vez." Ele sabia que não deveria pressionar, sabia que qualquer palavra mal colocada poderia desmoronar a frágil linha que os mantinha ali, ainda de pé.

Chifuyu parecia tão vulnerável quanto um vidro prestes a trincar. Seus dedos tremiam quando começou a sinalizar, como se o movimento em si fosse um esforço sobre-humano.

"Esses dias, pensei muito," ele começou, a respiração entrecortada. "Tudo que disse no pub... Naquela noite. Pensei em como tudo pareceu desabar ao mesmo tempo."

As palavras fizeram Ryusei prender a respiração. Ele sentiu algo se apertar dentro de si, uma mistura de alívio e culpa. Seus dedos começaram a se mover, hesitantes no início, mas logo ganharam fluidez.

"O que eu fiz, o que eu disse aquele dia... Foi o que fez nos afastar e deixar tudo errado entre a gente." ele respondeu, os sinais carregados de arrependimento. "Achei que o que sentíamos... o que eu sentia... era um peso pra você. Então me afastei. Não porque eu quis, mas porque achei que era o certo."

Chifuyu balançou a cabeça, os lábios se comprimindo em uma linha fina. Ele queria gritar, queria dizer que Ryusei estava errado, que ele nunca foi um peso. Mas as palavras se embaralham em sua mente, e tudo o que ele conseguiu foi dar um passo à frente.

"Você não entende," ele sinalizou rapidamente, o movimento quase desesperado. "Eu me senti abandonado, Ryusei. Eu me senti... pequeno. Como se tudo o que a gente construiu fosse descartável."

Ryusei deu um passo à frente também, reduzindo ainda mais a distância entre eles. Seu rosto estava tenso, a mandíbula travada, mas seus olhos diziam tudo o que ele não conseguia expressar.

"Eu nunca quis que você se sentisse assim," ele respondeu, a sinceridade cravada em cada gesto. "Mas eu errei. Eu sei disso. E agora tudo o que eu quero é... consertar isso."

O silêncio voltou a envolvê-los, mas desta vez não era sufocante. Era como uma pausa necessária, um espaço para que ambos processassem o que estava sendo dito. Chifuyu sentiu os olhos arderem, mas não se permitiu chorar.

Por favor, não. Não ainda.

"E se não tiver conserto?" ele sinalizou finalmente, a pergunta saindo mais como um suspiro.

Ryusei deu outro passo, agora tão próximo que Chifuyu podia sentir a presença dele como uma parede quente contra o frio que ainda se agarrava ao seu corpo. "Então começamos do zero," ele respondeu, os sinais firmes e decididos. "Mas eu não vou a lugar nenhum dessa vez."

E então, pela primeira vez em dias, Chifuyu sentiu como se o peso em seus ombros tivesse diminuído, mesmo que apenas um pouco. Ele respirou fundo, tentando se estabilizar, antes de sinalizar:

"Ok. Vamos conversar. De verdade, dessa vez."

Ryusei apenas assentiu, deixando Chifuyu liderar o caminho até uma das cadeiras perto do balcão. Ambos sabiam que aquela conversa seria longa, mas também sabiam que era a única forma de encontrar um caminho de volta um para o outro.

Enquanto caminhavam ambos travavam os maxilares com força, como se isso pudesse conter a mágoa que tudo naquele instante trazia. Uma transparência desconfortável de tudo o que precisava ser sentido antes que começasse a ruir.

Chifuyu sentiu a pressão na garganta, a sensação era pior do que cortar alguma parte de seu corpo. Ele abriu e fechou as mãos algumas vezes, os dedos tensos como se as palavras presas dentro dele tivessem se transformado em pequenas agulhas.

E de repente, tudo pareceu doer.

O ambiente entre eles é comprimido em torno de cada um. Eles viam tudo, sentiam tudo, e tudo parecia doloroso neles.

Dias sem se verem, sem sentirem a presença um do outro, e agora, suas vistas pareciam embaçar. Não com lágrimas normais, mas sim com aquelas onde tudo machuca, que escorre como adagas pelo rosto, que faz seu peito apertar e sufocar até a morte.

Chifuyu poderia sentir a tensão entre ambos, e era uma droga, porque ele pensou em tudo, mas nunca conseguiu colocar em palavras o que sentia.

E enquanto o mundo continuava ao redor, indiferente, eles se afogavam naquela pequena bolha de angústia compartilhada, onde cada segundo parecia esticar até que doer fosse tudo o que restasse.

Os olhos de Ryusei encontraram os de Chifuyu por um breve segundo, e ali estava o arrependimento, impossível de ser mascarado. Como alguém que perdeu a coragem de respirar, ele apenas o observava, sentindo como se estivesse segurando a própria vida na ponta dos dedos, prestes a escorregar.

E agora, quem vai dizer primeiro? Falar o que quiser, ainda que o coração queime de uma forma angustiante?

O silêncio entre eles era espesso, quase sufocante. Chifuyu sentou-se na cadeira com um movimento hesitante, seus ombros curvados sob o peso de tudo o que queria dizer, mas não sabia como. Ele abaixou a cabeça, os dedos entrelaçando-se sobre o colo enquanto buscava encontrar a coragem necessária.

Mas afinal, ele poderia dizer tudo em voz alta? Olhar para o homem na frente dele, tão quebrado quanto ele, e gritar? Sobre sua dor e todas as suas dúvidas?

Ryusei ficou de pé por alguns segundos, até finalmente puxar uma cadeira e se sentar à frente de Chifuyu.

"Posso dizer tudo em voz alta?" Chifuyu sinalizou com movimentos lentos, como se cada gesto arrancasse uma parte dele. Seus olhos não se levantaram, mas Ryusei viu o brilho acumulado nas bordas, uma evidência do turbilhão que ele escondia.

Ele inclinou-se ligeiramente para a frente, apoiando os cotovelos nos joelhos. Seu olhar não vacilou.

"Chifuyu, você não é como nenhum outro, nós temos algo, então não precisamos de um médico e sua terapia. Se apenas nos comunicássemos..." Suspirou profundamente. "Por favor, vá em frente e fale comigo. Estou aqui."

Aquelas palavras abriram algo dentro de Chifuyu, mas junto com isso, veio o medo. O receio de permitir uma abertura para o outro.

"Vá em frente e diga as coisas que você nunca disse." Ryusei continuou, de tom sério, mas cheio de uma ternura que só ele sabia carregar. "Conte todos os pensamentos que te matam na sua mente. Eu prometo que irei entender."

Chifuyu respirou fundo, os lábios pressionados como se tentasse conter algo muito maior do que ele. Quando finalmente sinalizou de novo, seus gestos eram precisos, mas carregavam um sofrimento evidente.

"Pensei que estava bem," ele começou, os dedos tremendo. "Depois daquela noite... no pub, depois das suas palavras, eu achei que poderia superar. Mas eu não consegui. Você não sabe como foi... como tem sido."

Ryusei sentiu um aperto no peito, mas não interrompeu. Apenas assentiu, permitindo que Chifuyu continuasse.

"Cada dia, cada hora, cada maldito segundo. Eu fiquei pensando no que eu fiz de errado, no que eu disse. E então você... simplesmente desapareceu. E tudo ficou pior," Chifuyu sinalizou rapidamente, como se precisasse tirar tudo de uma vez antes que a coragem evaporasse. "Eu me culpei por tudo. E talvez a culpa seja minha. Talvez eu tenha te afastado."

Ryusei fechou os olhos por um instante, a dor nas palavras de Chifuyu cortando-o como facas. Ele ergueu as mãos devagar, suas respostas mais lentas, cuidadosas.

"Você não me afastou," sinalizou Ryusei, pausando por um momento antes de continuar. "Eu fui... covarde. Achei que estava protegendo você, mas só machuquei mais... nós dois."

Chifuyu manteve-se imóvel, mas seus olhos finalmente se levantaram, encontrando os de Ryusei. A profundidade nos olhos escuros do mais velho parecia um oceano de arrependimentos e feridas. E, por mais que ele tentasse, não desviou o olhar desta vez.

Não podia. Não queria.

"Por quê? Por que sumir? Por que isso era certo?"

A pergunta pairou no ar, conduzida de angústia. Ryusei abaixou as mãos e passou as palmas sobre o rosto, como se pudesse apagar a expressão de arrependimento que dominava seus traços.

O ar entre eles parecia tão carregado, o suficiente para tornar até mesmo a respiração difícil. Os envolvendo como um cobertor sufocante, cada segundo se alongando em uma eternidade.

Ryusei desviou o olhar, suas mãos entrelaçadas repousando sobre os joelhos, enquanto o peso de suas próprias palavras parecia quase insuportável.

"Porque eu pensei que não era bom para você," ele finalmente sinalizou. "Eu achei que você merecia alguém melhor, alguém que pudesse te dar mais do que... isso. Do que eu. E porque você me afastou, então pensei que fosse esse o caso..."

A confissão pairou no ar, densa como uma nuvem prestes a desabar em tempestade. Ryusei não ousou levantar os olhos novamente, mas podia sentir o olhar de Chifuyu fixo nele, queimando como uma chama que ameaçava consumi-lo.

Chifuyu piscou lentamente, como poderia explicar a decepção de ver a pessoa que você queria ao seu lado desaparecer sem aviso? Ele sentia como se suas próprias mãos não fossem suficientes para carregar o peso do que precisava dizer.

E isso o matava.

As palavras do mais velho o atingiram em cheio. Ele estava certo afinal. Ele não moveu um músculo, permaneceu rígido, mas, por dentro, algo rachava. Era como se o mundo tivesse mudado de direção, jogando-o contra a força de uma onda impossível de resistir.

Ele não sabia se era a confirmação que temia ouvir ou a tristeza de perceber que talvez tivesse sido ele quem deu início àquele abismo entre os dois.

Ryusei inclinou-se levemente, como se o peso de sua própria culpa fosse suficiente para dobrá-lo.

"Eu errei," ele admitiu, a sinceridade transbordando. "Sobre aquela noite... Chifuyu, eu sinto muito..." Ele parou, lutando para encontrar as palavras certas, enquanto Chifuyu se prendia ao homem à sua frente. Sua expressão carregava algo que ele não conseguia nomear.

Ryusei engoliu em seco, parando para respirar como se precisasse pegar cada palavra do fundo de um poço.

"Estávamos bêbados e não sabíamos o que estávamos fazendo. Claro, não devo culpar a bebida por minhas ações inconscientes, mas não quero que nos distanciamos e... Droga, não há palavras que possam dispensar ou fazer você esquecer a merda que fiz naquela noite, porque eu e você sabemos bem o quão horrível tudo aquilo foi."

O impacto daquelas palavras era palpável. A dor delas foi ainda pior.

Para Chifuyu, trouxe de volta memórias daquela noite, se infiltrando em sua mente como um espectro indesejado, trazendo consigo sensações que ele havia tentado esquecer.

O cheiro forte de álcool, o toque fugaz que queimava mais do que deveria, os gestos confusos e ousados que foram seguidos por uma separação abrupta. Tudo isso parecia pulsar à sua volta, tão real quanto o outro à sua frente. Ele não queria reviver aquilo. Não queria sentir novamente aquela mistura de euforia e arrependimento que o havia consumido.

Ele sabia quem iniciou aquilo, sabia como tudo começou. Mas saber não tornava nada mais suportável.

Chifuyu puxou o ar como se tentasse encher os pulmões de algo além do vazio que consumia seu interior. Seu peito parecia comprimido, o coração pulsando em um ritmo descompassado.

Ele sentia-se pequeno diante daquela ligação que o prendia a Ryusei, algo que ele não conseguia nomear, mas que parecia enraizado no mais profundo de si. Era uma força que o puxava para perto, mesmo quando tudo nele gritava para se afastar.

Ele queria acreditar que poderia ser forte o suficiente para ignorar, mas a realidade o atingia como um maremoto implacável. A sensação de depender de Ryusei, de se perder na intensidade daquele vínculo confuso e intenso, era, acima de tudo, aterrorizante.

Foi esse medo que o fez afastar Ryusei, embora agora ele não soubesse dizer se estava protegendo a si mesmo ou tentando salvar algo que já estava perdido.

Chifuyu ergueu o olhar, observando o mais velho com uma expressão indecifrável. O pensamento de depender de alguém dessa maneira era algo que ele nunca quis admitir, nem para si mesmo. Mas era inegável agora. Ele afastou o outro porque estava apavorado com o que isso significava.

Enquanto Ryusei se mantinha para si mesmo, Chifuyu percebeu que não era só ele que estava se debatendo com seus próprios demônios.

O mais velho também parecia preso no mesmo ciclo de arrependimento se seus ombros rígidos, o maxilar travado, e as mãos, que ele segurava firmemente como se fossem as únicas coisas que o impediam de desmoronar.

"Você esteve comigo quando mais precisei, esteve lá por mim... " Chifuyu sinalizou lentamente, as mãos hesitantes traçando palavras que pareciam pesar como chumbo. Ele inclinou-se levemente para frente, buscando na própria coragem algo que pudesse tornar suas palavras mais firmes. "Ainda está. Mas... não quero que o que aconteceu nos separe."

Ryusei desviou o olhar novamente, o peso de seus próprios pensamentos refletido no franzir das sobrancelhas. Ele queria, mais do que qualquer coisa, acreditar nas palavras de Chifuyu, mas era como tentar construir um terreno instável: que com certeza iria desmoronar.

Em algum momento de sua vida, ele tinha se tornado um mestre em esconder suas emoções, mas naquele momento, algo em sua postura transparecia.

"Eu sei o que fiz." As palavras eram rápidas, os sinais curtos, como se ele precisasse se livrar delas antes que pesassem ainda mais. "Foi um erro, Chifuyu. Eu... estraguei tudo. Nós dois sabemos disso."

Ele entendia exatamente o que Chifuyu estava tentando dizer, porque, no fundo, sentia o mesmo. Mas, também sabia que a dor de ambos estava profundamente enraizada naquele único momento que agora parecia uma cicatriz aberta.

A falta de sinalização e a quietude retornou por alguns instantes antes de Ryusei soltar uma pergunta que parecia fora de contexto.

"Semanas atrás, você enviou um e-mail, não enviou?" Foi um desvio tão abrupto que deixou Chifuyu atordoado. Ele piscou, confuso, os olhos semicerrados como se tentasse enxergar através da névoa que a questão provocava.

"Do que está falando?" Chifuyu finalmente sinalizou, os movimentos das mãos curtos e hesitantes, refletindo a confusão que o dominava.

Ryusei suspirou, os ombros caindo levemente, como se carregasse o desconforto de algo que há muito evitava confrontar. Ele encontrou os olhos de Chifuyu, e no brilho apagado de seu olhar havia algo cru, uma súplica silenciosa que doía de se ver.

"Meu primeiro dia de trabalho," Ryusei sinalizou lentamente, os gestos meticulosos. "Você enviou um email para alguém chamado Hanagaki Takemichi..."

O nome caiu como uma pedra, provocando uma onda de tensão palpável.

Chifuyu sentiu o estômago revirar, como se algo estivesse sendo arrancado de dentro dele. Ele piscou várias vezes, os traços de seu rosto endurecendo enquanto tentava processar as palavras, sua cabeça acendendo em um alarme desesperado.

A confusão inicial deu lugar a um entendimento que ele não queria aceitar. Um desenho começou a se formar em sua mente, os traços ainda borrados, mas suficientes para trazer um incômodo em seu peito.

"Como você–" Chifuyu começou a sinalizar, mas foi interrompido por Ryusei, cujos sinais se tornaram mais firmes, quase urgentes.

"Eu recebi," ele afirmou, direto, sem rodeios. "De alguma forma, ele chegou até mim." Havia uma urgência em sua sinalização, uma necessidade de que Chifuyu entendesse o que ele estava tentando dizer.

"Chifuyu, eu sei que você não está bem. Sempre soube. Desde o primeiro dia. Eu vi através de você... essa fachada fria, esse jeito distante. Sabia que você estava sofrendo, escondendo isso de todos... talvez até de si mesmo."

Era como se Ryusei estivesse arrancando algo que Chifuyu tinha se esforçado para manter enterrado, expondo uma parte de si que ele não queria admitir. As palavras não ditas entre eles agora tinham forma.

"Eu quis te ajudar," Ryusei continuou, seus sinais diminuindo de ritmo. "Mas... eu também sei que não posso. Eu não sou a pessoa certa para isso." Ele parou, respirando fundo. "Eu também estou quebrado, Chifuyu. Carrego coisas que você não merece suportar, que só vão te puxar ainda mais para baixo."

Ele parou por um momento, respirando fundo, os olhos voltando a desviar do olhar atento de Chifuyu. "E talvez por isso eu não possa ficar. Porque, no fim, eu só vou te machucar ainda mais."

Era um desabafo, mas também uma confissão.

Uma tentativa de Ryusei de explicar o inexplicável, de justificar sua distância enquanto, no fundo, sabia que não era o que realmente desejava. E ali estava Chifuyu, sentado à sua frente, tentando processar tudo.

"Não falo isso para que você se sinta envergonhado porque sei algo pessoal seu que tenta esconder de todos," Ryusei continuou, e seus sinais falharam entre as frases, mostrando que ele também estava no limite. "Mas sim, para que possamos ser verdadeiros aqui e agora..."

Ele fez uma pausa, o olhar fugindo para o chão antes de retornar, vacilante, para Chifuyu. "Isso está nos matando... Você percebe isso? Isso nos consome."

O silêncio que seguiu parecia carregar o peso de uma eternidade. Ryusei inspirou profundamente, o ar entrando em seus pulmões como vidro. Ele sabia o que precisava dizer, mas o medo o segurava, amarrava sua coragem.

"Se for isso que te salva... Se for o que te mantém vivo..." Ele hesitou, o rosto se contorcendo em algo que beirava o desespero. "Eu saio. Deixo tudo. Vou embora, Chifuyu. Mudo de país, se for preciso." Ele engoliu em seco, o tremor em suas mãos ficando mais evidente. "Mas você não pode continuar assim. Não pode... terminar como eu. Para que você não deixe esta Terra antes de sua mãe..."

As palavras caíram como uma pedra pesada no colo do loiro.

A menção de sua mãe, tão repentina e incisiva, trouxe uma onda esmagadora de agonia que ele vinha enterrando profundamente.

Ele não conseguia afastar a imagem de Mei acamada, nem de seus olhos que pareciam cada vez mais pesados, fechando-se lentamente a cada visita. E se aquela fosse a última vez?

Ele sabia, no fundo, que o tempo estava se esgotando, mas nunca se sentia preparado para aceitá-lo.

A consciência de sua fragilidade o perseguia como uma sombra.

Chifuyu sabia que ela jamais voltaria a andar. Nunca mais estaria ao seu lado, para segurá-lo quando ele caísse ou celebrar suas pequenas vitórias. Não o abraçaria novamente, nem o encorajaria com aquele sorriso que aquecia até os dias mais frios.

Ela não veria os frutos de seu trabalho, não testemunharia seus projetos ou suas conquistas, por mais que ele desejasse desesperadamente que ela estivesse lá.

Mei era o pilar que sustentava o pouco de estabilidade emocional que ele ainda possuía. Saber que ela não viveria o suficiente para continuar sendo essa presença amorosa o destruía por dentro. Ela não cozinharia mais para ele, não estaria lá para repreendê-lo com ternura ou lembrá-lo de que, mesmo em seus piores momentos, ele era digno de amor.

Chifuyu estava à beira de perder o que lhe restava. Seu pai já era uma ausência que ele carregava, e agora, a iminência de também perder sua mãe o deixava desamparado. Era como se o mundo estivesse arrancando suas últimas bases.

Chifuyu entende essa dor que queima em seu peito.

Ele cerrou os punhos, o tremor percorrendo seus dedos como pequenos choques elétricos, enquanto sentia o nó em sua garganta apertar de forma quase insuportável. Sua expressão permanecia rígida, os olhos vidrados no chão, como se aquele gesto pudesse protegê-lo de encarar a verdade devastadora que Ryusei havia acabado de despejar.

Mencionar tudo isso apenas reacendeu a culpa latente que ele sentia por não ter sido capaz de fazer mais, de salvá-la, de ter sido o motivo pelo qual ela estava sobre uma cama de hospital vivendo seus últimos minutos.

Ryusei engole, sentia suas mãos trêmulas e seu olhar exausto. Ele mal conseguia encarar Chifuyu, como se temesse o julgamento que viria a seguir.

Era uma confissão crua, desprotegida, e ele sabia que estava entregando um pouco de si, sem garantias de que seria compreendido.

"Você acha que eu quero dizer isso? Eu não quero isso. Não quero te deixar," ele sinalizou, os movimentos agora mais rápidos, mais intensos. "Mas, se isso for o que te salva... Se for o que evita que você se destrua... Eu faço. Eu deixo tudo. Por você."

Ryusei fechou os olhos, cada músculo de seu corpo parecia tenso, como se estivessem prontos para quebrar todos seus ossos.

Chifuyu, que permanecia imóvel, fez com que seus olhos encontrassem os de Ryusei.

Havia algo diferente ali, uma mistura de dor, confusão e cansaço que parecia muito maior do que ele poderia expressar. Ele tentou sinalizar algo, mas seus dedos pararam no meio do movimento, incapazes de formar as palavras.

Ele olhou para o lado, mordendo o lábio com força enquanto tentava reunir forças para responder. Mas a verdade era que ele não sabia o que dizer. Não sabia como reagir a algo tão brutalmente honesto.

Tudo o que sentia era o peso esmagador daquilo que sempre tentou evitar.

Quando finalmente sinalizou, seus gestos eram lentos.

"Não é assim tão fácil..." Ele parou, engolindo em seco, enquanto sentia a própria respiração vacilar. "Você acha que simplesmente ir embora vai resolver tudo? Que desaparecer vai me salvar de alguma coisa?" Ele ergueu o olhar, seus olhos verdes queimando com uma intensidade que fez Ryusei recuar ligeiramente. "Quando você vai embora, Ryusei... não sobra nada."

Cada movimento de suas mãos parecia transbordar uma angústia sufocante, uma mágoa que ele sempre tentou mascarar, mas que agora estava ali, exposta, sem qualquer proteção. Era impossível ignorar. Ele não queria admitir aquilo, nunca quis, nem mesmo para si mesmo, mas com Ryusei à sua frente, ele não tinha outra escolha.

Ambos estavam desarmados, feridos e lutando para encontrar uma forma de consertar o que parecia irremediavelmente quebrado.

"Tudo bem," sinalizou Chifuyu, uma expressão cansada em seu rosto. "Você recebeu o e-mail, leu e descobriu tudo sobre mim... E então?" Ele fez uma pausa, esperando algo que pudesse justificar toda aquela confusão emocional. "O que exatamente mudou entre nós depois disso?"

Ryusei sentiu um nó se formar em sua garganta, enquanto sua mente se enchia de respostas que ele não conseguia traduzir em sinais.

Ainda assim, suas mãos começaram a se mover, os sinais hesitantes, como se ele tivesse medo daquilo que estava prestes a dizer.

"Chifuyu..." Ele não conseguiu evitar o olhar intenso que Chifuyu lançava em sua direção, como se estivesse analisando cada detalhe, cada movimento, cada pausa que durou um segundo a mais do que deveria. Era impossível escapar. "Nos conhecemos há tão pouco tempo, mas..."

A oscilação pairou no ar como uma presença incômoda, fazendo o peito de Chifuyu apertar.

Ele estreitou os olhos, observando como Ryusei parecia estar à beira de um colapso emocional. A tensão era palpável e ele não conseguia conter a preocupação que começava a transparecer em seu rosto.

"Você bem?" Questionou enquanto seu rosto suavizava em um raro momento de vulnerabilidade.

A pergunta era simples, mas o impacto que teve em Ryusei foi devastador. Porque não, ele não estava bem.

Eles não estavam bem.

"Eu apenas..." Ryusei parou, olhando para suas próprias mãos como se quisesse arrancar a verdade delas. "Quero poder estar ao seu lado também," admitiu finalmente.

"Eu não queria ter que pensar que o que fizemos naquela noite foi um erro..." Ele fez uma pausa, seu olhar encontrando o de Chifuyu por um instante longo demais. "Porque não foi."

A confissão caiu entre eles como uma bomba, carregada com tudo o que Ryusei tentou evitar por tanto tempo. Ele olhou para Chifuyu, a expressão apreensiva, mas determinada.

"Gostei do que aconteceu..." continuou, seus sinais ficando mais fluídos. "Gostei tanto que quero que aconteça de novo. Quero repetir."

Chifuyu congelou, seus olhos arregalados enquanto processava cada palavra. De repente, uma onda gelada parecia ter passado por ele, deixando-o incapaz de reagir. Sua mente estava um caos, e seu coração parecia bater rápido demais.

A rigidez tomou conta de seu corpo, e ele sentiu o familiar aperto em sua garganta.

Havia algo no olhar do mais velho, algo quase desesperado, que tornava impossível desviar. Algo ali não se encaixava, ou talvez se encaixasse bem demais, a ponto de ele não querer admitir.

Ele não pode deixar de se perguntar: Até onde Ryusei estava disposto a levar essa conversa?

"Mas eu tenho medo," Ryusei sinalizou, sua expressão agora abertamente atormentada. "Tenho medo de ter abusado de você, de ter te usado em um momento de fraqueza." Ele parou, engolindo seco, suas mãos tremendo ligeiramente antes de continuar. "De ter transformado o que tínhamos em algo que só eu queria."

Chifuyu sentiu um peso crescente em seu peito. Ele queria desviar o olhar, queria escapar daquela confissão que parecia roubá-lo do controle, mas não conseguiu. Era como se Ryusei o tivesse prendido ali, forçando-o a encarar algo que ele não estava pronto para enfrentar.

"Não sou alguém bom," sinalizou o mais velho, suas mãos agora mais lentas. "Eu sou a porra de um usuário de drogas. Fumo e bebo descontroladamente a cada sinal de que minha vida está desmoronando até que isso me mate."

As palavras foram então expostas como uma confissão amarga, algo que ele parecia ter guardado por muito tempo. É isso que Chifuyu consegue sentir através delas.

"Eu não sei lidar com coisas que saem fora do meu controle, e é uma merda" Um breve desvio do olhar e Ryusei sente seu mundo caindo adiante. "Minha vida é um caos que eu mesmo crio. Mas o pior é isso." Seus olhos se fixaram no rosto do mais novo. "Me apaixonar por você saiu do meu controle."

Chifuyu sentiu algo apertar em seu peito. Não era apenas o choque das palavras, mas a forma como Ryusei as deixou no ar, como se estivesse admitindo algo que sabia que poderia destruí-los.

"Eu não me apaixono, Chifuyu." Ryusei continuou, seus gestos ainda mais contidos, mas intensos de uma energia sombria. "Nunca me apaixonei porque não sei o que fazer com isso. Não sei ser bom o suficiente. Eu não sei ser gentil... Porra, mesmo sabendo disso," Respirou fundo, sua respiração tremendo constantemente. "Mesmo assim... Eu tentei me agarrar ao que sentia por você e fiquei em sua sombra, mesmo sabendo que não era certo."

Ele terminou, seus olhos fixos nos de Chifuyu, como se esperasse por um julgamento. Contudo, o brilho opaco nos olhos do mais novo foi o suficiente para ele saber que não viria qualquer comentário vindo dele quanto a isso.

Chifuyu suspirou, seu olhar desafiando a escuridão que pairava sobre os dois.

"Você acha que é o único com medo aqui? Eu também tenho medo, Ryusei. Medo do que você significa para mim e de estar me prendendo a alguém que vai acabar me destruindo."

As palavras não vinham acompanhadas de raiva, mas de uma sinceridade crua que cortava como vidro.

O bronzeado sentiu sua respiração engatar e temeu que o mais novo percebesse o quão arruinado ele estava ficando, embora soubesse que Chifuyu não poderia ouvir o som dele quebrando.

"Você fala como se fosse só você que está quebrado," Chifuyu começou, seus movimentos tensos. Ele ergueu o queixo, um lampejo de teimosia no olhar. "Como se sua confusão fosse algo que eu não pudesse aguentar. Acha que eu não tenho medo? Eu também tenho. Muito."

Ele parou por um momento, os olhos fixando-se nos de Ryusei, uma mistura de dor e coragem em sua expressão.

"Passei minha vida inteira tentando provar que sou forte. Fingindo que não preciso de ninguém. Mas... eu preciso. Preciso mais do que gostaria de admitir."

Ryusei olhou para ele, o peito apertado, as palavras de Chifuyu invadindo sua mente. Ele abriu a boca para dizer algo, mas parou.

Nenhum som seria útil para os dois.

Em vez disso, ele sinalizou, devagar, com uma hesitação que traía o peso de suas emoções.

"Não quero te machucar. Eu vejo você como alguém que merece muito mais, Chifuyu. Você merece alguém melhor do que eu."

Chifuyu balançou a cabeça com um gesto rápido e enfático.

"Você não entende?" Ele deu um passo à frente, aproximando-se de Ryusei até que o espaço entre eles quase desaparecesse.

"Não quero alguém melhor. Quero você. Com todos os seus defeitos e vícios, mesmo com tudo que você acha que te torna indigno."

Ryusei sentiu um nó se formar em sua garganta, sua visão ficando embaçada pelas lágrimas que ele tentou, sem sucesso, conter.

Porra. Ele esfregou o rosto com as mãos, como se isso pudesse apagar a vulnerabilidade que transbordava. Por que estou chorando caralho?

Quando voltou a olhar para Chifuyu, o encontrou mais próximo, seu olhar fixo no dele, como se estivesse esperando por algo que Ryusei não sabia se podia dar.

Houve uma pausa.

Ryusei mordeu o lábio inferior, a amargura se enroscou no fundo de sua garganta. Ele tentava afastar o peso que apertava seu peito, mas a honestidade pura do loiro parecia impossível de enfrentar.

Isso é doloroso caramba.

Ryusei percebeu que a partir dali ele teria que abrir-se completamente com o outro. Contar seu fardo, para que sejam sinceros e suas desesperanças alcancem a escuridão um do outro.

"Chifuyu," Seus sinais desenhavam no ar cada vez mais deliberados. "Tem algo que quero que saiba."

O loiro inclinou ligeiramente a cabeça, a preocupação estampada em seu rosto enquanto o bronzeado encolhia-se ainda mais para si mesmo.

"Eu estive na delegacia, dias atrás," Ryusei confessou, os sinais pesando como um alívio e um fardo ao mesmo tempo. "Conversei com Kaito, o delegado que ajudou da última vez."

Ryusei parou, franzindo o cenho enquanto uma expressão de dor atravessou seu rosto.

"Isso é algo que me machuca muito, tudo bem? Apenas, quero ser honesto com você, porque, se quiser ficar ao meu lado, precisa saber exatamente quem eu sou."

Chifuyu assentiu, temendo o que estava por vir.

"Ryusei..."

O mais velho respirou fundo, o gesto quase imperceptível, mas carregado de um cansaço antigo. Suas mãos começaram a contar uma história que ele guardava há anos, algo que estava entranhado em sua alma como uma cicatriz mal curada.

"Meu pai nunca foi o tipo de falar muito," ele sinalizou, seus movimentos duros, quase trêmulos. "Sempre distante. Saía de casa, dava uma volta no quarteirão, e às vezes voltava tarde da noite depois de beber com os amigos."

Ele fez uma pausa, esfregando a lateral do nariz, uma tentativa inútil de esconder o tremor que se espalhava por seu corpo.

"Um dia, quando cheguei em casa, vi... pela primeira vez... ele bater na minha mãe." Lembrou com terror.

Os sinais desaceleraram, tornando-se pesados com a memória e a sensação de culpa. "Eu sei que não foi a primeira vez. Sempre ouvia... sons. Distantes. Abafados. Mas eu fingia que não sabia. Só que naquele dia... eu vi. Eu vi ele levantar a mão. Vi ele descontar toda a raiva nela."

Chifuyu arregalou os olhos, mas não interrompeu. Ele estava parado, suas próprias mãos trêmulas ao perceber o quanto aquelas lembranças estavam destruindo Ryusei por dentro.

"Havia sangue," continuou Ryusei, os sinais quase erráticos agora. "No chão. Nas paredes. Em todo lugar." Ele parou novamente, abaixando as mãos por um momento. Respirou fundo, mas o ar parecia não alcançar os pulmões.

"E eu... eu não fiz nada." A confissão saiu dura, esmagadora. "Eu só fiquei parado, olhando. Foi como se... se eu me mexesse, fosse piorar tudo. Então eu fiquei ali. Testemunha do silêncio. Parte daquela violência."

Ele encolheu os ombros, um gesto quase imperceptível, mas que carregava um peso que Chifuyu mal conseguia compreender. Ryusei parecia ainda mais distante agora, como se estivesse afundando na memória, revivendo tudo aquilo.

"Isso aconteceu de novo. E de novo. Cada vez mais." Seus olhos estavam embaçados.

Chifuyu tentou se mover, fazer algo, mas se sentia congelado. Ele podia ver o tremor nas mãos de Ryusei, e isso o fazia se sentir menor.

Ele lembrou-se da conversa na cafeteria do hospital, das entrelinhas que Ryusei deixou escapar, mas nunca imaginou a profundidade da dor que ele carregava.

Agora tudo fazia sentido, como peças de um quebra-cabeça que ele não queria montar.

Finalmente, ele ergueu as mãos. Mas parou. As palavras estavam presas nele, um nó que não se desfazia. Ele queria consolar Ryusei, mas não queria oferecer nada que soasse vazio.

Seu coração se aperta.

Ele havia sido tão egoísta em pensar apenas em si mesmo.

Chifuyu respirou fundo, forçando as mãos a se moverem. "Você não tinha que fazer nada." Sua sinalização agora mais intensa. "Você era uma criança. Não era sua culpa. Nunca foi."

Ryusei mantinha os olhos fixos em um ponto indistinto do chão, evitando o olhar de Chifuyu enquanto as memórias emergiam como um maremoto.

A luz fraca da única luz sobre eles lançava sombras nos rostos deles, oscilando com o movimento leve do vento que atravessava a janela entreaberta.

Quando seus dedos hesitantes voltaram a sinalizar novamente, parecia que seus dedos carregavam toneladas.

"Eu sei que você diz isso," começou Ryusei, as mãos trêmulas enquanto formavam os sinais. "Mas... eu ainda sinto que falhei." Ele parou, a garganta apertada, como se cada palavra fosse um espinho.

Chifuyu o observava com atenção, o semblante preocupado e os olhos carregados de empatia. Ele sabia que não podia apressar Ryusei.

"Ela nunca chorou," Ryusei continuou, seus movimentos eram calculados, quase robóticos. "Nunca reclamou, nunca abalou na minha frente." Ele hesitou outra vez, mas seguiu em frente. "Ela suportava tudo. Todas as palavras cruéis. Todos os gritos. Mas nunca lutou contra. Para que ele não me tocasse, não se aproximasse de mim."

Ele parou, a quietação entre eles se transformando em uma espécie de ruído ensurdecedor.

"Ela fez isso por mim." Ryusei parou, seus sinais mais lentos agora.

Chifuyu apertou os lábios, sentindo um nó se formar em sua garganta.

O peito de Ryusei subia e descia irregularmente enquanto ele fechava os olhos por um momento, respirando fundo antes de continuar.

"Minha mãe fez tudo por mim, e mesmo assim..." Ele interrompeu o sinal abruptamente, engolindo em seco enquanto sentia a garganta se fechar. "Mesmo assim..."

Os olhos de Ryusei se apertaram, enquanto imagens que ele tentou reprimir por anos tomavam conta de sua mente.

Era como se ele estivesse sendo arrastado de volta para aquele momento, para aquele dia.

"Ei, Ryu..." A voz de sua mãe ecoava em sua memória, doce e cansada ao mesmo tempo. Ele lembrou-se dela apoiando a mão em sua bochecha, o toque leve, mas tão carregado de afeto que ainda podia senti-lo.

"Meu pequeno..." ela sorria, mas o sorriso parecia mais uma máscara, escondendo algo muito mais sombrio.

"Mãe?" Ele lembrava de ter chamado, a voz trêmula, as mãos pequenas agarrando a barra do vestido dela. "Você está bem? Você ficará bem?" As perguntas escaparam de seus lábios num sussurro desesperado.

A mulher respirou fundo, e ele podia ver como o esforço para não chorar a fazia tremer.

"Sim, meu filho," ela disse, sorrindo novamente, mas aquele sorriso não chegou aos olhos, que brilhavam com lágrimas prestes a cair.

Ele se lembrou de como tentou acreditar naquelas palavras, mas era impossível ignorar o sangue. Estava por toda parte. No vestido dela, no chão, até em suas pequenas mãos, que se levantavam diante dos olhos da mais velha até que alcançasse seu campo de visão.

Elas tremiam sem parar, mas Ryusei lembra como tentou o seu melhor para mostrar a ela aquele líquido espesso e carmesim em seus dedos, como se não entendesse de onde aquilo veio.

"M-mas você está... sangrando..."

A memória ficou ainda mais vívida. Ele viu a mãe franzir o cenho, e seu sorriso agora tão frágil que parecia prestes a se desfazer.

"Vai ficar tudo bem." Ela disse, a voz quase inaudível.

Mentira.

Ryusei não entendia, seus pais são apenas aqueles que lhe deram a vida, e infelizmente ele não poderia negar isso. Ele tinha os olhos de seu pai, mas eram os mesmos que os da sua mãe quando chorava.

E Deus, ele podia contar mentiras como ela.

Ryusei abaixou a cabeça, os ombros curvados sob o peso de uma dor antiga.

"Ela dizia que ia ficar tudo bem. Mas não ficou." A confissão saiu como uma lâmina cortante.

Ele parou, fechando os olhos como se tentasse afastar as imagens que invadiam sua mente. Respirou fundo, mas o ar parecia não preencher seus pulmões. O corpo inteiro tremia, prestes a se desmanchar.

Ele parou, engolindo em seco, tentando recuperar o fôlego enquanto seu corpo parecia à beira de um colapso.

Chifuyu não tirava os olhos dele, não ousando interrompê-lo, apenas permanecendo ali, firme, permitindo que mais velho fosse tão vulnerável quanto precisasse.

Ryusei inclinou a cabeça, os cabelos caindo como uma cortina fina sobre seu rosto, escondendo parcialmente as lágrimas que escorriam sem permissão.

Ele sabia que, naquele momento, não havia escapatória. Não havia onde se esconder. Ele estava nu diante de Chifuyu, cada rachadura de sua alma exposta sob a luz crua da verdade.

"Eu... Não consigo fugir disso." O ar ao redor de suas mãos o pressionando. "Não dá para escapar. Eu tenho o mesmo sangue dele, os mesmos olhos." Ele balançou a cabeça, como se estivesse tentando livrar-se de um fantasma que se recusava a partir. "Mas eu não sou como ele, Chifuyu. Não sou."

Ele levantou os olhos, encontrando os de Chifuyu por um breve momento, um pesar em seu peito excruciante.

"Então por que eu me sinto exatamente como ele?"

A pergunta não era apenas dirigida a Chifuyu, era um grito desesperado dirigido ao universo, uma súplica em busca de respostas que ele sabia que nunca viriam.

Chifuyu franziu o cenho, os lábios pressionados enquanto absorvia cada palavra, cada movimento.

Ele queria alcançar Ryusei, dizer algo que pudesse dissipar aquela dor, mas sabia que palavras, mesmo em sinais, não seriam suficientes.

Porque merda, nunca seria o suficiente.

"Ela lutou todos os dias por mim," Ryusei sinalizou, e então suas mãos começaram a tremer incontrolavelmente.

Um som engasgado escapou de sua garganta, um soluço que ele tentou conter, mas que o consumiu.

E ali, naquele momento, as lágrimas finalmente venceram enquanto sua mente o puxava de volta àquela época, àquela mulher que sacrificou tanto por ele.

"Ela nunca reclamou," continuou ele, os gestos rápidos, quase desesperados. "Ela suportou tudo, e tudo isso, toda essa merda... para me proteger." Ele engasgou, os sinais parando momentaneamente enquanto tentava recuperar o controle.

Chifuyu observava, imóvel, mas com o coração em pedaços.

Ele nunca tinha visto Ryusei assim, tão despido de todas as suas defesas, tão esmagado por um peso que parecia impossível de carregar.

"Eu tentei... Eu tentei tanto." Ryusei retomou, os movimentos descoordenados, quase dolorosos de assistir. "Ser forte. Aguentar toda a merda, mas..." Ele parou, o silêncio pairando entre eles como uma faca prestes a cair. "Chifuyu... Ele me machucava também."

Ele ofegou, inclinando-se para frente enquanto tentava puxar o ar que parecia se recusar a entrar.

Os olhos de Chifuyu se arregalaram.

Ele sabia exatamente a que Ryusei referia-se, mesmo sem precisar mencionar essa dor, apesar disso, ele não recuou. Permaneceu firme, como se estivesse segurando o mais velho pela borda de um abismo invisível.

"Ele me estuprou pra caralho, e agora sinto que fiz o mesmo com você porra!" A água que escorria de seus olhos, deixavam a mostra a dor que havia em todo seu corpo, em suas palavras. "Mesmo que não fomos tão longe, naquela noite... Todos os dias até então, eu penso que fiz o mesmo com você!"

"E agora," Ryusei prosseguiu, seus gestos mais lentos, como se cada palavra fosse arrancada de dentro dele. "Tenho medo de machucá-lo também. Medo de me tornar o mesmo homem que ele era."

Ele finalmente parou, as mãos caindo ao lado do corpo, como se toda a energia tivesse sido drenada. A confissão pairava no ar, pesada e inescapável, e Ryusei sentiu como se estivesse prestes a ser esmagado por ela antes de desviar o olhar.

"O que eu fiz com você... eu vou assumir a responsabilidade por isso. Então, me odeie. Me culpe. Porque eu já faço isso comigo mesmo todos os dias."

Chifuyu sentiu o estômago revirar, como se uma onda de náusea o tivesse atingido.

Ele queria parar Ryusei, queria dizer que estava tudo bem, que ele não precisava carregar um fardo que nem deveria estar lá.

Chifuyu queria responder, mas sua garganta parecia fechada. O nó que sentia era tão forte que ele quase podia jurar que estava sufocando junto com Ryusei.

Depois de um longo momento, se aproximou lentamente.

Ele estendeu a mão, hesitando por um instante antes de tocá-lo levemente no braço, com medo que mesmo um gesto simples pudesse despertar dores passadas do mais velho.

Apesar do toque, Ryusei não retornou seu olhar para ele.

Tsc.

Uma dor surda se agitava dentro de si. E, de alguma forma, aquilo tudo parecia ser mais do que ele poderia suportar.

"Não foi isso." Chifuyu sinalizou tatilmente na pele descoberta do mais velho, os gestos suaves. "Você nunca me machucou. Nunca me forçou. Você não ele, Ryusei."

Ryusei manteve os olhos baixos, incapaz de encarar Chifuyu. Sua respiração continuava irregular, e seus ombros tremiam enquanto ele lutava contra as lágrimas que ainda escapavam.

"Você não ele," repetiu Chifuyu, com mais intensidade dessa vez. Ele se abaixou um pouco, tentando se colocar no campo de visão de Ryusei, forçando-o a prestar atenção. "Olha pra mim. Por favor."

Relutante, Ryusei levantou os olhos. Seu olhar estava cheio de culpa, vergonha e algo mais profundo que parecia consumir cada parte dele.

Seus ombros tremiam, seu peito arfava como se ele tivesse corrido por quilômetros apenas para chegar a esse ponto, sem forças para continuar.

"Eu sei que é difícil acreditar," continuou Chifuyu, os sinais mais enfáticos agora, como se quisesse que cada gesto perfurasse a escuridão que envolvia Ryusei. "Mas você não é como ele. Você nunca seria."

Ryusei abriu a boca, como se fosse argumentar, mas Chifuyu continuou, não lhe dando tempo para se afundar novamente.

"Você se preocupa comigo. Você se preocupa em não machucar ninguém." Ele fez uma pausa, seus olhos fixos nos de Ryusei enquanto a sala parecia envolta em uma espécie de melancolia tangível.

Ryusei estava ali, parado, os ombros caídos e o rosto escondido por uma sombra de tristeza que parecia impossível de dissipar.

Fios quentes deixavam seus olhos e traçaram caminhos silenciosos por sua pele bronzeada, mas ele não fazia esforço algum para escondê-los.

Quando o soluço seguinte veio, foi tão cortante que Chifuyu teve que desviar o olhar por um momento, incapaz de suportar a cena.

Antes que Ryusei pudesse racionalizar, o mais novo deu um passo à frente, levantando-se de onde estava frente ao mais velho.

Ele estendeu os braços, hesitando apenas um segundo antes de envolver Ryusei em um abraço firme. O toque inicial foi meticuloso, quase cuidadoso demais, mas quando sentiu o mais velho ceder sob seus dedos, sua força aumentou.

Ryusei paralisou, os olhos arregalados enquanto o contato se tornava mais sólido, mais presente. Ele sentiu o calor de Chifuyu contra si, a pressão do abraço contra seu peito. Por um instante, foi sufocante, mas, então, ele desmoronou, cedendo completamente.

O soluço seguinte foi ainda mais brutal. Seu corpo sacudia de maneira descontrolada, e ele agarrou a camisa de Chifuyu como se aquilo fosse o único fio que o prendia ao mundo.

Ele se entregou, finalmente encontrando um porto seguro.

Lágrimas escorriam por seu rosto, se misturando ao tecido sob seus dedos e ele não conseguia lembrar a última vez que chorou daquela maneira.

Chifuyu não disse mais nada. Apenas segurou Ryusei, dedos acariciando seus cabelos ondulados com uma delicadeza surpreendente, algo dentro de si cedeu.

Com o rosto enterrado na curva do pescoço de Chifuyu, Ryusei sentiu uma onda de emoções que ele não sabia nomear. Porque aquilo – aquele abraço e sua proximidade – o lembrava de como ele costumava buscar abrigo nos braços de sua mãe, quando tudo ao seu redor estava desmoronando.

A lembrança o atingiu como um soco no estômago, e ele não conseguiu conter o soluço que escapou de seus lábios, a respiração entrecortada

Chifuyu apertou-o ainda mais forte. Sua mão continuou sobre os cabelos de Ryusei, os dedos deslizando gentilmente por entre os cachos enquanto o loiro tentava, de alguma forma, manter o outro inteiro.

Mas era como segurar vidro quebrado: cada movimento parecia ameaçar cortá-lo mais.

Ryusei estava ali, despedaçado, e Chifuyu sabia disso. Ele podia sentir as rachaduras, podia ver os cacos espalhados diante de si.

E, o mais doloroso, era saber que ele próprio não era muito diferente. Como poderia consertar Ryusei quando ele mesmo estava em pedaços?

Se ao menos pudéssemos nos consertar juntos. O pensamento surgiu como um sussurro em sua mente.

Os olhos de Chifuyu ficaram marejados, mas ele engoliu a própria dor por um momento. Ele sinalizou lentamente, cada gesto meticulosamente desenhado, enquanto suas mãos subiam pelas costas de Ryusei, garantindo que ele sentisse o movimento.

"Sinto muito... Me desculpe." Sua expressão estava quebrada, o rosto manchado pelo choro enquanto ele continuava. "Eu fui egoísta. Deveria ter conversado com você antes. Deveria ter entendido o seu lado, deveria ter estado ao seu lado. Mas eu... eu falhei."

Ryusei reagiu, afastando-se apenas o suficiente para que pudesse encará-lo, ainda relutante em sair do conforto do abraço.

Seus olhos estavam inchados, as lágrimas ainda escorrendo, mas ele encontrou força para levantar a mão e tocar suavemente o rosto do mais novo.

"Não sinta isso," ele sinalizou com esforço, seus gestos um pouco mais firmes agora. "Está tudo bem. Você não tem culpa. Isso... isso é problema meu, sim? Não se desculpe por algo que não é seu para carregar."

O peito de Chifuyu se apertou com a resposta. Ele tentou se manter firme, mas a dor do pranto veio sem sua permissão. Ele fechou os olhos por um momento, os sinais de Ryusei ecoando em sua mente como se tivessem sido gravados lá para sempre.

Sim, ele se sentia culpado. Sabia que poderia ter feito melhor. Chifuyu sentiu algo quebrar dentro dele, uma mistura de raiva e tristeza.

O silêncio que seguiu foi denso. A brisa que passava pela janela aberta era fria, mas não o suficiente para aliviar o calor sufocante que parecia crescer entre eles.

Ryusei não conseguia desviar o olhar de Chifuyu, eles estavam em uma encruzilhada. Ele respirou fundo, buscando forças que há muito acreditava não ter mais.

"Estou contando isso porque quero que você me conheça," ele começou, os sinais fluindo de forma hesitante, quase vacilantes, enquanto seus dedos tremiam. "Quero que entenda que não sou perfeito. Tanto quanto você pensa não ser suficiente, afinal, também me sinto assim. Sempre me senti assim."

Ele fez uma pausa, pressionando os lábios enquanto se levantava do banco. Seus movimentos eram deliberados, carregando anos de dor enterrada.

Com cuidado, ele se aproximou de Chifuyu e segurou a mão pequena do loiro.

"Minha vida inteira foi um caos. Passei por coisas que ninguém deveria passar, e quase sempre estive sozinho. Mas agora..." Os sinais desaceleraram. "Quero estar com você. Estar ao seu lado." Ryusei confessou finalmente, sem hesitação.

O loiro prendeu a respiração, seus olhos fixos nos do outro, enquanto um misto de dor e confusão se agitava dentro dele. Ele sentia o peso daquelas palavras como se fossem lâminas cortando sua pele, porque, apesar de tudo, ele sabia que não poderia corresponder àquele desejo.

"Ryusei, eu... não consigo," ele finalmente sinalizou, a velocidade de seus movimentos traindo o pânico que sentia.

Seu peito apertava com a necessidade de recusar a única pessoa que havia feito seu coração bater de forma tão errática em muito tempo.

Ryusei franziu o cenho, seus olhos escurecendo com a dor que ele claramente tentava esconder. Mas Chifuyu podia ver o que quebrou.

Ele podia sentir o quanto mencionar seu afastamento machucou o outro.

O bronzeado não se moveu por um momento, deixando as palavras pairar entre eles. Então, ele passou a mão pelos cabelos, respirando fundo, como se tentasse se recompor.

"Eu também não consigo," Ryusei admitiu, seus sinais quase desesperados. "Porra, Chifuyu... também não consigo. Eu era criança quando o mundo me colocou em um pedestal e tinha grandes sonhos de criar memórias que significasse algo. Mas tudo que consegui foi me machucar e machucar as pessoas ao meu redor."

Ryusei realmente gostaria de entender um pouco mais daquela mente confusa do outro, mas sabe que seus próprios pensamentos nebulosos impedem isso.

Ele precisava fazer algo, não poderia o perder.

"Eu estou aqui agora," Continuou, sua voz interior transbordando em seus sinais. "Eu sei que cometi erros, e sei que provavelmente vou cometer mais. Mas se eu cair de novo? Isso me tornará em um monstro?"

A garganta de Chifuyu apertava, e ele mal conseguia respirar. A intensidade de tudo aquilo era esmagadora, as emoções de Ryusei estavam sendo depositadas diretamente sobre seus ombros.

Tudo que conseguiu fazer foi apertar os lábios enquanto o observava.

Ryusei finalmente deu um passo à frente, mais cauteloso desta vez, seus olhos escaneando o rosto do mais novo em busca de qualquer sinal de resistência. Quando não o encontrou, ele ergueu a mão de Chifuyu e pressionou contra seu peito, exatamente onde seu coração batia descontroladamente.

"Deixe-me ajudar você também." Sua mão cobrindo a de Chifuyu como uma promessa não dita. "Eu finjo há tanto tempo que não sei o que é real, mas sei disso. Que quero você. E se você não consegue dizer as palavras... eu não me importo."

Os olhos de Chifuyu arfou com surpresa. Ambos permaneceram no espaço apertado entre dor e esperança, quebrados.

"Eu estou aqui. Bem aqui." Ele dá outro passo em direção a Chifuyu, como alguém que se aproxima de um animal ferido, tomando cuidado para não assustá-lo. "Quero que saiba que metade de você... não é suficiente para mim."

O loiro não respondeu imediatamente. Seus olhos estavam fixos nos de Ryusei enquanto sentia o ritmo acelerado do coração dele contra sua palma.

Você age como se não precisasse de ninguém. Em seus pensamentos, Ryusei se perdia enquanto sua ansiedade crescia. E eu entendo isso porque eu também vivi assim por tanto tempo que perdi a conta.

Ele parou por um momento, engolindo seco.

Eu preciso de alguém que me traga de volta à realidade, porque eu me perco tão facilmente que, às vezes, acho que não vou conseguir voltar.

Quando Ryusei voltou a sinalizar, seus movimentos estavam menos firmes, apertando inconscientemente a mão de Chifuyu contra seu peito esperando que a força retornasse de volta para o seu corpo, embora sua mão tremendo fosse significar algo.

"Chifuyu." Chamou sua atenção.

"Meus lábios. Leia." Ele pediu, seus olhos implorando para que Chifuyu o olhasse, para que enxergasse a verdade por trás de suas palavras.

Se você me quiser também, vai precisar se abrir comigo. Porque eu não quero só ajudar você. Quero estar ao seu lado, de verdade.

Chifuyu fungou, seus olhos ainda brilhando com lágrimas que ele não pode conter. Ele não tentou se afastar, mas também não se aproximou.

Havia uma dor palpável em seu rosto, uma batalha interna que ele claramente não sabia como vencer.

"Eu te amo," Ryusei finalmente disse, formando as palavras com precisão para que Chifuyu pudesse lê-las em seus lábios.

Sua voz saiu em um sopro, quase inaudível até para ele mesmo. Ele sabia que Chifuyu não podia ouvi-lo, mas parecia importante dizer isso em voz alta.

O silêncio que se seguiu parecia eterno.

A confissão foi dolorosa para Ryusei, não houve o sentimento certo que as pessoas dizem que há. Tudo que ele sentiu foi dor, porque não parecia certo amar Chifuyu.

O loiro não sinalizou nada em resposta, mas seu olhar não desviou, e sua mão permaneceu contra o peito do mais velho, sentindo as batidas desesperada de seu coração.

O lugar estava mergulhado em um silêncio quase absoluto, interrompido apenas pelo som abafado da respiração de ambos e pelo leve farfalhar das cortinas movidas pela brisa noturna.

Ryusei sentiu o peso de cada segundo, a expectativa do que poderia acontecer.

Inspirou fundo, reunindo toda a coragem que ainda lhe restava. Seus dedos deslizaram devagar pelo dorso da mão de Chifuyu, traçando linhas invisíveis enquanto seus olhos buscavam respostas nos do mais novo.

"Não estou pedindo para decidir agora, mas quero que saiba que estou aqui. E sempre estarei, porém não posso continuar sem saber se você realmente me quer."

Chifuyu baixou o olhar por um instante, como se tentasse organizar os pensamentos que o bombardeiam. Seus dedos finalmente se moveram, hesitantes, mas firmes o suficiente para formar as palavras que ele precisava dizer.

"Estou com medo. Não sei como fazer isso. Não sei se consigo."

Os sinais saíram como uma confissão silenciosa para Ryusei. Ele observou o mais novo com um misto de compreensão, sentindo o fardo das palavras infiltrarem em suas próprias memórias.

A lembrança da conversa com Mei voltou como um sopro silencioso na mente de Ryusei, ecoando no fundo de suas emoções.

Ele precisa de alguém que veja além do que mostra. Alguém que não vá embora, mesmo quando ele peça.

Ryusei respirou fundo, a cena diante dele pareciam peças de um quebra-cabeça que finalmente se encaixavam. Ele sabia que forçar uma resposta ou apressar Chifuyu seria ir contra tudo o que aquela relação significava.

Ele assentiu, com um respeito profundo pelas barreiras e medos que Chifuyu expunha. Aproximou-se um pouco mais, mas manteve uma distância que garantisse conforto, seu corpo emitindo uma mensagem silenciosa de paciência.

"Eu também tive medo," respondeu, e sua linguagem corporal era tão expressiva quanto os sinais que fazia. "Medo de tentar e falhar novamente. Mas isso não precisa ser uma prisão. Ele pode nos empurrar para frente, porque, apesar dele, escolhemos tentar."

Os olhos de Chifuyu se ergueram novamente de volta para o olhar de Ryusei após ler seus sinais. O brilho neles havia mudado, não era apenas dor agora.

Ele não sinalizou nada de imediato, mas sua mão se moveu devagar, subindo para tocar o rosto de Ryusei em um gesto hesitante, como se estivesse testando a realidade do momento.

Seus dedos tremiam ao tocar a pele quente do mais velho, e Ryusei fechou os olhos por um instante, absorvendo o toque suave.

Ele também estava perdido, mas naquele instante, decidiu que, se fosse para se perder, queria que fosse ali, com Chifuyu. Seguindo a ação do mais novo, ele ergueu sua mão livre e roçou os dedos no maxilar do outro, sentindo a suavidade de sua pele.

Que porra você está fazendo, Ryusei?

Tudo nele gritava para que fosse cauteloso, mas o barulho ensurdecedor de seu coração era maior do que qualquer bom senso que ainda pudesse ter.

Chifuyu também estava em um turbilhão. Ele podia sentir a pulsão do momento, o peso da atmosfera ao redor, como se tudo estivesse prestes a colapsar ou explodir.

Ryusei não tinha certeza do que fazer, seu batimento cardíaco estava abafando seu bom senso. Ele podia contar os cílios de Chifuyu e sentir sua respiração em seu rosto. Seus dedos deslizam suavemente nos lábios do loiro e ele podia sentir como tudo parecia surreal demais.

Os olhos de Chifuyu tinham tanto conflito neles, como se ele não tivesse certeza do que fazer. Ele mordeu o lábio inferior, mordendo suavemente o dedo de Ryusei no processo. Ele podia ver a confusão nos olhos de Chifuyu, o medo.

O loiro parecia que queria se afastar enquanto, ao mesmo tempo, não conseguia se mover. Ryusei não se deixou pensar muito e apenas se permitiu sentir.

"Também não sei o que estou fazendo, mas sei que você me importa. Mais do que qualquer outra coisa importou."

Chifuyu sentiu o calor subir por seu corpo invadindo cada canto de sua mente e de seu coração. Ele tentou organizar os pensamentos, mas tudo parecia escapar de suas mãos, como areia entre os dedos.

Quando seus olhos encontraram os de Ryusei novamente, a confusão deu lugar a algo mais profundo, incentivando o mais velho a não esperar mais.

Ryusei se inclinou, devagar o suficiente para que Chifuyu tivesse tempo de recuar se quisesse. Mas o loiro permaneceu ali, estático, os olhos arregalados enquanto o bronzeado se aproximava.

Então a lacuna que estava entre eles não parecia existir mais.

Quando seus lábios finalmente tocaram, foi como se o mundo tivesse parado.

Era suave.

Agora que ele não estava completamente entregue para a neblina de bebidas, Ryusei consegue sentir como os lábios de Chifuyu pareciam macios.

Ele não queria ver o terror ou a confusão no rosto do mais novo, então manteve os olhos firmemente fechados enquanto seus lábios deslizavam suavemente sobre os de Chifuyu.

Quase não houve contato, como o fantasma de um sopro tocando seus lábios. Chifuyu ficou congelado e os lábios de Ryusei ficaram parados por um momento.

Ele esperou. Ele o puxou um pouco mais para perto, mas Ryusei não pressionou, ele não empurrou.

Quando sentiu a menor contração sob os lábios, Ryusei pressionou um pouco mais forte.

Uma de suas mãos serpenteando ao redor do corpo de Chifuyu, envolvendo sua cintura, puxando-o para mais perto, enquanto o mais novo respondia ao gesto com igual intensidade, seus dedos se agarrando aos ombros do mais velho como se temesse que ele desaparecesse.

A princípio, o beijo começou suave, quase hesitante, mas logo ganhou intensidade que vinha de tudo o que ambos haviam reprimido por tanto tempo.

Era um grito silencioso, uma entrega completa, como se estivessem colocando todo o peso de suas dores, medos e esperanças naquele único momento.

Mas, de repente, Chifuyu se afastou.

Foi tão abrupto que Ryusei quase perdeu o equilíbrio.

O loiro deu um passo para trás, recuando como se tivesse sido atingido por uma onda de realidade que o puxava de volta para o fundo. Sua mão foi à boca, os olhos arregalados, a respiração descompassada.

Seus pensamentos claramente desordenados.

"Eu..." Começou a sinalizar, mas parou, seus dedos tremendo.

Ele balançou a cabeça, incapaz de formar as palavras que queria, enquanto ele tentava encontrar o controle que parecia escapar a cada segundo.

Ryusei não se aproximou de imediato. Ele sabia que, se desse o passo errado, poderia afastar Chifuyu ainda mais. Em vez disso, ficou ali, esperando, dando ao mais novo o espaço que precisava.

"Se você precisar de tempo, eu espero." Sua expressão sincera, mas cheia de dor.

Chifuyu ergueu o olhar, as lágrimas agora retornando, escorrendo livremente por seu rosto. Ele deu um passo à frente, hesitante, antes de levantar as mãos para sinalizar algo que parecia sair de algum lugar profundo dentro dele.

"Eu não sei como amar... Mas não quero perder você."

Ryusei sentiu seu próprio coração se apertar. Ele não precisava de mais nada. A confissão sendo o suficiente para ele saber que valia a pena lutar ainda.

"Chifuyu, você não precisa ser perfeito. Ninguém é. Mas você precisa deixar que alguém esteja ao seu lado, porque carregar tudo sozinho não é viver. É sobreviver."

Os ombros de Chifuyu tremiam levemente, ele passou a mão pelo cabelo, os olhos evitando os de Ryusei. Mas, lentamente, ele voltou a encarar o mais velho.

Algo em sua expressão mudou, ainda havia tristeza e confusão, mas também havia uma determinação silenciosa.

Ele deu um passo à frente, depois outro, até que estivesse próximo novamente e o espaço entre eles tivesse cessado outra vez, suas testas se tocando, e novamente Ryusei podia sentir a camada quente sobre seu rosto com a respiração de Chifuyu contra sua pele.

Um suspiro fraco escapou dos lábios do loiro, e antes que qualquer um deles pudesse pensar, antes que qualquer um deles pudesse recuar para a razão ou dúvida, eles fecham a distância.

Quando seus lábios se encontraram pela segunda vez, não havia mais hesitação.

O beijo era profundo, apaixonado, cheio de tudo o que eles tinham guardado por tempo demais. O calor que emanava de seus corpos parecia preencher o espaço ao redor, como se o mundo inteiro tivessem desaparecido, deixando apenas eles dois.

As mãos de Chifuyu subiram para o cabelo de Ryusei, segurando-o com firmeza enquanto ele se entregava completamente ao momento. Era como se, finalmente, ele tivesse permitido a si mesmo sentir, viver, existir ao lado de alguém que realmente o enxergava. E Ryusei, por sua vez, sentiu como se todas as suas feridas tivessem encontrado algum alívio na presença de Chifuyu, na conexão que compartilhavam.

A mão de Chifuyu tocou o rosto de Ryusei, o polegar traçando a linha de sua mandíbula.

Quando seus lábios se encontraram novamente, havia mais certeza. O calor entre eles parecia crescer, preenchendo cada canto do ambiente e afastando as sombras que haviam se acumulado.

Sem perceberem, ambos deixavam escorrer lágrimas silenciosas por seus rostos enquanto seus olhos fechavam e sentiam apenas o calor um do outro. Ryusei deslizou as mãos pela cintura de Chifuyu, puxando-o para mais perto, como se tivesse medo de que ele escapasse novamente.

O beijo não é suave ou hesitante. É feroz, quase desesperado, como se ambos estivessem tentando despejar cada palavra não dita, cada verdade não dita, no espaço entre eles.

Desta vez, não havia hesitação. Era um momento de entrega plena, de aceitação – de si mesmos, um do outro, e do que sentiam.

Cada toque, cada suspiro compartilhado era carregado de significado, um lembrete de tudo o que haviam superado para chegar até ali.

É inebriante.

Quando finalmente se separaram, suas testas ainda estavam juntas, e Ryusei abriu os olhos para encontrar os de Chifuyu.

Ele sorriu, um sorriso pequeno, mas genuíno, enquanto seus dedos se moviam lentamente para formar as palavras que ele sabia que precisavam ser ditas.

"Nós podemos fazer isso juntos. Um passo de cada vez. Eu prometo."

Chifuyu assentiu, o brilho em seus olhos agora mais firme. E, pela primeira vez em muito tempo, ele se permitiu acreditar que poderia, talvez, ser amado.

"Tudo bem.."

"Não precisa me amar, mas me permita te amar até que você faça o mesmo."

Ele deu a Chifuyu um último beijo apologético na testa, que estava na altura perfeita para sua boca.

Que ideal.














Continua...

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Finalmente meus caros leitores, ☕

A conversa entre eles aconteceu e espero que todos tenham gostado, devo admitir que este capítulo me deu um certo trabalho pela complexidade dos sentimentos deles.

Espero que estejam ansiosos por essa continuação, porque mesmo eu estou.

Até breve!

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Links da Playlist de Vibrações no Silêncio

Youtube: https://www.youtube.com/playlist?list=PLR5bNQ1RJsAZbHfmFbHhpH54W8B6Shv8x

Spotify: https://open.spotify.com/playlist/5nKZ4n1akx8jPcdzb1LuQO

eSound: https://listen.esound.app/playlist/NjY5OTYwMDYsMCww

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Me perdoem qualquer erro

Lembrem-se que quando eles estiverem conversando por sinais, a escrita é diferente mesmo, com a inversão na ordem das palavras ou na falta de algumas delas. Ao menos em Libras não é um "português sinalizado", como palavra por palavra, é bem mais simples, algo mais visual)

(Dúvidas, críticas, ideias e apreciações são muito bem vindas)

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