C : 4

A hora mais sombria é sempre a que precede o amanhecer.
— Livro o Símbolo Perdido.

Deitada no chão frio, a ardência permanece em meu rosto, estava cansada, faminta, e por isso agi por impulso e joguei a bandeja que por um impasse não o acertou; senti arrependimento  de imediato, ver seu rosto retorcido num ódio absoluto, senti que minha vida seria encerrada ali — sua mão ao redor do meu pescoço, a forma despreocupada com que me sufocava, vi em seus olhos azuis o prazer que sentia com tal ato, como em meio ao azul profundo de suas íris, as sombras residiam ali, estava prestes a desmaiar quando por fim me soltou e se foi, deixando-me novamente no escuro, desamparada, diante a tais circunstâncias, era melhor do que estar diante de sua maldita presença.

“ Irei te alimentar quando achar que está perto de morrer.”   

Sua promessa veio se mantendo conforme os dias passavam, não tinha ideia do tempo em que estou nesse lugar maldito, sem janela alguma, composto pelo necessário, havia apenas uma entrada de ar, não sei se meu corpo havia entrado no modo de sobrevivencia, todavia, o local era quente demais, depois frio demais, minhas necessidades fisiológicas provinha de um sanitário que havia ali, não tinha pia, o cheiro pela falta de banho me deixava tão enjoada quanto a fome, meu estomago doia, a garganta seca, ansiando por um pouco de água — aquele filho da puta realmente vai me deixar definhar nessa merda de lugar, semelhante a uma cadeia ou um porão. A fraqueza tomou cada parte de mim, passava horas a fio dormindo, tentei andar um pouco, algo simples, mas que exigia algo que infelizmente não estava apta…encarando o teto cinza chumbo, pensei nos meus pais, em meu namorado, em como estão preocupados com meu desaparecimento, me pergunto se chamaram a polícia, ou estão me procurando por conta própria antes de procurar as autoridades. 

Um fato que consto, é que sei que  o homem que me sequestrou não tem a mínima pretensão de me deixar ir embora. Ao menos não com vida.

Tento manter-me acordada, minha visão estava turva, ainda sim consegui ouvir passos, o ruído da porta sendo destravada, quis lutar, quis me soltar daquele que me pegou nos braços, todavia, o que pude fazer era aceitar, não importando o que fosse acontecer comigo. Só desejava morte rápida, sabendo que não teria isso…que meu sequestrador tinha planos para mim, dos quais não sei e francamente não faço a mínima questão de saber. Minha consciência veio num susto, abro meus olhos e encaro a escuridão, algo prendia meus braços, tentei puxar, sentindo o aço apertando ainda mais meus pulsos — engoli em seco, grunhindo e chorando.

— Continue tentando de soltar e terá os pulsos esfolados. — paro do mesmo instante em que a voz profunda e rouca veio de algum ponto do quarto. 

A luz auxiliar alaranjada como o pôr do sol iluminou o cômodo,  o vejo sentado na cadeira de frente para cama, o tronco despido, numa postura imponente, digno de um rei tirano, os fios escuros estavam um pouco desalinhados, não afetando em nada na aparência, vi o suficiente para temer o propósito em que fui posta sem consentimento.

— O que pensa que está fazendo, ou vai fazer? 

Este se levanta, os músculos tensionado pelo movimento quase predatório, me sondando, busquei me encolher com seu toque, o indicador deslizando por minhas pernas nuas, foi aí que notei estar usando uma camisola nada modesta, o cheiro de cacau exalava de minha pele, segurando o pânico pela hipótese de ter sido despida e limpa enquanto desmaiada, porra aquilo tudo era insano. 

—- Seus pensamentos estão certos. — debochou. — Seu cheiro estava insuportável, minhas empregadas trataram de você. — parou rente a cama, cruzando os braços fortes contra o peito. — Amarrá-la foi o que fiz, e esperei pacientemente que voltasse à consciência. 

Quis xingá-lo e amaldiçoá-lo, porém não o fiz, deixei que as lágrimas escorressem por meus olhos, umedecendo alguns fios dos meus cabelos cobrindo meu colo, não quis olhar para ele, fixei o olhar em qualquer ponto, ouvi sua respiração pesada, o barulho do líquido sendo derramado no copo, na calmaria assustadora com que bebia e observava.

 Não era atoa que sempre tive medo e receio de atendê-lo no café em que trabalho.

— Seu doente de merda. — praguejo, puxando mais meus braços para tentar fugir. 

O copo bateu com força na superfície do aparador do lado direito, seu levantar foi brusco e rápido, meus tornozelos foram agarrados e puxados, fiz força para empurra-lo, tentei de toda forma chuta-lo, em cada uma dessas vezes fui impedida, sua força era o triplo da minha, não tinha como escapar, não havia nada a meu favor ali. Meu pescoço foi agarrado, seu rosto a centímetros do meu, o cheiro forte de whisky vinha de seu hálito, o desejo sombrio marcado nos olhos azul quase escuro pela pouca luminosidade. 

— Por favor! Não faça isso. — imploro. 

— Ao menos não é burra como imaginei que seria. — sorriu, apertando um pouco mais minha traqueia, bloqueando a passagem de ar. 

— Quem é você? — questiono, a voz embargada, abafada pela falta de ar.

— Deveria se preocupar com o que farei agora. O meu nome não é da sua conta. — suas coxas afastaram um pouco mais minhas pernas. 

 — ME SOLTA! — grito esperneando.

Vejo-o tirar baixar a calça junto da cueca boxer, seu membro duro roçou em mim, tive de engolir a bile que subiu por minha garganta, gritei em tremendo desespero, chutando-o com toda a força que pude reunir, a raiva lhe tomou a face, o tapa desferido em meu rosto trouxe pontos escuros em minha visão, continuei lutando, mesmo que fosse mais forte, a camisola foi rasgada, em seguida a calcinha, minha nudez era o menor dos meus problemas — seu aperto foi mais dolorido em minhas coxas.

— NÃO FAZ ISSO. POR FAVOR! 

Minhas súplicas nada resolveu, fechei meus olhos e gritei quando fui invadida sem dó, a dor pareceu me despedaçar de dentro para fora, seu quadril se chocava contra mim,parei de me debater, deixei o choro vir com mais impeto, os suspiros pesados dele era tão alto quanto o barulho do sexo violado, da cama batendo contra a parede. O cheiro do sangue invadiu meus sentidos, os palavrões que ele proferiu com tanta raiva, também; nada na minha mente, paralisei por completo, tentando processar aquilo, aquela violência que pensei jamais sofrer.

O que eu mais tinha de valioso foi tirado de mim.

Nojo tomou minha expressão, forcei ainda mais os pulsos até arrebentar a merda das algemas, gritei para tirá-lo de cima de mim, minhas unhas cravaram em meu rosto, uma luta perdida, pois fui virada de barriga para baixo, imobilizada antes dele enfiar de novo, me foder com mais raiva, amoleci no mesmo instante, ouvindo seus suspiros e riso diabólico contra meu ouvido.

— Vou adorar domar você. — prometeu, arremetendo contra mim, indo mais fundo.

Gemi de dor, mordi meu lábio inferior até sentir o gosto metálico invadir minha boca, esperei que acabasse, esperei ele sair antes de me encolher em posição fetal e gritar de raiva, de medo, pavor, torcendo para que fosse apenas um pesadelo. Mas não era, foi real — a dor entre minhas pernas era tanta que ao desmaiar não lutei contra, apenas aceitei.

Acordei com a dor queimando por todo meu corpo, principalmente entre as pernas, tremendo olhei e vi o sangue seco marcado no interior das coxas, o lençol abaixo de mim estava sujo, o vermelho em contraste com o branco —o pouco que me movimento solto suspiros de dor, me arrasto para fora da cama, tentei ficar de pé, a despeito do que aquele maldito fez, cai de joelhos, o piso frio contra minha pele nua ao menos diminuiu a dor, chorei de novo, gritei mesmo que minha garganta estivesse seca.

Voltei a realidade pelo cheiro de café fresco, fiquei de pé de novo com muito custo, apoiei nos móveis mais próximos e vi a pequena mesa redonda perto da janela, estava farta, ver a comida me deu enjoo, corri para o banheiro, agarrei as bordas do vaso e vomitei todo o suco gástrico do estômago ainda vazio, não perdi tempo vendo como estava, dei descarga e liguei o registro, me arrastando para baixo da água quente, deixando que o fruto da violência fosse tirado de mim, sabendo que não iria. 

Por minutos fiquei ali, até ter coragem para me lavar, esfreguei minha pele até ficar vermelha, tentando tirar a sensação dele em mim, lavei os pulsos feridos — voltando para o quarto havia roupas dobradas em cima da cadeira onde ele esteve, vesti sem vontade alguma e fui para mesa, tentando comer ao menos um pouco, a água deixada numa jarra média foi consumido em minutos, comi o que pude antes do meu estômago comprimir, fazendo com que corresse para o banheiro e vomitasse tudo, chorei ali mesmo, do meu estado decadente, do inferno que estou vivendo, pedindo perdão mesmo não tendo errado, mesmo não tendo culpa alguma.

— MALDITO. FILHO DA PUTA! — grito, batendo o punho fechado no chão.

Fiquei em transe por horas, o dia e a tarde passaram sem que pude notar, quando a noite chegou, olhei para cama ainda suja, peguei apenas o travesseiro e me deito no chão, não querendo deitar onde fui violentada horas atrás, me encolho de novo e fecho os olhos, esperando que o sono me embale, me tirando da triste realidade que estou, ansiando para que tudo acabasse de uma vez.

Me pergunto até quando ele me manterá, principalmente o motivo por estar fazendo aquilo comigo, tirando minhas escolhas, tirando tudo que pudesse pelo simples fato de poder, de não ter nada que o impeça. Tentando me aquecer deixo a realidade turbulenta, por um sono vazio, conturbado, me levando a rever todo o inferno mais uma vez.

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02/07/2023

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