Capítulo 30 - Delírios da madrugada
Foi uma noite difícil. A febre cedeu um pouco após o efeito do antitérmico. Mas durante a alta madrugada, a temperatura do corpo de Will subiu novamente. Passei horas fazendo compressas frias com uma toalha em sua cabeça.
_ Onde eles estão? _ Will sussurra.
A cabeça vira de um lado para o outro com os olhos fechados.
_ Meu Deus, ele está delirando. _ Comento baixinho.
Brutus ergue a cabeça em sinal de alerta.
_ Onde eles estão?! _ Dessa vez, o grito ecoa pelo quarto em silêncio.
O cão pula da cama assustado.
Will ergue um pouco o tronco. Seguro seus ombros suados.
Um choro desesperado brota do fundo do peito fazendo todo o corpo convulsionar.
_ Adam! Onde você está?! _ Will abre os olhos por alguns segundos ao gritar, mas volta a fechá-los.
Lágrimas escorrem pelos cantos dos olhos. Tento secar mesmo cega por minhas próprias lágrimas.
_ Calma, Will. _ Digo, ciente de que não está me ouvindo.
_ Mãe! Me perdoa! _ Will agora chora feito criança.
As mãos se fecham no lençol e o corpo se retorce na cama.
Meu coração se aperta no peito. Nesse momento, a dor de Will é também minha. Mas me sinto impotente, sem saber o que fazer.
Em algum momento da noite, ele se acalmou. A febre foi embora de vez e eu adormeci ao seu lado.
Acordo com uma fresta de luz incidindo em meu rosto. Abro os olhos devagar e observo a janela que dá vista para as montanhas.
Está claro lá fora e parou de nevar.
Olho para o lado onde Will esteve deitado. O lugar está vazio, sem sinais do travesseiro e do lençol.
O relógio da cômoda marca onze e vinte e cinco da manhã.
Levanto e saio do quarto à procura de Will. Desço a escada e antes de olhar nos outros cômodos da casa, vejo-o do lado de fora, na varanda.
Abro a proteção de tela da porta.
_ Você acordou. _ Ele se vira assim que piso na varanda.
Um arrepio atinge meu corpo coberto apenas pelo camisão que dormi. Cruzo os braços para proteger-me da brisa fria. Dou um chiado de reclamação.
Imediatamente, Will tira um dos casacos e coloca-o sobre meus ombros.
_ Não devia sair assim. _ Segura as golas da peça bem maior que o meu tamanho, puxando-me para perto.
Parece outra pessoa. Bem disposto como sempre. Os cabelos castanhos claros estão bagunçados de quem acabou de lavar. Os únicos sinais da noite passada são as leves olheiras embaixo dos olhos.
_ O que está fazendo aqui fora? Era para estar em repouso.
_ Já estou bem. Descansei o suficiente. _ Will repuxa um canto da boca, solta-me e se vira em direção à floresta em frente à cabana.
As mãos que seguravam o casaco agora apertam o cercado da varanda deixando os nós dos dedos esbranquiçados.
_ Já ia levar o café da manhã, mas preferi deixá-la dormir mais. Sei que deve ter sido uma noite difícil. _ As mandíbulas se apertam em sinal de tensão.
_ Não estou com fome ainda. Mas gostaria de conversar.
Ele está na defensiva. Deve lembrar de alguma coisa que disse.
Não sei por onde começar. Primeiro, o estado em que ficou ontem. Depois, o que ouvi enquanto estava febril. E ainda, o que está acontecendo entre nós?
Por incrível que pareça, o último tópico é o mais difícil de abordar. Estamos nos envolvendo rápido demais. E sempre que ficamos muito próximos tenho a impressão de que vou me consumir por inteiro.
Sei tão pouco sobre Will, mas parecemos um casal que acabou de acordar junto. Tudo o que fazemos nessa cabana está repleto de intimidade.
Está fugindo de meu controle. Não planejei nada disso quando vim para o Canadá. Queria apenas me afastar da exposição e das pessoas que me feriram. No entanto, acabei caindo no meio de outro furacão.
_ Não se preocupe. Foi só um resfriado. _ Will interpreta meu silêncio como aborrecimento por vê-lo doente.
_ Will, quem é Adam?
Ele congela. Vira de volta em minha direção. Mas mantém a cabeça abaixada.
_ Chamou por esse nome enquanto esteve com febre. _ Explico.
Quando concluo que não irá responder por conta dos segundos em silêncio, ele limpa a garganta com um pigarrear e ergue as pálpebras.
_ Era meu irmão caçula. Sinto muito se ouviu coisas que a assustaram. _ Sacode a cabeça reticente.
_ Não se importe com o que penso. Nem precisa falar se não quiser. Só queria que se cuidasse mais. Ontem disse que não se alimentou. Só bebeu um copo de whisky. As vezes dá impressão de que não tem apresso à vida. Precisa se perdoar, Will. Seja lá o que tenha acontecido, tem que se perdoar para se curar.
Ele me encara em silêncio. Os olhos castanhos esverdeados estão praticamente verdes e as pupilas dilatadas.
Sinto medo de ter ultrapassado algum limite novamente.
_ Desculpe se me intrometi e falei demais. _ Solto o ar de uma só vez.
Meu coração acelera.
_ E se eu quiser? _ Seu olhar parece obstinado.
_ Quiser o quê? _ Olho de um lado para o outro sentindo-me desconcertada.
_ Se quiser me importar com o que pensa a meu respeito.
_ Eu, eu... _ Gaguejo.
Abro os braços e os solto em seguida.
_ Desculpe. Não sei o que dizer. Nem sei o que estou sentindo. Está tudo confuso também para mim. Minha cabeça estava uma bagunça quando cheguei aqui.
Ele me interrompe enlaçando-me pela cintura e me puxando.
Imediatamente meu corpo reage. Apoio as mãos em seu peito firme.
_ Acho que já deixei claro que me importo. E muito. Não faz ideia de como foi difícil passar por cima do orgulho e do medo para voltar ao centro de Robson.
Respiro profundamente sentindo-me segura em seus braços.
_ Do quê tem medo, Will? _ Ergo a cabeça ao máximo para encará-lo.
_ De mim mesmo e do que dizem ao meu respeito. Medo de que estejam certos.
Will fecha os olhos e sacode a cabeça em negação.
_ Se fosse sensata não deveria ter voltado. Ou melhor, se eu não fosse tão egoísta, deveria ter a deixado partir.
_ Acontece que se não tivesse ido ao meu encontro, agora meu corpo poderia estar caído naquele beco escuro. _ Deixo minhas mãos deslizarem por seu peito até alcançarem sua nuca. Massageio o local.
Will fecha os olhos e estremece.
_ Passei a manhã feito um louco inventando atividades para liberar o estresse. Você disse que voltaria logo, mas acabou passando o dia inteiro fora. Achei que não voltaria mais. O pior é que sei que não tenho o direito de reivindicar nada. E isso me deixou muito puto.
Meu coração dá um salto no peito.
_ Tínhamos combinado de que me levaria à casa de meu tio, lembra? É claro que tinha a intenção de voltar. Além do mais, não partiria sem me despedir.
Encaramo-nos por longos segundos. Até que os olhos de Will se concentram em minha boca. A cabeça começa a descer em minha direção.
_ Vamos combinar uma coisa? _ Fala quase tocando meus lábios. A testa encostada na minha.
_ O quê? _ Fecho os olhos e puxo o ar frio com força.
_ Não vamos falar sobre despedidas agora. _ Sussurra com a voz rouca.
Todo meu corpo se arrepia.
_ Está bem. _ Abro os olhos e o encaro.
Ele tem a testa franzida em sinal de relutância. Will parece travar uma batalha interna.
_ Um dia de cada vez é o bastante. A única coisa que quero nesse instante é ficar assim com você. Deixe-me ser seu refúgio. As mãos sobem por minhas costas.
Pontos em brasa parecem se acender por todo meu corpo.
Apesar das cicatrizes que funcionaram como um muro que afastou as pessoas nos últimos anos, de alguma forma, Will permitiu que eu entrasse em sua vida por uma pequena brecha. E isso me comove depois de tudo que ouvi de Ava.
Minhas mãos deslizam por seus braços reproduzindo as ondulações da musculatura até se posicionarem nos ombros fortes.
Ele flexiona os joelhos e me ergue mantendo-me grudada em seu corpo. As mãos enveredam por baixo da camisa.
Ele arfa de satisfação ao descobrir que estou sem sutiã. Massageia meus seios com os dedos.
_ O que estamos fazendo? Isso é loucura. _ Suspiro jogando a cabeça para trás...
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