57. Jantar indigesto
A chuva torrencial já se estendia por boa parte do dia, as nuvens cinzentas fechavam o céu de Miami e não havia sinal de que aquilo fosse parar tão cedo.
Evan deixou a empresa pontualmente, após o expediente. Iria para casa preparar-se para o jantar com seus pais e a falsa namorada, quando deu-se conta de que havia deixado o carro estacionado do lado de fora do prédio. Iria se molhar indo até lá, mas teria que encarar a água gélida que caía do céu.
A camisa branca, agora molhada, fazia os músculos de seu corpo magro se destacarem ainda mais.
Entrou em seu carro com os cabelos pingando e pediu-lhe desculpas mentalmente por não ter previsto a chuva e tê-lo estacionado dentro de um local fechado.
Dirigindo para o apartamento, apertou o player do carro e November Rain do Guns N' Roses começou a tocar. Sorriu com aquela estranha coincidência enquanto tamborilava os dedos no volante.
Deixou o veículo no estacionamento e subiu rapidamente pelo elevador. Quando as portas do mesmo se abriram, pode notar que a de seu apartamento estava entreaberta.
Sentiu um calafrio passar por sua espinha, mas precisava tomar coragem e entrar. Se tivesse sido assaltado, o ladrão poderia ainda se encontrar dentro do local, então segurou as chaves do carro entre os dedos e levemente, sem ruídos, adentrou o apartamento. Era a única forma de defesa que havia encontrado.
Deu um salto para trás, seu corpo se enrijeceu e o coração quase saiu pela boca quando, apenas enrolada em uma toalha branca e felpuda, Megan surgiu em seu campo de visão.
- Qual é a merda do seu problema, garota? - Evan jogou-se no sofá de couro e passou os dedos entre os cabelos molhados e a testa suada pelo sobressalto - O que está fazendo aqui? Quase me matou de susto. Pensei que fosse um ladrão.
Megan pôs uma mão sobre a boca, para conter seu riso alto e sonoro - Você me deu as chaves. Esqueceu?
- Não. Eu não esqueci - Evan a encarou com antipatia - Mas não era pra você estar aqui a essa hora, muito menos pra deixar a porta do meu apartamento escancarada desse jeito. Você não lê jornal?
- Não gosto desse submundo - Megan sorriu ironicamente, enquanto vasculhava sua bolsa em busca de algo - Prefiro ler a Vogue.
Evan revirou os olhos - Mas afinal de contas, o que faz aqui, e de toalha?
- O chuveiro no apartamento da Cloe queimou - a garota abriu um maço de cigarros, acendendo um, levando aos lábios e tragando profundamente antes de soltar a fumaça densa - Você sabia que esse tipo de coisa acontece?
- Essa sua mistura de Paris Hilton com
Joan Jett é algo bem difícil de se assimilar, sabia? - Evan esboçou um sorriso - E pode apagar essa porcaria aí, já falei pra não fumar aqui dentro. Detesto cheiro de cigarros.
- O cheiro dos meus cigarros não é nada. Você está molhando todo esse sofá e o resto do apartamento, se é que ainda não percebeu - Megan torceu o cigarro em um cinzeiro improvisado sobre o móvel ao lado do sofá - Agora me dá licença que preciso me vestir.
- Não, não, não... Vem cá - Evan a puxou pela cintura, retirando a toalha que cobria o corpo bem desenhado da jovem e a beijou bruscamente - Vamos nos divertir um pouco?
Nem pensar! - Megan se libertou do enlace do garoto - Está quase na hora do jantar, já tomei banho e me recuso a chegar cheirando a sexo na casa de seus pais.
- Pelo menos eles saberiam que você me faz feliz - Evan zombou dando de ombros e caminhando até a porta do banheiro, abrindo os botões de sua camisa.
- Você é nojento, embora muito gostoso - Ambos riram e Evan adentrou o banheiro retirando o resto de suas roupas.
As primeiras gotas de água quente tocaram o seu corpo ainda úmido. Ele fechou os olhos e relaxou com aquela sensação deliciosa e o aroma do sabonete que exalava por todo pequeno local.
Saiu do banheiro com a toalha enrolada em sua cintura e chacoalhando os cabelos loiros molhados entre os dedos.
Sentada sobre a cama alta, Megan usava um vestido oversized preto estampado e calçava suas botas Gucci de couro pretas.
Ao ver Evan parado no batente da porta, ela ergueu-se e deu um giro lento para que ele pudesse ter uma visão de seu look - Como estou?
- Está linda! - Evan pegou do armário sua calça jeans preta e a vestiu, sem tirar os olhos da garota a sua frente.
- Jura? - ela ergueu uma sobrancelha em dúvida - O que achou das minhas botas novas?
- Você comprou isso hoje? - Evan franziu o cenho, vestindo e abotoando sua camisa social na cor vinho - De onde tirou dinheiro pra isso?
- Meus novos sogros merecem uma nora bem vestida, não acha? - suas bochechas formavam covinhas - E elas foram uma verdadeira pechincha.
- Minha irmã era uma verdadeira maníaca por sapatos - Evan dobrava e ajeitava as mangas de sua camisa - Sei que custam caro só de olhar pra elas.
- Está bem, está bem - os olhos de Megan rodaram - Eu gastei minhas economias. Se tudo der certo, logo, logo meu pai vai me devolver os cartões e serei rica de novo, mas enquanto isso, preciso fingir que nada mudou. Entende?
- Não. Desse tipo de futilidade eu não entendo nem um pouco - calçou os sapatos, agitou levemente os cabelos, borrifou um pouco de perfume e voltou para a sala, pegando de sobre o móvel, suas chaves - Mas como não somos namorados de verdade, não tenho porque me preocupar com isso.
Megan pegou sua bolsa de couro preta da mesma marca que os sapatos, deu uma última olhada no espelho e andou calmamente até a porta que Evan mantinha aberta para ela - Vai me dizer que a sua imaculada Emily não se preocupava com a aparência?
- Quantas vezes preciso repetir que não gosto de falar dela - ele fez sinal para que ela deixasse o apartamento - Emily é uma porta que quero manter trancada, pra minha própria sanidade física e mental.
- Se não falar - Megan saiu pela porta, apertando o botão para chamar o elevador - Essa porta, mesmo trancada, vai sempre te assombrar pelo resto da vida.
Evan se absteve de qualquer comentário. Sabia que ela tinha razão, de nada adiantaria fingir que Emily não existia para o mundo, pois dentro dele, ela ainda fazia morada.
Desceram no elevador em um silêncio desconcertante. Seguiram até o estacionamento da mesma forma e já no carro, Evan dirigia sem saber se devia dizer algo, ou apenas manter a calmaria, talvez conversa sobre outro assunto.
- Quer ouvir algo? - foi a única coisa que lhe ocorreu dizer - Pode escolher se quiser.
- Você não gosta de nada que eu ouço! - ela rebateu.
- Sabe, Megan - Evan apertou o player no painel e algo que ele desconhecia começou a tocar - No início, Emily era apenas uma garotinha que eu gostava de ver corar sempre que eu me aproximava, ou que a chamava de gatinha...
- Evan, não precisa - Megan pôs uma mexa de seu cabelo para trás da orelha e se ajeitou no banco - Eu devia ter respeitado o seu modo de lidar com as coisas e não imposto algo que você não está preparado pra fazer.
Os olhos do garoto se estreitaram e ele prosseguiu, ignorando o que ela dissera - Mas depois daquele beijo, daquele maldito beijo, no quarto da Olivia, ela é tudo que eu penso, tudo que eu sei, tudo que eu necessito pra me manter são.
Evan olhou para o painel luminoso do veículo e franziu a testa - Que porra é essa, afinal de contas?
- É Ed Sheeran - Megan sorriu, mas dava para ver seus olhos marejados - Acho que ele sabe ser bem inconveniente com suas composições dramáticas.
- Obrigado!
- Pelo quê?
- Por me fazer falar!
O carro parou em frente a casa de Paul, enquanto a música ainda tocava " Todos os meus sentido ganham vida, enquanto eu vou cambaleando para casa bêbado, jamais estive e eu nunca mais vou embora, porque você é única... "
Evan saiu, tentando se recompor depois do havia acontecido, deu a volta no Mustang, abriu a porta e esticou a mão para a morena - Pronta?
- Claro, meu amor! - ela zombou fazendo careta - Vamos arrasar no faz de conta.
Pegando-a pela mão, Evan cruzou o simples jardim de seu pai e tocou a campainha ansioso. Logo em seguida, foram recebidos por Annabel que já se encontrava no local.
A jovem mulher usava um vestido tubinho vermelho deslumbrante. Sapatos de salto alto e os cabelos presos em um coque bagunçado. Estava maquiada e perfumada.
A muito não via sua mãe vestida daquela forma, muito menos usando maquiagem. O garoto não pode deixar de pensar que ela estava tentando impressionar Paul. Ele sempre gostou de vê-la bem arrumada, isso antes de começar a beber e agredi-la. Mas aquilo era passado e a mudança dele era algo que Evan não tinha mais duvidas.
- Meu filho! - Annabel o abraçou amavelmente - Está lindo como sempre.
- Tenho que concordar com a senhora - Megan tentava soar simpática e chamar a atenção da mulher para si - Ele é lindo até acordando.
- Oh, que indelicadeza a minha - Annabel ofereceu-lhe um sorriso forçado, em seguida depositando um beijo em seu rosto - É um prazer finalmente conhecer você, minha querida.
A falta de jeito para simular afeição da mulher era clara, mas Evan já havia alertado Megan sobre a imagem que os pais tinham dela, então a única coisa que lhe cabia, era agir com educação e não se aborrecer com aquilo. Ser cordial era algo que ela sabia fingir muito bem.
- Sentem-se crianças - Annabel indicava o sofá para eles - Paul está terminando o jantar.
- Pois então vamos nos juntar a ele na cozinha - Megan passou a língua por fora dos lábios - Evan adora cozinhar e eu adoro assistir, bebendo uma boa taça de vinho.
Novamente o sorriso fingido de Annabel se mostrou um desastre - Bem, então vamos!
Paul mexia em suas panelas com uma colher. Parecia compenetrado no que fazia, mas ao ver o filho ingressar em sua cozinha seguindo pela morena e por sua ex mulher, seu semblante se iluminou.
- Ela é mesmo linda, meu filho - disse o homem, dando a volta e se aproximando do casal parado do outro lado do balcão de mármore - Fiquem a vontade, logo servirei o jantar. Espero que goste de Coq au vin.
- É frango ao vinho. Não é? - Megan debruçou-se sobre a pedra que dividia a cozinha.
- Parece que alguém fez bom proveito das aulas de francês - Paul fuzilou o filho com os olhos mas apenas como forma de brincadeira.
Evan arqueou uma sobrancelha - Ah, qual é, eu arranho muito bem o francês, dadas as circunstâncias.
- Que circunstâncias? - Megan indagou.
- Ele escolheu o francês apenas porque estava apaixonado pela professora - revelou Annabel - Era uma moça jovem e extremamente meiga. Evan sempre gostou de meninas mais discretas.
- Ele tinha apenas 14 anos e ela na faixa dos 20 - Paul tentava ofuscar o comentário ácido da ex mulher - Talvez agora ela te desse bola, filho!
Megan gargalhou do que Paul dissera, não dando importância para a fala da mulher e Evan ironizou - Muito engraçado, mas saber como se diz frango, não torna ninguém fluente não, Coco Channel***!
- Je ne suis pas Coco, mais merci pour la comparaison. Je suis flatté! ( Eu não sou Coco, mas obrigado pela comparação. Eu estou lisonjeado!)
- Gostei dela! - Paul levou a colher até a boca, provando o molho que preparava - Te fez emudecer, filho!
- Megan jogou seus braços sobre os ombros de Evan e lhe beijou o canto da boca - Não fique assim, amor, morei dois anos na França, por isso falo tão bem o idioma.
- Porque não nos conta o porquê de ter ido para lá? - Annabel questionou, embora já soubesse a resposta.
- E-eu... - Megan hesitou - Estava em um colégio interno.
- Porque seu pai quis livrar a filha de recebesse a punição que merecia verdadeiramente, perante a justiça. Não foi isso?
Megan finalmente se rendeu ao choro que segurava desde a primeira inquisição feita por Annabel. Aquele passado lhe causava a mesma sensação de unhas em um quadro negro.
Vendo a garota em prantos a sua frente, Evan não pode mais conter sua revolta com a forma tão rude de Annabel tratá-la desde o primeiro minuto em que os dois adentraram a casa - Já chega! Não está vendo o estado dela? Porque continua com isso, mãe?
- Essa garota não é pra você, Evan! - disse Annabel em um tom severo cruzando os braços em frente ao corpo - Você merece alguém melhor do que uma jovem fútil e descompromissada como ela.
Evan envolveu Megan em um abraço, tentando acalmar seu choro tão genuíno - Vem, vamos sair daqui!
- Evan Blake, não dê as costas para sua mãe!
- Deixe-o ir, Anna - Paul tentava intervir - Você já estragou o jantar com esse seu comportamento inoportuno. Se soubesse que iria agir assim, não teria lhe contado nada sobre Megan.
Ela o fitou com um olhar penetrante, como se pudesse perfurar o coração do homem com o mesmo - Namorar com alguém como ela não é da natureza do meu filho.
Evan virou-se para ela novamente, com os punhos cerrados e os olhos chamejantes - Porque? Porque eu fiquei 3 anos da minha vida apaixonado por uma garota doce e gentil, que quebrou meu coração em pedaços?
- Evan... - o semblante Consternado de Annabel, representava o tamanho de seu arrependimento diante do que o filho dizia.
Ele prosseguiu, sem dar atenção ao que ela diria - Pois fique sabendo que Megan não é minha namorada, somos amigos e só trouxe ela aqui porque seus pais pensam que estamos namorando. É apenas um jogo pra deixá-los contentes, mas toda noite, quando deito minha cabeça no travesseiro, só consigo dormir sem chorar, por Olivia e por Emily, quando Megan está ao meu lado.
A jovem, envolvida em seu enlace, apenas observava a tudo em silêncio, podiasse ouví-la soluçar em meio ao choro, mas ela tentava reprimir por orgulho.
Enquanto Evan despejava a verdade de uma só vez, aquilo ia o deixando nauseado - Mas se quer saber, Annabel, a minha maior decepção foi vê-la tratar tão mal alguém que nem mesmo conhece. Você era meu exemplo de humanidade.
- Evan, eu sei que está chateado, mas fique, vamos jantar e terminar essa reunião de forma civilizada.
- Sério que quer falar em civilidade a essa altura? - Evan soou zombeteiro, dando as costas para a mulher e pegando Megan pela mão - Desculpe, Paul, mas não dá mais pra mim.
Evan pegou Megan pela mão e juntos retornaram ao carro estacionado em frente a casa. Sem nenhuma palavra trocada, Evan seguiu com a moça até seu apartamento. Precisava entender melhor aquela história toda. Ela nunca havia lhe contado sobre o tal internato.
Assim que adentraram o local, Evan serviu a ela uma xícara de café e foi inevitável pensar em quantas vezes aquela cena se repetiu naquele mesmo sofá, mas no lugar de Emily, agora estava Megan.
- Quer me contar o que realmente aconteceu em sua vida todos esses anos?
- Evan, eu matei uma pessoa!
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