C : 32

As paixões que mais nos tiranizam são aquelas que nutrimos em relação à origem de nossos enganos. Nossos motivos mais débeis são
aqueles de cuja natureza temos consciência
— Oscar Wilde.



JÉSSIKA VELARK


Tudo aconteceu rápido demais. Em um momento dormia ao seu lado, em outro estava de pé, completamente desesperada, conforme o via ter convulsão severa, mal compreendo a entrada do médico junto aos residentes, palavras eram proferidas, tampouco as ouço, tudo estava em câmera lenta, e eu completamente paralisada pelo desespero. 

— Senhora, Velark? — o chamado vinha longe, o estado catatonico pouco permitiu raciocínio. — Senhora? — novamente sou chamada, de imediato sinto meu corpo se mover sozinho, Denyel buscava um meio menos agressivo de me trazer de volta a realidade. 

— Sim? — sussurro, movendo meu olhar diretamente a ele. 

— A senhora não poderá acompanhar a cirurgia, logo traremos notícias. — informa, deixando-me sozinha no quarto. 

Solto o ar e permito as lágrimas virem, meu coração dispara e de pronto a ausência do ar exime a respiração, meu corpo fraqueja, me apoio na parede e tento com muito custo manter a sanidade e por fim diminuir a crise de ansiedade que ameaça me derrubar a qualquer instante — em dez minutos me recomponho como posso e deixo o quarto, correndo pelos corredores até encontrar a ala de cirurgia, passo por enfermeiros e visitantes, minha maior preocupação é apenas no homem que fez da minha vida um inferno e agora está entre a vida e a morte. 

O tique taque do relógio acima das portas duplas me chamou a atenção, ali percebo que eram quatro horas da manhã, minhas ações se mostram quase robóticas, o medo entalado na garganta, a ansiedade por respostas — um combo capaz de fazer do mais forte, alguém totalmente vulnerável e incontrolável. Meu celular vibra em minha mão esquerda, me sento sem fazer a mínima questão, sabia que era minha mãe, todavia, não poderia dizer o que estava acontecendo, e mais uma vez estou sozinha em meio ao mar durante a tempestade, sem ter para onde correr e pedir ao menos um conforto, uma segurança. 

As seis horas, vejo um enfermeiro vindo, ajeito minha postura imediatamente, as portas duplas são abertas, encaro o rosto nada amistoso do homem que me parece mais um adolescente assustado. 

— Bom dia, senhora. 

— Bom d-dia. Alguma notícia do meu marido? — pergunto aflita. 

— Ainda em cirurgia. Não posso dizer mais nada além, peço que aguarde, por favor! — passa por fim num aceno breve.

Lágrimas aquecem meu rosto, engulo em seco encarando minhas mãos trêmulas, era um tremendo pesadelo acordada, minha mente estava longe de criar pensamentos positivos. Tudo era sempre um inferno. Recordar das inúmeras vezes em que desejei sua morte, intensificou o pavor em meio a sensação de luto — não queria isso, e me arrependo tanto quanto ele se arrepende de tudo o que fizera a mim. 

As horas avançam. Nove. Onze. Meio dia. Uma da tarde, e em momento algum recebo notícias. Retorno ao quarto e procuro ajeitar as coisas, ignorei o café, almoço. Enquanto não souber dele, não havia a mínima possibilidade de ficar tranquila. 

O anel que ele me deu brilhava no pequeno feixe de luz que entrou através das frestas da cortina, memórias do jantar me veio e não pude deixar de sorrir mesmo mergulhada em lamentação e angústia — o jogo que havíamos criado tornou-se inútil, nada mais era válido, novas cartas foram lançadas, colocando a prova que nós não temos controle de nada. Não somos nós quem decidimos como tudo caminhará. 

A foto minha na moldura fez com que eu me lembre de suas palavras soadas em sussurros devido ao cansaço após a quimioterapia, respiro fundo e deixo no mesmo lugar. Estava pronta para voltar a sala de cirurgia, ao menos esperar em uma das cadeiras desconfortáveis, entretanto, a porta do quarto foi aberta, vejo o médico entrar, cansado mas aparentemente com boas notícias. 

— E então? — me apresso. 

— A cirurgia foi complicada, no entanto, conseguimos remover o tumor por completo.

— Graças a Deus! — começo a chorar de alívio. — Posso vê-lo? 

— Por enquanto ele permanecerá na UTI, então acredito que logo ele virá para o quarto.

— Tudo bem, irei esperar. 

— Sugiro que descanse e se alimente — diz com certa preocupação. — Qualquer mudança será informada. 

— Certo. Obrigada. 

Menos preocupada, opto por um banho rápido, havia ao menos uma peça de roupas limpas, portanto trato de as vestir, um conjunto social preto, amarro o cabelo em um rabo de cavalo e decido ir almoçar, procuro a chave do carro, colocando no bolso junto com o cartão, que era dele mesmo — informo na recepção para me ligarem caso necessário, o dia estava bonito, totalmente diferente de como me sinto. 

Encontro um restaurante a duas quadras do hospital, não ligo para o ambiente, apenas escolho uma mesa onde posso ficar de olho no carro e faço um pedido simples para que não demore muito a chegar. Conforme aguardo verifico as mensagens de minha mãe, qual faz inúmeras perguntas sobre como estou, e como anda os estudos, minha maior surpresa foi ver uma onde ela deseja saber sobre Sebastian, respondo todas com um pouco mais de calma, obviamente mantenho a mentira, por mais que eu odeie, prometi não cometer imprudências. 

Envio uma mensagem breve para a governanta, pedindo que traga mais roupas e produtos de higiene para mim e para ele, enviando em seguida o endereço de onde estou — aprecio a salada de quinoa e suco verde, mesmo sem fome decido comer o máximo possível, atenta a qualquer ligação que possa ser do hospital.

— Senhora Velark? — saiu de meus devaneios ao vê-la portando consigo duas malas pequenas em tons escuros. 

— Obrigada — respiro fundo mais uma vez. — Sabe o que aconteceu com a mãe dele?

— Não senhora, até mesmo sua partida foi de um modo que ninguém ousasse ir atrás e tentar impedi-la — seu olhar exala pena, e isso me incomodou um pouco. 

— Seria bom saber, ele não merecia passar por isso sozinho.

— Ele tem a senhora, acredito que ele não tem muito do que reclamar. — indaga — Precisa de algo mais?

— Higienize toda a mansão, por favor! — peço. — Logo ele vai para casa.

— Sim senhora, com licença. 

Desisto de terminar o almoço, a preocupação era imensa, portanto trato de pagar e sair o mais depressa possível dali. Me pergunto como uma mulher conseguiu sumir do mapa sem deixar rastro algum, era estranho, penso que talvez já estivesse morta a essa altura. 

Sebastian retorna ao quarto ainda sedado, havia arrumado tudo para sua chegada, agora, na companhia de um café forte e fresco observo-o dormir, a cabeça enfaixada, o rosto desprovido de cor, meu coração se aperta por ele estar nesse estado — alguém imponente e violento, agora parece humano como qualquer outro. 

Horas se passam e continuo da mesma forma, mesmo cansada não conseguia dormir, temia que algo pudesse acontecer e ele morrer. Acaricio sua mão esquerda, orando baixinho, pedindo a Deus para que ele tenha uma boa recuperação e vá para casa logo. Às três da manhã, estava quase pegando no sono quando sinto sua mão se mover sobre a minha, desperto rapidamente. 

— Sebastian? — chamo baixinho, checando o monitor cardíaco.

O mesmo abre os olhos devagar, e olha diretamente para mim, meu corpo paralisa, era um olhar estranho, vazio. Me afasto um pouco e acendo a luz do abajur.

— Como se sente? 

— Com dor — o timbre fraco e rouco não passou de um leve sussurro. — Água. 

Me apresso em servi-lo, meu coração martelava o peito, algo estava totalmente errado. Velark se afasta, deixo o copo próximo e volto a olhá-lo.

— Você é enfermeira? 

— N-não. — gaguejo. — Não se lembra de mim? — negou.

— Quem é você? — meu coração aperta de imediato, busco uma forma de responder, todavia o cretino começou a rir, sem pensar lhe acerto um tapa no braço. 

— Me assustou, sem graça. 

— Desculpe.

— Tem ideia do quanto fiquei aflita? — questiono. — Não foi engraçado, Sebastian. 

— Me desculpe, amor. Não deveria ter feito isso. 

— Tá tudo bem. Vou chamar o médico para te ver.

— Deite comigo, espere um pouco. — me puxa, dando pouco espaço para que eu me aconchegue. 

Quieta me aconchego, ouvindo seu coração bater e o alívio tirar a tensão de minutos atrás, ficamos alguns minutos em silêncio, sinto seus dedos acariciando meus cabelos, o sono vinha devagar. 

— Está com dor, um médico precisa vir te ver. 

— Depois, ainda estou cansado — murmura.

Espero-o adormecer e faço o mesmo logo em seguida. 

[...]

O médico responsável chegou por volta das oito da manhã. Sebastian estava desperto desde às seis, segundo o mesmo, sentia apenas mal estar e dores de cabeça.  Permaneço ao seu lado conforme o médico esperava os residentes chegarem. 

— Se sente bem? Fui informado que acordou por volta das três. 

— Me sinto cansado, com mal estar e pouca dor de cabeça.

— É normal, isso vai passar, não se preocupe — sorri. — Me fale sobre sua infância, consegue se lembrar? 

— Não — negou. — Não lembro de nada.

— Lembra do nome de seus pais? 

— Não — começou a ficar inquieto, de pronto seguro sua mão, num ato de encorajá-lo. 

— É normal ter perda de memória após uma cirurgia como essa — explica. — Conforme a recuperação iremos observar. — pediu em seguida para os residentes anotarem, voltando a olhar para Velark. — Sebastian, você lembrou de sua esposa, pode me dizer como se conheceram? 

Aperto sua mão com medo de que a verdade pudesse vir à tona, entretanto, seu sorriso era carinhoso, repleto de um sentimento que jamais vi, e nunca pensei que ele fosse conhecedor.

— Nos conhecemos na Holanda. Não lembro o que fui fazer lá, só sei que nos esbarramos e eu fiquei encantado por ela — sua resposta além de ter tirado meu fôlego, pareceu deixar terceiros também.

— Foi isso que aconteceu, senhora Velark? — Denyel pergunta apenas para confirmar. 

— Sim — foi o que pude responder naquele momento tenso. 

O mais velho sorri satisfeito, pede para que os alunos deixem o quarto para que passe algumas informações, me afasto apenas para tomar um pouco de água, omitir sobre pareceu ter se tornado fácil, conquanto, era errado, tinha ciência, mas não havia o que fazer por enquanto. 

— Deixarei que descanse, à tarde virei novamente e dependendo de como estará podemos conversar sobre ir para casa, tudo bem? 

— Obrigado — agradece, faço o mesmo e logo ficamos sozinhos. 

— Nos conhecemos na Holanda? — sondo de modo sereno e calmo. 

— Sim. Não lembra? — pergunta confuso. 

— É que… — paro por um momento, decidindo não contar tanta coisa devido ao seu estado — sim, eu lembro — digo. — E você lembra de onde e como nos casamos? 

— Na Grécia — sorri genuíno. — Você estava tão linda. Sou um homem de sorte — confessa. — Sempre pensei que seria sozinho a vida toda, fico feliz por estar errado — completa. 

Sorri sem muito do que dizer a respeito, talvez não precise me preocupar tanto, afinal, logo suas lembranças voltariam e talvez o Sebastian que conheço também. 

Mesmo cansada tomo um banho rápido, ao retornar o vejo dormindo e tomo cuidado para não fazer muito barulho, fecho as cortinas e deixo as luzes auxiliares acesas — pego o livro que estava lendo e me aconchego sobre o divã, cobrindo as pernas com uma manta. O único barulho vinha do monitor cardíaco, intercalo o olhar entre o livro e ele, sinto certa angústia pois ele não era de fato ele, estava diferente, um diferente preocupante pois não faço a mínima ideia de como será quando recobrar tudo o que esqueceu. 

Meu maior medo é de que ele volte a ser violento, cruel comigo, poderia ter aproveitado e ido embora, no entanto, não consegui, quando vinha tais pensamentos, passava a voltar atrás — se havia algum propósito não sabia, apenas queria viver minha vida, mas desejando que ele vivesse a dele de um jeito melhor, que não fosse como antes. 

— O que está lendo? — me assusto ao ouvir sua voz rouca quebrar o silêncio. 

— A Divina Comédia, de Dante Alighieri — respondo no mesmo segundo, pronta para me levantar. 

— Pode ler uma parte para mim? 

— Claro — me levanto apenas para me acomodar na cadeira ao lado do leito, respiro fundo e procuro onde parei, ou melhor, onde deveria ter começado a ler. — “ Dante e Virgílio atravessam o limiar do inferno. Sobre a porta, uma inexorável inscrição, com palavras de desespero eterno; depois o tumulto dos condenados, numa escuridão horrorosa, sem céu nem estrelas. 
Eis, em poucos versos, a primeira imagem infernal. "

INFERNO ( CANTO III )

Por mim se vai à cidade dolente,
por mim se vai para a eterna dor,
por mim se vai para a gente perdida.
Moveu justiça o meu alto factor:
formou-me a divina potestade,
Sapiência primeira, sumo amor.
Antes de mim não foi nada criado
senão eterno, e eu eterno duro.
Deixai toda a esperança, vós que entrais.

Estas palavras de sabor obscuro
Eu vi escritas por cima de uma porta;
Mestre — disse eu —, o seu sentido é duro.

E ele a mim, como pessoa experta:
Aqui convém deixar toda a suspeita;
Toda a vileza aqui deve morrer.

 
Chegámos ao lugar de que eu te disse
que tu verás as gentes dolorosas
que perderam o bem do intelecto.

E depois que a mão deu à minha mão
com ledo rosto — o que me confortou —,pôs-me dentro das coisas misteriosas.

 
Aqui suspiros, choro e alto pranto
pelo ar sem estrelas ressoavam,
de tal modo que de os ouvir chorei.

Diversas línguas, hórridos falares,
palavras dolorosas e coléricas,
vozes altas e roucas, sons de mãos
faziam um tumulto que se expande
na atmosfera sem tempo, sempre escura,
como areia batida do tufão. “

Termino e noto seus olhos claros fixos em mim, as pupilas dilatadas como se estivesse inerte conforme prestava atenção em cada palavra e a compreendesse sem dificuldade alguma, 

— Gosta de livros assim? 

— Sim, e esse é interessante. Por mais assustador que possa parecer — sorrio, fechando o livro e o colocando ao lado do abajur. 

Para dispersar o clima totalmente constrangedor devido ao seu olhar não se desviar dos meus, pigarreio e checo o horário. 

— Quer tomar um banho? — ele assente — Irei te ajudar, tudo bem? 

— Acho que consigo me banhar sozinho amor — responde, tirando o edredom para se sentar antes de descer da cama. 

Não consigo me acostumar com o jeito que se dirige a mim, sempre seria estranho depois de tudo, infelizmente não sei como reagir, muito mesmo lhe dar o mesmo tratamento. 

— Sei disso, mas é melhor que eu ajude. Pode cair ou sentir dores então ficarei por perto — digo, ajudando-o com os acessos para que nenhum saia. 

Peço que espere enquanto regulo a temperatura da água, suas coisas já estavam na pia, passei a deixar tudo em fácil acesso. Sinto meu rosto aquecer um pouco ao vislumbrar sua nudez, sua altura superior sempre me intimidou, visto que chego ao máximo em seus cotovelos.

— Vai entrar de roupa? 

— Sim, até porque estamos em um hospital e só estou te ajudando — contenho o riso devido ao seu franzir de cenho. 

Engulo em seco ao sentir sua mão em meu quadril, o puxar sutil me deixou pouco envergonhada, mas pronta para impedir qualquer ato impensado que pudesse vir. 

— O que foi? 

— Pensei que iria morrer — murmura. — Temi nunca mais te  ver. 

— Não precisa ter medo, tudo deu certo e estou aqui — o tranquilizo, tomando cuidado com ele. 

— Ficará para sempre? — a insegurança era evidente. 

Sim. — omito. 

Deixo o banheiro apenas para pegar uma toalha limpa e retorno, seu olhar seguiu até meu pulso, sigo o seu olhar e volto a ficar tensa, trato de desligar o registro e entregar a toalha sem dizer nada. 

— O que aconteceu? — perguntou baixo. 

— Não é nada, é apenas uma cicatriz — minto de novo. 

— Sinto muito, eu não deveria ter feito essa pergunta. 

— Não tem problema, consegue se vestir? — este assente. — Vou chamar um enfermeiro para trocar as ataduras e trazer seus remédios, vou pedir algo para você comer. 

— Obrigado. 

Não conseguia ficar ali, sob seu olhar curioso e verdades que precisam estar ocultas por enquanto — fiz o que disse que faria, tomo a liberdade de tomar um café e respirar um pouco, ao menos sozinha. Mantive pouco contato com minha mãe e mesmo assim me ajudou a não enlouquecer mais do que já enlouqueci. 

Tomo o café devagar, recupero um pouco o ânimo e volto, passando por outros médicos, incomodada pela aflição que vinha sorrateira, porém logo estaríamos longe do hospital e acredito que isso melhore um pouco meu estado atual. Um enfermeiro estava saindo quando chego ao corredor, entro rapidamente e o vejo um pouco emburrado. 

— O que foi? Está tudo bem?

— Sim, só estou com fome. 

— Já vão trazer, tenha paciência — não disfarço o riso, o que piorou seu descontentamento. 

 — Poderia me trazer algo decente? Não gosto da comida daqui. 

— Trarei amanhã, prometo, por hoje, coma o que trouxerem, ok? 

A tarde e a noite seguiram tranquilas, os remédios o derrubaram e sigo sozinha, observando-o dormir e torcendo para que no dia seguinte viesse uma boa notícia. Me deixo no divã e aguardo pelo sono enquanto continuo a leitura. 




















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