C : 6


Deus está morto.
— Friedrich Nietzsche.

JESSIKA SCARLETT

A descarga de dor me fez despertar num grito alto, com a visão turva busco me mover devagar, me sento na cama, grunhindo pelas fisgadas em meu ventre, a queimação entre as pernas junto ao suor pegajoso cobrindo minha pele. Flashes dos acontecimentos vinham numa onda turbulenta, ferindo meu corpo, me fazendo reviver todo o terror de novo, e de novo — bile subiu por minha garganta, o nojo do ato, a repulsa de ter aquelas mãos dele me tocando, exigindo o que acha ser seu por direito. Ele é um maníaco, um maldito psicopata que fez de mim um receptaclo de dor, angustia e lamento. 

Desperto dos devaneios ao notar a porta ser aberta e uma mulher trajada em vestimentas simples e sociais, porém impecável entrar, trêmula e desesperada desço da cama quase as tropeços, a bandeja que carrega foi colocada na mesa de vidro redonda, observo em silêncio cada movimento seu, até  ter seus  olhos amendoados fixados em mim; suas íris transbordam de pena, numa fração de segundo me pergunto quais horrores já presenciou nessa mansão…quantas mulheres já esteve presa aqui, ou até mesmo morta por aquele filho da puta. 

— Bom dia, senhorita. Irei solicitar o preparo de seu banho, será separado roupas limpas e remédios para dor.  — Informa, posso ser pobre, mas burra não. Ela é a governanta.

— Não quero nada disso. Quero sair daqui. — Imploro. — Por favor! Me ajude a fugir. — Caiu de joelhos aos seus  pés, o pânico tomou-me novamente, ainda que fosse um ato humilhante, não pude deixar de tentar. Preciso ir embora.

— Perdoe-me, mas não tenho permissão para tal. — Sua voz tornou-se quase um sussurro. — Minhas ordens são para cuidar e zelar por sua estadia, até que ele volte. Com licença. — Seguiu para o anexo, mantendo a porta aberta. 

Ali, de joelhos sobre o enorme tapete felpudo engulo em seco, chorando conforme ouço o barulho da água sendo despejada na banheira, os ruídos dos produtos sendo abertos até que o cheiro de rosas e ervas chegasse até meus sentidos. Tudo era insano demais, seria fácil enlouquecer nesse lugar, pois creio que seja lá quem meu sequestrador seja, era influente, podre de rico — o suficiente para cometer seus atos infernais sem que as consequências caiam sobre sua cabeça.

Acuada entro na banheira vitoriana branca, meu corpo ficou submerso na água em temperatura ideal, não me preocupei com o olhar atento da mulher em meu corpo, nos hematomas roxos, por poucos minutos quis não sentir dor, portanto, encosto a cabeça na borda e deixo meus olhos vagarem pelas paredes brancas, no piso de mármore. 

— Os sais de banho irão te ajudar com a dor, vai diminuir o desconforto e relaxar os músculos. — Não me movo, muito menos lhe faço entender que estou ouvindo. — Um conselho. Não o enfrente, apenas o obedeça e ele a deixará em paz. Entendo que está assustada, com medo e que ele a feriu, no entanto, não o desafie. 

— Porque? 

— Cada centímetro desse lugar contém cameras, menos os banheiros. — Continua, olhando-me de um jeito que penso estar preocupada. — Por isso estou me arriscando a lhe dar essa informação. Caso o desobedeça, sofrerá ainda mais. — Levantou-se do banquinho, ajeitando a saia lápis preta. — Tudo ficará bem, apenas evite deixá-lo nervoso. 

Sozinha me lavo, pensando em cada palavra dita, questionado os motivos que não seria plausível para o que havia feito comigo em um curto espaço de tempo; não faço a mínima ideia de quanto tempo estou aqui. 

Só sei de uma coisa. 

Não vou me submeter a esse desgraçado. 

SEBASTIAN VELARK 

Chego por volta das quatro da  tarde, sou recepcionado pela governanta, a qual me informa sobre todo o ocorrido com meu animal desde minha partida, meu animal por hora não havia tentado fugir, apenas permaneceu no quarto, ignorando refeições, mantendo-se em silêncio absoluto. Subo as escadas devagar, o retorno havia sido mais exaustivo pela falta de sono, afrouxo a gravata ao parar diante a porta de seu quarto, giro a maçaneta e entro, vendo-a sentada na cadeira, de costas para mim, os cabelos longos e ondulados cobriam seus ombros, conforme me aproximo consigo ver seu rosto pálido, corado pelas lágrimas silenciosas, os luzeiros acastanhados fixos no jardim — paro ao seu lado, devido ao oscilar de seu corpo, sei que percebeu minha presença. 

Seus braços envolviam os joelhos próximos ao peito, era como se eu tivesse finalmente pego um anjo. Os lábios carnudos estavam brancos e rachados, não havia nada da garota que me atendeu naquele dia, ou o medo que sentia ao me ver passar pela porta do estabelecimento.

— Minha irmã gostava dessa vista. — Comento sem pensar, pareceu o certo a dizer ainda que não fosse. 

Encaro os pinheiros altos, os tons distintos de verde, os raios solares não tocava o solo, era lindo ver o pôr do sol, no entanto, era ainda mais esplendoroso observar a lua, consigo vislumbrar o brilho pálido iluminando minha propriedade, trazendo um aspecto sombrio, mas contendo seu total fascínio. Emilly também gostava, mesmo sendo adepta a luz do dia, sempre escapavamos para correr pelas árvores na escuridão. Tendo diversos imóveis, este aqui me torna mais próximo do que deveria ser, mostrando-me o que sou agora. 

Um tremendo monstro, felizmente ou infelizmente não me arrependo de nada, principalmente de ter tomado a vida da garota ao meu lado. 

Num ato rápido, Jessika levanta atordoada, afastando-se de mim enquanto murmurava palavras rápidas e desconexas. 

— Não chegue perto de mim. — Ordena, chorando de pavor.

Mantive-me no mesmo lugar, as mãos dentro dos bolsos frontais da calça social cinza claro, dou um sorriso atroz. — Me obedeça e penso se a deixo em paz ou não. — Crispo, travando o maxilar devido a raiva fervilhando meu sangue. Tiro um cigarro da carteira junto ao isqueiro zippo dourado, com o desenho do selo de lucifer cravado nele, acendo a nicotina dando uma longa tragada. 

— Você não passa de um lunático, um filho da puta. EU NÃO VOU ME SUBMETER A VOCÊ SEU DESGRAÇADO. — Gritou. — QUERO IR PARA CASA. 

— Essa é sua casa agora, querendo ou não. — Solto a fumaça, sorrindo para o medo dela, para a crise desenfreada que estava tendo. 

— Vá se foder. — Esbraveja. 

Avanço contra ela, segurando-a pelo pescoço, empurro seu corpo tão inferior ao meu em altura, a forço olhar para mim. 

— Deve me obedecer sem ressalvas, Scarlett. Ou irá perceber que não sou apenas louco, e sim o próprio diabo, entendeu? — Meu timbre se agrava, rouco, não deixo de encarar a expressão amedrontada dela, sem sua tentativa inútil de me afastar. — Entendeu? — Exijo. 

Aperto mais seu pescoço, o cigarro entre meus dedos queimam, o cheiro da nicotina forte subiu entre nós, Jéssika cravou as unhas em meu pescoço, usando a dor para me afastar. Bato seu corpo contra a porta, ergo o cigarro, apagando-o em seu ombro, ouço seu gemido de dor, pressiono mais até apagar, retiro para ver a marca, a área queimada. 

— Responda. — Ordeno. 

— E-entendi. — Gaguejou, nisso a solto, tirando-a do meu caminho, sei que se permanecer mais um minuto com  ela, serei capaz de matá-la. 

Em meu quarto sigo para o banheiro, onde tiro minhas roupas, entrando na ducha fria, fecho meus olhos e busco pensar em qualquer coisa que não fosse fazer a maldita sangrar, colher toda sua dor até me sentir satisfeito — depois do banho volto ao quarto segurando a toalha ao redor do quadril, havia muito que ser feito, portanto me visto rapidamente. Além das empresas voltadas à tecnologia, obtenho aliados com organizações criminosas, forneço o que for preciso e tenho o mesmo retorno…nada se mantém com honestidade, pouco me importo com os meios obtidos para se manter no topo do mundo. 

Prendo o rolex no pulso direito, saindo do quarto em passos apressados, meu motorista já aguarda no royal royce price preto, adentro para ele dar partida. 

Após quatro horas e meia em reuniões, sigo para o consultório de Maddison, ainda que o horário fosse totalmente fora de costume, desço assim que o veículo para no acostamento, entro sem cerimônia, abro a porta e a vejo centrada em algo no computador. Parecia me esperar, portanto não se assustou, me sento no divã e a escaro. 

— Pouco tarde para uma consulta, não acha? — Questiona, me encarando.

— De fato. — Afirmo.

Esta se levanta, os saltos altos contra o piso desperta dores de cabeça em mim, precisava de silêncio após tanto barulho e falatório, café foi-me servido sem que eu pedisse, a vejo tomar seu lugar costumeiro e esperar que eu fale algo.

— Dia difícil?

— Não imagina o quanto. 

— O que houve? 

Respiro fundo algumas vezes, falar sobre meus problemas era ruim, mesmo havendo omissões de minha parte, costumo aproveitar o silêncio do consultório, do que ousar falar algo que possa me  comprometer. Tomo um pouco do líquido quente, fresco e amargo, voltando meus mirantes para a mulher.

— Sinto-me agoniado. 

— Com o que? 

— Não sei ao certo. — Era verdade, em partes. 

— Tem dormido? 

— Não como o recomendado, não durmo mais do que duas horas. 

Ouço o movimentar dos dedos contra a tela do ipad, ajeito a postura sabendo o que iria perguntar. 

— Pesadelos outra vez? 

— Sim.

— Sabe quando eles voltaram? 

— A poucos dias. Quase uma semana. — Deixo a xícara na mesa de centro de vidro.

— Está sendo invasivo, senhor Velark. — Crispa. — Precisa ser mais aberto consigo mesmo, permitir ser ajudado, permitir-se ser ouvido. 

Ela não está totalmente errada, porém, não estou convicto de que ser honesto é uma boa ideia, falar sobre tudo parecia mais uma ínfima loucura. Acredito que colocar tudo em palavras audíveis seria como consumar algo já consumado a tanto tempo, por hora, manterei tudo para mim mesmo. 

— Está com medo. — Desperto a tempo de ouvi-la proferir tais afirmações. 

— Do que eu estaria com medo? Hum? — Indago. — Não temo nada. 

— Medo de mudar, de sentir mudanças do que pensa não ter nenhuma. De alguém fazê-lo enxergar os erros cometidos, levando-o a culpar-se pelos atos. 

— Isso é ridículo. 

Levanto e saiu deixando claro não querer ouvir mais nada dela, passo pelas portas de vidro e entro no carro, ordenando ser levado para casa. 

Às nove e meia da noite a chuva torrencial desaba no céu escuro, ouço os trovões e relâmpagos, como se Deus estivesse pesando sua ira sobre a humanidade. O copo antes cheio de conhaque, agora estava pela metade, encarando as chamas consumindo a madeira na lareira, mantenho-me inerte sobre tudo ao meu redor — ciente da existência dela no andar superior, tomo o restante da bebida, ela não irá sair daqui, ainda que tente a buscarei no inferno se assim necessário.

Meus pensamentos foram interrompidos por minha governanta.

— O jantar está servido, senhor. 

— Chame-a. Quero-a junto a  mim. — Digo friamente, deixando o copo na mesa de centro e seguindo para a sala de jantar. 

— Sim senhor. 

Servindo-me de uísque, me sento, esperando por ela, que logo aparece, quieta e receosa, tomando seu lugar à mesa. Observo os cabelos úmidos pelo banho recente, o vestido azul escuro, quase preto, admiro a marca da queimadura em seu ombro, assim como os tons roxos por seus braços e pulsos, sem controle algum, sinto a raiva florescer novamente.

— Coma. 

O susto foi perceptível, analiso seus tremores, a dificuldade em segurar os talheres, encarnado a comida posta em seu prato, a primeira garfada na carne mal passada trouxe uma carranca em seu rosto, podendo ser nojo ou qualquer outro sentimento de repulsa. O estrondo alto a assustou de pronto, tomo a bebida para aquietar ações violentas. 

— Tem medo. — Consto o óbvio. 

— Um pouco. 

Assinto, deixando o copo vazio ao lado da comida ainda intocada. 

— Em duas semanas haverá uma festa de inauguração, e você irá comigo. 

— Não vou a lugar algum com você — Retruca, o timbre exibindo a rispidez e raiva.

— Não estou perguntando se quer ou não. Estou ordenando. — Aumento a voz. 

— FODA-SE. — Gritou, largando os talheres abruptamente antes de empurrar a cadeira e ficar de pé. — EU NÃO VOU. VÁ SE FODER SEU ESTUPRADOR, FILHO DA P…

A impeço que continue, jogo minha cadeira, avançando sobre ela que não teve tempo de correr, a seguro pelo pescoço e dessa vez aperto sem dó.

— Repete. — Rosno, meu rosto a centímetros do seu. — Repete o que acabou de me dizer, sua vagabunda. 

— E-está m-me machucando. — Sua voz estava abafada pela privação de ar. — Me solta. — Pediu. 

— Você é bem arisca. — Murmuro. — Deveria ser inteligente. Saber que possuo sua vida nas mãos e posso te matar com a mesma facilidade com que respiro. — Aperto mais. — Tome cuidado com suas palavras, ou arrancarei sua língua, para fazê-la engolir depois. Matarei todos que conhece, deixando-a por último para sentir toda a dor, enquanto digo que foi por sua estupidez que eles tenham sido mortos. — Afrouxo o aperto ao senti-la amolecer. — Vou te destruir sua cadela. ENTENDEU? IREI DESTRUIR SEU MUNDO PEQUENO E INSIGNIFICANTE. — Ameaço. 

Me afasto, esmurrando com força a mesa, levando-o tudo ao chão, o vidro se quebrando em milhares de pedaços. — SUMA DAQUI, ANTES QUE EU A MATE AGORA MESMO, CARALHO. — Grito, sentindo o sangue aquecer minha mão fria e pingar sobre os vidros estilhaçados, junto a comida. 

Saiu da sala pegando uma garrafa fechada, indo para o escritório.

— Filha da puta. — Xingo, enchendo o copo e me sentando na cadeira de encosto alto. 

No quinto copo sinto o corpo dormente, a raiva se dissipando após quase meia garrafa de bebida, encaro a entrada da propriedade, notando uma silhueta correndo na chuva, passando pelos seguranças rapidamente e sumir na escuridão.

— DESGRAÇADA.

Corro porta afora, descendo rápido as escadas, as portas duplas estavam abertas, em instantes sou açoitado pela chuva forte e gelada.
Será uma ótima noite de caça. 

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06/08/2023









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