03 - O inesperado
Eu adoro os cultos de quinta-feira. Os jovens ficam responsáveis e sempre procuramos fazer alguma coisa diferente nos cultos. Ontem foi maravilhoso, como sempre, ainda mais que teve uma peça sobre a crucificação de Jesus muito tocante, eu fiquei muito emocionada ao ver o Evandro se levantando no apelo e indo aceitar a Jesus. Letícia já vai lá comigo há um tempo e nós duas vibramos quando ele foi e voltou chorando e disse que queria Jesus para a vida dele. Eu fiquei extremamente feliz, é sempre bom quando vemos uma alma aceitar a Cristo, ainda mais uma alma que é a de um amigo de verdade. Sonho com o dia em que verei o Isaque fazendo o caminho até o altar e se entregando para Cristo...
— Qual é o seu problema Maybelle? — Nathália surge do nada assim que passo pelo portão da escola. Automaticamente estranho o fato de ela me chamar pelo nome, todo mundo sempre me chama de Belle, até na chamada os professores acostumaram com isso. Maybelle é inglês demais para mim.
— O que aconteceu, Nathalia?
— Me diz você! — Ela fala um pouco alto demais. — Eu achei que você fosse minha amiga. Achei que estava sendo sincera quando disse que não rola nada entre o Isaque e você.
O quê? Meu cérebro pifa.
— Do que você está falando? — Questiono a essa Nathália completamente alterada que, até então, eu não conhecia.
— Não vem com essa! — Ela cruza os braços. — Isaque me ligou ontem para desmarcar comigo. Ele disse que não queria me magoar e que você o aconselhou a ser sincero comigo porque você gosta de mim. É claro né.
— Não estou entendendo o seu sarcasmo, Nathália. Eu realmente gosto de você e apenas disse para ele tomar cuidado e não magoar os seus sentimentos.
— Uma ova! — Ela grita ainda mais. Uma pequena multidão já está formada ouvindo tudo. — Você fica se fazendo de boa moça para as garotas que se aproximam do Isaque só pra você conseguir afastá-las mais rápido, não é verdade? Porque não assume logo que gosta dele e para de fazer doce?
— É, Belle, por que não assume logo? — Marcela brotou do chão, só pode. Ou então veio se arrastando como a naja que ela é.
— Eu não tenho nada para assumir. Isaque e eu somos amigos desde sempre, ele é como um irmão para mim e todo mundo sabe disso. Assim como sabem também que ele não tem compromisso com ninguém, eu só quis deixar claro para ele que me importava com você e que ele não machucasse os sentimentos que todo mundo também sabe que você tem por ele. Agora — chego um pouco mais perto dela —, se você está satisfeita em ser um estepe para que ele tenha em mãos toda vez que tiver vontade, então o problema é seu e eu não vou mais me importar. Com licença.
Passo por ela e por todos que estavam ali. Como de costume, ignorei o comentário da Marcela, e só me concentrei em chegar mais rápido na sala de aula. Só que Isaque aparece no caminho e segura o meu braço.
— O que foi aquilo? — Ele perguntou olhando para a pequena multidão que ainda estava no mesmo lugar.
— Nada. Era só eu sendo otária mais uma vez. Preciso aprender que nem todo mundo que eu quero ajudar quer a minha ajuda. — Solto um suspiro pesado.
— Você está bem? — Zac olha nos meus olhos e apenas confirmo com a cabeça. — Desculpe, May. Eu não devia ter falado seu nome.
— Não se desculpe por falar a verdade, Isaque. Eu não me esconderia de qualquer forma. Eu só estou de saco cheio dessas garotas que não tem amor próprio e acham que eu sou como elas, que fico mendigando a sua atenção.
— Você nunca precisou mendigar nada, May. Eu amo você desde sempre. — Zac me oferece um dos seus sorrisos de lado que fazem as garotas suspirarem. Para mim, é apenas o sorriso que demonstra que ele está se divertindo com o que disse e pensou.
— Eu também amo você, Zac. Você sabe. Mas não é por isso que não mendigo amor, é porque eu tenho o amor de Deus.
— Eu sei, eu sei. Nunca me atreveria a chegar aos pés dEle. — Ele sorri de verdade dessa vez. — Aliás, eu desmarquei com a Nathi muito em cima da hora, por isso que não fui à igreja.
— Tudo bem, você pode ir na semana que vem. — Sorrio para ele também. — Agora deixa eu caçar a Letícia e o Evandro, preciso dar um abraço nele de novo.
— De novo? Eu perdi alguma coisa, mocinha? — Zac ergue sua sobrancelha esquerda. Se tem uma coisa que ele sente é ciúme.
— Ontem ele foi comigo e com a Letícia para a igreja. Aceitou Jesus e estou muito feliz por isso. — Explico.
— Ah, que legal. Então eu também fico feliz. — Zac sorri de novo, ele sabe o quanto isso é importante para mim.
— Foi incrível, Zac. Você devia ter visto. E Deus é tão bom que ainda cruzou o caminho dele com o da minha mãe e ela ofereceu um trabalho para ele na galeria. — Conto, empolgada.
— Não sabia que o Evandro gostava do mundo das artes.
— Eu também não. Ontem ele estava contando pra gente e disse que é um grande fã do trabalho do meu pai.
— É mesmo? — Zac cruza os braços. — Vou ficar de olho nesse cara de agora em diante. — Isso me faz rir.
— Para de palhaçada. Ele é só meu amigo.
— Acho bom mesmo. Você é muito nova para namorar. — Isso me faz rir ainda mais.
— Claro, até você porque não beija um monte de garotas da minha idade por aí... — Dessa vez quem cruza os braços sou eu.
— Você não é qualquer garota. Você é a minha May. E eu prometi ao seu pai que cuidaria de você e é isso que vou fazer até o fim da minha vida. — Ele coloca a mão sobre o coração e faz uma cara bem séria. Eu gargalho.
— É claro, meu cavalheiro. Mas pode ficar despreocupado que a última coisa que ocupa a minha cabeça são relacionamentos.
— Continue assim.
— Isaque, você não é o meu pai. Nunca se esqueça disso.
— Eu sei, May. Eu sei.
Por um momento a gente compartilha um momento de tristeza. Um daqueles momentos em que a saudade aperta com força o coração. Isaque também era muito ligado ao meu pai. Eles sempre estavam juntos desenhando alguma coisa, assim como era comigo, meu pai também incentivava o talento artístico do meu amigo. Um dos motivos do seu Leandro não gostar do meu pai também era que o Zac deixava claro a sua preferência pelo meu pai e um dia ele até chegou a dizer que se pudesse trocaria a paternidade. Meu pai sempre o alertava para não pensar assim e que devemos honrar nossos pais, mas as atitudes do seu Leandro faziam todo mundo entender o porquê disso. Quando meu pai morreu, Zac e eu ficamos horas abraçados, lamentando juntos a perda do homem maravilhoso que era um pilar em nossas vidas. Pelo tempo que eu me senti sem chão, Isaque estava sempre lá para me carregar no colo se fosse preciso. Assim como eu estava lá por ele.
Abano minha cabeça rapidamente para afastar os pensamentos tristes e olho para frente. Avisto Letícia e Evandro.
— Achei eles, deixa eu ir. — Já estava quase passando pelo Zac quando ele pega meu braço mais uma vez.
— Sério, estou de olho nele. — Ele disse bem sério dessa vez. Eu sorrio para ele e me solto do seu aperto.
— Fica tranquilo, Chocolate. — Chamo pelo apelido que dei para ele na infância, quando ele disse que meu cabelo tinha cor de bolo de cenoura e eu logo disse que ele dele era calda de chocolate então. — Minha vida pertence a Deus, Ele é quem cuida de tudo. — Dito isso, afasto-me e vou de encontro aos meus amigos.
•••
— Amiga! — Letícia me puxa antes mesmo de eu terminar meu abraço com o Evandro. — Que história é essa da Nathalia gritando com você no portão da escola?
— Cara, como você já sabe disso? — Questiono e me direciono à sala de aula.
— Marcela está espalhando para todo mundo que aparece em seu caminho que Nathalia tirou satisfação com você no portão do colégio porque você é uma cínica que gosta do Isaque e finge ser amiga das garotas pra afastá-las dele. — Evandro fala e minha boca se abre. — Palavras dela, não minhas.
— Essa Marcela não tem o que fazer na vida, só pode! — Cruzo os braços indignada com essa garota. Já estamos na sala de aula e nem sinal dela.
—Todo mundo sabe que ela é a fim do Zac desde o Fundamental e ele nunca deu moral para ela. Só ficaram e ponto. — Letícia está sentada ao meu lado e Evandro atrás de nós. Felipe está ao seu lado.
— O Zac não dá moral pra ninguém, Letícia.
— Ele dá moral pra você. — Evandro diz.
— Vocês sabem que comigo é diferente. A gente cresceu junto. — Explico o óbvio.
— É, mas ele sempre deixou bem claro que qualquer cara que tentar algo com você, morre. — Felipe participa da conversa, o que me surpreende já que ele é bem quieto. Seu comentário me faz rir.
— Isaque tem um instinto protetor aflorado demais. Ele leva à sério a promessa que fez ao meu pai de cuidar de mim.
— Não sei se isso tem a ver só com a promessa não, amiga. — Letícia comenta e logo sorri. Ela não desiste...
— Tá bom, gente. Já deu. Vamos mudar de assunto?
Viro-me para frente e penso em apenas ficar quieta e esperar que a aula comece. Mas Marcela surge na sala e uma algazarra vem junto com ela.
— Eu falei pra vocês que essa garota-leão é uma sonsa. Sempre soube que ela e caidinha pelo Isaque e nunca assume porque sabe que ele tem bom gosto. — Marcela gargalha com as párias que ela chama de amigas. Eu sei que ela está falando alto o suficiente para que eu possa ouvir. Começo a ignora-la como sempre faço. — Acho que ela devia estar na selva com os outros selvagens, talvez os animais a deixem pintá-los e quem sabe faça um pouco de sucesso como o pai. — Agora ela foi longe demais.
Levanto-me do meu lugar e chego bem perto dela.
— Nunca mais ouse pensar em falar do meu pai, está ouvindo? — Tento controlar a raiva que me sobe, mas sei que minha respiração está bem descontrolada.
— O que foi, selvagem? Vai me atacar agora? — Marcela debocha.
Sinto a mão da Letícia em meu braço. Respiro profundamente pensando na mansidão de Jesus e começo a voltar para o meu lugar.
— Isso mesmo. Saiba que, mesmo sendo um leão, nem mesmo numa selva você teria qualquer coroa, Mayão. — Marcela fala e sinto os respingos do seu veneno em mim.
Já basta!
Viro-me ignorando os protestos da Letícia e volto a me aproximar da víbora. Ela se encolhe e ergue as mãos em proteção, como se esperasse uma resposta violenta vinda de mim. Nessas horas que o ditado "Deus não dá asas a cobra" se encaixa perfeitamente no fato de eu não saber manusear o arco e flecha da Merida.
— Preste atenção, Marcela eu não vou repetir e espero que seja o suficiente para que nunca mais queira se meter comigo. — Começo a dizer sem alterar meu tom de voz ou me aproximar dela. — Nada do que você fizer ou falar vai me atingir porque, diferente de você, eu sou feliz com quem eu sou e não preciso mendigar a atenção de ninguém. Eu não sei qual é o seu verdadeiro problema comigo, mas espero que você saiba que eu não tenho culpa se o Isaque disse claramente pra você que vocês não têm nada mesmo depois de declarar seu amor para ele. — Isso choca algumas pessoas, afinal, é um assunto "proibido" de se falar, ela mesma o proibiu. — Eu não tenho culpa se você precisa me rebaixar para se sentir importante, não faça isso porque, além de não me rebaixar para lugar nenhum, tudo isso é bem ridículo para você. E, principalmente, eu não tenho culpa se você é frustrada porque uma mulher-macho, selvagem e descabelada como eu está na sua frente nessa competição ridícula que você mesma criou sobre as notas desse colégio. Sério, arranja outra pessoa para tentar infernizar porque comigo você não vai conseguir, eu já enfrentei demônios que dão medo de verdade, uma adolescente carente como você não me assusta, apenas compadece o meu coração.
Sem dizer mais nada, apenas pego as minhas coisas e saio da sala de aula. Esbarro com o professor, mas não me preocupo em explicar qualquer coisa, muito menos dou ouvidos para o que ele diz. Nesse momento, eu só preciso ir para um lugar. O meu lugar.
•••
— Soube que você matou aula hoje. — Isaque aparece na soleira da porta, mas continuo concentrada na minha pintura e não me viro para ele. — Não acha que deveria convidar seu melhor amigo já que queria fugir da escola e vir para cá?
— Acho que eu só queria sair da escola. — Digo sem tirar os olhos da tela. Eu nem sei direito o que estou pintando, é apenas um desenho abstrato e bem colorido.
— Você está bem, May? — Zac já está sentando ao meu lado quando pergunta isso.
— Estou.
— Maybelle... — Odeio quando ele me chama pelo nome assim. Odeio quando qualquer pessoa me chama pelo nome. É sempre Belle. Só Belle. E May para o Isaque.
— Eu só estou cansada, Zac. Só isso. — Suspiro e solto o pincel.
— Cansada de quê? — Ele me vira para ele.
— Cansada de ser a Mayão. Cansada de ser chacota. Cansada de ser a melhor amiga do cara popular. Cansada de ser aquela que todo mundo acha que está apaixonada por você e suplicando pelo seu amor.
— May, você que não é nada disso. Eu já falei pra pararem com essa droga de Mayão. — Zac diz com raiva. Ele odeia esse apelido tosco que me deram tanto quanto eu. Talvez até mais.
— Eu sei. Você sabe. Mas estou cansada de ouvir todos os dias a mesma coisa.
— May, olha pra mim. — Levanto minha cabeça e deixo meu olhar na altura do seu. — Você é incrível. Incrível demais para qualquer idiota deixá-la para baixo.
— Não estou "pra baixo", Zac. Só cansada de tanta infantilidade.
— Então para. Esquece por um tempo do quão madura você é e seja apenas uma garota de 15 anos. Você tem muito para viver ainda, não desperdice sua adolescência querendo ser adulta agora.
Suas palavras me atingem. Eu sei que desde que meu pai morreu eu tenho me isolado para muitas coisas. Tenho tentado crescer um pouco todos os dias porque eu não suporto o fato de ser a garotinha do papai sem meu pai por perto. Eu gosto de jogar bola, praticar bastante esportes e me sujar toda de tinta. Gosto do meu cabelo armado e meio bagunçado porque meu pai sempre me dizia que eu parecia uma guerreira Viking e que nunca deveria deixar que me fizessem crer no contrário. Sei que minha força não está no meu cabelo ou no meu jeito meio bruto, porém, pensar em baixar a guarda faz com que a dor de ter perdido o meu pai venha com força. Eu sinto tanta falta dele que chega a doer no coração.
— Vem cá. — Isaque me puxa para um abraço e só então percebo que estou chorando. — Eu amo você, May. Do jeito que você é. E sempre amarei, grande leoa. — Ele me chama da forma que meu pai me chamava e isso me faz afastá-lo refazer uma careta.
— Não me chame assim, sabe que eu não gosto mais. — Seco as lágrimas imediatamente e me recomponho.
— Pois deveria. Seu pai tinha toda razão ao te comparar com uma leoa. Nunca vi alguém tão forte e determinada como você.
— É, mas aqueles idiotas do colégio adoram me comparar com um leão. Leão, não leoa. — Reviro os olhos.
— Como você disse, eles são idiotas. — Zac sorri para mim. — Você não deveria deixar de gostar de um animal tão lindo quanto o leão por causa deles.
— Eu não deixei de gostar. Só fiquei de saco cheio com todas as comparações.
— Não deveria. Você sabe que eu acho o seu cabelo incrível, né? — Zac se aproxima e acaricia o meu cabelo. — Gosto do jeito que o deixa solto, natural. Que se danem os imbecis que não sabem apreciar o que é bonito, a arte foi feita para ser admirada com o coração.
As palavras do Isaque me tocam e sua mão continua a carinhar o meu cabelo. Ela desliza até a minha bochecha e seu olhar fica intenso demais.
Ele está olhando para a minha boca?
— O que você está fazendo, Isaque? — Questiono, assustada com a sua aproximação.
— Eu não faço ideia, May. Eu realmente não faço ideia. — Ele pisca diversas vezes e se levanta, sai muito depressa do estúdio e me deixa bastante confusa, mais do que já estava.
O que acabou de acontecer aqui?
"O coração é a região do inesperado."
Machado de Assis
Oi meus amores!
Hoje é segunda é segunda é dia de capítulo! E eu tô sentindo que esse vai dar o que falar hahahahaha
O que acharam? Estão gostando? Comentem, votem, brilhem.
Amo vocês, até o próximo! 🖤
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