66. Ela superou?
28 de outubro
Querido Diário,
Sei que essa frase soa meio ridícula para uma pessoa da minha idade e começar um diário quase no final do ano não é algo comum também, mas fazer o quê? Fui coagida a isso.
A Dra Lisa Stones, minha mais nova terapeuta, disso que isso me faria bem.
Ela pediu-me que pusesse no papel tudo que sinto para que possamos trabalhar nisso durante as sessões.
Pois bem, sinto raiva, muita raiva. De mim, do que fiz comigo mesma e de Evan, por ter sempre que aparecer em meus pensamentos e sonhos mais obscuros.
Tentei me matar uma vez, isso é fato, e agora todos acham que me drogar foi outra forma descabida que encontrei para cometer suicídio.
Isso não é verdade. A dois meses atrás, quando ingeri, sem cuidado algum, drogas e bebidas alcoólicas naquela boate, minha única intenção era esquecer.
Queria parar, ao menos por algumas horas, de pensar nele. Ainda não sei se o que vi, naquela noite, foi real, ou apenas produto da minha imaginação, mas o fato é que ele se foi e mesmo que eu o ame, preciso tirá-lo de minha mente.
Quando nós conhecemos, eu sabia que, de algum modo, ele mudaria minha vida para sempre. O que eu não sabia, é que seria dessa maneira tão drástica.
Passamos por coisas difíceis, eu me envolvi com pessoas que só queriam me usar e Evan sempre esteve lá, me tirando de situações que eu, por ingenuidade, acabava me metendo.
Eu me sentia segura por saber que ele estaria sempre por perto e mesmo que muitas vezes ele tenha me magoado, seja com palavras, ou com atitudes impensadas, eu o queria a cada dia mais e mais.
Mas quando ele me abandonou, me deixou ir, pensando que era a pior pessoa do mundo, somado aquela tentativa de estupro, destruíram o pouco de dignidade que me restava.
No final, não via outra solução a não ser acabar com tudo de uma vez.
O que se sucedeu depois disso foi uma série de tentativas frustradas de fazer com que as coisas finalmente descem certo. Nem preciso dizer que só pioraram. Não é?
Me tornei autodestrutiva. Fui parar em lugares onde poderiam ter acontecido coisas horríveis comigo. Queria chamar a atenção dele a qualquer custo e acabei conseguindo. Nós voltamos e tivemos alguns meses bem felizes, mesmo que tivesse que esconder tudo dos meus pais, eu estava com ele e era isso que importava.
A morte de minha melhor amiga Olivia, deixou tudo ainda mais difícil de suportar e como se não bastasse, todos os amigos que eu julgava verdadeiros, me viraram as costas.
Busquei na frieza e na racionalidade um jeito de continuar sobrevivendo. Mas não adiantou nada. Não sei ser assim. Meu coração sempre me guiou em tudo e minhas escolhas sempre foram passionais.
Se fiz muita besteira quando era mais jovem? Com certeza! E a última nem faz tanto tempo assim.
Passei meu aniversário de dezoito anos em uma cama de hospital, entubada e lutando para sobreviver. Não quero passar por isso novamente.
As pessoas não acreditam, nem mesmo meus pais, mas Emily Marshall renasceu uma nova mulher. sei de meus objetivos e vou em busca deles, custe o que custar.
Está na hora de crescer!
5 anos depois
Naquela fatídica noite, quando os olhos de Emily encontraram os de Evan, em meio a multidão, suas histórias tomaram rumos totalmente diferente.
Ela passou por momentos difíceis, precisou da ajuda incondicional de sua família e de Alison, a única amiga que lhe restara. A overdose lhe acarretou sérios problemas respiratórios que ela lutou contra por muito tempo.
O hospital tornou-se sua casa, durante as férias em que ela queria tanto começar uma vida nova. Eram planos sem estabilidade emocional, sem a real certeza de que era aquilo que realmente queria.
Depois de finalmente sair daquele lugar, seus pais quiseram que ela desistisse da faculdade por algum tempo, que viajasse e não enchesse a cabeça com mais problemas, mas ela insistiu e, com a promessa de que procuraria um psicólogo, eles acabaram cedendo.
Lisa era uma profissional excelente, muito embora, Emily ouvesse lutado contra a terapia, com todas as suas forças e por um longo período, ela insistiu em fazê-la ver que um diário seria uma ótima opção para que ela expusesse seus sentimentos mais obscuros e, além do mais, elas poderiam usá-lo para debater, já que ela se negava a falar.
Foram tempos difíceis, mas a ajuda dela havia sido crucial para sua reabilitação e hoje, mesmo longe de Lisa, as duas ainda tinham momentos bons de conversa, ao telefone, além disso, a mulher havia lhe indicado um ótimo colega e amigo, para ajudá-la a continuar sua recuperação.
Dr Walter Fisher era um homem de meia idade, extremamente competente e a deixava a vontade em sua rotina de escrever em diários. Os dois juntos, analisavam os pontos positivos e negativos de tudo que Emily escrevia ali e tinham sessões regulares todas as quintas-feiras.
Ele sempre fazia questão de exaltar a melhora da menina e insistia que ela não deveria desistir do sonho de seguir a profissão, muito embora, em seu interior, a ideia de optar por outra área sempre lhe parecia a melhor escolha a se fazer.
Achava que não era e nem nunca seria estável o suficiente para tal tarefa e que não poderia ajudar os outros, se nem mesmo consiguiu ajudar a si mesma.
Com o passar do tempo, a ideia já lhe parecia um pouco mais viável, já que, depois de uma exaustiva briga diária contra a depressão e a falta de amor próprio, tudo se mantinha bem mais tranquilo e emocionalmente estável.
Nova York era seu recomeço e nada que ocorrera em seu passado, foi lhe acompanhando nessa viagem sem volta. Dali pra frente, o novo seria a única possibilidade.
Antes de viajar, Emily decidiu também mudar seu visual. Cortou os longos cabelos na altura dos ombros, e os tingiu com mechas bem marcadas, o que deu a ela um ar mais despojado e maduro.
Quando chegou a nova cidade, não tinha amigos e a única pessoa com quem tinha uma convivência, mesmo que não tão próxima, era sua colega de dormitório.
Estava morando no campus da universidade junto a Clare Tompson, uma pequena loira de olhos azuis, que lembravam bastante os de Olivia e temperamento calmo, característica oposta a antiga amiga.
Ela havia sido uma ótima companhia para seus dias de tristeza e monotonia e agora, vivendo ao lado dela por longos anos, podia dizer com certeza, que ela era sua melhor amiga e confidente.
Como havia lhe dito, no dia de sua formatura, Lucy também seguira os paços de Emily e vez o outra, as duas se esbarravam pelo campus de Columbia.
O rancor pelo que a ruiva havia lhe dito anos atrás foi se desimando e a amizade retornando aos poucos, como a condição, imposta por Emily, de que Lucy nunca falasse sobre Bradley e Dylan.
Queria deixar todos os que, de algum modo, desencadearam sua crise, no passado, mortos e enterrados. Hoje já nem vinham mais a sua mente.
No curso preparatório para a faculdade, Emily conheceu Matthew James Clarke. Um jovem bem apessoado e de boa índole. Era corpulento, alto, com cabelos em um tom escuro e belos olhos verdes.
Os dois se esbarraram saindo de uma das aulas e, diferente de todos os seus relacionamentos anteriores, tudo havia acontecido de maneira calma. Não foi amor a primeira vista, daqueles que causam impacto e parecem lhe consumir por dentro, mas Também não começou em briga e tensão.
De início se tornaram amigos, estudavam juntos, trocavam experiência e ela depositava, aos pouco, sua confiança nele. Contou sobre seus problemas e traumas, enquanto ele foi um ótimo ouvinte.
Matthew, ou Matt, como a jovem o chamava, era atleta e pretendia se formar cirurgião geral. Tinha um bom coração, gostava de ajudar ao próximo e a tratava feito uma verdadeira princesa.
O garoto vinha de uma família inglesa rica e apesar de nunca terem o forçado a nada, seus pais o incentivaram desde jovem a optar pela medicina, já que ambos trabalhavam no ramo. Seu pai, James Brandon Clarke era oncologista e a mãe, Kristen Clarke fisioterapeuta. Eram pessoas bondosas e muito gentis.
Matthew decidiu cursar faculdade nos Estados Unidos por ser um lugar de grandes pesquisar medicinais, por amar Nova York e sonhar viver na cidade. O rapaz era um grande aventureiro, gostava de viajar, conhecer novos países e suas culturas era seu maior hobbie.
Namoraram por um extenso período, mas ao final do último ano de curso, Emily havia levado Matthew para conhecer sua família na Califórnia e o mesmo foi feito para que ela conhecesse a sua, na Inglaterra.
Logo de cara, todos se deram bem e o namoro se tornava cada vez mais sério e sólido. Ela não tinha certeza se o amava, mas nesses quase cinco anos em que estiveram lado a lado, compartilhando pensamentos, sonhos e projetos, ela tinha certeza de que ele era o homem certo e que deveriam finalmente firmar raízes.
Certa noite, quando a menina estava na biblioteca, terminando seu relatório para a aula no dia seguinte, Matthew, ajudado por suas amigas Lucy e Claire, lhe preparava uma surpresa assustadoramente linda.
Emily havia combinado de ir ao cinema com as garotas, mas quando adentrou seu dormitório, notou que o mesmo se encontrava a meia luz, com rosas vermelhas espalhadas por todo o cômodo e uma mesa posta, com um castiçal de velas ao centro e um belo jantar a sua espera.
Tudo estava lindo e ela ficou encantada com a delicadeza e o romantismo de seu atual namorado. Matthew era realmente um sonho, parecia se esforçar ao máximo para vê-la feliz e isso era o que mais importava.
Ele pediu que ela senta-se e as garotas sumiram quase que como em um passe de mágica, os deixando a sós.
Após saborearem um belo prato de Spaghetti ao molho pesto, acompanhado de um bom vinho tinto leve e uma conversa extremamente agradável, a noite se encaminhava para o final, mas as surpresas para Emily, ainda não haviam acabado.
Com ela ainda sentada a sua frente, Matthew apoiou o joelho esquerdo no assoalho e puxou de seu bolso uma pequena caixinha, forrada em veludo vermelho e que continha um lindo anel de ouro branco, cravejado de diamantes. Abriu-a diante do olhar curioso da jovem e proferiu as palavras: Quer casar comigo?
Seus olhos encheram-se de lágrimas, ela esticou a mão para que ele lhe pusesse o anel e respondeu ao pedido com um sonoro "Sim!". Eles então selaram aquele lindo momento com um beijo carregado de carinho e afeto.
Depois daquela noite e do pedido feito, Emily só sabia exibir sua linda jóia pelos corredores da universidade, orgulhosa por ter ao seu lado, um dos homens mais belos e cobiçado de lá.
O apoio incondicional de ambas as famílias, fazia Emily ter ainda mais certeza do que queria para seu futuro. O rapaz fazia questão de incluí-la em todos os seus planos, tanto presentes como futuros e ela, por sua vez, fazia o mesmo.
Matthew morava em um apartamento mantido por seus pais e eles passavam a maior parte do tempo que tinham livre entre filmes e séries naquele que era o refúgio das aulas.
Passeavam a noite, de mãos dadas, por aquela linda cidade e sonhavam em constituir família no estado considerado a " grande maçã ".
Emily nunca havia pensado em viver longe dos seus pais, mas após aqueles anos de afastamento, pode perceber que Los Angeles não ficava tão inviável para visitas e que Nova York era mesmo seu lar.
Mais alguns anos de faculdade e o noivado viraria casamento. Matthew e ela iriam começar suas respectivas residências médicas, Emily deixaria o campus da faculdade e os dois passariam a viver juntos em um canto só deles. Talvez até mesmo no apartamento onde hoje, ele vivia só.
Era a vida que queria ter, o sonho de qualquer mulher. Teria uma carreira profissional estável, fazendo o que ama, com um homem tão atencioso e romântico ao lado. Depois de tantos erros no passado, hoje ela podia dizer com convicção que, para ser feliz não é preciso ter uma vida perfeita, mas sim reconhecer que vale a pena viver apesar de todos os problemas e perdas.
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