16

         Heather suspirou ao olhar para a tela de seu celular, fazia uma semana desde que sua irmã havia lhe mandado notícias, dizendo que havia contado a mãe sobre o que havia sofrido e isso trouxe um grande alívio a caçula, mas uma semana depois, era exatamente o que estava fazendo seu coração se afundar em seu peito, pois já era domingo novamente e ela havia prometido que lhe manteria informada sobre tudo, e não o estava fazendo.

           -Se não se sentir bem para trabalhar esta semana, não precisa, meu amor - Murmurou Morgana, tirando os olhos do livro que lia no momento, o mesmo que vinha lendo pela última semana desde que Campbell o emprestara para ela, sentia o quão receosa estava sua namorada, também se sentiria da mesma forma se fosse um de seus irmãos no lugar de Hannah, ainda que não gostasse muito da moça, ainda assim, era sua cunhada.

          A menor deixou o celular de lado e olhou para a francesa, que deixou o objeto em suas mãos sobre a mesa de cabeceira da moça. - Me desculpa, ma fée - Disse beijando sua coxa antes de se levantar e se encaixar entre seus braços, que a acolheram sem pestanejar, sua cabeça sobre o peito da mais velha.

               Estavam em seu apartamento, naqueles últimos sete dias, aquele era um dos lugares que mais passavam o tempo, além da empresa e da Mansão Kalivas, onde sempre havia festa quando Heather chegava e iluminava o lugar com sua leveza, que naquele instante estava quase que completamente ausente. Suas sobrancelhas estavam contraídas, assim como os lábios, estava preocupada e era claro em sua expressão.

          -Tá tudo bem, ela é sua irmã, eu entendo - Disse a mais velha, lhe acariciando as costas, da lombar até os ombros e a nuca, seus dedos finos se emaranhando nos cabelos que sem a tintura começava a se mostrar de um castanho quase tão escuro quanto o preto, exceto quando a luz lhe atingia os fios e mostrava um tom parecido com o mogno. Na primeira vez que viu aquilo, perguntou para sua amada porque os pintava.

    "Meu pai nunca gostou de nossos cabelos serem castanhos..."

         Foi simplesmente o que falou antes de mudar completamente de assunto durante um dos jantares que compartilharam, o assunto parecia lhe doer demais para mencionar, por isso, a Kalivas não voltou a tentar questioná-la sobre. Permaneceram em um silêncio agradável, haviam aprendido que não precisavam realmente conversar o tempo inteiro se estavam na companhia uma da outra, apesar do diálogo ser sempre necessário, havia uma comunicação silenciosa entre elas, uma conexão que nenhuma delas entendia muito bem.

             Morgana aproveitou o silêncio para analisar o quarto em que estavam, a cama de casal não possuía uma cabeceira, mas era grande o suficiente para ambas se acomodarem com facilidade, mas não o suficiente para ocupar todo cômodo, deixando bastante espaço para transitarem, os lençóis e cobertores sob seus corpos eram cinzas, brancos e pretos.
  
            As paredes estavam pintadas de preto, como a moça pintava os cabelos. Ao lado direito da cama, a mesinha onde ela havia colocado o livro, e do lado da mesinha, um vaso com uma samambaia um tanto grande, as folhas tocando a cortina que antes cobria completamente a grande janela que servia de parede também, com partes metálicas que davam um ar um tanto rústico ao lugar, a vista noturna de Manhattan mantendo a mulher hipnotizada enquanto aproveitava o calor de sua namorada.

             -Desculpa - Ouviu a moça dizer, rodeando sua cintura com os braços, suas orbes castanhas se voltaram para a garota, que agora tinha seu queixo apoiado no colo de seu seios. - Você tem sido totalmente paciente comigo e com o que está acontecendo e eu te ignorei a noite praticamente inteira e você nem conseguiu me contar o que tinha pra contar - Morgana apertou o corpo da morena contra o seu e suspirou antes de falar. - É besteira, meu amor, preocupações de trabalho, podemos resolver isso amanhã - Afirmou e levou sua mão a nuca da moça, a puxando levemente para que pudesse selar seus lábios, impedindo o protesto que ficou preso em sua garganta, sendo substituído por um suspiro excitado.

           Quando seus lábios se afastaram, Morgana se sentiu culpada por omitir algo da namorada, afinal, haviam prometido total honestidade em seu relacionamento, mas no fundo sabia que não podia lhe dizer o que queria no momento, não quando ela estava preocupada com sua irmã. Morgana mordeu a própria língua, comandando a si mesma que não devia contar que sua preocupação era justamente a irmã da moça e a marca que ambas carregavam no corpo.

†‡†‡†

            Do outro lado da cidade, Stephen socava com força o saco de pancadas que havia na academia da mansão da família, sentia-se cheio de tudo, de raiva, de frustração, de ódio, sem saber exatamente de quem ou do que. Não se reconhecia ao se olhar no espelho, as lembranças do rapaz um tanto amedrontado e tímido de séculos antes lhe vindo a mente, as lembranças do quanto havia se machucado por querer alguém que jamais seria sua.

            -Hey, hey - Falou Andreas segurando o saco de areia antes que o irmão pudesse derrubá-lo. Stephen nem ao menos havia notado a presença do caçula dos Kalivas, e não esboçou nenhuma reação a isso, apenas se afastou e começou a retirar seu aparato de boxe. - Hey, Jimmy, o que aconteceu? - Perguntou o rapaz, seus olhos castanhos acompanhando os movimentos do vampiro. - Não é nada - Resmungou ranzinza, não queria voltar a cutucar a ferida que ainda estava aberta e doía feito o inferno.

            -Tem certeza? Porque você tá esquisito faz tempo e não fica com nenhuma garota desde que voltou de...Astoria - Como se estivesse ligando as pistas para desvendar um mistério, Andreas sorriu como uma criança, como sorria quando Saskia e Jakob eram pequenos e descobriam algo novo sobre o mundo. - Você conheceu alguém por lá não foi? - Indagou soltando o saco de pancadas e se aproximando do rapaz, que se largou num dos bancos a poucos metros de distância. - Então, quem é?

           -Hannah Stone...irmã de Heather - Disse com um tom um tanto sonhador, leve, apaixonado, Andreas arriscaria em mencionar. - Elas são gêmeas e mesmo assim são tão diferentes. - Comentou com um sorriso.

               Pelos próximos minutos, a voz suave de Stephen soou pelo ambiente, contando tudo que havia vivido em Astoria, cada momento em que teve a jovem Stone em seus braços, cada coisinha que foi capaz de descobrir sobre a moça, até mesmo sua noite de amor, a noite em que entregou sua alma a moça.

             Pelo tempo que precisou, Andreas deixou o irmão falar, deixou ele soltar toda a raiva e frustração que sentia em suas palavras. O caçula dos irmãos Lafayette deixou com que Stephen aliviasse a dor que habitava seu peito em seus ouvidos e sua compreensão, porque ele sabia que doía, querer doía, amar doía, frustrava, lhe tirava o chão, mas no final, recompensava.

†‡†‡†

              Mais uma semana havia se passado e as coisas na K&V estavam extremamente agitadas com o final de ano. O feriado de Ação de Graças se aproximava e muitos funcionários optavam por entrar em período de férias naquela época, muita coisa tinha de ser resolvida, ainda que devido aos investimentos bem planejados em ações e na bolsa de valores, a empresa continuasse gerando lucros que nem uma outra era capaz de atingir.

          Mas não era nisso que Heather estava pensando enquanto guardava alguns dos documentos em que estava trabalhando mais cedo e que Morgana já havia assinado, não sabia exatamente no que pensar, havia muito acontecendo para que absorvesse tudo de uma vez.

          No dia anterior, recebera uma mensagem da irmã, pedindo que não se preocupasse e que estava bem, mas nada mais do que isso, a deixando um tanto mais aliviada, mas ainda assim com uma pulga atrás da orelha sobre pelo que Hannah estava passando no momento. Ainda assim, quando Stephen veio buscar alguns documentos referentes a sua oficina, ela passou a notícia a diante, o que fez um brilho que até então estava tão ausente surgir nos olhos do francês, que lhe prometeu um belo prato de panquecas com um sorriso aliviado nos lábios.

               Também havia pouco mais de duas horas que algumas jovens vieram falar com sua namorada, Demétria, Dua e Sofia, tratando de assuntos oficiais com a vampira, que parecia extremamente aliviada em vê-las. A jovem Stone havia tido o prazer de conversar com a mais jovem das três, Sofia Cabello. Havia visto aquele nome somente algumas vezes referente a estranhos investimentos tecnológicos de segurança e o pedido de sua namorada logo depois que as moças foram embora para que uma das equipes menos requisitadas e mais elitistas com quem a empresa tinha conexão fosse enviada a cidade de Tillamook Bay para uma varredura de segurança, levou a moça a concluir que os tais assuntos oficiais possuíam uma pitada do sobrenatural que envolvia sua amada.

            A cidadezinha portuária no Oregon havia sido completamente destruída por um terrível tornado, seis anos antes, e tomada completamente pela natureza, uma das famílias mais ricas do local havia tentado reconstrui-la, mas desistira quando vira que o investimento não compensaria, não havia outros motivos senão estes.

             Esfregou as têmporas, cansada, depois pensaria nisso. Olhou para dentro do escritório da Kalivas e se surpreendeu ao ver que a morena estava sentada em uma das poltronas ao canto da sala, um copo de uísque sendo balançado por sua mão direita, o olhar distante em algum ponto aleatório da paisagem que pintava sua janela. Heather olhou para o seu relógio de pulso e concluiu que o expediente de ambas havia acabado haviam dez minutos.

           Como em algumas das outras noites em que ficavam mais tempo no escritório, a morena tirou os saltos dos pés e caminhou até a porta que separava suas salas, estava aberta como sempre. Heather bateu sua aliança contra o vidro, despertando um som característico do ouro branco do anel contra o vidro temperado.

             Aquilo foi suficiente para que Morgana despertasse de seus devaneios por um instante, ela virou a cabeça até ver a moça se aproximando. Se sentia culpada por não contar a ela o que estava acontecendo, ainda mais quando Heather era simplesmente perfeita e paciente com ela.

            Sabia que estava muito distante dela naquela semana, tanto que passaram somente duas noites juntas em sua casa, por vezes trocando carícias e jogando conversas amenas fora. Não era isso que queria, mas havia prometido que compensaria isso durante as férias, passariam o feriado de Ação de Graças longe dali, em uma das ilhas isoladas da família, era melhor, muito mais seguro, pensava a mais velha.

            -Está tensa, ma fée, o que foi? - Perguntou a de olhos claros, se sendo puxada para o colo de sua amada, que deixou o copo que antes segurava sobre a pequena mesa entre as poltronas apenas para poder envolvê-la com ambos os braços.

             A Kalivas enfiou o nariz no pescoço da menor, lhe causando cócegas que lhe despertaram o riso solto que ela tanto adorava. Morgana estava com tanto medo, e tão cansada, que nem ao menos percebeu que lágrimas escorriam por suas bochechas, lentamente, doloridas como nunca antes. Havia passado por terrores terríveis, mas nenhum deles havia a ferido tanto quanto o que estava escrito no livro que Campbell lhe dissera para ler, dizendo que ela entenderia. - Hey, hey, meu amor, o que foi? - Perguntou a menina, afastando-se de Morgana ao sentir as gotas frias atingirem seu ombro desnudo pelo vestido que trajava.

           -Não é nada, apenas algumas preocupações - Disse evasivamente, não queria assustá-la, Heather não merecia o medo, merecia tudo que ela estava tentando fazer por ela, merecia ser protegida, mas a jovem a conhecia, seus olhos profundos como o oceano lhe repreenderam silenciosamente, Deuses, como poderia ter vivido sem esse olhar por tanto tempo?

           A maior suspirou e apertou o corpo quente da morena contra o seu, tão frio quanto a noite de outono lá fora, não lhe contaria o que tanto lhe afligia, não agora, talvez depois quando tudo estivesse seguro, mas por enquanto, podia lhe dizer uma de suas preocupações. - Deixe-me te contar sobre uma cidadezinha chamada Aíte Síthe.

†‡†‡†

               -E o que você quer que eu faça, Heather? - Gritou Morgana, irritada enquanto via a namorada entrando em sua sala, haviam passado a última hora discutindo, assim como haviam passado a semana inteira brigando sem um momento de conciliação, estava sendo uma semana insuportável de convívio entre elas. - Eu quero que você me diga de uma vez por todas o que está acontecendo com você, porra

               Era apenas isso que Heather queria saber, queria entender porquê a mulher com quem estava planejando passar o resto de seus dias havia lhe contado uma linda e triste história que fazia parte de sua vida e então no dia seguinte havia se fechado completamente e se tornado fria como antes, quando se conheceram. Haviam voltado a estaca zero, tinha sido algo que ela disse ou fez? Ou como com Tyler, havia outra pessoa?

             -Você não entenderia - Disse a mais velha, rangendo levemente os dentes em sinal de irritação, se apoiando em sua mesa, nem ao menos olhando para a moça, que tinha os olhos cheios d'água pela falta de confiança de sua namorada nela. - Como eu vou entender se você está me mantendo no escuro? Você não confia em mim, Morgana? - O tom embargado da moça fez com que a de olhos castanhos erguesse o rosto abruptamente, preocupada.

            -É claro que eu confio, mas-

            -Não existe mas se realmente existe confiança, Morgana, eu pensei que você soubesse disso - Afirmou a moça, pouco se importando se havia a interrompido, ou se estava chorando a sua frente, coisa que prometeu a si mesma que jamais faria. - Quando eu aceitei ser sua namorada, eu aceitei você, eu aceitei quem você é, por inteiro, sem segredos e agora você se nega a me dizer pelo que está passando? Onde está sua palavra, seu lado da promessa, Morgana?

   -Heather, eu...- A francesa suspirou, queria gritar e pedir perdão por estar a deixando preocupada, por estar se afastando tanto. - Você o que, Morgana? - Perguntou a mais nova, se aproximando, havia uma súplica em seus olhos, dolorosa como o fogo que uma vez queimou a pele de sua amada. - Por favor, meu amor, me conta o que está acontecendo, me deixa estar do seu lado nisso - Pediu a olhando, sua mão quente buscando a dela, o azul encontrando o castanho, havia tanta dor nesse encontro, tanto medo que era palpável.

   -E-eu não posso - Sussurrou, existia um bolo em sua garganta, um que lhe doía profundamente e que pareceu aumentar quando a menor se afastou. Heather passou a manga de seu casaco pelo rosto, secando as lágrimas que escorriam por suas bochechas e respirou fundo.

   -Quando você puder e quando você confiar em mim para isso, venha me procurar - Foi o que falou apenas, sua voz trêmula, e seu coração batendo mais fraco ao sentir que dessa vez, diferente de todas as outras, não fora simplesmente quebrado. Morgana acabará de lhe arrancar todos os curativos que ela mesma havia colocado sobre o coração e havia lhe cortado as suturas que mantinham a moça firme até que seu coração finalmente se curasse.

    Com essa frase ainda soando no ar a volta da mais velha, Heather saiu, tentando controlar seu choro, não queria sofrer o infortúnio de por um acaso encontrar Stephen ou Killian ou até mesmo uma das tias de Morgana no elevador e ter de explicar o que estava acontecendo a algum deles, seria doloroso e provavelmente eles ficariam com raiva da vampira, e ela não queria isso, nem de longe.

    Ainda na cobertura, com as mãos apoiadas no encosto de sua cadeira, estava Morgana, incapaz de dizer uma palavra sequer, ela havia a perdido de qualquer maneira, mesmo tentando evitar ao máximo. Por isso, ela lançou a cadeira contra o vidro temperado de sua parede e gritou a plenos pulmões, sentindo as lágrimas deslizarem por suas bochechas frias. Ela gritou pela tristeza de ter machucado sua amada, ela gritou pela culpa que sentia, pela raiva de ter sido covarde mais uma vez, por tê-la machucado como todos os outros fizeram.

    E se seus ouvidos não tivessem captado o som de seu celular tocando, talvez ela tivesse continuado a gritar. Respirou fundo, ainda que não precisasse ao ver que era Carolyn. Suas irmãs não tinham tanta proximidade e apreço pela tecnologia quanto ela e os dois mais novos, por isso ela sabia que possivelmente tratava-se de uma emergência, não tardando a atender. - O que foi, Carol?

   -Morgs, nós precisamos que venha pra casa - Foi a única frase que sua irmã disse antes de desligar a ligação. Foram meros segundos, mas a vampira havia conseguido ouvir a dor na voz da moça, ela largou tudo ali e como havia feito vezes antes, foi o mais rápido possível para casa, já bastava uma dor naquele momento. Sabia que em seu rosto estava claro que havia chorado, por isso não se surpreendeu quando Stephen a olhou um tanto preocupado, ele sabia como estavam sendo os últimos dias para ela e Heather.

     Por um momento, Morgana perscrutou o lugar com os olhos castanhos, estavam quase todos
estavam ali, Liam e seus sobrinhos, seus irmãos e seu filho, até mesmo suas tias. - Onde está Cristal? - Perguntou se aproximando de Stephen, que a segurou pelo braço, ele sabia que ela precisava daquele apoio para não desabar. - Morgs-

  -Onde está a Cristal? - Perguntou mais uma vez, seu tom de voz aumentando enquanto olhava para todos ali, via pena e dor em seus olhos. - Não, não, não - Começou a murmurar, já não bastava a dor de perder Heather, havia perdido sua irmã, aquela que cuidara dela tantas vezes, que lhe aconselhava mesmo quando não queria ouvi-la. Seus olhos encontraram o rapaz, Liam, parceiro e namorado de sua irmã na força policial. - Isso é culpa sua - Rosnou se desvencilhando do aperto do irmão e indo para cima do moreno a sua frente, lágrimas escorrendo grossas por suas bochechas frias.

   Suas mãos capturaram o tecido da blusa dele, os olhos castanhos e de vista embaçada pela água que saia por eles encontrou os olhos verdes e assustados do mais novo. - A CULPA É SUA - Berrou lhe olhando nos olhos, com ódio e tristeza. - Você devia proteger ela, não é esse o lema de vocês!? PROTEGER E SERVIR!!! - Gritou, sua voz saia alta e rouca, seus olhos castanhos se avermelhando como o sangue que corria nas veias de Liam. - Eu devia matá-lo como você a deixou morrer - Dessa vez sua voz não passava de um mero sussurro, frio como uma faca a perfurar a alma do oficial.

   Morgana o soltou com força, o policial, que sentia suas pernas trêmulas, caiu e usou de suas mãos para se arrastar para trás, para o mais longe possível do monstro que a mais velha dos agora quatro Kalivas estava demonstrando ser. - Mas sinceramente, você não vale meu tempo...

     Com essa frase, mesmo que as lágrimas lhe escorressem pela face, Morgana Kalivas subiu as escadas sem olhar para trás.

†‡†‡†

     Alguns dias haviam se passado desde que Heather havia deixado Morgana na cobertura da Kalivas & Vazquéz, sabia que ela havia chorado, e tudo que quis foi voltar para lá e abraçá-la, mas não o fez e não voltou a pisar na empresa, entregou seu serviço do desconforto e frieza de seu apartamento até a visita de Killian.

          Ela abriu a porta para ele no dia seguinte a briga que teve com sua mãe e o rapaz a abraçou com toda a força que tinha, quando perguntou o que havia acontecido, seu coração se afundou no peito ao descobrir sobre a morte de Cristal e ela chorou com ele ali, a mão tapando a boca para que os soluções fossem abafados.

       Ela esteve no enterro da moça, decidiu permanecer um tanto mais distante, ainda assim, ouviu cada um dos discursos com o coração apertado, principalmente o de Morgana, que não conseguiu terminar o dela pois não conseguiu segurar as lágrimas que molharam seu rosto. A jovem Stone quis correr até sua amada e abraçá-la, mas não teve coragem e nem disposição.

        Heather estava cansada de ser quem ia atrás quando se tratava de emoções, havia perguntado, havia assegurado à namorada que ela estaria ao seu lado, sido totalmente sincera. Estava exausta de andar a sua metade e encontrar um bloqueio da parte de Morgana. A moça de olhos claros suspirou enquanto adentrava o The Roses, o restaurante e lanchonete familiar próximo a seu prédio.

      O estabelecimento era grande e tinha dois temas um tanto antigos, os anos da brilhantina era o do lado da lanchonete, sabia que era o favorito da família que era proprietária do lugar, o chão era totalmente preto e branco, as mesas era coloridas, divididas em seções, decidiu ir para a última, mais isolada, ainda que o lugar estivesse totalmente vazio.

    Por um momento seus olhos se desviaram para o outro lado do estabelecimento, o restaurante que tinha um tema mais levado aos anos trinta, cheios de luxo e pompa, mas sem perder a intimidade. Momentos depois, seus olhos foram puxados para o lado de fora do lugar, as folhas marrons, laranjas e amarelas pintavam o chão e uma chuva se preparava para cair. Não seria a primeira daquela noite de vinte e quatro de novembro.

        Mais cedo naquele mesmo dia, Heather havia enfrentado uma garoa gelada quando visitara o túmulo de Cristal, lhe levara um belíssimo buquê de tulipas amarelas, com uma rosa branca no meio. Numa das poucas vezes que saíram juntas depois que se conheceram, viram um buquê parecido com aquele, e Cristal disse que gostaria de segurar um desses caso um dia se casasse com Liam.

"Lhe trarei um toda semana"

       Prometeu naquela tarde antes de deixar o cemitério a pé. Preferiu não voltar para seu apartamento, era frio sem a companhia de Morgana e tudo nele tinha seu cheiro impregnado, dos lençóis que as cobriam depois das noites quentes que passavam juntas até suas roupas nas quais a Kalivas a apertava quando acordava pela manhã e quando iam dormir.

         As memórias estavam vivas demais em sua cabeça, todos os sons que faziam cada pelo do corpo de Heather se arrepiar e ela as revivia ali, olhando para fora, até ouvir uma voz familiar que a tirou de seu transe:

      -Eu não esperava te ver aqui tão tarde da noite...

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