C : 25
N/A: Boa tarde Velovers. kkkk brincadeira.
Trouxe mais um cap para vocês, este bem maior do que o costumeiro.
Espero que gostem.
Coloquei uma referência bem legal. kkkkkkk
Ótimo feriado a todas ( os )
Até a próxima leitura.
Que minha solidão me sirva de companhia.
que eu tenha a coragem de me enfrentar.
que eu saiba ficar com o nada
e mesmo assim me sentir
como se estivesse plena de tudo.
— Clarice Lispector.
⁛
JÉSSIKA VELARK
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Oa dias tem passado lentamente, chatos e totalmente tediosos. Sebastian chegava muitas vezes nervoso, resmungando sobre dores que parecem cada vez mais dolorosas e insuportáveis — optei por não me importar com isso como havia feito antes, até porque, não é problema meu.
Neste momento estamos jantando, meu prato passou a ser vegetariano, mesmo assim fico receosa em comer, o silêncio era quebrado pelo tintilar dos talheres; pela visão periférica percebo-o distante, a expressão costumeira de incômodo vinha em tremenda angústia, algo que não costumo ver estampado em sua face. Tomei um pouco de vinho tinto e respiro fundo, odiando-me pela pergunta que farei.
— Você está bem?
— Se importa? — retruca seco e impaciente.
— Se não me importasse não estaria perguntando, acredite. — devolvo no mesmo tom, conforme corto os legumes.
Velark solta o ar e me encara, as orbes azuis me fitando como se pudesse arrancar minha alma e engoli-la. — O que quer? Duvido que esteja de fato preocupada com meu estado de saúde. — nisso ele tinha razão. Realmente não me interessa, por mim que morra.
— Quero ver meus pais. — informo. — faz meses que estou aqui e não tentei mais fugir ou pedir ajuda. — relembro.
— Não. Está fora de cogitação. — resmunga.
— Por quê? — aumento um pouco a voz. — Podemos dar um jeito. Prometo voltar, ou talvez, você possa ir comigo. — o amargor por dizer tais palavras por pouco não fez com que eu engasgasse com minha própria saliva. Maldita situação de merda.
— E o que pretende dizer a eles, Jéssika? Hum? — desdenha. — O que dirá sobre mim? — seu timbre sobe uma oitava.
Dizer a verdade traria problemas, e faço de tudo para manter meus pais a salvo desse filho de chocadeira, penso um pouco antes de responder, não o encaro, termino a bebida e o olho diretamente.
— Podemos inventar algo. Que nos conhecemos na Holanda, durante um passeio meu e nos tornamos amigos. Não vou dizer que nos casamos, você matou meu namorado.
— Ex. — corrige.
— Não tem o direito de opinar sobre isso, Sebastian. — retruco.
— Mas é ex. De que forma quer falar? — debocha. — Ele morreu.
— Sim, e foi você quem o matou, seu miserável.
Minhas mãos tremem, o estômago pesa e nisso decido encerrar o jantar; lembrar disso faria com que eu entre em um estado que prometi não entrar, não enquanto essa guerra me custa toda a força que posso ter. Não sou impedida de deixar a sala de jantar, sigo para o andar superior e entro no quarto — respiro fundo conforme encaro as portas da sacada aberta, o ar fresco circulando pelo espaço amplo.
Penso em trocar as roupas e me deitar, todavia ouço algo pesado cair, de modo automático sigo para o quarto dele, a porta estava aberta então tenho a visão dele buscando apoio, as costas largas e músculos rígidos se tensionando à medida que tenta ficar de pé.
— O que você tem? — pergunto.
Velark se vira, a face mergulhada em dor, os luzeiros um pouco mais escuros e a raiva transbordando, sinto meu corpo arrepiar e o medo quase bloquear a passagem de ar.
— Estou ótimo. Saia daqui!
— Não. — ah, merda.
— Não? — questiona. — Perdeu a noção?
Me arrependo profundamente de ter falado daquela forma, entretanto, seu olhar não era agressivo e sim curioso, ainda que suas palavras sejam rudes e grosseiras — paraliso ao vê-lo vindo em minha direção, recuo por reflexo, fecho meus olhos temendo sua fúria, no entanto, sinto seus dedos calejados rasparem em meu rosto, prendo a respiração conforme minha mente me leva a noite em que aqueles dedos estiveram entre minhas pernas. O odeio tanto, principalmente pelo que faz sentir.
— Tem sido corajosa… — murmurou, envolvendo minha cintura, puxando-me para si. Consigo sentir seu cheiro mesclado ao uísque
— Não o temo mais — sussurro firme, disfarçando o tremor, abro os olhos e encaro a imensidão azul de suas íris.
Seguro em seus braços à medida que sinto seu nariz deslizar pela curvatura do meu pescoço.
Porra! Isso não vai dar certo.
— Sebastian! — o advirto.
— Sinto sua falta — só pode ser brincadeira. — Quero você, mas não forçado, quero que me queira voluntariamente.
— Está bêbado? — indago.
— Não! — se afasta.
Sei que nesse momento ele não faria nada que trouxesse todo aquele pavor e nojo de antes, todavia, iria me provocar até eu ceder e permitir que ele faça o que quiser. E isso não vou permitir.
— Me deixe te-la essa noite? — pergunta manso, toda aquela aura ameaçadora se dissipou por completo. — Durma comigo! Apenas fique.
— Não é uma boa ideia — busco pensar em qualquer coisa, menos em sua voz grave e rouca, capaz de fazer de mim submissa.
A fome que sentia pareceu aquecer o quarto, o modo como se continha também. Não admitiria em voz alta, mas Sebastian era extremamente lindo, era doloroso olha-lo por tanto tempo, e nesse momento era uma tortura imensurável.
— Apenas durma, então. Não tocarei em você, tem minha palavra — sua respiração pesada fazia com que seus músculos se contraísse.
Meu Deus!
— Não sinto confiança para isso — sou sincera.
— Faça disso uma tentativa.
— Tudo bem! — filho da puta, manipulador.
— Deixarei que se acomode, volto daqui alguns minutos.
— Obrigada.
Espero-o sair e respiro fundo. Agora não tem jeito, terei que dormir como o próprio Lúcifer. Não basta estarmos debaixo do mesmo teto, agora tenho que passar a noite ao seu lado.
Sou muito idiota.
Vou ao meu quarto apenas pegar roupas limpas e retorno, indo até o banheiro, removo o vestido longo, opto por um banho frio para esfriar essa merda de calor que por pouco não me fez permitir que o sexo consensual acontecesse. Em vinte minutos estou contando até dez antes de voltar, abro a porta do banheiro e o vejo de pé, olhando para o jardim enquanto bebe, o cigarro queima no cinzeiro no parapeito da sacada; não digo nada, apenas me deito do lado direito e fico olhando-o.
Sei que ele percebeu que mantive de fato minha palavra e estou aqui…Espero que tenha ciência de que isso é uma forma dele acatar ao pedido que fiz algumas horas atrás. Não faço ideia de que horas são, apenas relaxo um pouco, porém atenta, com medo de que ele mude de ideia e acabe por me machucar — um pouco sonolenta, ouço seus passos até a cama, o peso de seu corpo me trouxe certo alerta, mas ele cumpriu com o que disse, não me tocou, continuou distante, penso em me virar, todavia continuo de costas para si e por fim fecho os olhos.
[...]
Desperto aos poucos, recordar de onde estou me fez me sentar rapidamente, espero minha visão se adaptar a claridade e por fim vejo-o ainda dormindo, a respiração tranquila, a pele parecia quente mas não me atrevo a tocá-lo. Seus olhos se abrem, de imediato meu rosto aquece, trato de descer da cama rapidamente.
— Desculpe por te acordar — digo às pressas.
— Não acordou. Já estava acordado a um bom tempo.
— Não parecia — refuto. — Bom…
— Sei o que dirá — me corta. — Contanto que eu vá junto.
— Isso é sério? — meu coração salta.
— Sim, mas com uma condição.
Reviro os olhos, era óbvio que nada seria de graça, que seu ato bondoso viria com algo a mais.
— Qual seria?
— Que durma comigo a partir de hoje. Não precisamos transar, mas apenas quero-a aqui.
Penso por alguns minutos, não seria de todo mal, pior se ele volta atrás caso recuse essa droga de condição.
— Ótimo. Aceito — infelizmente.
— Apenas se comporte e não diga nada que vá me deixar furioso, entendeu? Deixe que pense o que planejei.
— Claro, até por que o que pensariam de mim? Me deitando com alguém como você! Então não se preocupe, não direi nada.
Velark pareceu descontente com minha resposta, mas nada diz. Deixo o quarto e sigo para o meu, mantenho a porta fechada e por fim sorrio.
Finalmente verei meus pais, qual sinto tanta falta, meus olhos marejam com o mínimo pensamento de ouvir suas vozes e os abraçar.
Me arrumo em completa ansiedade, mesmo que eu esteja feliz, sinto preocupação e até mesmo saudade de Hector, minha casa continha inúmeras memórias dele, portanto, sei que irá doer.
Deixo o quarto, no corredor me deparo com ele, com roupas despojadas e apropriadas com o clima, parece tão normal que chega a ser estranho não vê-lo nos habituais ternos e acessórios que custam mais do que minha vida.
— Nossa. Está parecendo o Clark kent — de fato parece, muito.
— Quem?
— Qual é! Nunca assistiu o filme: Homem de Aço? — este nega. — Você se parece muito com o ator principal. O Henry Cavill, sabia?
— Não. Nunca tive interesse ou tempo para isso — crispa os lábios. — Vamos tomar café antes de irmos.
Enquanto descíamos as escadas percebo o quão calmo estava, tão em paz, isso era mais assustador do que vê-lo completamente virado no capeta. A mesa já estava posta, me sento e trato de me servir, outra ação totalmente estranha, pois meu desjejum era apenas no quarto, o único momento em que podia estar ali era no jantar ou quando havia algum evento importante. Estranho.
— Está tudo bem?
— Sim.
— Você não é assim, não é do seu feitio. É assustador. O que está planejando? — questiono desconfiada.
— Não planejo nada. Confie em mim.
— Não confio — retruco.
— Não me importo.
— Idiota — sussurro antes de tomar um pouco do café fresco.
Quero ir logo e parece que ele está fazendo de propósito para que demoremos mais a sair daqui.
— Antes de irmos, mande uma mensagem. Diga que está indo visitá-los, nada mais que isso.
A contragosto faço conforme suas instruções, enquanto minha maior vontade era de mandá-lo tomar no cu. Entro no carro e espero que faça o mesmo, me endireito no banco e busco me acalmar e pensar no que direi quando chegarmos.
Não demorou mais do que meia hora para chegarmos, o transito parecia não colaborar muito, e o fato desse idiota morar quase na puta que pariu tornava minha ansiedade quase incontrolável. Ver minha casa me encheu de paz, sinto que estou longe a muito mais tempo do que de fato estou. Retiro o cinto de segurança, penso em abrir a porta, porém Sebastian me impede.
— Lembre-se do que falei. Não diga nada que possa prejudicar tanto eles quanto a si mesma.
— Não esqueci — tiro sua mão do meu pulso.
— Boa garota — destrava as portas novamente. — Não me faça ter arrependimentos por ter permitido isso.
Mostro o dedo do meio ao abrir a porta e descer, respiro fundo e sigo a passos curtos até a porta, o jardim pequeno estava bem cuidado, certamente minha mãe continua acordando extremamente cedo para cuidar das flores enquanto meu pai continuava dormindo. Paro diante a porta de madeira, Sebastian parecia tenso e nervoso ao meu lado, buscando manter a calma. To nem ai também, por fim que ele se dane.
Toco a campainha, não demorou mais do que três segundos para a porta ser aberta, revelando minha mãe, qual me puxou para um abraço apertado e contenho a vontade de chorar.
— Estava com tanta saudade de você, meu amor — se afasta, passando as mãos por meu rosto, me olhando de cima a baixo. — Parece tão magra, não tem se alimentado, querida?
— Estava com saudades também. Correria com os estudos, não se preocupe — minto descaradamente, engolindo em seco. — Mãe, esse é meu amigo. Sebastian.
— É um prazer conhecê-lo, me chamo Marta.
— O prazer é meu, senhora.
— Entrem, por favor!
Nossa casa não é imensa, muito menos luxuosa, pelo contrário, é simples e confortável, era maravilhoso. Fui criada com muito amor e carinho, nada me faltou. Doía ver que a mentira dele foi capaz de impedir a preocupação e sofrimento dos meus pais, por um lado é bom, por outro era péssimo.
— Aceita um chá ou café? Sebastian — Marta oferece.
— Não precisa se incomodar, obrigado — Velark trata de ficar de pé próximo a janela que dá para frente da casa.
— Claro, fique à vontade. Nossa casa é humilde mas acolhe bem.
— Percebi — sorriu ainda que pouco.
Enquanto o observo olhar para todos os detalhes da sala, sigo minha mãe até a cozinha, sentia um tremendo nervoso, ela é esperta demais, certeza que não caiu muito no papo da Holanda assim de imediato.
— Onde está o papai?
— Precisou viajar para o Brasil. Seu avô não está bem de saúde, então foi passar uns dias lá.
— E por que não foi com ele?
— Alguém tem que cuidar da cafeteria, querida.
Mesmo com a recusa, Marta fez café fresco, a ajudo montar a bandeja com as xícaras e alguns bolinhos de chuva e voltamos para sala, Sebastian estava desinteressado ou achou viável me dar essa oportunidade sem se intrometer, depois de um pouco de insistência da mais velha, por fim aceitou um pouco de café.
— Como se conheceram?
— Bom. Nos conhecemos em um de meus passeios, ele havia viajado a negócios, então nos tornamos amigos — o amargor da mentira tornou o café a melhor saída para pensar nas próximas omissões.
— E são amigos mesmo? — sua pergunta fez surgir um pouco de rubor em meu rosto, sentia-o me observando mas achei melhor não confirmar tais pensamentos.
— Sim, somos amigos. Não quero me relacionar, mãe. Não depois do que houve com… — frio retorce meu estômago, falar abertamente sobre, era como enfiar uma faca em meu coração, pronunciar o nome dele parecia um pecado imperdoável.
— Entendo, meu anjo. O que aconteceu foi horrível e inesperado, e sinto muito por isso, querida.
— Obrigada.
— Há algo que preciso lhe entregar — ficou de pé. — Era uma surpresa que ele estava planejando, mas infelizmente não pode lhe entregar. Volto já.
Assinto e a vejo seguir para o andar superior, respiro fundo para afastar as lágrimas, olho para ele e o pego já me encarando, sua expressão era curiosa.
— Amigos? É isso que somos?
— Não o considero nem isso. Por favor! Não começa — digo, pois a aliança que jazia em meu anelar estava no bolso da jaqueta, tirei antes mesmo de descer do carro e acredito que Velark só tenha notado agora, já que usava a dele.
— Trate de se despedir quando ela retornar — avisa.
Desgraçado.
Todo o clima acolhedor estava pesado, chega a ser difícil respirar. Queria ficar mais tempo, almoçar com ela. Droga. Ouvi os passos alheios e ajeito a postura, limpando as lágrimas que escorreram pelo meu rosto.
— Sei que será doloroso. Ele pediu para que guardassem até que um bom momento surgisse — seu sorriso não era feliz, era triste. Em suas mãos uma pequena caixinha de veludo vermelho, uma que tinha visto sem querer, sabia o que era e mesmo assim abri, vendo as alianças, comecei a chorar, lembrava de Hector falando que me pediria em casamento quanto menos eu esperasse.
— Sinto muito, querida.
— Eu sei. Obrigada por me entregar.
— Não fique triste minha vida. Ele a amava muito, e não iria querer que ficasse assim. Oro por ele todos os dias. Ele está com Deus, era um garoto muito bom — seu cheiro e seu carinho trouxe ainda mais culpa e arrependimentos. — Te amo muito, filha.
Ficamos daquele jeito por poucos minutos, sorrio sem vontade, ouço um pigarro, seguro as mãos de minha mãe.
— Sinto muito por interrompê-las — Sebastian me encara. — Precisamos ir, Jéssika.
— Já? Está cedo.
— Desculpe, mãe. Preciso voltar, mas prometo voltar com mais tempo — minha promessa era ridícula, pois não faço ideia de quando poderei voltar.
— Claro amor. Não deixe de mandar mensagens, por favor. Fico muito preocupada — a puxo para um abraço apertado. — Fique com Deus. Tudo se resolverá em breve — sussurrou para que apenas eu ouvisse.
Deixo que Sebastian vá na frente, novamente me despeço com lágrimas nos olhos e sigo para o carro, entro e fico a olhando através do vidro, ali percebo que não foi uma boa ideia ter vindo. Porque Marta sabia que algo estava errado, mas confiava em mim para resolver.
O veículo sai do acostamento, minha mente estava bagunçada entre as boas e péssimas memórias, incluindo o rosto de Hector ferido, o som do tiro e toda a dor e lamento que se seguiu depois. Desperto dos devaneios ao não reconhecer o percurso que estávamos fazendo.
— Para onde está me levando? — questiono aflita.
Não tenho respostas alguma, o carro seguiu por mais cinco minutos, parando em uma floricultura, observo-o descer e entrar no estabelecimento, voltando tão rápido quanto havia ido, portando em mãos um buquê de rosas brancas, colocou em meu colo e continuou o caminho que logo reconheço e de pronto sinto a dor se alastrar.
Logo chegamos ao cemitério. Desci com as rosas na mão esquerda e as alianças na direita, engolindo em seco ao passar pelos portões de ferro escuro e procurar pela lápide de Hector — havia algumas flores ali, adianto em colocar as rosas e choro, sem ter direito algum em estar ali ou de sequer lamentar sua partida.
— Me desculpe por tudo — começo a dizer, a voz saindo baixa. — Perdão por ter enviado aquela mensagem, você morreu por culpa minha e nada vai mudar isso. Espero que onde estiver possa me perdoar — coloco a caixinha ali entre as pétalas. — Não queria que isso acontecesse com você, eu estava desesperada e com medo, não medi as consequências. Sinto muito por tudo, Hector.
Um homem perfeito que morreu em prol dos anseios de um homem louco, viril e psicótico. Levanto com calma, me viro e o vejo de braços cruzados, olhando para o túmulo sem esboçar reações, nem poderia, visto que a culpa é inteiramente dele.
— Isso tudo é culpa sua — o empurro. — Minha vida foi arruinada por sua causa. Está satisfeito? — questiono, aumentando a voz. — Está feliz com toda a desgraça que causou em minha vida? — não tenho respostas, e isso me enfurece. — RESPONDA! — grito. — Por quê fez isso? Por quê me sequestrou? — ofego. — Quantas vidas destruiu por conta desse prazer sádico e insano? Quantas vidas será necessário destruir para que se sinta saciado? — Velark não responde. — ME RESPONDA, SEU DESGRAÇADO! EU TE ODEIO. ESTÁ OUVINDO?
Não obstante com seu maldito silencio, desfiro um tapa forte em seu rosto, ele tampouco se move, passo por ele…Antes de seguir para a merda do carro em viro e o encaro.
— Espero que morra e queime no inferno — profetizo.
[...]
Permaneço o resto do dia e grande parte da noite dentro do quarto, Sebastian continuou quieto conforme voltávamos do cemitério, tampouco veio atrás quando passei pelas portas e subi as escadas queimando em fúria e culpa. Observo o relógio digital na mesinha do lado esquerdo da cama, os ponteiros indicam meia noite, havia recusado o café da tarde e o jantar…Meu estômago roncava, mas o fato dos acontecimentos pareciam repelir qualquer vontade de ingerir algo.
Não mereço perdão.
Pelo simples fato de ter permitido os toques e beijos de Velark mesmo ele tendo sido o protagonista de cada cicatriz que carrego interno e externo. Sou tão hipócrita quanto ele.
Sou tão suja quanto ele.
Meia noite e meia desço da cama, deixo o quarto, seguindo pelo corredor extenso até as escadas, mesmo descalça pareço estar fazendo barulho — acendo as luzes da cozinha, procuro por qualquer coisa e opto por um pote médio de sorvete, pego uma colher e decido voltar para o quarto, mas paro ao ver as luzes da sala acesas, ao me aproximar vejo-o acomodado a poltrona, o copo pela metade em sua destra e olhar perdido em algum ponto cego.
— O que você quer? — o timbre era sombrio.
— Não é óbvio? — retruco.
Me sento no sofá e cruzo a perna, colocando o pote de sorvete nas coxas, o incitando a dizer alguma coisa.
— Lembrou de mais algum xingamento?
— Quero que diga algo — respondo. — Mas antes, me diga. O que fez com Kenji?
— Isso não é da sua conta.
— É sim da minha conta. Você o matou e ordenou que fosse me dito que ele está em uma filial no Japão? o copo em sua mão treme, a raiva e talvez dor tomam sua expressão.
— Ele está vivo — responde com indiferença.
— Mereço saber mais do que frases curtas e invasivas — exijo, ignorando o sorvete e as gotículas de água que escorrem entre minhas coxas.
— Não merece porra nenhuma, Jéssika. Não esqueça de com quem está falando — ameaça. — Não estou com paciência.
— Não pode me culpar pelas minhas ações de mais cedo, já que é culpa sua — desdenho. — Cumpro com todas as suas merdas de exigências, o mínimo que peço é sinceridade.
Velark sorri. — Espera que eu sinta remorso? Por tudo o que fiz a você e ao seu ex? — alarga o riso. — Pois adivinhe? Não sinto.
— Está mentindo!
— Será? — debocha, deixando a sala.
— Idiota. Babaca.
Volto para o quarto, não o dele. Se ele quer continuar com essas meias palavras e ignorância, ótimo, mas me recuso a dormir ao seu lado essa noite.
Foda-se nosso acordo.
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