65. Promessa sofrida

Evan acordou em um salto, com batidas incessantes em sua porta, no quarto de hotel. Ele e Megan haviam optado por quartos separados, pois sem que Evan soubesse, ela e Ian já estavam saindo a alguns dias e toda aquela viagem não passava de uma armação para tentar aproximá-lo de Emily novamente.

Deixou a cama e abriu a porta, vestindo apenas uma bermuda praiana verde água e deparou-se com Megan. A menina vestia um biquíni cor de rosa e um short jeans. Usava sandálias de borracha e seu cabelo preso em um rabo de cavalo.

- Bora pra praia?

- Megan, são 8hs da manhã, dá um tempo, por favor - esfregava os olhos tentando despertar por completo - Férias foram feitas para descansar e não para acordar mais cedo do que em dia de trabalho.

- Você é muito preguiçoso - Megan passou pela porta, abrindo as persianas e dando ao sol espaço para adentrar o quarto - O dia está lindo, o sol brilhando e você quer ficar enfurnado nesse quarto o dia todo?

Evan bufou rendido - Está bem, vou vestir uma camiseta e descemos juntos para o café, depois podemos dar um mergulho no mar.

Foi até sua mala e retirou de lá uma camiseta branca lisa. Enquanto vestia, passou a mão em seu aparelho celular que repousava sobre um criado mudo desde que chegara da boate, na noite anterior.

Na volta pra casa, Megan e ele discutiram por conta do ocorrido na festa e ao retornarem para o hotel, ele não estava se sentindo bem, então apenas jogou-se sobre a cama e obrigou-se a dormir. Não conseguia parar de pensar em Emily e naquele beijo que vira. Realmente estaria tudo acabado entre eles, ou Megan estava certa e o homem com ela, era apenas uma válvula de escape para esquecê-lo?

Isso agora não importava mais. A bastante tempo não deveria importar, pois no momento em que ela escolheu ficar com Dylan, ele a havia dado um ultimato. Se optasse pelo outro, seria o fim para eles.

Quando finalmente encontrou suas chaves, Evan as pôs dentro do bolso e parou a porta para conferir o celular. Haviam dezenas de chamadas não atendidas, realizadas por um número bem conhecido.

- Emily me ligou muitas vezes ontem a noite - disse ele, com o olhar chamejante que denotava paixão.

- Ela deve ter te visto - o semblante de Megan se iluminou com a hipótese de seu plano com Ian ter dado certo - Eu disse que aquele cara com ela era só fachada - sorriu vitoriosa.

- Você e Ian não tinham o direito de me enganar para vir até aqui - suas palavras soaram falsas, pois a felicidade estampada no rosto dele era evidente - Vou ligar pra ela. Talvez dê tempo de conversarmos e voltarmos a ser o que éramos antes de todas as confusões.

Megan abriu-lhe um sorriso largo em resposta.

Evan discou os números e no terceiro toque, uma voz incomum e chorosa atendeu - Celular da Emily!

- Quem está falando? - Evan indagou.

- Sou Alison, amiga dela e se o identificador de chamadas estiver certo, você deve ser Evan. Não é? - disse a loira em um tom ríspido.

Evan assentiu confuso e ela esbravejou - Emily teve uma overdose e a culpa disso é toda sua.

O terror transformou sua face e ele teve que lutar para se manter de pé, tamanho o impacto que aquela notícia lhe causou - O que? Onde ela está? Preciso vê-la!

Alison suspirou profundamente. Embora sua vontade fosse de desligar, sabia que não podia negar a ele o benefício da dúvida - Ela está no Rehab Medical Center.

- Estou indo para aí - Evan pegou suas chaves de sobre o balcão e encaminhou-se para a porta, passando por Megan, que o seguiu sem nada entender - Alison - chamou a atenção da jovem que estava prestes a desligar o telefone - Como ela está?

- Muito mal.

Evan finalizou a ligação e bateu a porta com força, deixando o quarto transtornado. Aquilo não podia estar acontecendo, não de novo. A última vez que Emily havia tentado se matar, seu mundo parecia ter desabado e agora, mesmo distantes, a dor era ainda pior. O medo de perdê-la para sempre era tudo que tinha em mente.

- Evan, dá pra você parar um segundo e me dizer o que diabos aconteceu? - indagou Megan.

Ele apertou os botões chamando o elevador, mas mantinha o silêncio. Lágrimas rolavam por sua face e ele parecia não saber o que fazer.

Megan desceu com ele pelo elevador, até o estacionamento. Notou que as mãos do rapaz tremiam e o choro não cessava.

- Nananinanão - ela o impediu de abrir a porta pelo lado do motorista - Não vai dirigir assim. Se não quer me dizer o que ouve, pelo menos me diga para onde estamos indo e eu dirijo.

Ele deu meia volta e adentrou o carro pelo outro lado - Hospital Rehab Medical Center.

- Hospital? - ela arregalou os olhos - O que ouve?

- Só dirija, Megan!

Ela então saiu do estacionamento e respeitando a vontade dele, dirigiu em silêncio até o local que ele lhe informara. Chegando lá, Megan preferiu ficar no carro. Evan correu em direção a porta de entrada, parando na recepção e dando o nome de Emily Marshall a secretária alí presente.

A moça lhe indicou que a jovem estava em uma ala própria para pessoas com intoxicação e problemas envolvendo o uso de drogas.

Chegando a sala de espera, deparou-se com os pais da menina já presentes no local. Sentada em uma poltrona de couro preta, estava Elizabeth. A mulher se manteve abraçada a outra mais velha, de semelhança nítida. Ao lado dela, uma menina de cabelos longos e loiros e semblante choroso. Bruce estava de pé, ao lado de uma enorme janela de vidro.

Ao vê-lo, o homem fez menção de dizer algo, mas por algum motivo não conseguiu. Evan caminho até ele. Seu semblante abatido e as lágrimas aparentes, eram genuínos.

Alison levantou-se e antes que Evan chegasse até Bruce, ela o puxou pelo braço.

- Ele está em choque. É melhor não... - a menina fez uma pausa em suas palavras e o puxou para um canto da pequena sala de espera - Sou Alison. Nos falamos pelo telefone.

Evan apenas sinalizou que sim, sabia quem ela era.

- Os médicos disseram que ela está com falência respiratória, está sendo atendida na unidade de tratamento intensivo e respirando com ajuda de aparelhos.

- Meu Deus! - Evan levou as mãos até a cabeça e não conseguia acreditar no que a menina lhe contara - O que aconteceu ontem a noite? Como terminou dessa forma?

Alison enxugou as lágrimas, jogou a cabeça para trás e pôs o cabelo atrás de sua orelha, tentando acalmar-se - Ela viu você. Não sei o que deu nela, misturou drogas com álcool e quando eu cheguei até ela, falava coisas desconexas, tirando a roupa, feito uma maluca.

Evan baixou o olhar. Sabia que vê-lo, bem poderia ter ocasionado aquela reação nela. Emily era uma jovem sensível e extremamente passional, seus sentimentos por ele continuavam iguais e isso, muitas vezes, a tirava de si. Eram mesmo destrutivos um para o outro.

- Se quiser, pode vê-la através do vidro - a loira abraçava o próprio corpo.

Ele assentiu e Alison lhe indicou o corredor a direita de onde estavam. Assim que Evan a viu, sentiu cada músculo de seu corpo tensionar e as lágrimas voltando a cair, rolando por sua face.

" Desculpe-me por isso, amor! Isso é tudo culpa minha. Você merece alguém melhor. "

Evan proferiu as palavras, olhando-a inerte sobre a cama, com oxigênio sobre o rosto. O desespero parecia tomá-lo por completo. Apoiou as palmas das mãos e a cabeça sobre o vidro gélido, chorando compulsivamente.

Olhou para o teto tentando tirar forças do pouco equilíbrio que lhe restava e rogou a Deus:

" Eu me afasto dela. Não a procurarei jamais. Mas por favor, a deixe viver. Ela merece ser feliz. "

Seus olhos ardiam. A face queimava e sua mente parecia gritar a culpa o mais alto que podia. A sensação de impotência o deixava louco, queria poder dar-lhe a vida, mas apenas podia ficar ali, parado, vendo seu mundo esvaindo-se em uma cama hospitalar.

Voltou para a sala de espera e viu os pais da menina abraçados. Elizabeth apoiava sua cabeça no ombro do marido e chorava baixinho.

Ao vê-lo, a avó se aproximou, pegou-o pela mãos e tocou seu rosto com delicadeza - Não chore, meu jovem. Ela ficará bem, nossa menina é forte e guerreira.

Ele acenou positivamente com a cabeça, passando pela senhora e indo em direção aos genitores de Emily, ajoelhando-se a frente dos mesmos e derramando autênticas lágrimas de quem está devastado. Alison analisava todo o contexto de pé, ao lado da janela, onde Bruce se encontrava anteriormente.

- Desculpem-me senhor e senhora Marshall - sua cabeça baixou e o choro se tornou alto e ressonante - Eu sou um bosta e não a mereço, mas eu juro, daria minha vida pela dela.

- Não faça isso, garoto - Bruce tocou o ombro de Evan com firmeza - Nossa filha também tem sua parcela de culpa, mas talvez, a maior responsabilidade nisso, tenha sido nossa, por não notarmos o quão auto destrutiva ela estava se tornando.

Elizabeth apenas se manteve em silêncio, enquanto o marido consolava o jovem aturdido.

- Acho que seria melhor se eu fosse embora agora - Evan levantou-se e foi até Alison - Quando ela acordar - engoliu nervoso - se ela acordar, por favor, não deixe de me avisar, mas não diga a ela que estive aqui, nem naquela boate.

Alison consentiu visivelmente compadecida com a tristeza que abatia o semblante do rapaz e um pouco confusa com o pedido inusitado.

Evan deixou o hospital perturbado e adentrou o carro, onde Megan o esperava impaciente. Os olhos inchados e a fisionomia abatida dele, deixou a garota aflita.

- O que está acontecendo. Porque está assim? - quis saber ela.

Evan finalmente conseguiu contar a Megan o que havia acontecido com Emily após o encontro dos dois, na noite anterior.

O que ela já havia feito tempos atrás, explicava o medo insano que ele sentia em perdê-la de vez. As coisas que eles viveram, pareciam voltar em sua mente, pouco a pouco, como um turbilhão de pesadelos.

- Eu sou um babaca! - disse ele, ao final.

- Não, Evan, você não é! - Megan virou-se e o abraçou fraternalmente - Se não fosse por você e seu apoio, eu não estaria tão sã e provavelmente estaria presa, ou morta em um beco qualquer - a menina ergueu o rosto de Evan por entre suas mãos, o forçando a olhá-la nos olhos - Você é uma boa pessoa. Vocês dois fizeram escolhas erradas, mas não podem desistir de um amor tão puro e intenso como esse. Isso é raro.

- Esse sentimento é corrosivo - a face dura o impedia de demonstrar qualquer outra coisa, que não sofrimento - Eu a amo tanto que chega a doer e vê-la naquele estado, saber que foi por minha causa, está me matando aos poucos. Estou destruído, Megan.

- Não fale besteiras - ela o repreendeu - Amor é complicado sim, mas nunca cáustico. Você mesmo disse que tem medo da negativa, não faça o mesmo com ela, não deixe-a no escuro, sem saber o que você sente em seu coração. Entre naquele hospital e dê motivos para que ela lute.

Evan sorriu sem humor - Dúvido que os pais dela, principalmente a mãe, apóie nossa relação, depois de tudo e mesmo que um milagre aconteça, ela precisa de alguém que a proteja desse mundo frívolo e não um babaca que torna sua vida uma eterna montanha russa.

Megan tocou seu rosto novamente, limpando com o polegar, algumas gotículas que se agrupavam em sua face - Não faça isso com você. Tudo que fez foi pensando no que era certo, mas nós somos humanos, Evan, temos direito de errar. Não se culpe pelo que ela fez contra si mesma, mas fique ao lado dela. Essa é a melhor escolha a se fazer.

- Eu fiz uma promessa, Megan e pretendo cumpri-la.

O cenho franzido da menina indicava uma dúvida temerária - Que merda você fez dessa vez?

- Se Emily sair dessa, se ela se recuperar completamente, nunca mais irei procurá-la - ele parecia convicto em sua decisão - Ela merece ser feliz, ter uma relação tranquila e segura. Ao meu lado, ela só terá dor e sofrimento.

Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top