C : 38

 Eu estava longe de ser uma pessoa interessante. Não queria ser uma pessoa interessante, dava muito trabalho. Eu queria mesmo um espaço sossegado e obscuro para viver a minha solidão; por outro lado, de porre eu abria o berreiro, pirava, queria tudo e não conseguia nada. 
— Charles Bukowski.

🌹

JÉSSIKA VELARK

🌹

Devido às dores de Sebastian, fomos ao hospital verificar se algo estava errado com ele. Pela manhã, ele acordou estranho, robótico, me desejou bom dia, dizendo apenas que sentia uma leve pressão nada demais, o que me deixou preocupada ao ponto de marcar a consulta e informá-lo minutos depois de encerrar a ligação.

Enquanto esperávamos para o atendimento, a sensação estranha que estava sentindo parecia maior, intensa ao ponto de me causar desconforto e medo — algo estava terrivelmente errado com ele. Aguardamos por dez minutos, fomos seguindo a recepcionista até o consultório do dr. Denyel, onde entramos em silêncio e nos acomodamos na poltrona acolchoada. 

— Bom dia senhor e senhora Velark — saudou. — Como se sente?

— Bem, ao menos por enquanto — soa vago. 

— Lembrou-se de algo? 

— Sim e não, tudo é um pouco vago.

O médico assente, continuou com as perguntas, o que durou meia hora, nesse tempo fiquei observando quieta, o coração apertado e um mal pressentimento — portanto, exames foram passados para que os fizesse no mesmo dia, em momento algum Velark olhou em minha direção, era como se eu não estivesse ali, por isso optei por esperar na recepção.

Pelas portas duplas vejo Kenji parado, observando o movimento, totalmente atento, encaro minhas mãos trêmulas e procuro respirar fundo. Estava tudo bem. Ficaria tudo bem. 

Em duas horas tudo havia sido esclarecido, graças a Deus, me levanto ao vê-lo vindo até mim, com um menear de cabeça o sigo para fora do hospital, minhas perguntas foram respondidas de modo vago, entretanto, Sebastian me entregou os papeis para que eu lesse os resultados conforme seguiamos para casa — aparentemente tudo estava bem, Denyel havia me mandado um email onde explicada detalhadamente tudo o que dissera ao meu marido, o que me trouxe um alívio deveras momentâneo. Durante o percurso, observo o sol, o céu azul; sinto falta da liberdade, de ter a vida comum, de caminhar durante as manhãs, de trabalhar na cafeteria, enfim, sinto saudades de um tempo que não irá voltar, e isso me desgasta ainda mais emocionalmente.

Desperto de meus devaneios ao sentir sua mão fria cobrindo a minha, não me atrevo a olhá-lo, não quando minha maior vontade é de chorar em algum lugar onde não possa me ver. Ao chegarmos desço primeiro, seguindo diretamente para o jardim onde pudesse passar um tempo sozinha, sinto o sol aquecer meu corpo à medida que caminho por entre as pedras brancas que abrem caminho rumo ao jardim, meus olhos se enchem de lágrimas e as permito cair, soluço conforme a ansiedade se alastra, levando-me a cair de joelhos em meio às diversas tonalidades das rosas, me curvo aos prantos, intercedendo a Deus para que dê-me forças qual não consigo obter sozinha — ergo o rosto, a visão pouco turva, ali consigo notar uma única rosa negra com detalhes azul, brilhando ao sol, meu corpo treme em uma nova onda de choro desenfreado; as lembranças não param um segundo, causando uma avalanche de péssimos sentimentos, não havia um meio coerente de impedir que isso aconteça. Me levanto aos poucos e ergo o rosto para o sol, permitindo que o calor aqueça meu rosto e me livre da escuridão que minha mente e coração haviam se tornado. 

Não vejo-o desde que voltamos do hospital, a ânsia em me distrair acabou por me levar a cozinha, onde tomei a liberdade de ajudar no almoço e fazer doces para passar o tempo — conforme as horas passam, ouço uma das empregadas saindo para preparar a mesa para almoçarmos, me pergunto sobre suas vidas, se estavam presas aqui da mesma forma que estou, sem direito algum de ir e vir, todavia, o melhor era eu me concentrar em meus próprios problemas. 

— Com licença! — digo para uma delas que retornou da sala de jantar para buscar algo. 

— Sim? 

— Não é necessário arrumar a mesa.

— Sim senhora, irei avisar as outras — saiu após uma reverência um tanto exagerada. 

Através da janela vejo os seguranças se movimentarem, passos soam ao longe e isso foi a certeza de que ele estava saindo, parte de mim quis ir atrás ao menos para saber, outra me deixou estagnada, as mãos sujas e um olhar desfocado para o que estava diante de mim. Coloquei o banoffe na geladeira e me sirvo pouco do que fora feito, me acomodo na bancada, apreciando o silêncio conforme me forço a comer. 

[...]

O céu aos poucos escurecia, por horas permaneci na varanda, acomodada no sofá macio, na companhia de café fresco e um pedaço generoso de banoffee, meu celular permaneceu intocado na mesinha de centro que acomodava um vaso com flores silvestres, o livro em meu colo estava perto do fim, não consegui me concentrar em nenhuma palavra ali escrita, meus pensamentos estavam voltados ao homem que não me mandou uma mensagem sequer — aproveitando o vento gelado, admiro as tonalidades de laranja e lilás que enfeitam o céu e que logo daria espaço para a escuridão.

Muitas questões ainda requerem respostas, no entanto, o silêncio me é mais coerente no momento. 

Saindo do banho segurando a toalha azul ao redor do corpo, a luz ambiente no quarto trazia conforto sublime, o cheiro de lavanda vinda da vela acesa relaxou meu corpo quase instantaneamente — tomo a liberdade de me cuidar, sem me preocupar com ele, apenas comigo mesma. Hidrato minha pele com toda calma do mundo, o cheiro de rosa negra preenchia o ambiente além do meu corpo, visto um vestido delicado, de alças finas e comprimento mediano e decote sutil, me sento no banquinho de frente a penteadeira e começo a pentear os cabelos que já passaram do quadril, os fios grossos e escuros, trato-os com cuidado para que a ondulação fique perfeita ao secar, guardo a escova na gaveta direita da penteadeira, por alguns segundos analiso meu rosto — o formato semelhante a um coração, a pele que antes estava desprovida de vida, agora voltou a maciez e brilho de antes, bochechas voltaram a ser fartas e coradas mediante ao tom amorenado, a cor rosada voltou aos lábios fartos, por último encaro o reflexo dos meus olhos, não possui marcas escuras ao redor, o castanho claro ainda era opaco, todavia os cílios grandes aderem um olhar solene, ainda que carregue dores que não irão cicatrizar facilmente. É nítido que por pouca porcentagem ainda há a antiga eu, entretanto, sei que isso é apenas para mascarar quem me tornei, não por escolhas, mas por necessidade, ainda sim, a pior mudança foi o maldito reconhecimento por ser tão hipócrita. 

Às sete e quarenta deixo o quarto, decidida a saber se estou sozinha nesse lugar ou ele havia retornado de onde quer que estivesse — a preocupação era palpável, penso que ele pode ter passado mal em algum lugar ou algo pior do que isso, sigo até o escritório, abro a porta com cuidado e para meu alívio estava vazio, fecho a porta e pego o celular, desbloqueio a tela e entro nas mensagens, encaro o imenso corredor, temo em digitar qualquer coisa, estava prestes a ligar quando ouço barulhos altos vindos do andar inferior, meu coração dispara, sem pensar duas vezes corro até as escadas e desço de dois em dois degraus, paro sem fôlego no amplo arco que divide o hall da sala de principal, ofegante ergo o rosto, vidros se espalham junto a móveis destruídos, em meio ao caos estava Sebastian, de costas para mim, o copo de bebida transbordando, a cujar por seus ombros largos se movendo, acredito que raiva não chega nem perto do que estava sentindo e isso despertou pavor em mim imediatamente. 

— Sebastian! — sussurro receosa, avanço aos poucos, tomando cuidado para não pisar nos estilhaços visto que estou descalça.

Ele tampouco responde ao meu chamado, paro antes mesmo de ficar tão perto, minha respiração ainda estava irregular, ele ouvia, sabe que não estava sozinho — aguardo por minutos inteiros até que se vira, sua altura era intimidadora, mas o que vejo em sua face mergulhada em lágrimas era pior, não era raiva ou ódio, aquele mar azul estava tempestuoso, estava frágil e imponente e sei muito bem, pois estive assim meses atrás.

Quando ele matou o homem que amava e desejava ter uma vida conjunta. 

— O que aconteceu? — pergunto com cautela. 

Seus joelhos cederam, Velark caiu de joelhos perante mim, o copo em sua mão entornou, seus braços envolveram minha cintura, seu rosto colou em meu ventre e o choro irrompe mais uma vez, fico sem reação por um tempo, trêmula acaricio os cabelos ralos, aguardando resposta.

— Minha mãe — murmurou aos prantos. — Ela e-esta m-morta — gagueja em desespero. 

Questiono qual das mães ele se refere, porém não pronuncio uma palavra, continuo acariciando-o, deixando que fale no seu próprio tempo, ainda que meu coração tenha doído ao presenciar o luto devorando-o de uma vez só. 

— Eliza… — chorou mais alto, apertando-me no processo. — A procurei por tantos anos — lamenta.

— Ficará tudo bem — era o máximo que poderia dizer naquele fatídico momento, não posso e nem devo forçá-lo a lembrar, por mais que eu queira ao menos entender como ele lembrou disso. — Está doendo muito — chora. — Estou com muita dor, Jéssika — se desespera. — Faz parar de doer — implora. 

— Estou aqui, vai passar — acaricio seu rosto, o azul de seus olhos cercados pelas lágrimas me encaram em uma profunda agonia. — Estou aqui com você — enfatizo, secando suas lágrimas. 

Faço um gesto para que se esforce a ficar de pé, seguro em sua mão e o trago comigo, tirando-o da ruína que a sala de tornou, subimos as escadas e busco ser racional com o que vi, com a reação dele, me pergunto se essa descoberta veio agora ou muito antes da perda de memória — no quarto, mantenho a luz ambiente e o levo  até o anexo, acendo a luz, regulo a intensidade para não ferir seus olhos e me viro para vê-lo. Sebastian estava distante, encarando o vazio enquanto murmurava algo que depois de prestar atenção, reconheci ser uma música de ninar, deixo a banheira enchendo e preparo a água antes mesmo de ajudá-lo a tirar as roupas. 

— Entre na banheira, por favor! — falo baixo, guiando-o, preocupada com um possível acidente se deixá-lo sozinho, o mesmo me obedece mesmo sem perceber. 

Feche os olhos, meu bem. Não há nada que possa te assustar. Não há medo que te impeça de sonhar…  — a voz entristecida e rouca pelo choro compulsivo ainda soava baixinho, como se estivesse em transe.

Engulo a vontade de chorar, dou-lhe banho com cuidado, deixando-o relaxar a seu próprio modo. Antes de tirá-lo da banheira, volto ao quarto e separo um conjunto fresco e confortável para que se vista e envio uma mensagem para Denyel, apenas para que me guie no que fazer, para que ele não tenha outra crise.

— Sebastian? Vem comigo — o chamo, estendo a toalha para ele e aguardo cautelosa. 

Enquanto o vejo se vestir meu celular vibra, agradeço pela resposta rápida, leio rapidamente e o deixo apenas para pegar o calmante que já fora recomendado junto a um copo d'água — volto o mais rápido possível, me aproximo com cuidado e entrego o remédio. 

— Vai se sentir melhor, apenas tome o remédio, tá bom? Ordens do senhor Denyel — explico e novamente me obedece. 

— Não tenho mais ninguém — murmura. — Todos morreram, se não por doença ou acidente, é por suícidio. 

— Vai ficar tudo bem, prometo — o guio até a cama, espero que se deite e o cubro até a cintura. 

Em quinze minutos os sussurros cessam, o observo dormir apenas para ter certeza, nisso deixo o ar sair com pesar, deixo as lágrimas virem apenas para aliviar o medo que senti.

Sei que tudo nessa vida gera consequências, qualquer ação tem sua reação. Mas isso era cruel, a empatia me impede de agradecer e ficar feliz por tudo que ele está passando agora. 

Ainda sim, não deixo de frisar que o universo ou destino tem um senso de humor doentio e totalmente horrendo. 

 




Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top