58. Malibu, aí vamos nós!
- É com distinto prazer que lhes apresento nossa oradora. Essa jovem que teve toda sua vida acadêmica formada conosco, é líder da equipe de atletismo, representante do Grêmio estudantil e agora, como todos vocês, irá trilhar caminhos árduos, mas com certeza nos dará orgulho de tê-la tido em nosso hall de alunos. Senhoras e senhores, Lucy Armstrong.
Todos aplaudiram, enquanto a ruiva, com porte atlético e extremamente elegante, subia ao palco. Estava impecável, em sua beca de formatura, com os olhos bem maquiados e os lábios em um tom rosado.
Cumprimentou o diretor, ajustou o microfone para que ficasse de sua altura e pigarreou, para que os aplausos e gritos cessassem, antes de começar seu discurso.
- Diretor Dawson, professores, colegas, familiares e amigos, sejam muito bem vindos. Enfim estaremos livres uns dos outros - toda a plateia riu dá brincadeira feita pela jovem e mais uma vez, aplaudiram-na.
Lucy prosseguiu - Sei que muitos de vocês marcaram no calendário essa data e passaram dias rezando para receber cartas ou e-mails de aceitações nas universidades escolhidas, assim como eu, mas agora que estamos aqui, prontos pra nos despedirmos, meu coração está apertado.
Bradley, sentada ao lado de seu mais novo namorado Dylan, chorava compulsivamente. O garoto também parecia bastante emocionado. Suas irmãs e seus pais estavam presentes na cerimônia e contentes pela união do recente casal.
Por outro lado, Emily estava impassível. Seu olhar, não denotava nenhum sentimento específico, embora, lá no fundo, estivesse feliz em ver Dylan completamente recuperado e junto de Bradley, afinal, ela realmente o amava e esteve ao lado dele em seus piores momentos.
Naquele instante, a única coisa que passava por sua cabeça, era que, logo após, o que ela julgava ser um circo dos horrores, acabasse, ela iria para casa, faria suas malas e passaria um tempo na casa de sua avó.
Essas férias não seriam como as outras. Não ficaria trancada naquele maldito quarto, lendo e relendo os mesmo livros, atordoada pela falta que Evan lhe fazia. Dessa vez ela iria aproveitar a praia, sair, conhecer pessoas novas e beijar todas as bocas que lhe desse vontade. A velha Emily, a que se importava, estava morta.
- Significa que hoje deixarei para trás professores que foram extremamente importante e que moldaram minha vida, colegas que batalharam ao meu lado e que também me ajudaram a crescer como pessoa e os meus amigos - os olhos de Lucy desviarem brevemente para Bradley e um franco sorriso transpareceu em seus lábios - Que me inspiraram a dar sempre o melhor de mim.
- Dedico também esse momento a Rebecca e Steve Armstrong, meus amados pais e meus alicerces. Sem eles, talvez eu não estivesse nesse palco discursando perante vocês.
O semblante choroso do casal, caracterizava todo o orgulho que sentiam da filha naquele momento.
- Pois é, aqui acaba as aulas, as provas, as broncas e noites em claro, mas saibam que logo tudo recomeça com um grau de dificuldade maior ainda. Daqui levaremos amizades sinceras, outras nem tanto...
As palavras de Lucy pareciam ter atingido Emily em cheio, pois sua face, antes sem emoção, lentamente fora ruborizando e ela, ajeitando-se em sua cadeira, tentava se recompor.
- Experiência, aprendizados, amores passageiros e outros que irão romper os portões dessa escola - Lucy secou rapidamente uma lágrima que escorria por seu rosto - Então, só posso deixar a todos vocês, o meu muito obrigada, uma boa sorte nessa nova jornada e se possível, nos vemos por aí!
Lucy deixou o palco, emocionada e com a sensação de dever cumprido. Olhou para Emily como se pedisse desculpas pela gafe que cometeu, mas a outra apenas deu de ombros, olhando para o diretor que voltava a seu posto.
- Então, sem mais delongas, eu tenho o prazer de lhes apresentar a turma de formandos da Venice High School. Adam Henderson, Alice Samantha Williams, Bradley Yang, Brooke Langdon, Beatrice Peterson, Dylan Foley...
Os nomes eram chamados em ordem alfabética pelo diretor e, um a um, os alunos recebiam seus diplomas e seguiam para as protocolares fotos com os amigos, família e professores.
- Emily Marshall - assim que o nome da jovem fora proferido por Dawson, ela ergueu-se de seu lugar, subiu ao palco, cumprimentou o diretor e os professores e pode ver seus pais, sua avó e sua tia a esperando do outro lado.
- Meus parabéns, querida - disse-lhe Elizabeth, puxando a jovem para um abraço. Após algumas fotos de Emily e sua família, primeiro com o fotógrafo contratado pela escola e depois por Elizabeth e sua máquina fotográfica Polaroid ultrapassada, a garota apenas queria entrar em seu carro, respirar fundo e deixar tudo aquilo para trás de um vez por todas.
- Onde vamos para comemorar? - Elizabeth indagou.
- Você escolhe! - acrescentou Bruce, a envolvendo em seu enlace.
Emily sorriu, soltando-se do pai e jogando seus braços sobre os ombros de Ellie e Rose - Se vocês não se importarem, gostaria de pedir uma pizza, ou qualquer outra coisa e quando a vovó e a tia Rose voltarem para casa, eu gostaria de levá-las, assim passo um tempo por lá.
- Mas, Emily... - Elizabeth tentou contraria-la.
- Nós adoraríamos uma carona, minha querida - Ellie impediu que a outra continuasse com sua negativa. Era nítido, para ela, que a neta precisava sair daquele lugar, respirar novos ares - Fiquei sabendo que ganhou um presente magnífico de seu pai.
Emily sorriu aliviada - Sim, vó, eu vim dirigindo, se quiser pode voltar comigo e avaliar se sou uma boa motorista.
- Um pouco afoita, mas ela tem potencial - Bruce zombou - Vamos então?
- Espere! - Rose afagou os cabelos da sobrinha - Não vai tirar fotos com seus amigos, Emily?
A garota engoliu nervoso. Aquela pergunta, mesmo que de forma involuntária, a feria como uma faca perfurando seu peito - Não tenho amigos que valham a pena, tia!
Os adultos se entreolharam com semblante tristonho. Sabiam o quão ruim era, naquela idade, viver sem amigos. Aquela história com Dylan e Bradley a tinha afetado muito e não havia nada a ser feito, se não deixá-la ir para longe de tudo alí.
- Está bem. Então vamos? - Bruce reforçou a pergunta - Farei hambúrgueres para comemorar.
- Adoro sua comida, pai! - Emily elogiou, sorridente.
- Como é que é? - Elizabeth e Ellie indagaram em uníssono.
Rose riu divertindo-se com a cena - Quero ver sair dessa agora, sobrinha!
Quando a jovem procurava as palavras certas para se explicar para as duas mulheres, sobre a comida de seu pai ser mais gordurosa e por isso mais agradável a seu paladar, uma sombra cobriu o sol que a atingia, fazendo-a dar de ombros para ver quem alí estava. Era Lucy.
- Podemos falar por um minuto?
O ar de dúvida pairava sobre a mente confusa de Emily - Sobre o que? Já não disse tudo que precisava durante seu discurso?
- É sobre isso que quero conversar - Lucy baixou o olhar, envergonhada - Quero pedir desculpas por minha infantilidade. Foi errado tomar as dores de Bradley, mesmo ela sendo minha melhor amiga, você também era. Bem... Espero que ainda seja.
A face de Emily ainda se mantinha dura - Aceito as desculpas, mas estou me mudando para Nova York logo após as férias e creio que não nos veremos mais.
- Qual universidade? - quis saber Lucy.
- Columbia!
- Não acredito nisso! - a ruiva sorriu instantaneamente - Também estou indo para lá.
- Ótimo! - o tom seco e ríspido de Emily era proposital, não queria levar nada daquela escola, muito menos pessoas pelas quais guardava alguma mágoa, como era o caso de Lucy. Esperava que sua vida em Nova York fosse completamente nova e diferente da que mantinha em Los Angeles - Agora, se me der licença, preciso ir.
- Filha, que tal tirar uma foto com sua amiga? - Elizabeth manuseava sua câmera - Pra por em seu quarto na faculdade.
- Mãe, ela não...
- Eu adoraria! - Lucy lançou um sorriso largo para a senhora também sorridente - Mas vou querer uma cópia.
- Sem problemas! - a mulher piscou para a garota.
Sem ter como sair daquele revés, Emily apenas posou ao lado da ruiva e esperou atenta aos cliques de sua mãe, enquanto mantinha um sorriso forçado nos lábios.
- Ficou ótima! - anunciou a mulher, caminhando até as meninas - Vejam?
Odiaria ter que admitir, mas a foto realmente havia ficado boa e Lucy lhe parecia ainda mais bela e esguia. Preferiu apenas concordar com um aceno de cabeça.
- Bem, não quero mais te atrapalhar - a garota alta manteve o sorriso entre os lábios, o que irritava Emily ainda mais - Desculpe novamente pelo que eu disse e espero que possamos nos ver em breve.
- Claro! - foi só o que saiu pela boca de Emily naquela instante.
A ruiva deu de ombros e afastou-se. Todos analisavam o semblante empedernido de Emily e buscavam entender o porquê de tanta repulsa.
- Por favor, vamos embora! - enfim ela pronunciou-se, quebrando o silêncio constrangedor.
Tia e avó a seguiram até seu carro. Emily deu partida e deixou o estacionamento da escola e em poucos minutos estava em casa. Não deu tempo de trocar sequer duas palavras com as mulheres, já que sua casa era próxima demais ao local que se encontravam antes.
Subiu as escadas, jogou suas coisas sobre a cama e seguiu para o banheiro. Tomou um banho relaxante, deixou a água correr por alguns minutos e pode sentir a tensão deixando seu corpo gradativamente.
Vestiu roupas confortáveis. Uma camisa larga e shorts de algodão, calçou chinelos e desceu até a sala. Seu pai preparava hambúrgueres no quintal, enquanto sua mãe, tia e avó, preparavam os complementos.
Jogou-se no sofá e pegou um livro para passar o tempo. Imersa na escrita, Emily conseguiu finalmente desligar-se das horríveis memórias daquele dia. Estar em sua própria formatura e sentir-se deslocada, era algo que ela não podia conceber. Nunca imaginou-se sem amigos e completamente só.
Após o almoço, Emily arrumou uma pequena mala com roupas leves e praianas. Vestiu-se com algumas peças que poderia aproveitar durante sua estadia com a avó e enfim estava na hora de deixar o ninho.
Seus pais não conseguiram esconder o desapontamento em não tê-la ao lado deles nas férias, afinal de contas, aqueles seriam os últimos meses em que teriam a filha por perto. A faculdade afastaria a menina deles e não seria nada fácil para que se acostumassem.
Por outro lado, sabiam o quanto morar em Los Angeles, somado a perda de Olivia e a briga com os novos amigos a tinha deixado sensibilizada e não queriam que ela tivesse outra crise e pensasse novamente em suicídio. Deixá-la ir era a melhor coisa a se fazer.
- Prometo que volto logo e poderemos ter algum tempo juntos, antes que eu vá para a faculdade - Emily abraçou a mãe com os olhos marejados - Papai vai cuidar de você e a vovó cuida de mim.
- E eu? - questionou Rose - Não sirvo mais pra nada. É?
- Que isso, tia - Emily jogou os braços sobre o ombro da mulher - Vamos jogar muito banco imobiliário. Prometo!
Bruce despediu-se da filha com um beijo na testa - Se cuide, querida e nos ligue assim que chegar lá.
- Pode deixar, pai!
A viagem até Malibu foi tranquila. Ouviram música, enquanto conversavam sobre os animais de estimação da avó, as reformas feitas na casa e a universidade e carreira que Emily teria ao final de seu curso.
Depois de muitas pesquisas e conversas com profissionais, a menina havia optado pela especialização na área de psicologia.
Sua experiência traumática de quase morte, após tomar aqueles comprimidos e tudo que passara durante aquela fase de sua vida, poderia ter sido evitada se ela tivesse procurado um médico.
A casa de sua avó estava mesmo linda, seu quarto igualmente. As paredes antes brancas e sem graça, agora eram de um tom rosa claro, uma de suas cores favoritas. Haviam prateleiras para todos os lado, onde rapidamente, Emily depositou seus livros favoritos e aqueles que pretendia ler durante as férias.
A cama agora era king Size e armário bem espaçoso. As cortinas brancas e o carpete rose pareciam novos, assim como as roupas de cama e toalhas. Quase dava para crer que sua avó havia feito tudo aquilo apenas para a sua vinda.
Emily deixou as mulheres a sós na cozinha, preparando o jantar e se recolheu ao quarto. Jogou-se sobre a cama e ligou o televisor que agora era preso em um suporte na parede.
Estava passando uma série qualquer, que não fora o suficiente para prender sua atenção. Sacou o celular, sobre a mesa de cabeceira e rolou a agenda em busca do nome da única amiga que tinha naquela cidade. Alison.
Ficou alguns segundos observando o nome e a foto da menina, tomando coragem para ligar. Não havia contado a ela o real motivo de ter ido embora sem se despedir e não tinha certeza de que a garota nada sabia sobre sua tentativa de acabar com a própria vida.
Deu um longo suspiro e pôs o telefone sobre o ouvido. Chamou apenas duas vezes e a voz aguda e estridente de Alison fez-se ouvir - Olha quem temos aqui. A amiga desaparecida deu sinal de vida?
- Oi pra você também, Ali! - Emily zombou - Quero que me diga qual é a boa de hoje.
- Está na cidade?
- Sim. Estou louca pra sair e começar minhas férias da melhor forma possível - Emily apoio o celular entre o ombro e a orelha, enquanto retirava suas roupas da mala - E claro que pensei na minha loira favorita pra me ajudar nessa.
- Quer vir comigo até uma boate hoje a noite? - Alison convidou - Vamos beber alguma coisa e dançar até a noite acabar.
- Se você esqueceu, ainda tenho 17, não posso entrar nesses lugares, muito menos beber.
Alison riu alto ao telefone - Quase esqueci que minha amiga é um bebê ainda. Relaxa que dou um jeito!
- Você é apenas três anos mais velha do que eu e em termos de maturidade, acho que eu ganho.
- Não preciso ser madura, eu moro em Malibu - a risada esganiçada da garota era por vezes engraçada - Aliás, eu fiz 21 na semana passada. Sou oficialmente maior de idade.
- Então tenho uma amiga adulta? - Emily ironizou - beleza, loira! Pra comemorar, você dirigi.
- Okay, morena! Passo aí as oito.
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