C : 9
Ninguém pode afirmar o que nos mantém fechados, o que nos confina e o que nos parece enterrar, mas ainda sim sentimos que existem barreiras, paredes, muros. Será tudo imaginação ou fantasia? Não acredito. Então fazemos a pergunta: Meu Deus! Será assim por muito tempo? Para sempre? Por toda a eternidade?
— Vincent Van Gogh.
⁛
JÉSSICA SCARLETT
⁛
Por vinte dias consecutivos tenho sido observada pelo médico e enfermeiros que vinham todos os dias, de medicamento em medicamento sinto-me um pouco mais desperta, com mais força para ao menos manter-me de pé sem sentir cansaço absoluto — durante todo esse tempo não o vi, nem uma vez se quer, sorria se não sentisse preocupação por sua ausência, pois certamente está planejando algo, meu coração acelera ao constatar a droga do casamento que havia dito para a jornalista, largo a colher no prato de plástico, o café da manhã foi pouco consumido, era melhor do que deixar intacto…tenho me alimentado devido a insistência do médico, em nenhum momento ousei dizer a verdade, ou pedir que me ajudasse, pois através de suas ações eu soube que Sebastian havia o ameaçado, portanto, apenas segui com suas orientações.
De pé sinto certa tontura, me apoio na cadeira e busco respirar, inspirar e expirar até que minha visão não fique embaçada, tudo que pudesse ser usado como arma foi tirado do quarto, permanecendo apenas o necessário, qualquer objeto preciso seria usado sob a supervisão de uma das empregadas — não havia sequer um espelho, enquanto estava sedada foi tirado, caminho até a sacada, a altura não me impediria de pular, mas os seguranças do lado de fora do quarto sim, haviam recebido ordens claras de impedir qualquer tentativa minha de fuga ou suicidio. Ser a noiva do diabo desmembrou qualquer esperança de me ver livre dele, além de prisioneira, agora em breve serei sua esposa.
Sebastian temia que eu tirasse minha vida pelo fato de querer ele mesmo fazer as honras.
Hipócrita do caralho, isso que ele era.
Aceitar tudo isso sem estimativa de ser salva é um suplício sem um ponto final, com apenas vírgulas e mais vírgulas, sem plano algum de encerramento, fecho meus olhos, cerrando as mãos em punho, novamente implorando a Deus para que me ajude e me livre daquele desgraçado psicótico — cansada de estar ali atravesso o quarto e abro a porta, dois homens altos trajados em ternos escuros não olharam para mim, mas me seguiram conforme ando pelo corredor até as escadas, descendo com cuidado a medida que minha mente dispara flashes dos momentos em que corri tentando lutar por minha vida, e quando decidi acabar com ela; por reflexo vejo a cicatriz em meu pulso, a marca rosada é um lembrete de que por culpa dele continuo viva, por culpa dele continuo em seu domínio.
Descalça ignoro o frio em meus pés, precisava estar lá fora, nem que fosse por alguns minutos, os homens pareceram compreender silenciosamente o que eu queria, o da direita tomou a frente e o segui, até passarmos pelas portas de vidro, a área aberta e bem cuidada estava diante de meus olhos, inalo o cheiro gostoso de terra molhada e grama aparada, o ar fresco tocava minha pele, algo tão simples, tão insignificante em meio a tantas outras coisas, mesmo assim senti meus olhos marejados — pisei na grama e ali permaneço, sentindo o calor do sol em meu rosto, aquecendo minha pele fria…lembro-me de Hector; momentos felizes que passamos juntos, mentalizo meus pais, no quanto os amo, porra meu coração doia, já estou morta, não há como voltar atrás, para o dia em que o atendi na cafeteria, se fosse possivel, teria recusado, se soubesse que ele viria, teria fechado o estabelecimento.
Volto a realidade ao ver a mulher que dirige a propriedade durante a ausência do capeta, não fiz a menor questão de saber seu nome, todavia, não recuso nada que parte dela, eram ordens, fora que se eu fizesse a mínima recusa, Sebastian viria, e não seria bom estar diante a sua presença maligna e atroz — sorriu ao pegar uma flor pequena, as pétalas branquinhas com alguns respingos amarelados, passo o indicador suavemente, soluçando e lamentando minha existência, algo que jamais fiz.
— Senhorita? — Me assusto com sua voz. — Desculpe, não quis deixá-la assustada, poderia me acompanhar, por favor?
Deixo a flor na grama, me viro para acompanhá-la, paro ao sentir uma pontada forte em meu ventre, a dor parecia me rasgar de dentro para fora, uma cólica que não tinha sentido, não nesse grau de desconforto, sou amparada por um dos homens, não sabia se eram suas ordens, no entanto, este pegou-me nos braços, encaro seu rosto, as feições orientais e cabelos escuros.
— Me coloque no chão. — Ordeno, o timbre mal passando de um sussurro.
— Sim, senhora.
Sou colocada no chão com cuidado, já estávamos no corredor dos quartos, passo por ele e entro no quarto que ocupo, encaro a mala na cama, empregadas organizavam quietas, franzo o cenho na espera de alguma explicação para o que estava acontecendo, pensando melhor, não importo para onde irei, nada mais é relevante quando se trata do meu aprisionamento e o maldito maniaco.
— Tudo que precisa está no banheiro. — A mais velha informa. — Deseja comer alguma coisa antes?
Não a respondi, apenas sigo para o banho, removendo as vestes, ligo o registro e deixo que a água quente e pressão forte seja um bálsamo, um acalento a um corpo inóspito. Uso os produtos para pele, para meus cabelos cacheados, a fragrância suave tomava o box de vidro, termino rapidamente, desligo o chuveiro envolvendo-me numa toalha cinza e macia, volto ao quarto, ignorando a câmera que não faço ideia de onde está, mas sei que tem uma ali, foi-me dito a um tempo atrás — visto o conjunto de lingerie e por fim o vestido longo e preto, as mangas longas e decote formato oval ocultava a magreza absurda, sento-me no banquinho, sem ânimo algum analiso meu rosto através do espelho. Pior do que todas as sensações angustiantes e ver o quanto estou diferente do que era, marcas escuras delineiam meus olhos castanhos e opacos, meus lábios fartos estavam rachados e ressecados, minhas bochechas antes fartas agora estavam fundas, o tom amorenado da pele foi substituída pela palidez.
Era como estar diante de um cadáver.
Aprendi a amar meu corpo, a cuidar de mim mesma, tomando extremo cuidado com o que vestia para evitar comentários maliciosos e olhares repugnantes, meus seios grandes e fartos chamavam atenção, no entanto, compreendi que o erro não estava em mim, que não devo entrar em um padrão no qual não me cabe, Hector ensinou-me a ter orgulho por quem sou e ignorar o restante — sinto falta de viver, de estar com minha família e o homem por quem me apaixonei, que ansiei por anos em ter uma vida, construir um futuro.
Tudo o que importa agora é continuar vivendo em prol dele, odiando-me cada vez mais, lamentando meu próprio sexo. Chega a ser lamentável tal pensamento.
Meus cabelos longos foram penteados e hidratados por produtos adequados, deixando o tom preto mais brilhante, os cachos mais definidos, mal respiro, as mulheres tratam de fazer uma maquiagem suave, explicando cada um deles, o quanto irão ajudar a manter minha pele hidratada e macia — depois de duas horas estava pronta, calço o par de saltos deixados no tapete felpudo cinza, recuso mais uma tentativa em fazer-me comer antes de ir para sabe Deus onde, por mim podia ser o inferno, visto que estou presa ao diabo.
— Kenji irá levá-la, suas malas estão no carro, desejo-lhe boa viagem, senhorita. — Sua voz me irrita profundamente.
Sigo até a porta, paro no batente e me viro para olhar a mulher, minha raiva estava evidente pois seu olhar polido pareceu oscilar.
— Vá para o inferno.
Sou escoltada pelo homem que imagino ser Kenji junto a outro, a cada passo quis correr, desejei pedir ajuda, porém do que adiantaria? Seria novamente arrastada como um bicho até o abate, ser surrada e estuprada até vomitar quase os órgãos. Nesse labirinto infernal me encontro isolada, sem saber como escapar e o que fazer quando conseguir — entro no carro e deixo que a porta fosse fechada, encaro a fachada da mansão, meu estômago embrulha de imediato, o carro por fim da partida, seguindo para os portões. O percurso seguiu em silêncio, cerro as mãos em punho, sentindo as unhas curtas quase perfurar a palma, analiso a cidade a fim de tirar-me do torpor, desviar a raiva de tudo que o envolve — chegamos a pista particular do aeroporto, onde um enorme jato negro aguardava, desço sem esperar que o motorista o faça primeiro, congelo ao ver Sebastian, os luzeiros azuis focados em mim, a postura rígida como uma rocha, jogo os cabelos para trás, deixando meus ombros livres e caminho, não fazendo questão de sua presença, subo as escadas e entro no jato, sento na última poltrona e espero.
Vejo-o conversar com Kenji, o oriental apenas assente e responde de modo submisso, olho para qualquer lugar, menos para Velark que agora vinha até mim e se sentava na poltrona, me olhando fixamente, odiava isso com todas as minhas forças.
— Não quer saber para onde estamos indo? — Sua pergunta por pouco não me fez rir.
Lunático do caralho.
— Não me importo. — É o que respondo, afivelando o cinto de segurança.
Ouço sua insatisfação, um som gutural que conheço o suficiente para sentir o corpo tenso e arrepiado, tento novamente ignorá-lo, a aeronave alçou voo, nunca viajei, tinha pavor e por isto agarro meu acento por força; minhas condições financeiras eram poucas, então havia muito que deixei de lado, estando aqui, nada me é atrativo, o dinheiro não era meu assim como a vontade também não. Não há motivos para se apreciar nada.
— Teremos horas de viagem, se quer me ignorar, ótimo, tenho mais o que fazer. — Resmunga, tirando o cinto e indo o mais longe possível de mim.
Tantas perguntas rondam minha mente, é tenebroso o poder que Sebastian parece ter, conseguir me arrastar para outro lugar sem chamar a devida atenção, é assustador e repugnante. Meu ódio por ele é tão grande que sou capaz de tentar matá-lo em algum momento, isso significa tocá-lo, sinto nojo só em pensar sobre.
A melhor arma que tenho por agora é o silêncio, ao que parece, Velark odiava ser ignorado, portanto continuaria fingindo que não existo ou que ele não exista, que este inferno é apenas fruto de minha imaginação, tiro os sapatos e fecho os olhos, esperando por um sonho que se fosse de minha vontade duraria a vida toda.
Devo me acostumar o suficiente para fazê-lo pagar por tudo que me fez, numa maré constante de primeiras vezes pego-me fantasiando sua morte, como seria um deleite vê-lo morrer, sofrendo até sufocar com seu próprio sangue — haverá o momento certo para todas as coisas, inclusive para a queda do todo poderoso Sebastian Velark.
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03/09/2023
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