C : 31
No azul profundo as estrelas eram c
intilantemente esverdeadas, amarelas, brancas, cor-de-rosa, de um brilhante mais vítreo do que em casa – mesmo em Paris: chame-se-lhes opalas, esmeraldas, lapis lazuli, rubis, safiras. Certas estrelas são amarelo-limão, outras têm um rubor rosa, ou um verde ou azul ou um brilho que não se esquece. E sem querer alarga-me neste assunto torna-se suficientemente claro que colocar pequenos pontos brancos numa superfície azul-preta não basta.
— Vincent Van Gogh.
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JÉSSIKA VELARK
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Ao passarmos pelas portas duplas do hospital Dr. Denyel já nos espera na recepção, Sebastian preencheu a ficha antes de seguirmos para a sala de exames, permaneço quieta, caminhando ao seu lado sem opinar em absolutamente nada.
— Fico satisfeito por mudar de ideia, senhor Velark — o mais velho parecia totalmente aliviado — Está de acordo com a internação?
Olho para ele e o vejo um pouco receoso mas logo concorda, meu alívio permanece juntamente com a preocupação de seu estado ter se agravado ou algo dar errado.
— Poderia responder algumas perguntas antes?
— Sim.
— Fez algum esforço nos últimos dias?
Meu coração acelera, lembro do que ocorreu e sinto meu rosto corar de vergonha, mesmo ouvindo sua resposta que obviamente fora uma mentira não deixo de me sentir desconfortável.
— Certo, uma enfermeira irá acompanhá-los até o quarto.
Deixamos o consultório e seguimos até seu respectivo quarto, que ao meu ver era em uma realidade totalmente diferente da minha e de milhares de pessoas. A vista era deslumbrante, o leito parecia bem confortável, havia uma mesa arredondada perto da parede de vidro, o banheiro bem equipado, para meu alívio havia um divã de ouro branco.
Opto por tirar as coisas da mala e deixar no armário em tons amadeirados, entro no banheiro apenas para deixar os itens de higiene e retorno, quase batendo o rosto no peitoral alheio.
— Poderia parar de andar de um lado a outro, por favor! — sua voz era tranquila, todavia, as orbes azuis exalam tempestades.
— Preciso pedir que façam uma mala para você, não trouxe muita coisa — digo. — Melhor trocar suas roupas pelas do hospital.
— Tá bom.
O vejo tirar o relógio e deixando no móvel ao lado da cama, pensei que tiraria a aliança mas não o fez, decido me ocupar com algo enquanto o mesmo tirava as roupas sem a mínima pretensão de ir para o banheiro.
— Está tudo bem? — perguntou, algo que jamais havia feito.
— Sim, apenas preocupada e você? Sente alguma dor?
— Não, acho que isso é algo bom.
Assinto com um leve menear de cabeça. Não ficamos sozinhos por muito tempo, uma enfermeira veio para levá-lo para os exames, Sebastian segurou minha mão direita conforme íamos para outro andar, sinto a pele calejada e fria, se estava com medo não demonstrava.
Permaneço o tempo todo atenta a todos os procedimentos feitos, o médico explicava conforme colhia o sangue, depois mostrava mais uma vez a área onde o tumor estava alojado; no fim da tarde o mesmo resmungava de dor, tratei de chamar alguém para ajudá-lo, meu coração disparada e o medo parecia tomar cada centímetro do quarto que com certeza custava uma fortuna.
Às sete e meia, enquanto Velark dormia, observo as diferentes tonalidades das luzes, os carros indo e vindo, e meus pensamentos todos voltados a ele — mais uma vez omito os acontecimento aos meus pais, estar sobrecarregada traz lágrimas aos meus olhos, o temor doía tanto que mal consigo respirar.
— Pensei que havia terminado de ler; O Retrato de Dorian Grey — sua voz cansada e rouca me assusta, mas também me tira dos devaneios ansiosos.
— Estou terminando — me aproximo já com um copo d'água em mãos junto a um canudo — como se sente?
— Bem, eu acho — responde incerto.
O ajudo a beber um pouco, de pronto o sinto febril, a pele úmida pelo suor frio, me afasto apenas para umedecer uma toalha pequena, dobro e passo em sua testa.
— A enfermeira virá daqui a pouco com o jantar, que bom que acordou — murmuro, minha voz já embargada.
— Ficará tudo bem, não chore — o carinho em meu rosto removia as lágrimas que por ali escorriam. — prometo a você.
— Obrigada — me sento na cadeira que deixei próximo ao leito — me desculpe por desejar sua morte, estava com raiva. Me sinto culpada por ter o amaldiçoado.
— Não tem que me pedir perdão, Jéssika. Teve motivos para isso. O que eu fiz com você, fiz com quem você ama, não esperaria menos do que o ódio e desejos explícitos de morte. Não sinta culpa. Está tudo bem — sorri levemente.
Não estava em meus planos pedir perdão, todavia não me arrependo de fazê-lo.
[...]
As sessões de quimioterapia o deixam completamente indisposto, pálido e ranzinza. Haviam se passado uma semana, e suas mudanças de humor eram ainda mais complicadas de se lidar, em grande parte fingia não ouvir para não acabarmos em discussão, pois para ele, reclamar até do tecido do lençol tinha fundamentos inegáveis.
Pedi a um de seus seguranças que fossem buscar duas malas que já estava pronta, minhas noites de sono eram escassas, pois dormir em um divã era tão horrível quanto o cheiro de álcool e remédios. Nessa soturna manhã, sigo para tomar um banho rápido e fazer minha higiene matinal, o moreno dormia tão sereno que se não fosse pelos monitores pensaria que estava morto, a febre pouco aparece, o que era ótimo para seu estado totalmente fragilizado.
Ajeito o cardigã no segundo em que a porta se abre e Denyel entra fazendo o mínimo de barulho possível.
— Bom dia, senhora Velark.
— Bom dia!
— Podemos conversar?
— Claro.
— Vamos tomar um café enquanto conversamos, por favor.
Dou uma última olhada e deixo o celular dele perto caso acorde e não me veja, certamente irá ligar. Acompanho o médico até o refeitório do hospital que estava pouco movimentado, me sento e aguardo enquanto o café fumegante nos era entregue.
— Irei suspender a quimioterapia, dependendo do humor e o estado de seu marido, irei preparar a sala para a cirurgia — explica. — O tumor não cresceu, então certamente conseguirei removê-lo por inteiro.
Seguro a xícara com mais força, meu coração se aperta devido a uma sensação que está longe de ser positiva.
— Doutor, há alguma chance de dar errado?
— Nessa semana o tumor não cresceu e também não diminuiu, se encontra em uma área delicada do cérebro. Pode ser que após a cirurgia ele não se lembre de algumas coisas, não posso determinar corretamente o que pode esquecer. Só saberemos quando finalizar.
Assinto sem falar absolutamente nada, deixo o café pela metade e volto rapidamente ao quarto, ao abrir a porta o vejo acordado, pouco desorientado.
— Oi, como se sente?
— Quebrado — os lumes azuis se fixam aos meus. — Parece cansada.
— Estou bem — afirmo. — O doutor vai suspender a quimeo e irá preparar a cirurgia dependendo de como estiver — digo com um sorriso pequeno, ao menos impedindo que perceba qualquer preocupação evidente.
— Ótimo, não suporto mais ficar nesse lugar, tudo é horrível, pago uma fortuna e não posso comer nada decente e que tenha gosto — franze o cenho.
— Sei disso, já deixou claro ontem, anteontem, no começo da semana — brinco.
Sebastian sorri como uma criança atentada, haja paciência.
— Vou te ajudar com o banho, para que tome café da manhã.
Separo um conjunto de pijama de cetim, pois odiou usar a do hospital, deixei os produtos de higiene em cima da pia, e volto já vendo-o de pé.
— Não posso ficar sem os acessos ao menos para banho amor?
— Não, não mesmo, venha vou te ajudar.
Ficamos no banheiro por alguns minutos, o tempo todo reclamando e eu fingindo não ouvir, concordando apenas se necessário. No quarto o café já estava posto na mesa, tomo cuidado para não sair algum acesso e o sirvo.
— Consigo sozinho — irritou-se.
— Então sirva-se — largo o bule de chá.
Velark fecha a cara pelo o chá, odiando tudo como de costume, pego um pouco de café e evito olhar para ele, já estou estressada. Homem chato, puta que pariu.
Depois de seu desjejum e medicações, estava lendo quando o ouço me chamar baixinho.
— O que foi? Está tudo bem?
— Sim, por favor libere a passagem de Jonas Oliver.
— E quem é esse?
— Chefe de segurança da minha propriedade.
A fim de sair um pouco, opto por ir até a recepção e liberá-lo, precisava descansar, meu nível de cansaço tem se tornado absurda.
— Com licença, um homem chegará daqui alguns minutos para conversar com senhor Velark, podem liberar a passagem — digo a uma moça com feições quase infantis.
— Sim senhora.
Dou um passeio pela área externa, respirando um pouco de ar puro, e me pego pedindo a Deus para que tudo ocorra bem nessa cirurgia, e que ele fique bem e saudável, e me deixe ir embora. Preciso cuidar de mim e não há como fazer isso com ele em meu encalço.
Ao retornar o homem já se despedia dele, me cumprimentou e por fim nos deixou a sós, me sento um pouco e encaro a paisagem, enquanto ele trabalhava com o macbook apoiado no colo, não iria adiantar relutar, estava mais teimoso que o normal.
— Se sente bem para trabalhar? — não aguento evitar perguntar.
— Sim, enquanto essa maldita dor não me interrompe.
— Tudo bem.
As uma e meia o acompanho nos exames, o almoço viria tardio pois segundo enfermeiros ele não poderia comer até realizar o que é preciso. Fico atenta à medida que algumas informações eram passadas a ele, desvio a atenção ao ouvir uns cochichos a pouca distância de mim.
— Dá muita dó, não acha? — uma enfermeira ruiva cochicha com uma loira de estatura mediana.
— Realmente — a loira confirma. — Tem sorte de estar cuidando dele, e eu preciso cuidar dos idosos no andar cinco — responde insatisfeita.
Levanto e sigo até o bebedouro onde elas estavam, encho o copo descartável até a metade e finjo beber.
— Deveriam ter mais empatia com os pacientes e não ficarem discutindo sobre quem é o mais bonito — ambas arregalam os olhos e ajeitam a postura, a ruiva iria se pronunciar, todavia a silêncio. — O homem de quem falam aos murmúrios é meu marido, sugiro que guardem tais pensamentos para vocês — digo ríspido.
— Pedimos desculpas, senhora, não irá se repetir.
— Tem razão, não vai.
Me afasto e pego Sebastian me olhando já pronto para voltar ao quarto, mantenho a porta aberta.
— Vamos?
— Me espere no corredor, por favor — a falta de paciência nessa altura do campeonato é impossível de manter-se às escondidas, este sai sem dizer nada, ao menos ainda.
— Quero aquela ruiva fora do quadro do meu marido — digo sem rodeios.
— Aconteceu algo? Ela é uma das minhas residentes — Denyel parece confuso com meu pedido repentino.
— Não gostei da forma como se referiu ao meu marido — explico.
— Claro, ela não irá me auxiliar, pode ficar tranquila.
— Obrigada.
Não o encaro ao passar e ir para o quarto, fervo de nervoso ainda mais ao ouvir seu sorriso descarado. Uma peste mesmo.
— O que queria com Denyel?
— Nada.
— Parecia estar falando algo sério com as enfermeiras. O que houve? — que porra.
Me viro sorrindo. — Não era nada demais — falo de novo.
— Ciúmes, Jéssika? — sorri.
— Não, e cala a boca.
Sua gargalhada me pegou de surpresa, de pronto meu nervosismo diminuiu, troquei novamente as roupas de cama e o ajudo a deitar sem tropeçar nos fios.
— Pode me ajudar com algo? — depois de quase dez minutos pergunta, estava quase dormindo inclusive.
— O que quer?
— Poderia comprar uma maquininha, por favor?
— Posso.
— A chave do carro está na gaveta, esse você consegue dirigir, não se preocupe.
— Não vou demorar.
Me despeço rapidamente e pouco percebo a tristeza em seus olhos azul piscina, o veículo estava na área preferencial do hospital, um audi a4 vermelho sangue me aguardava, o medo de danificar o carro era tão grande quanto dirigir — entro e de imediato acho estranho ter plástico pelos bancos e outros no painel, de qualquer forma procuro uma farmácia próxima e dirigido com a cara e com a coragem até lá.
Em quinze minutos já estava voltando, todavia paro em uma cafeteria, talvez ele fosse merecedor de algum doce, algo diferente do que ele vem ingerindo devido ao tratamento. Escolho uma fatia de torta de morango, segundo sua governanta era seu favorito.
— Sebastian? — chamo ao entrar no quarto e não o encontrando.
— Estou aqui — seu timbre fraco veio do banheiro, largo as coisas na mesa e corro para lá, ao abrir a porta vejo sangue pelas bordas do vaso sanitário e ele sem força alguma para ficar de pé.
— O que houve? — o seguro com toda força que consigo reunir no momento e imploro para ele cooperar até a cadeira mais próxima.
— Precisava ir ao banheiro, vomitei sangue e meu nariz sangrou também.
— Fique quietinho aqui, vou limpar esse sangue.
Tremendo pego lenços umedecidos e o limpo com cuidado, meu peito arde por notar os lumes marejados e lágrimas escorrendo por seu rosto.
— Estou com muita dor. Jéssika — lamenta.
— Vai passar, tá bom? — me desespero. — Vou te ajudar a tomar um banho quente, e deixar que coma seu doce favorito — digo engolindo o choro.
— Torta?
— Isso, de morango.
O sorriso pequeno brotou dos lábios ressecados, jogo os lenços no lixo e o ajudo a voltar para o banheiro.
— O médico disse que preciso raspar a cabeça, e não consigo fazer isso, não tenho força — lamenta.
Desabotoou a camisa e a tiro para colocar na bolsa. — Irá crescer de novo, sabe disso. Eu faço isso, ta? Não se preocupe.
Ligo o chuveiro e o empurro com calma, mal me preocupo em me molhar, trato de banhá-lo com todo cuidado enquanto ele chorava e detestava a vulnerabilidade na qual se encontra. Sem que eu espere sou puxada para um abraço apertado, acaricio seus cabelos enquanto a água nos cobre por inteiro.
— Você não está sozinho — sussurro em seu ouvido.
— Eu sei amor.
Realmente a coisa está feia. Termino seu banho e ajudo-o a se vestir antes de eu mesma tomar outro banho e vestir roupas limpas e secas, puxo um banquinho para o banheiro e peço que se sente.
— Posso comer o doce enquanto me deixa careca?
— Pode, fique quieto para não se machucar.
Ligo a maquininha e começo devagar, os fios caem à medida que deslizo o objeto até que fique mesmo careca, optei por deixá-lo de costas para o espelho — ao terminar me certifico que nenhum fio tenha ficado na camisa e me coloco à sua frente.
— Se serve de consolo, continua lindo — e é totalmente verdade.
Os lumes brilham pelo elogio recebido, o primeiro que faço sem deboche ou ironia.
— Me sinto honrado, obrigado.
— Pare com isso, não de seu feitio ser modesto — brinco. — As enfermeiras estavam apaixonadas por você.
— Prefiro que você esteja.
Pigarreio e mudo totalmente o assunto, limpo tudo antes de seu jantar vir e o meu também, precisava dormir e espero que tudo acabe para eu enfim descansar em paz.
Após o jantar ajeito o divã para dormir e paro devido a sua voz fraca e rouca.
— Deite comigo — pede.
— Estamos em um hospital, tenha respeito — o advirto.
— O divã não é confortável, Jéssika. Não seja teimosa, não vai me machucar, vem.
Solto o ar e acato seu pedido, me deito com cuidado e o mesmo me puxa, apoio a cabeça em seu peito, ouvindo o coração batendo e a pele quente e cheirosa.
— Caso queira ir para nossa casa descansar, pode ir, ficarei bem sozinho — sussurra.
— Irei com você, quando tudo isso acabar — ignoro mais uma vez a forma como se dirige a mim, de como me põe de fato como sua esposa.
— Obrigado, por tudo.
— De nada.
Não tardou para o sono nos embalar, pela primeira vez na semana consigo ter um sono tranquilo e ao que parece ele também.
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