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Acordo. É mais um dia de Inverno, a chuva cai torrencialmente e ouve-se ao longe sinais de trovoada. Desde pequena que a minha mãe sempre me disse que dias como estes têm sempre o seu lado positivo, porque detrás de uma grande tempestade há-de vir sempre o arco iris. Digo estas últimas palavras com nostalgia ao ouvir e relembrar o som acolhedor da sua voz na minha mente.

Decido, com muito custo, levantar-me e vou até à cozinha preparar alguma coisa para o pequeno-almoço. Faço umas torradas e um café e vou para a sala ver televisão. Não está a dar nada de interessante. As notícias são sempre as mesmas: a crise que o país está a atravessar, corrupção, aviões a desaparecerem e os finais horrorosos de certas relações matrimoniais. Desligo a televisão, para más notícias já basta as que tenho na minha vida.

Hoje acordei na minha própria cama, na minha casa. Fiquei aliviada. Ultimamente tenho acordado em sítios estranhos, fora do meu lugar de conforto. A primeira vez que isso aconteceu entrei em pânico. Acordei a vinte quilómetros de distância da minha casa, num parque infantil, e o que me causou mais confusão é que cheguei a esse local através do meu próprio carro e nem sequer me lembro de ter saído da minha cama quanto mais ter conduzido o carro para um lugar desconhecido. Fiquei assustada, mas não dei muita atenção a isso. Fui à farmácia e comprei uns calmantes para tomar à noite e pronto. Duas semanas foi o tempo necessário até que a sequela "a fantástica história de Maria: aquela que acorda em lugares misteriosos" voltasse a acontecer.

Desde esse momento, já acordei em sítios como, à porta de uma piscina municipal das redondezas, um jardim-de-infância e o que mais me aterrorizou foi à porta da minha antiga casa. Nunca lá mais voltei desde o fatídico dia em que os meus pais morreram num acidente de carro quando eu tinha dezoito anos.

Hoje, ao fim de dois anos, moro sozinha, no meu mundo. Quer dizer, não é bem sozinha, tenho a companhia dos meus dois gatos, a Nina e o Farrusca. No entanto, desde que a minha vida deu uma volta de cento e oitenta graus que eu afastei todas as pessoas que existiam à minha volta. Deixei de ter amigos, nunca mais tive notícias do resto da minha família, dos meus avós, dos meus tios, dos meus primos. Entrei num estado depressivo profundo, tinha consultas diárias com um psicólogo, e apesar de não gostar muito desse género de coisas, a verdade é que isso me ajudou a melhorar o meu estado de espirito. Consegui organizar melhor a minha vida e a controlar todo aquele sentimento de perda.

Poucos meses depois consegui arranjar emprego num supermercado. Não é o melhor emprego do mundo mas dá para aguentar. Comecei a minha vida do zero.

De repente o meu telemóvel recebe uma chamada. Vou ver quem é, um úmero desconhecido. Ainda assim atendo:

- Sim?

- Estou sim, muito bom dia, estou a falar com a menina Maria?

- É a própria. Quem fala?

Daqui é da parte do senhor doutor Filipe Sanchez. É para lhe relembrar que hoje à tarde tem uma consulta agendada para as 17 horas.

- Está bem, muito obrigada.

- Obrigada eu e um resto de um bom dia.

Desligo a chamada. Já nem sequer me lembrava desta consulta. Há quase um ano que não ia para essas consultas com o doutor Sanchez e, sinceramente, a vontade de lá ir é nula.

Acabo de sair do meu turno no emprego. São 16:45. Tenho quinze minutos até à hora da consulta. Tive o dia todo a matutar se devia ou não contar os episódios estranhos que me têm vindo a acontecer nas últimas semanas, e cheguei à conclusão que sim, o doutor pode ser o único que me pode ajudar, pois é a única pessoa que sabe a minha história e que me acompanhou no momento mais escuro da minha vida. A verdade é que ele era um bom psicólogo, se não o melhor da cidade.

Entro no meu carro e conduzo diretamente para o consultório. Não há trânsito na estrada o que é bom, assim consigo chegar a horas.

Entro no centro médico e vou logo à secretaria para lhes dar a informação da minha chegada. Espero que o doutor seja pontual.

Ao fim de dar todas as informações, a senhora muito amavelmente e com um sorriso de orelha a orelha diz-me para esperar na sala de espera que já seria atendida. Enquanto espero fico a pensar no sorriso daquela mulher. Não consigo compreender como conseguem passar o dia todo sempre com um sorriso posto na cara num ambiente quase sempre rodeado de tristezas, como doenças.

Maria Gomes à sala número sete. Maria Gomes à sala número sete.

Ouço o meu nome entoar nos altifalantes por todo o posto médico e ponho-me a caminho até à já minha conhecida sala sete. Quando chego lá a porta já está aberta.

- Boa tarde senhor doutor, posso?

- Olá Maria, claro que sim, e deixemo-nos de formalidades, já devias saber.

Enquanto entro na sua sala faz-me o típico gesto para eu me sentar na cadeira.

- Então como te tens sentido?

- Bem.

- Bem... define "bem" para ti.

Oh e lá vamos nós outra vez. Odeio quando ele começa com este género de perguntas, parece que não acredita nas palavras que saem da minha boca. No entanto, respondi-lhe:

- Então... a sensação de solidão atenuou. Segui o conselho do doutor e arranjei companhia lá para casa. Agora tenho dois gatos. Depois, ao fim de arranjar emprego, a saudade que sinto dos meus pais não é tão carregada, porque não passo tanto tempo a pensar nisso. E pronto, é só.

Muito bem. – Responde-me o psicólogo enquanto vai tirando as suas notas, o costume. – E como se chamam os gatos?

- A Nina e o Farrusca.

- Um casal surpreendente. E o emprego? Ainda é o mesmo?

- Sim.

- Ok. A solidão e a saudade, a Maria disse que atenuou. Num grau de 0 a 100 ...

- Considerando que da última vez que cá estive disse-lhe que o grau desses sentimentos era muito além acima disso – acabo por lhe interromper - agora posso afirmar que estamos num grau de 99,9.

O doutor Sanchez arranca um sorriso e muito divertido diz-me:

- Admiráveis melhorias.

Enquanto ele tira notas vou ganhando coragem para lhe contar acerca dos meus distúrbios durante o sono, mas tenho medo que ele me diga que estou louca e que preciso de ficar internada num desses hospícios.

- Doutor Filipe ...

- Trata-me só por Filipe, por favor.

- Ok, peço desculpa, aah muito bem... então Filipe é o seguinte. Há mais de um mês que tem ocorrido algo muito estranho comigo. Acordo em sítios que não me lembro de alguma vez ter lá estado. Ando por aí a conduzir enquanto durmo. Tenho medo e nem sequer gosto de pensar no facto de que tenha feito algo de mal enquanto ando meia sonâmbula pelas ruas. Cheguei a ir à farmácia buscar uns calmantes para dormir, e durante duas semanas nada aconteceu, até que depois essas situações repetiram.

- E porque não me procuraste antes?

- Como tinha esta consulta já agendada...

Minto-lhe nem sequer me lembrava dela. E tenho de lhe dar razão, se tivesse vindo logo na primeira vez que aconteceu por esta altura já devia estar digamos, curada.

- Desde que começamos com as nossas consultas, há dois anos, que a Maria nunca falou sobre o dia da morte dos seus pais, o acidente, como aconteceu, o que se estava a passar no carro. Quantas pessoas iam no carro...

- Não falei sobre isso porque não quero voltar a esse dia... e quantas pessoas iam no carro? Obviamente três, os meus pais e eu. – Comecei a elevar o tom da minha voz, ele quer a todo o custo que eu volte a esse dia, mas eu não vou voltar, cada detalhe, cada lembrança do que aconteceu é a minha ruina e eu não quero voltar a sentir-me no fundo do poço. Não quero e não vou!

- Todos os teus traumas estão nesse dia, tens de lá voltar para conseguirmos resolver o teu problema. – Faz uma pausa – eu sei que é difícil para ti Maria, mas todos os teus sintomas fazem parte daquilo a que nós na psicologia chamamos de fuga dissociativa.

- Fuga dissociativa? O que é isso?

Sim, em poucas palavras, tu transformas-te numa outra pessoa num curto espaço de tempo, e continuas a fazer as tuas coisas, comer, dirigir, andar e até mesmo conversar com pessoas. Mas depois quando voltas ao teu verdadeiro "eu" não te lembras de nada. A fuga dissociativa é causada por um incidente traumático que pode quebrar os circuitos neuronais da mente.

- Continuo sem perceber... Estou louca? – Não, na verdade quem está louco aqui é o doutor.

- Não Maria, o que eu quero dizer é que há algo no dia do acidente que a tua mente suprimiu, que tu suprimiste em vez de lidares com isso. E agora essa verdade quer vir ao de cima.

Isto não podia soar mais estranho. Este género de acontecimentos costuma ser visto nos filmes, em livros, não na vida real, não comigo. Não há nada que eu tenha suprimido no dia da morte dos meus pais quanto mais a minha mente. Mas ... e se tudo isto for verdade, e se realmente eu escondi algo de mim própria, e se com todo o luto e decepção pela vida eu me obriguei a esquecer algo tão importante para mim?

- Suponhamos que é verdade. O que tenho de fazer agora?

- Agora temos de cavar bem fundo na tua mente e encontrar essa informação que quer ganhar vida. Sessões de hipnose podem ajudar.

Hipnose. Estou mesmo perdida. Acabei por aceitar a sugestão de Filipe. A sessão acabou e marcamos mais uma consulta para o dia seguinte. Iremos começar logo com as sessões para descobrirmos o mais rápido possível todo este mistério.

Chego a casa. Estou demasiado cansada para fazer alguma coisa para jantar. Os meus gatinhos estão enroscados um no outro, muito calmos, a dormir. Deito-me no sofá e acabo por cair no sono.

Onde é que vamos hoje? É surpresa Maria. Já puseram tudo na mala do carro? Não se esqueçam de nada. Olha o lanche do Tomás. Não se esqueçam dos brinquedos do menino. Maria vê se a câmara está bem carregada. Está tudo pronto. Pai a música está demasiado alta. Mana, olha uma cegonha. Tira foto, tira foto. Rodrigo, cuidado! Aaaaaah!

Acordo sobressaltada. Um pesadelo. Estou a transpirar e tenho os olhos húmidos de chorar. Tomás. Oh não! Oh não! Era isso. Oh meu deus. Eu tenho um irmão. Caio no chão e choro compulsivamente maldizendo a vida, maldizendo a mim própria. Como fui capaz de esquecer-me do meu próprio irmão? O que terá acontecido com ele? Estará vivo? Como estará? Onde estará?

Agarro as minhas mãos aos meus cabelos e continuo no meu vale infinito de lágrimas. Odeio-me neste momento. Imagens de Tomás vêm à minha cabeça. O parque infantil, a piscina, a minha antiga casa... agora faz tudo sentido. Eram sítios onde eu ia com ele. Ia buscalo ao jardim quando os meus pais não o podiam buscar. Levava-o às aulas de natação. Tinha seis anos. Agora deve ter oito.

Acalmo-me e ligo ao Filipe. Espero que ele tenha sido sincero quando me disse, ao vir embora da consulta, que caso eu me lembrasse de algo que lhe ligasse logo.

Está a chamar.

Sim? Quem é?

- Fi ... Filipe. – Mal consigo pronunciar as palavras tal é a minha emoção e nervosismo.

- Maria? Estás bem? O que aconteceu?

- Eu lembrei-me – lágrimas continuam a cair pela minha face. – Um sonho. Do dia do acidente. Eu tenho um irmão. – Enquanto dizia isto já soluçava – eu tenho um irmão. Como é que fui capaz de esquecer que tinha um irmão?

- Eu vou já para aí. Fica calma.

Desligo a chamada. Não me consigo manter calma. Uma preocupação enorme é o que eu tenho e o que sinto encima de mim. Como fui abandoná-lo? Ele era tão novo. Ele precisava e precisa de mim. E eu preciso dele. O seu sorriso, a sua voz, as brincadeiras que tínhamos juntos vieram à minha memória.

Tocam à minha campainha. Deve ser o Filipe. Abro a porta e ...

- Oh meu deus! – Corro a abraçá-lo. Era o Tomás, e estava ali, à minha frente. Tão crescido, lindo como sempre, parecia assustado. Choro enquanto o abraço até que ele me abraça de volta.

- Mana?

- Sim? – Respondo-lhe enquanto limpo as lágrimas da minha cara e encho-lhe a testa de beijos.

- Já estás melhor? O doutor e os avós disseram que tu ficaste muito doente depois que os papás foram para o céu e que não sabiam quando ias ficar melhor.

Não consigo ficar séria ao ouvir a sua doce voz e sorrio-lhe.

- A mana já está boa e nunca, mas nunca mais vai-te deixar sozinho outra vez. – Lágrimas voltam a teimar em cair ao longo da minha face e sou surpreendida com um abraço dele.

- Agora já posso vir viver com ela não é avó?

Com todo aquele momento emotivo nem tinha reparado que os meus avós maternos também lá estavam lavados em lágrimas ao ver o reencontro dos seus únicos netos. Levantome e abraço-os e peço-lhes desculpa por todo o transtorno e mágoas que os causei. Convidoos a entrar e passamos o resto da noite a conversar e a emocionar-nos ao lembrar-nos da nossa vida passada.

Ao outro dia de manhã levei o meu irmão à escola e depois passei pelo consultório do Filipe. Perguntei-lhe como teve coragem de me esconder aquela informação durante dois anos, pois ele sabia da existência do Tomás. Ele acaba por me dizer que tinha de ser eu a recuperar a minha memória e a ultrapassar o meu trauma. Não lhe julgo nem guardo mágoa. Ele tinha razão. Agradeço-lhe por toda a sua ajuda.

Saio do seu escritório. Toda aquela dor que magoava incessantemente no meu coração passou a uma dor que apenas incomoda. A dor da perda dos meus pais, da saudade que tinha e que sempre terei deles. Mas agora tenho de dar a minha vida por aquele que é a luz dos meus olhos, o meu menino, o meu irmão, o meu Tomás.



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