Caminhos desfeitos

Não mais de uma semana havia se passado e as coisas não pareciam melhores desde a última vez em que Ryusei esteve tão próximo de Chifuyu, e mesmo assim, aquela uma semana para ambos parecia que muito mais tempo havia se arrastado.

Cada dia era marcado por uma sensação constante de perda e arrependimento, como se ambos estivessem caminhando sobre cacos de vidro, sentindo a ausência um do outro como uma ferida aberta que se recusava a cicatrizar. A conexão entre eles, que antes parecia agir tão nova e intensamente, agora era frágil, quase quebrada.

Naquela noite no pub, algo havia mudado. Os beijos trocados, as mãos explorando o corpo um do outro, ansiavam por algo mais, o calor que emanava de ambos e a embriaguez falando mais alto que qualquer outra coisa, levando o melhor deles. Todas essas lembranças ainda estavam gravadas na memória de Chifuyu como um ferro em brasa. Ele podia sentir a presença de Ryusei em cada parte de si, como uma sombra que se recusava a desaparecer.

Mas, junto com o desejo, havia a culpa.

Chifuyu não conseguia afastar a lembrança de ter empurrado Ryusei para longe, de ter rompido o que poderia ter sido algo mais.

A conexão estava lá entre eles, viva e quente, mas agora parecia que algo havia se partido tão rapidamente quanto se formou ao se conhecerem pela primeira vez. Cada um estava preso em sua própria rotina dispersa e a inquietação do formigar em suas mãos vazias, sem saber como lidar com tudo o que aconteceu na última noite.

Era como se cada toque ainda estivesse gravado sobre suas peles. Mesmo agora que fisicamente separados, Ryusei e Chifuyu podiam ainda sentir a presença quente um do outro. A presença fantasma que se recusava a desaparecer de suas mãos.

Por um lado, a memória era boa, muito boa para falar a verdade. A paixão e o desejo que haviam compartilhado eram inegáveis. Mas, por outro, a memória de afastar Ryusei ainda batucava na cabeça de Chifuyu, como um martelo pontiagudo, perfurando a caixa de boas lembranças em sua mente.

Ryusei, por sua vez, compreendia que sua presença havia, de alguma forma, desbloqueado algo profundamente guardado dentro de Chifuyu: o amor e a capacidade de amar. Por isso, era compreensível o afastamento de Chifuyu, embora fosse um golpe doloroso para ele ter que lidar.

Ele sabia que o loiro não estava pronto para lidar com o tipo de relacionamento que parecia ter se insinuado entre os dois. Para ser honesto, nem Ryusei tinha certeza se estava para investir algo sério entre eles. Ele não achava que poderia confiar em alguém que estivesse ao seu lado, não depois de tantas desilusões.

Estando em muitos compromissos com várias pessoas, nenhum de fato funcionou e prosseguiu de forma normal como a maioria dos relacionamentos eram vistos. Essa repetida traição e desconfiança moldaram sua visão completamente sobre vínculos com outro alguém.

Afinal, em todas as suas experiências, ele foi o único a sair machucado ao invés de ser aquele quem machucava – não que ele gostaria de machucar alguém, mas talvez a desconfiança pudesse ser a mesma para Chifuyu.

Não sinto que esteja verdadeiramente bem, acho que preciso de ajuda. O email do mais novo de repente, veio à tona. Agora o loiro teria que lidar com o que já o carregava e mais com as suas ações irresponsáveis.

Talvez, pela primeira vez em sua vida, Ryusei conseguiu perceber que poderia ser, ou já estava sendo, alguém que pudesse machucar seu companheiro.

No entanto, havia algo diferente em Ryusei, algo que o fazia querer tentar, apesar de tudo. Mas ele não tinha certeza se Chifuyu sentia o mesmo. Provavelmente não. Pensou, relutante em aceitar que realmente poderia ser isso.

O loiro nunca havia se permitido se envolver de verdade com alguém. Sempre foram encontros casuais, casos perdidos de uma noite e sem compromisso, destinados a satisfazer seus desejos carnais e nada mais. Agora, ele se via diante de um novo medo: confiar em alguém que pudesse aceitá-lo como ele era, com todas as suas limitações.

As pessoas ao seu redor sempre subestimavam sua capacidade, sua inteligência, e raramente o viam como uma pessoa completa, como sempre. Então, de repente, aparece Ryusei, um novo personagem em seus dias que o promete ser sua âncora e fazê-lo feliz.

Era certo que confiar em Ryusei parecia impossível, quase uma armadilha pronta para despedaçá-lo.

Ninguém estava cem por cento disposto a renunciar e deixar para trás sonhos e ambições apenas para ter que ficar ao lado dele. Não quando ele era o tipo de pessoa, que mesmo não querendo, precisava de alguém constantemente do seu lado cuidando de si. Seja para atravessar a rua, ouvir a chaleira ou impedir que a panela de pressão explodisse em sua casa.

Assim, Chifuyu passou a ser alguém constantemente assombrado pela dependência que tinha dos outros, por mais que se esforçasse para não ser e aceitar essa verdade. Ele sempre precisaria de alguém para ajudá-lo, mesmo nas tarefas mais simples, diariamente. Então, a ideia de ter Ryusei, uma pessoa tão livre e aberta, renunciando a tudo para estar ao seu lado parecia uma fantasia, algo inalcançável.

Enquanto os dias passavam, a exaustão mental causada pelo medo e insegurança, só aumentava em Chifuyu. Ele queria desesperadamente acreditar nas palavras reconfortantes de Ryusei, queria abrir seu coração e aceitar o apoio que lhe era oferecido. Mas a dúvida continuava a corroer seu espírito, mantendo-o preso em um ciclo infinito de rejeição.

Por algumas vezes ao dia, Chifuyu se perguntava se havia perdido a única chance de construir algo real entre eles, porque a cada dia que se passava sem notícias de Ryusei tornou-se uma tortura para ele.

Se algo acontecer com o mais velho, Chifuyu sabe que terá que lidar com esse fardo da maneira mais difícil possível por longos anos de sua vida.

Por outro lado, Ryusei também se via andando sobre um limbo sem chão, tão consternado quanto Chifuyu. Revisando a noite no pub repetidamente, o rosto de Chifuyu gravado em sua mente, tentando entender onde havia errado. Cada palavra dita e não dita, cada gesto seu e tudo parecia voltar para ele em um ciclo incessante de arrependimento.

Ele desejava profundamente poder fazer mais, ser mais para Chifuyu, mas sabia que forçar o loiro a qualquer coisa deixaria-o mais assustado e só o afastaria ainda mais. Não era isso que ele queria, especialmente em um momento em que as feridas ainda estavam abertas.

Isso tudo era uma merda para ele. A situação era horrível. Ele perdeu o que havia ganhando com o mais novo, confiança. Era como se, em um instante, tudo o que ele havia construído desmoronasse, deixando apenas escombros de uma relação promissora. Foi frustrante.

Ryusei queria encontrar uma maneira de mostrar para o mais novo que independentemente dos desafios, ainda era capaz de permanecer ao lado de Chifuyu. Mas, quanto mais ele pensava, mais difícil parecia ser encontrar uma solução que resolvesse tudo isso. Sua pior decisão foi ter confessado sentimentos que mesmo ele não tinha certeza.

"Droga!..." Murmurou, a frustração evidente em cada sílaba. Seus dedos se enterraram em seus cabelos, enquanto ele se apoiava no encosto do sofá, cobrindo os olhos com o braço em um gesto de desespero silencioso.

O silêncio da sala de estar parecendo muito solitário apenas com ele em seu apartamento. A presença de Chifuyu uma única vez em seu apartamento bastou para deixá-lo com falta de tê-lo por perto.

"Porra... O que foi que eu fiz?" Suspirou, derrotado, como se cada palavra carregasse o peso de uma culpa insuportável.

Em uma perspectiva sobre ambos, a distância entre eles cresceu e uma lacuna erguida por eles era grande, o suficiente para temerem serem incapazes de fechar.

Chifuyu, apesar de suas reservas, encontrava-se pensando em Ryusei com mais frequência do que gostaria de admitir. Era doloroso e confuso considerar o quanto ele ainda se importava, mesmo sendo ele quem havia escolhido o distanciamento.

Havia momentos em que ele pegava o celular, esperando receber informações sobre o bronzeado. Mas a realidade era cruel: eles sequer haviam compartilhado seus contatos pessoais, e a única conexão que ainda restava era o número corporativo da empresa para a qual Ryusei trabalhava.

Perfeito. Chifuyu refletiu com desânimo.

Com os dias já passados, ele também notou que mesmo Ryusei estava evitando de ir ao pet shop, o que definitivamente era horrível para o loiro, já que Chifuyu precisava dele não apenas como um conhecido ou amigo próximo, mas como seu principal intérprete que auxiliava em sua comunicação.

Nada que ele fazia, parecia certo. As coisas não estavam caminhando em um bom sentido e para piorar, ele começou a se sentir mais vulnerável e muito desconfortável com as coisas em torno dele.

Suas reuniões foram canceladas e suas atividades administrativas eram quase nulas, seu desempenho foi caindo consideravelmente.

Se ele olhasse mais fundo para sua situação atual, talvez perceberia as olheiras fundas de baixo de seus olhos, a pele pálida e desidratada e o emagrecimento poderiam ser a causa para a fraqueza que sentia constantemente em quase quatro dias sem uma alimentação adequada.

Mas não, seu foco estava em ser forte e ignorar a noite no pub, ignorar os olhos escuros de Ryusei, sua pele bronzeada e quente, seus beijos apaixonados e lascivos, seu cuidado em tocá-lo e suas expressões convidativas. Chifuyu queria de alguma forma deletar tudo isso de sua mente, esquecer o que aconteceu entre eles.

O que pode ser um completo desafio para ele. Depois de considerar aceitar a aproximação repentina do mais velho, Chifuyu não acha que facilmente o deixaria para trás.

Era fato que ele queria ser independente e desvinculado de qualquer um que tentasse algo consigo, porém suas condições mentais, ou mesmo físicas, nem sempre eram favoráveis aos seus desejos, mas na verdade, Chifuyu precisava de alguém como Ryusei por perto. Não como um dependente, mas como um amigo – e parceiro.

E talvez, só talvez, ele pudesse se permitir que essa vulnerabilidade fosse o primeiro passo para construir algo entre eles.


-


Sexta-feira.

Assim, mais um dia passou, era final de expediente e Chifuyu era o único ainda no pet shop.

Baji havia saído mais cedo, como de costume, para ajudar sua mãe com as compras. Kazutora, sempre dedicado, permaneceu um pouco mais, arrumando a loja e conferindo o caixa enquanto tentava, de forma sutil, oferecer companhia a Chifuyu antes de partir e preparar o jantar para o namorado quando retornasse da casa da mãe.

Ao menos existiam pessoas que pudessem se resolver bem. Muito diferente dele, mergulhando ainda mais em sua introspecção enquanto uma ansiedade infinita crescia nele, alimentada pelo silêncio de Ryusei e pela ausência de qualquer sinal de seu reaparecimento enquanto enterrava-se no trabalho, ficando mais tempo no escritório do que perto de seus amigos.

O espaço estava mergulhado em penumbra, as cortinas pesadas bloqueavam a luz do entardecer, deixando apenas a pequena luminária sobre sua mesa e a grande tela do computador para iluminar o ambiente.

Era o refúgio que ele havia escolhido no fim das contas.

Um lugar onde poderia se esconder das expectativas dos outros, e talvez até das suas próprias. As paredes funcionando como divisórias para a realidade do mundo lá fora que continuava girando sem ele.

Foi fácil ficar atrás de sua mesa sentado em sua cadeira de couro que antes poderia ter simbolizado poder e controle, mas agora era apenas uma cadeira comum enquanto encolhia-se nela, pernas puxadas para próximo do peito.

De fato, era uma postura inadequada para um empresário como ele tem sido, era um reflexo claro do caos interno que tentava esconder.

Mas quem se importa afinal? O espaço o pertencia, era seu escritório, mais vazio e frio do que o comum, mas ainda contendo seus pensamentos em segurança.

Chifuyu suspira. Apoiando a cabeça sobre o encosto da cadeira enquanto olhava para o teto branco e sem graça acima dele.

Não havia mais nada a fazer naquela noite. As vendas estavam estagnadas – claras consequências de sua inatividade recente.

Sobre a mesa, poucos papéis foram colocados de lado, testemunhas silenciosas de sua negligência. Entre eles, pedidos de cancelamento de contrato, propostas para vender sua marca, e sugestões de parcerias que antes poderiam ter despertado algum interesse, mas que agora pareciam irrelevantes.

Chifuyu os ignorou deliberadamente, roendo o canto das unhas enquanto tentava afastar a sensação crescente de fracasso, o que acabou sendo em vão. Estalou a língua no céu da boca.

Foda-se, ele pensou amargamente, afastando as folhas de sua vista. A mente começou a vagar antes de se irritar e permitir que seus dedos clicarem de forma aleatória nas abas do computador, uma tentativa patética de distrair-se antes de se encher e rolar por sua caixa de correio eletrônico corporativo.

Foi só um pouco antes dele se aborrecer totalmente com as reclamações e cobranças que ele ignorava há dias, que um email inesperado chegou a sua caixa de entrada.

Apenas o assunto foi o suficiente para fazer seu coração acelerado: Comunicado Hand Talk.

Uma onda de choque percorreu seu corpo, transformando suas mãos em gelo.

Cada clique em direção ao e-mail parecia uma eternidade, sua mente correndo por vários cenários de desastres, misturado em uma cacofonia de pensamentos.

O ar parecia rarefeito, difícil de respirar, enquanto Chifuyu se preparava para o que estava por ler.

Finalmente, ele abriu a mensagem, os olhos correndo pelas linhas de texto enquanto sua respiração se tornava ainda mais curta à medida que sentia ela ficar presa na garganta.

"Prezado, Senhor Matsuno Chifuyu,

Em nome da equipe da Hand Talk, gostaríamos de informar que o funcionário Sato Ryusei, seu intérprete designado, entrará em um período de licença de duas semanas devido a motivos pessoais que a nós foi pedido diretamente por Sato para mantê-los confidenciais, mesmo que por interesse de nossos clientes.

Além disso, entendemos a importância de Sato para suas atividades comerciais e reconhecemos o impacto que sua ausência pode ter.

Portanto, em sinal de nosso apreço por sua importância financeira para nossa empresa, designamos Ken Ryuguji, um de nossos funcionários mais experientes e respeitados, para assumir as responsabilidades de Ryusei durante sua ausência. Ken possui vasta experiência e estamos confiantes de que ele manterá o mesmo nível de excelência que o Senhor espera.

Caso tenha quaisquer preocupações ou precise de mais informações, por favor, não hesite em nos contatar. Estamos aqui para garantir que suas necessidades sejam plenamente atendidas.

Agradecemos por sua compreensão e esperamos que confie em Ken para continuar com suas atividades.

Atenciosamente,

Equipe Hand Talk."

Ler o conteúdo no email poderia não ter significado muito para outras pessoas que, assim como ele, contrataram alguém que transmitisse o que gostariam de poder dizer, mas para Chifuyu, significava o mundo.

Ryusei estava de licença, o que justificava sua ausência, não tão repentina de dias, mas isso não serviu para diminuir a culpa que o corroía por dentro.

Motivos pessoais? Ele sabia exatamente o que isso deveria significar, não havia dúvidas quanto a isso. E por mais que tentasse racionalizar, o arrependimento só aumentava.

E que merda era isso de "apreço por sua importância financeira"? Chifuyu repetiu as palavras em pensamento, enojado.

Ele não era simplesmente a porra de um banco de financiamento. Não queria ser visto como uma cifra no balanço entre as empresas.

Chifuyu teve que se acalmar e respirar fundo para absorver completamente o que havia lido. Ele estava preocupado, o que fez seu estômago revirar, misturado ao nojo pelas palavras formais e vazias.

Tudo o que ele queria era saber se Ryusei estava bem, mas agora tudo parece pior, porque isso indicava que ele realmente não estava.

A imagem da mesa do mais velho cheia de latas de cerveja o atormentava desde a única e última vez que visitou seu apartamento. Então era claro como a luz do dia para Chifuyu que o mais velho não estava bem.

Aos poucos ele conseguiu descobrir que Ryusei tinha essas tendências autodestrutivas consigo, esperando uma bomba relógio romper a qualquer momento para se entregar de vez a seus maus hábitos.

As latas de cerveja vazias e solitárias, a fumaça de nicotina sobrevoando seus lábios no estacionamento do hospital e sua aparência despreocupada provocada com o consumo de álcool no pub, foram cenas que vêm perturbando Chifuyu aos poucos.

Agora, saber disso e pensar que Ryusei pode estar se afundando em álcool ou drogas por sua causa por todos os dias que estiveram separados o desesperava.

Você tem medo de machucar pessoas próximas de você. Bem, eu também porra. Chifuyu sente as palavras do mais velho o atingirem com mais clareza.

No final, Ryusei era uma peça perdida de um quebra cabeça qualquer assim como ele, mas Chifuyu preferiu ignorar isso e focar apenas em si, inutilizando os fardos do mais velho sem pensar que poderiam ser mais pesados que os dele.

"Dizem que pode matar, sabe?"

"Sim. Estou bem ciente."

"Você gosta disso?"

"Eu gosto. Parece estruturar meu dia. A sensação de alívio quando passa por mim quando estou fazendo isso, me faz sentir centrado e acabo me acalmando..."

Chifuyu queria ser forte, contudo, cada vez que fechava os olhos, tudo voltava. Ryusei era bom, bom demais para alguém como ele. Talvez o mais velho era sua esperança, mas ele definitivamente não estava olhando para si mesmo, Chifuyu tem certeza que não. Não quando Ryusei encontrava paz em fumar e se doar ao alcoolismo.

"Você entende? Eu ia me matar Chifuyu. Eu ia deixar toda essa merda para meu próprio esquecimento"

Chifuyu respirou fundo, contendo lágrimas para não se desestabilizar naquele momento com as lembranças de Ryusei contando o pior dele. Ele não poderia chorar agora, ele não tinha esse direito.

Ryusei provavelmente estava pior que ele, então não, suas lágrimas não poderiam ser derramadas facilmente quando o mais velho já havia tentado tirar a própria vida. Seu coração apertou muito, era uma dor forte que lhe batia por dentro.

Contudo, difícil era suportar a dúvida, a insegurança e o medo que o fazem de refém enquanto preso e alimentado apenas pelo silêncio do mais velho.


-


Dois dias depois, na segunda-feira, o novo funcionário, Ken Ryuguji, chegou.

Ele era alto e intimidante, com roupas um pouco mais refinadas do que as de Ryusei, mas ainda assim casuais.

Poderia ser estranho para o outro, mas Chifuyu não pôde deixar de notar a tatuagem na lateral de sua cabeça. Parecia ser uma exigência não oficial na Hand Talk, considerando a serpente bem desenhada no pescoço de Ryusei – raramente visível devido às suas roupas.

De qualquer forma, Draken, como Ken preferia ser chamado, era uma pessoa gentil, mas mantinha uma distância segura dele, se limitando apenas a suas funções como intérprete de sinais, mantendo a relação estritamente profissional. Talvez até mais do que Ryusei.

Apesar disso, Chifuyu não poderia se importar menos. Ele também preferia aquela relação entre eles. Sem qualquer tipo de envolvimento. Como deveria ser.

A presença de Draken, embora tranquilizadora em alguns aspectos para Chifuyu, trouxe consigo uma tensão latente, um lembrete constante de que um bronzeado desajeitado não o acompanhava naquele instante.

Pensando sobre isso, ele chegou a uma conclusão aparentemente idiota. Não conseguia confiar em Draken.

Diferente de alguns dias atrás, Chifuyu parecia ter se retraído ainda mais, voltando para uma versão de si mesmo que Baji e Kazutora reconheciam, mas não viam há muito tempo. Desde que conheceu Ryusei, houve uma mudança perceptível em seu comportamento, uma abertura que agora parecia completamente fechada.

O brilho em seus olhos desapareceu, substituído por uma apatia que começou a fazer parte de seus dias, Chifuyu evitava qualquer interação que não fosse absolutamente necessária, cortando até mesmo os laços mais próximos com um silêncio doloroso.

Seu foco, antes tão voltado para o crescimento de sua marca e para o progresso pessoal, agora parecia quase inexistente. Era como se ele estivesse se distanciando de tudo e de todos, afundando-se cada vez mais em si mesmo, em uma tentativa desesperada de se proteger de mais dor.

A mudança era evidente para quem o conhecia bem, especialmente para seus únicos amigos, que observavam com preocupação o estado do mais novo. Chifuyu, que antes mostrava uma determinação feroz em alcançar seus objetivos, agora parecia perdido, desinteressado em tudo o que antes o motivava.

Algo estava profundamente errado, Baji percebeu e sabia que parte disso estava ligada ao relacionamento turbulento e confuso que desenvolveu-se entre Chifuyu e Ryusei. Era claro para ele quando era um dos principais espectadores dos dois. Por isso que não podia ficar parado e assistir seu amigo desmoronar; ele precisava entender o que estava acontecendo e, talvez, ajudar a consertar o que estava quebrado.

Mas teria que esperar um pouco para isso. Chifuyu precisava dele primeiro.

Antes, ele já tendia a ser introspectivo, mas agora, parecia envolto em uma armadura invisível, que o isolava ainda mais. A falta de confiança em Draken só reforçava essa barreira, tornando o ambiente ao seu redor denso e sufocante, como se qualquer tentativa de aproximação fosse imediatamente repelida.

À medida que os dias se arrastavam, essa transformação se tornava impossível de ignorar. A ansiedade que antes era apenas uma sombra, agora dominava Chifuyu por completo, refletida em cada gesto, cada olhar perdido.

As reuniões canceladas e a inatividade crescente em sua loja eram apenas os sintomas visíveis de um problema muito mais profundo, um ciclo de autopunição que ameaçava consumi-lo por completo. Baji e Kazutora viam-no afundar em um abismo de preocupações que ele mesmo parecia cavar.

Era como se o mundo ao seu redor estivesse desmoronando, e Chifuyu não soubesse como impedir a queda. Parecia que ele estava sozinho, sentindo-se exatamente como uma criança perdida em um parque cheio.

E talvez seja isso o motivo para que a presença constante de Draken o deixe desconfortável. A ausência de Ryusei era um vazio que ele não poderia preencher.

Chifuyu olhava para o telefone, esperando uma mensagem que nunca chegava, apenas para ser frustrado novamente pelas notificações de emails das empresas que ignorava. Era como se sua vida estivesse em suspenso, cada dia mais difícil que o anterior.

Em um desses dias particularmente difíceis, Draken entrou no escritório, enviado por Kazutora, com um olhar atento.

Chifuyu mal ergueu os olhos, mas sabia que o intérprete o observava atentamente um pouco receoso antes de sinalizar: "Senhor Matsuno, você não parece bem. Não se alimenta direito e reuniões canceladas com frequência."

Chifuyu tentou sinalizar uma resposta, mas sua mente estava em um turbilhão. Ele suspirou, sem forças para manter a máscara de que tudo estava bem.

"Estou bem," sinalizou finalmente em uma mentira escondida, virando-se de costas para Draken, incapaz de suportar a preocupação nos olhos do outro. Ele não levaria mais culpa com ele dessa vez e muito menos suportaria o olhar de pena para ele.

Era sempre assim.

Essa droga de olhar. Engoliu.

Draken permaneceu no mesmo lugar, sem saber ao certo como reagir e os próximos passos que deveria dar. Ele queria ajudar, não como alguém enviado para o fazer, mas como alguém que poderia entender o mínimo de um transtorno depressivo persistente.

Chifuyu parecia distante, preso em seus próprios pensamentos, retraído e com sentimentos negativos sobre um futuro distante dele, e mesmo com isso tudo, ele consegue cumprir suas atividades rotineiras.

Não foi difícil para Draken identificar esses sinais enquanto Chifuyu lidava com o desconforto de estar perto dele. Mesmo com sua tentativa de estar presente, a situação parecia apenas complicar as coisas entre os dois, mas ele estava ciente de que a saúde do loiro estava piorando, porém a ideia de se envolver em um assunto do qual não pertencia não lhe parecia ser uma boa ideia.

Contudo, ter seu cliente morrendo à sua frente certamente era pior.

Desligando e ligando a luz do escritório de Chifuyu, Draken consegue chamar sua atenção.

"Coma algo."

O mais novo preferiu ignorá-lo completamente outra vez, o que o fez se perguntar o que passava por seus pensamentos naquele momento de fraqueza e exaustão. "Você conhece Ryusei algum tempo, certo? Ele seu colega de trabalho. Ryusei bem, você sabe?"

Draken, embora surpreso pela pergunta, manteve a distância emocional. Ao menos Chifuyu estava iniciando alguma conversa entre eles, o que já era um começo.

"Sim, conheço Ryusei quatro anos. Somos amigos, mas sua vida pessoal nunca conheci. Se sua pergunta reflete isso, posso dizer que ele um homem complexo." Suspirou. "Ryusei parece inabalável, mas ele mais frágil que maioria das pessoas."

As palavras de Draken penetraram em Chifuyu, como caminhos de cicatrizes queimando sob sua pele, trazendo à tona uma culpa esmagadora. "Ryusei um cara inteligente, mas também muito misterioso. Ele construiu paredes ao seu redor para se proteger, mas você, Senhor Matsuno, conseguiu ver além delas. Isso algo especial." Ponderou.

O loiro refletiu com a informação. Sem acreditar no que o mais velho estava sinalizando.

"Beber e fumar são vícios, Ryusei tentou controlar diversas vezes, mas sempre volta quando não consegue lidar com nada."

Chifuyu sentiu o aperto no peito se intensificar.

"Eu... não sabia que ele estava tão mal. Eu responsável por isso."

Draken suspirou, mantendo o tom profissional. "Não sei se a licença de Ryusei tem algo a ver com você, mas posso dizer que ele tem esse padrão de comportamento há muito tempo. Quando as coisas ficam difíceis, ele se afasta. Melhor que pode fazer é estar disponível para Ryusei quando ele estiver pronto."

Chifuyu assentiu, mas a culpa ainda permaneceu em seu coração. Ele não parava de pensar se poderia ter feito algo diferente para evitar o afastamento de Ryusei. As palavras de Draken mantendo-se em sua mente, mas não aliviaram o peso que ele sentia.

Nos próximos dois dias que se seguiram, a interação entre Chifuyu e Draken manteve-se ainda mais estritamente profissional, mas algo começou a mudar. Draken, percebendo a fragilidade de Chifuyu, começou a mostrar uma preocupação mais evidente, embora ainda mantivesse sua distância.

A mudança foi sutil, mas perceptível. Parecia que Draken sabia que, a qualquer momento, Chifuyu poderia se afastar, o que ele provavelmente faria. Contudo, Draken tentava ao máximo não forçar intimidade, mas estava sempre por perto, observando, atento às necessidades de Chifuyu.

A relação entre eles começou a ganhar uma nova camada, mais profunda, mesmo que silenciosa.

Chifuyu notou que Draken estava mais presente, ainda que sem invadir seu espaço. A princípio, era um incômodo maior, mas ele também sentiu uma estranha sensação de alívio por não estar totalmente sozinho.

Havia um equilíbrio tênue entre a distância que ele queria manter e a existência silenciosa de Draken, que parecia entender a necessidade de não pressioná-lo.

Ainda assim, Chifuyu estava preso em um turbilhão de pensamentos. A culpa por ter afastado Ryusei pesava sobre seus ombros, afundando-o cada vez mais em um mar de arrependimento. A presença constante e vigilante de Draken só reforçava sua sensação de inadequação. Ele se perguntava se estava decepcionando mais uma pessoa ao seu redor, algo que ele não queria ter que enfrentar.

Havia momentos em que Chifuyu franzia o cenho, tentando entender o que realmente estava acontecendo. As linhas entre certo e errado, desejo e arrependimento, se embaçaram cada vez mais em sua mente.

Ele se perguntava como tudo havia chegado a esse ponto. Eles haviam se beijado, ele havia se permitido sentir o toque de Ryusei, havia deixado que o mais velho se aproximasse, que o amasse naquela noite, mas para quê? No final, ele foi o responsável por afastar Ryusei. Agora, estava sofrendo as consequências de suas próprias ações, preso em uma espiral de dor e culpa, consciente de que Ryusei estava se autodestruindo ainda mais intensamente do que ele próprio.

A tristeza era esmagadora, mas, ao mesmo tempo, parecia distante, como se ele estivesse entorpecido demais para chorar. As noites eram longas e solitárias, passadas deitado em sua cama, encarando o teto, incapaz de dormir. As pílulas ao lado de sua cama, que um dia lhe foram prescritas, agora o observavam como uma tentação perigosa, algo que ele temia demais para usar, mesmo estando em seu pior momento.

Draken, sempre atento, percebia os sinais de divagação conflituosa na cabeça do mais novo. E, em um movimento rápido e perspicaz, interrompia qualquer divagação que ameaçasse levar o loiro ainda mais fundo em seus pensamentos tortuosos.

"Não se culpe, Senhor Matsuno. Ryusei assim há muito tempo."

Chifuyu forçou um sorriso, tentando esconder o que sentia. "Estou apenas lidando com muitas coisas agora. Nada que não possa resolver."

Draken, com um olhar sério, respondeu: "Você precisa se cuidar também. Não adianta querer resolver tudo não estando bem."

O loiro apenas acenou com a mão, deixando o assunto por encerrado ali mesmo. Ele não queria que mais pessoas se envolvessem com ele. Não havia nada de bom que pudesse conceder aos outros.


-


Nos dias que se seguiram, o tempo pareceu se arrastar, e logo era quarta-feira, exatamente dez dias após o email de licença de Ryusei.

Durante este período, a dinâmica entre Chifuyu e Draken se manteve estável. Eles trabalhavam juntos de maneira eficiente, mas algo havia mudado sutilmente entre eles. A barreira que os separava parecia ter se enfraquecido, ainda que pouco.

Draken, percebendo a situação de Chifuyu, continuava a demonstrar sua preocupação, mas de forma mais evidente, ainda que mantivesse sua distância profissional em suas poucas reuniões que ainda mantinham o mais novo no ritmo de trabalho.

Mas não alterava seu cuidado em momento algum. Por isso que naquele dia particularmente frio, com o vento cortante parecendo atravessar as paredes, Draken chegou ao escritório com uma sacola nas mãos. A seriedade habitual em seu rosto deu lugar a uma expressão de gentileza, algo raro de se ver.

Ele se aproximou de Chifuyu e, com movimentos calmos, sinalizou: "Trouxe algo para você." A intenção por trás do gesto era clara, um misto de cuidado e preocupação que não exigia palavras, mas que dizia muito sobre o vínculo que se formava entre eles.

O mais novo olhou para a sacola, hesitante. "Você não precisava..."

Draken, mantendo seu tom sério, respondeu: "Eu sei, mas você não se cuidado bem. Espero que ajude." Retirou da sacola um café quente e um bolo simples, colocando-os cuidadosamente sobre a mesa do mais novo. "Você come pouco, sua aparência em péssimas condições. Pode não ser muito, mas é um começo." Sorriu com confiança.

"Isso..."

"Olhe!" Draken interrompeu, seja lá o que Chifuyu fosse sinalizar. "Deixe dessa merda. Baji e Kazutora preocupados estão lá fora," apontou para a porta, onde supostamente seus dois melhores amigos aguardavam "E você está assim antes de eu aparecer, sei disso porque suas olheiras demonstraram estarem mais de três dias. Agora, não os conheço bem quanto eles, ou como Ryusei, mas sei quando alguém passa por merda. Você uma dessas pessoas. Então aceite."

O loiro fixou o olhar nos itens à sua frente, a mistura de emoções quase o sufocando. Ele se lembrava com clareza de Ryusei preparando um almoço simples para ele na única vez que visitou seu apartamento. Era um momento simples, mas íntimo, quando o bronzeado preparou um ramen improvisado, com alguns temperos e cebolinhas.

Aquela memória era um contraste gritante com a oferta impessoal de Draken, mas, ainda assim, a intenção por trás do gesto o tocava de uma forma inesperada tal como Ryusei havia feito.

"Obrigado," sinalizou fracamente, aceitando o café e o bolo com um aceno de cabeça. Ele segurou o copo de café com as mãos trêmulas, sentindo um nó na garganta que ameaçava explodir em lágrimas.

A tensão no ar era palpável, e por um breve momento, ele se permitiu sentir a conexão silenciosa que aquele simples ato de cuidado carregava, algo que ele não experimentava há algum tempo.

Draken observou Chifuyu, percebendo a luta interna que o mais novo travava. "Não culpe você por nada. Cuidar de si mesmo, isso importa agora."

O loiro respirou fundo, tentando processar as palavras do mais velho. Ele sabia que havia verdade nelas, mas era difícil se livrar da sensação de que poderia ter feito mais. O silêncio que seguiu foi carregado, mas não hostil. Era um espaço onde Chifuyu podia refletir sem pressão, algo que ele começava a valorizar enquanto na presença de Draken.

"Não faço ideia do que aconteceu entre você e Ryusei," continuou, sem rodeios. Ele pegou o celular, digitou algumas coisas rapidamente e o colocou diante de Chifuyu. "Mas ele precisa saber que você está bem, tanto quanto você precisa saber que ele está."

Chifuyu olhou para o celular, hesitante. Então percebeu o que Ken colocou diante de seus olhos:

9 dias atrás

'Fiquei sabendo que está como meu substituto.

Sim.

Tem um...

Um cliente meu, Matsuno Chifuyu.

Ah sim. Ele está na minha escala.

Aquele empresário famoso no mundo pet e entre os grandes negociadores, certo?

Sim. Cuide dele.

Por favor.

Oh?

Algum motivo especial?

Pelo que sei, Sato Ryusei não é desse tipo.

Isso...

Não. Não é nada importante.

Apenas fique ao lado dele.

Chifuyu é alguém especial para mim.

Especial? Isso é novo.

Hm...

Tudo bem.

Já entendi onde você quer chegar.

Sei que entendeu.

Confio em você.

O mesmo.

Mas Ryusei.

O que foi?

Essa sua licença é meio repentina,

o que houve afinal?

Não se preocupe,

apenas faça o que te pedi.

Tsc!

Garoto, você enche o saco.

Sim, sim,

diga o que quiser.

Ao menos não deixe de se cuidar.

Sabe do que estou falando, não sabe?

Sim.

Me esforçarei...

Estou falando sério idiota,

não volte para aquilo.'

As palavras eram ainda mais claras que a luminosidade do celular, e o impacto delas foi devastador para Chifuyu aguentar.

O loiro sentiu seu rosto esquentar, e as lágrimas, que ele vinha se esforçando tanto para conter, finalmente começaram a escorrer. Ryusei estava falando dele e suas palavras começaram a ecoar em sua mente. O bronzeado, apesar de tudo, estava mais preocupado com Chifuyu do que consigo mesmo.

Esse reconhecimento fez o peito de Chifuyu apertar ainda mais. De alguma forma, Ryusei entendia que a dor da rejeição seria menor do que a culpa que agora consumia o mais novo. Ele havia calculado que essa preocupação constante corroeria Chifuyu por dentro, e isso parecia doer mais nele do que no próprio Ryusei.

Cada lágrima que caía era um reflexo desse entendimento, uma dolorosa aceitação de que ele estava mais machucado pelo que causou do que pela rejeição em si.

Como?

Por que?

Como ele poderia saber tanto dele assim, quando Chifuyu sabia tão pouco de Ryusei?

Enquanto Chifuyu ponderava sobre a mensagem, Draken permaneceu ao seu lado, oferecendo o apoio silencioso, mas firme, como alguém que compreendia a profundidade daquele momento. O tempo parecia desacelerar, e naquela pausa, um vínculo novo e frágil começou a se formar entre eles. Era um entendimento tácito, uma nova camada de confiança que surgia sem necessidade de palavras, apenas através do compartilhamento de uma dor silenciosa.

Ryusei confiou sua dor para Draken, ele queria o seu bem, queria que ainda continuasse sendo forte, mas por todo o tempo ele apenas se enrolou em sua concha enquanto o Draken cumpria com o lhe pediram, todo esse maldito tempo.

Chifuyu sentiu algo quente e molhado em seu rosto. Subconscientemente ele leva sua destra ao seus olhos, sentindo algumas lágrimas escorrendo por eles. Confuso, seu olhar retorna para Draken, procurando por alguma resposta para isso, ele não conseguia entender o motivo de estar chorando, e porque, de repente, tudo parecia desmoronar ao seu redor.

Ele se sentia perdido, incapaz de compreender o turbilhão de emoções que o consumia. Toda a dor, que por tanto tempo havia sido reprimida, finalmente encontrava uma saída, e ele se via vulnerável, exposto, sem saber como lidar com a intensidade do que sentia.

"O qu–" Chifuyu tentou sinalizar, mas sinais falharam em sair, sua mão adormecendo com o frio que corria pelo corpo. Ele se sentia perdido, incapaz de compreender o turbilhão de emoções que estava sentindo de uma vez só.

Foram apenas emoções reprimidas, mas toda a dor, que por tanto tempo havia sido esquecido por ele, finalmente encontrou uma saída, e ele se via vulnerável, exposto, sem saber como lidar com a intensidade do que sentia.

Draken suavizou seu rosto. Compaixão correndo por dentro de seu coração. Doeu nele de uma forma triste observar uma expressão tão perdida e angustiada em um rosto jovem como o de Chifuyu. Ele era como uma criança à sua frente, sem entender o motivo de sua dor.

Era doloroso para Draken ver alguém tão jovem carregando um peso tão grande, tão esmagador. Ele queria aliviar essa carga, mas sabia que as palavras seriam insuficientes.

Tudo o que ele podia fazer era estar ali, presente, compartilhando aquele fardo da única forma que sabia – em silêncio, mas com uma presença firme e reconfortante.

"Tudo bem." Bagunçou suavemente os fios do mais novo. "Você não está sozinho." Talvez tenha sido culpa de duas boas garotinhas que havia o transformado mais próximo de um ser humano empático, mas trazer Chifuyu para um meio abraço certamente o deixava parecer como uma figura parental, o que era estranho, ele só tinha oito anos de diferença com esse garoto.

Mas estava tudo bem. Talvez ele fosse agradecer a Mitsuya mais tarde também. Sua família o transformaram em alguém melhor, capaz de ajudar alguém como Chifuyu como agora.

"Chifuyu. Você importante para ele, mais do que imagina."

As palavras de Draken penetraram profundamente no coração de Chifuyu, ainda mais do que a mensagem que ele acabara de ler. Ele sabia que Draken estava certo, pois Ryusei havia dito algo parecido dias atrás, mas a responsabilidade parecia esmagadora, quase impossível de carregar. O peso dessa realidade o sufocava, fazendo-o questionar se estaria à altura da situação.

"...quando estiver doendo, quando for difícil de viver, quando você quiser desistir, quando quiser se matar..." Chifuyu engole, com as lembranças do que o mais velho havia sinalizado para ele. "Pegue a porra do seu celular e me ligue. Porra, me ligue em todos os momentos, nos felizes ou mesmo na drogra dos infelizes."

Ainda nos braços de Draken, ele assentiu lentamente, sentindo a tensão em seu corpo começar a ceder. Pela primeira vez em muito tempo, ele permitiu-se ser acolhido, aceitando o conforto inesperado que o mais velho lhe oferecia. Aquele abraço, embora surpreendente, trazia uma sensação de segurança que ele não sabia que precisava, algo que parecia estar além das palavras e das circunstâncias.

"Eu só não sei como estar lá para ele sem empurrá-lo ainda mais para longe," confessou, sua sinalização não tão limpa como na maioria das vezes. Estava carregada de dúvida e medo.

Draken manteve o olhar firme, cheio de compreensão.

"Às vezes, tudo que podemos fazer estar presente, mesmo que distante. Mostrar que estamos aqui, prontos para ajudar quando necessário. Ryusei precisa saber que ele tem alguém com quem contar, você já está fazendo isso."

Novamente, as palavras ecoaram na mente de Chifuyu, como um balde de água fria para seus pensamentos fervorosos e inexplicáveis.

Conforme os minutos se passavam, Draken permitiu que Chifuyu descansasse sobre ele, sem pressa, deixando que o mais novo soltasse tudo o que estava preso dentro de si.

Era um alívio lento e doloroso, mas necessário, e naquele momento, Draken sabia que seu papel era apenas estar ali, segurando o loiro enquanto ele se despedaçava e tentava juntar os pedaços novamente.

"Obrigado." Agradeceu, se afastando, um pouco inquieto.

Draken percebeu a agitação em Chifuyu e decidiu oferecer um pouco de apoio extra. "Você está tentando se encontrar no meio de tudo isso, não é?" Draken sinalizou, calmo e fraternal.

Chifuyu levantou o olhar para o mais velho, surpreso pela precisão da observação. "Sim, acho que estou. Mas é difícil lidar com tudo isso sozinho."

Draken parou e colocou uma mão firme no ombro de Chifuyu. "Não precisa enfrentar isso sozinho. Todos enfrentamos momentos difíceis, mas importante ter alguém ao seu lado. Às vezes, essa pessoa pode ser amigos, mesmo que não saibam exatamente como ajudar."

Chifuyu absorveu as palavras, sentindo-se um pouco menos sozinho naquele mar de incertezas. Ele sabia que o caminho à frente seria árduo, mas Draken, com sua presença constante e força tranquila, oferecia um suporte que ele nunca havia considerado antes.

Ele sabia que precisava encontrar uma maneira de apoiar Ryusei agora, mas ainda estava preso em ter que lidar com seus problemas.

Chifuyu olhou para um ponto perdido em seu escritório "Você realmente se preocupa, não é?"

Draken deu um leve aceno de cabeça. "Sim, mas de uma maneira que talvez você não perceba. Além disso, faço isso por Ryusei também."

O loiro concordou, assentindo cuidadosamente, como se cada movimento de sua cabeça fosse um passo em direção à aceitação que Ryusei gostaria que ele tivesse de si.

Ele sorriu, fracamente, ainda sentindo seu rosto molhado enquanto uma pequena, mas sincera, sensação de alívio se instalava em seu peito.

Ryusei, até onde você iria por mim?

O que você está fazendo agora?





continua...


-

Como vocês vão meus caros leitores?
Trouxe para vocês mais um capítulo, dessa vez, como Chifuyu tem lidado com a separação de Ryusei.
O que vocês acharam? Espero que tenha ficado de, alguma forma, bom ☕

Até breve, meus caros.

-

Links da Playlist de Vibrações no Silêncio

Youtube: https://www.youtube.com/playlist?list=PLR5bNQ1RJsAZbHfmFbHhpH54W8B6Shv8x

Spotify: https://open.spotify.com/playlist/5nKZ4n1akx8jPcdzb1LuQO

eSound: https://listen.esound.app/playlist/NjY5OTYwMDYsMCww

-

A arte na capa não me pertence

Me perdoem qualquer erro

(Dúvidas, críticas, ideias e apreciações são muito bem vindas)

Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top