C : 13
De todas as maldições cometidas pela
humanidade, tu és o pior, tu és o maligno, o mau encarnado na pele de cordeiro.
— Y.S
⁛
JÉSSIKA VELARK
⁛
A morte tem um gosto amargo, um cheiro de podridão…o definhar abrasador de uma alma que carece de culpa, sufocada em gritos silenciosos, pedidos de ajuda, um socorro que sei que jamais viria. Permaneço na bolha revestida de sombras, a umidade em meus olhos escorrem por minha face ainda petrificada, fechando as pálpebras consigo ter o vislumbre nítido do corpo de Hector, fechando as mãos em punho consigo sentir a maciez dos seus cabelos, do sangue manchando meu corpo mal coberto pela toalha, de sua pele perdendo o calor aos poucos, até tornar-se frio e rígido como uma rocha — os luzeiros verdes abertos em temor perpétuo, as pupilas dilatadas quase cobrindo as íris, a verdade com que me nego a aceitar sua partida. Tudo isso por minha culpa.
Ter cogitado a hipótese de que aquela mensagem seria meu aval para liberdade foi um erro mal contabilizado devido a ganância pela fuga, da fome insaciável para ter minha vida de volta, é lamentável o quanto uma ação impensada se resulta em algo catastrófico e irreparável. Aqui, carrego minha própria cruz, sendo chicoteada e em breve crucificada pelo julgamento daqueles que o amavam e o admiravam, o viam como um homem de valor e repleto de sonhos, onde todos tinham a mim — encarando minhas mãos estiradas, imagino-as perfuradas por pregos sob a madeira, e assim seria o meu fim, padecendo e morrendo por erros, mal acerto, por tudo onde o autor desses feitos permaneceria em seu trono, em seu castelo de cartas, protegido por seu império, pelo dinheiro e pela ganância que espero que no fim o engula vivo.
O amanhecer surge por entre as árvores, o céu outrora escuro agora se mostra claro como o oceano, o vento fresco sob minha pele era reconfortante, secava as lágrimas para que outras pudessem vir, visualizo um mundo que não desejo fazer parte, respiro um ar que não me pertence, sinto meu coração bater, tal sensação era repulsivo, havia uma voz no fundo de minha consciência que sussurrava em meu ouvindo, dizendo o quanto este fôlego não deveria ser meu, que essa exclusividade pertence a apenas um ser, e agora não caminha mais pela Terra.
Não movo um dedo ao ouvir a porta sendo aberta, passos suaves pelo quarto, farfalhar de tecidos e ruídos de objetos sendo movidos para serem limpos pelo que posso imaginar, talvez dias tenham se passado, não me recordo, acredito que nem seja relevante me manter conectada às horas, aos dias, nem mesmo as mudanças climáticas — a prisão mental não era condicionada em conforto e paz de espírito, pelo contrário, é uma cela moldada pelo lamento, demônios trabalhando incansavelmente para sugar-lhe até a última gota de vitalidade e sanidade, prometendo comer suas entranhas enquanto seus gritos mudos vibram por suas carnes descompostas, trazendo euforia e adrenalina. Logo o silêncio volta a estabelecer, sinto o cheiro delicioso de café fresco, leite quente e alimentos quentes e seus aromas distintos, meu estômago se retorceu pela fome, o desejo de saciar o básico do ser humano me era dificultoso, penso em me mover, desvio dos pensamentos pelo fato dele estar me assistindo de algum lugar daquele presídio de luxo, todavia, faço mesmo assim, há uma força invisível, um estímulo solene de que eu levante, que me mova, que coma e que caminhe…assim o faço, caindo na ilusão de que há uma energia boa ao meu redor, uma luz para me dar forças conforme permaneço nesse vale sombrio e mordaz.
Me sento lentamente, cada movimento sendo um sacrifício devido a fraqueza, havia removido as agulhas e acessos ligados a mim, temi que ele viesse e me repreendesse por tal ato, no entanto não veio e agradeci mentalmente por isso — deposito café fresco dentro da xícara de porcelana transparente, tomo um pouco e não me abstenho de soltar um gemido de satisfação por finalmente estar ingerindo algo; como apenas o necessário, o enjoo me força a colocar para fora, mantenho tempo suficiente para me distrair com algo, tomo um banho longo demais, me sentei na banheira pelo cansaço em manter-me de pé, com a água cobrindo meu corpo frágil desmorono mais uma vez, neste momento uma lembrança se fez presente junto a uma sensação que jamais senti, fazendo com que a dor multiplicasse e o choro viesse com gritos altos e agudos.
FLASBACK
Gargalho pela milésima vez conforme seguíamos em um passeio noturno, Hector me guiava com o braço envolvendo minha cintura, havíamos ido ao cinema depois do meu expediente, com ele tudo era resolvido na hora, qualquer coisa que eu impusesse ele executava sem ressalvas. Paramos na praça, um músico tocava um soneto que conheci de pronto, os dedos ageis sobre o teclado do piano encanta a todos que ali paravam para contemplar a arte clássica que escorria por cada nota do instrumento preto e polido.
— Espere um pouco, mon chéri. — Hector me beija antes de correr até o homem murmurar algo que não pude ouvir e voltar sorridente. — Aceita dançar comigo, mon coeur? Meu coração.
As primeiras notas começam, reconheci e sorri de vergonha ao aceitar sua mão e ser levada para o centro, fui levada com maestria, girando suavemente, agarrada a meu namorado, seus olhos brilhando de admiração e paixão, obviamente eu estava na mesma sintonia.
— Um francês como eu, um mero mortal apaixonado por uma deusa grega, uma divindade que me ofereceu tudo que há de bom neste mundo. — sussurrou em meu ouvido, o sotaque distinto, sensual e romântico. — Je t´aime. Comment Shakespeare aimait I´art dramatique. Comment Oscar Wilde a idolâtré Dorian Grey. Je t´aime, avec tout ce que je suis et je posséde Jéssika. Mon adoration n´est que pour toi, tu es ma déesse, ma femme, á que je me consacrerai jusqu´á mon dernier souffle. Eu te amo. Como Shakespeare amava a arte dramática. Como Oscar Wilde idolatrava Dorian Grey. Eu te amo com tudo que sou e possuo Jéssika. Minha adoração é somente a ti, é minha deusa, minha mulher, a quem me dedicarei até meu último suspiro. — Chorei com sua declaração, o beijei quando a música ecoava para o fim.
— Eu também amo você, me dedicarei a você e sempre farei tudo para que seja feliz comigo, meu amor, meu francês. — Beijei-o mais uma vez.
Os espectadores aplaudiram nossa dança, Hector sorriu antes de sairmos dali, eu estava feliz, estava apaixonada pelo homem mais romântico que tive a sorte e o prazer de conhecer.
Em breve deixaria de ser Jéssika Scarlett Miller, para ser Jéssika S. Roux.
FLASHBACK OFF
Desperto cansada, batidas soavam a porta, não respondi as vozes alteradas do outro lado, não quando a voz que ouvi era dele, da força que fez para estourar o trinco e entrar, invadir como sempre fazia, sua feição endurecida intensifica o tom azul de suas íris, este não fizera movimento algum, permaneceu parado parecendo assimilar a situação e pensar se me tocava ou não — tomando medidas para que não aconteça me levanto, envolvo o corpo trêmulo e nu com a toalha e saiu da banheira, passando por ele, sentindo a energia sombria arrepiar minha pele e fazer dos meus órgãos uma avalanche glacial. Espero todos, incluindo ele a sair do quarto, procuro roupas para vestir, odiando por nada ali ser meu, a despeito de tudo, não há uma posição que me caiba dentro deste inferno, que me dê um pouco do que costumava ter, nem o básico, muito menos o mínimo.
Heráclito de Éfeso¹ tinha razão em toda sua vã filosofia, a vida é um processo constante de morrer. O ciclo da vida perdura às vezes por anos, outras por meses, um rio que se mostra pacifico mas que ao entrar, seu corpo é carregado para as profundezas, onde tudo que tem de fazer é lutar por um pouco de oxigênio, a cada segundo para não se entregar a um resultado único, a morte. Dessa forma divago, relembrando momentos, lamentando um futuro em cinzas, esperando pela morte como quem espera a visita de um ente querido pouco visto; adormeço na cama, mantendo o choro silencioso, encolhida em minha própria dor e parcelas intermináveis de culpa.
Na madrugada meu corpo despertou junto da consciência, estava exausta de permanecer no mesmo lugar, encarando a mesma vista por horas consecutivas — desço da cama e sigo até a porta, abro e analiso o corredor mergulhado nas sombras, caminho devagar, tateando até encontrar o corrimão e descer as escadas, sempre tive medo do escuro, agora, não havia o que temer de algo que tem me feito companhia, monstros imaginários chegam a ser dóceis perante aos monstros reais, onde um é meu pesadelo, meu carcereiro. Procurando pela biblioteca me arrepio pelo piso frígido em contato com meus pés descalços…controlando até mesmo a respiração empurro as portas duplas de madeira pesada, sou recebida pelo cheiro familiar de sândalo, deslizo a palma direita aberta pela parede até encontrar o interruptor, as luzes auxiliares se acendem, dando luz ao único lugar que me parece um paraíso — passeio pelas enormes estantes até encontrar um livro que me ajude a passar o restante da noite, leio os títulos e anos em que foram escritos, itens de colecionador, todos por ordem alfabética, e nessa encontro um livro pequeno, meus dedos acariciam a encadernação de couro, me sento na poltrona reclinável, passo por duas páginas em tons amareladas até ler o primeiro poema.
VELEJO ¹
No céu taciturno o barco se move em meio ao mar ávido e solene, o céu escuro evidencia um tempo torrencial e melancólico, convidando todos a partirem sem rumo, sem um lugar para finalmente chamar de lar.
Sobre sentimentos póstumos dou adeus a toda vivência regrada pela dor e angústia, presa ao vazio conforme o cheiro salgado invade sentidos que por vezes afirmo não sentir.
O barco se move, o marinheiro grita para a tripulação, velas são erguidas e choros e despedida são levadas ao vento e maresia; a saudade aquece junto ao amor que rejuvenesce, que alimenta o sonho do homem que sonha com o mar, que transborda paixão pelo profundo azul e seus mistérios ocultos.
Eis-me aqui, abrangendo o cenário digno de um pintor no ápice de lucidez, traçando num quadro tudo o que via, portando o pincel e tinta, o deslizar suave daria cor melancólica ao branco. Serei retratada como nada além de uma mulher a espera de oportunidade, da adrenalina e da solitude que perdura um corpo fraco.
Na escuridão, admiro as estrelas, admiro o vento forte afagando meu rosto, o mar levando-nos por onde devemos ir, suave, como seda tendo ondulações humanas e sobre-humana.
Velejo não é sobre estar em um barco, é permitir que a vida seja como um barco, um navio, guiado pela vida, ultrapassando obstáculos criados pelo homem para abster e paralisar aquele que busca daquilo por que luta, ou por quem. É amar é ser amado sem ressalvas.
Acima de tudo, é partir em mar aberto, sabendo que em terra firme, haverá para onde voltar.
Absorvo tais palavras, sinto a queimação no peito junto ao luto que me devora, viro a página e me deparo com outro, este no qual fizera lágrimas transbordarem por meu rosto.
OH! MORTE. ²
Oh! Saudoso é a morte.
Vindo a remo em um barco pequeno, este que contém gravuras em sua madeira gasta a quantidade de almas que por ela veleja.
A túnica negra impedindo que seu rosto se mostre, mas sinto seus olhos em mim, sinto minha alma vibrar de ansiedade por sua chegada.
A bondade carrega feições hediondas e cruéis, assustadoras até.
Uma vez tive um sonho.
Em uma estrada vazia, numa noite sem luar recebi a visita de um homem belo, cortês, com um timbre impossível de ser comparado a uma nota musical ou qualquer meio que se possa dar vivacidade a algo tão sublime.
— O que pediria a morte se a visse ? — Ele pergunta.
Sem temer mal algum respondo firmemente.
— A receberia com um sorriso, agradeceria por finalmente vir levar-me para meu descanso. E se, minha parada fosse meu tormento, aceitaria. Pois não há nada pior do que viver em um mundo no qual seu maior desejo seja a morte.
Então eis-me aqui.
Leve-me consigo e permita que todo o meu percurso em vida seja exterminado e que minha alma renasça em um corpo que seja como um vaso de alabastro.
Imaculado, santo e principalmente apaixonado pela vida.
Fecho o livro, secando as lágrimas e refletindo o que acabei de ler, encarando o céu escuro com poucas estrelas e uma lua radiante, sorri em meio a tanta dor.
Afinal.
"Há um certo brilho na tragédia." ³
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1 e 2 são dois poemas escritos por mim.
3 ref ao livro: Nas mãos do Diabo, autor Júnior.
N/A : Peço mil perdões pela demora absurda em atualizar. Muita coisa vem acontecendo e tem tirado meu foco total.
Entretanto logo estarei de férias então me dedicarei 100% a Velark e as outras obras.
Espero que tenham gostado. ♡♡♡♡
31/10/2023
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