56. A mágoa muda as pessoas

Sexta-feira, o dia que sempre fazia com que Emily se enchesse de empolgação, pois sabia que teria um final de semana cercado de amigos ou ao lado de Dylan e sua família, mas de uns tempos pra cá, tudo deixava de ser como era.

Não tinha mais ninguém com quem pudesse contar. Alexia não atendia suas ligações e as coisas na escola andavam tensas desde a briga com Bradley. Não tinha com quem conversar no almoço e nem com quem sair.

Não era convidada para os grupos de estudo e muito menos para festas, por isso rezava para que tudo logo acabasse e ela pudesse por fim sair daquele inferno astral em que se encontrava. Respirar ares novos lhe faria muito bem.

Foi andando até a escola naquele dia. A entrada estava praticamente vazia, os portões ainda não haviam se fechado, mas estava mais do que claro que se encontrava bem atrasada. Não pode evitar sentir vontade de voltar para casa, mas lembrou-se de seu histórico escolar que não permitia mais erros. Seu futuro em uma boa universidade dependia daquilo.

Respirou fundo e dedilhou o interior de sua mochila, em busca de seu aparelho celular e deu uma breve olhada no horário. Ainda daria tempo de pegar o primeiro período. Aumentou o passo mas parou em meio ao caminho, quando se deparou com Dylan vindo do estacionamento.

Não parecia vestido para assistir as aulas. Usava uma camiseta de mangas curtas preta e bermudas de praia. Calçava chinelos, ao invés de seus tradicionais tênis. No entanto, a surpresa  maior, estava no fato de ele não mais estar em uma cadeira de rodas, e sim apoiado em muletas, caminhando com suas próprias pernas.

Emily não conteve o sorriso. Era fascinante vê-lo de pé outra vez. Apesar de tudo, o carinho que sentia pelo garoto era genuinamente sincero. Pode sentir o remorso pelo que acontecera desaparecendo gradativamente - É bom ver que está se recuperando.

- Acho que no fundo você tinha razão - ele sorriu - Me motivou tanto a acreditar que eu poderia andar de novo, que foi o que aconteceu.

Uma curva surgiu ligeiramente nos lábios de Emily, se fechando rapidamente - Não vai entra?

- Não. Só vim mesmo para pedir que me liberassem - Dylan mordiscou o lábio, parecia nervoso - Preciso depor no caso contra Joe.

- Deixaram você por último. Não é?

O garoto assentiu - Acho que muito por conta da cadeira e toda merda de trauma que acham que terei. Me obrigaram até a ver uma psicóloga.

- Acho que preciso de uma, depois de tudo também - Emily balbuciou apenas para si mesma.

- O que?

- Nada. Preciso ir!

- Espere! - Dylan tocou o braço da jovem e uma corrente magnética pareceu lhe atravessar a espinha - Antes me diga como você está? Te vejo andando pelos corredores sozinha, não precisa se afastar dessa forma de todos, somos seus amigos ainda.

- A única amiga que eu tinha está morta. As escolhas que eu fiz me deixaram só e não há nada que possa fazer isso mudar, exceto o fato de que se meus esforços derem resultados, no próximo ano estarei bem longe disso aqui tudo.

Dylan encolheu os ombros sem jeito - Está falando de ter deixado Evan por minha causa?

- Não somente isso, estou me referindo a tudo. Toda a droga da minha vida - seu olhar era impassível e o tom de voz severo denotava uma mágoa nunca vista antes por Dylan -  Pensar nos outros antes de mim mesma, deixar que o amor me guiasse ao invez da razão, foram todas péssimas escolhas.

- Mas agir com frieza não vai mudar absolutamente nada, Emily! - o garoto não pode conter as palavras.

- Não, mas me deixa blindada quanto ao que virá daqui pra frente - Emily tinha um brilho frio no olhar - Adeus, Dylan!

Ela deu as costas o deixando boquiaberto com a mudança em seu modo de agir e falar. Seguiu em direção ao portão surpreendentemente ainda aberto. Uma lágrima solitária correu por sua face, mas como se quisesse ela mesma acreditar que era forte, enxugou a mesma antes que caísse.

Se esforçou ao máximo para manter-se compenetrada nas aulas, mas toda aquela conversa com Dylan, havia mexido com seu poder de concentração. A forma que ele havia falado, fazia parecer que ela foi quem se afastou. Nenhum deles fez questão de se aproximar depois do que ocorreu, exceto Adam. Mas claro, somente porque era difícil pra ele ignorar qualquer coisa com um par de seios.

Saiu da escola, depois de um dia pesadamente intenso. Voltou para casa da mesma forma que saiu, andando.

Assim que virou a quadra, Emily avistou o carteiro retirando-se do pátio de sua residência. Seria o que ela tanto esperava?

Correu o mais depressa que pôde e enfiou a mão para dentro da caixa de correio torcendo para que alguma coisa naquele maldito dia lhe fizesse sorrir.

Não pôde se conter, esperar para abrir com os pais, rasgou alí mesmo, em frente a casa, o envelope que continha a tão esperada resposta que daria a sua vida um rumo diferente.

Há duas semanas atrás, já havia obtido online a aceitação de duas das faculdades para as quais se escrevera, mas a que mais lhe interessava, ainda estava por chegar e em poucos minutos saberia se havia alcançado seu objetivo mais laborioso.

- Eu consegui, eu consegui... - Emily adentrou a porta de sua casa como um raio de luz. A felicidade estampada no rosto e um sorriso largo nos lábios - Fui aceita em Columbia, Yale e Berkeley.

- Parabéns, filha! - Elizabeth e Bruce disseram em uníssono.

- Ficou sabendo de tudo isso hoje? - Elizabeth quis saber.

- Na verdade não - admitiu - Estava esperando todas as respostas para então dar-lhes a notícia completa.

- Sua danadinha, eu sabia que você conseguiria - o pai a abraçou com afeição - Sua mãe estudou em Berkeley e sua tia Rose também. Estou certo de que estará muito bem amparada por lá.

O olhar de Emily desviou do pai para a mãe e ela murmurou - Eu estava pensando em Columbia!

- Mas Columbia fica a quase 4.000 Km daqui - a tristeza nublava as feições de Elizabeth - Nos veremos tão pouco, filha!

- Exatamente por isso que escolhi ir para lá. Não me entendam mal, eu amo vocês, mas preciso me afastar desse lugar, depois de tudo que aconteceu esse ano - Emily se desfez do enlace do pai - Columbia é uma ótima universidade, abrigou a primeira escola de medicina dos EUA e meu sonho sempre foi passar uma temporada em Nova York.

- Sem falar que ostentam no hall da fama Roosevelt e Barak Obama - Bruce comentou sorrindo e orgulhoso da filha - Tem meu apoio, querida!

- Obrigada, pai! - Emily suplicava pelo apoio de Elizabeth também - Sempre que puder virei vê-los. Eu juro!

A mulher abriu-lhe os braços - Estou tão orgulhosa, meu amor!

Emily se uniu a mãe em um reconfortante abraço. A alegria que sentia naquele instante quase não cabia nela. Dali pra frente, tudo iria entrar nos eixos e só precisaria aguentar mais alguns meses naquela maldita escola. Logo estaria no campus da universidade, teria novos amigos e ninguém para olhá-la torto.

- Bem, já que você nos brindou com essa excelente notícia e nos encheu de satisfação - Bruce repousou sobre sua confortável poltrona - O que acha se amanhã de manhã formos até uma revendedora pra escolher seu presente de formatura?

- Está falando sério, pai? - Emily pulou no colo de Bruce entusiasmada, enlaçando seus braços em torno do homem - Mas ainda faltam alguns meses pra que eu me forme.

- Acho que você merece ter um carro pra curtir suas férias - Elizabeth curvou os lábios em um extenso sorriso - E precisará de um quando for para Nova York.

- Vou pensar nisso, mãe! Agora eu preciso de um banho - Emily levantou-se e correu em direção às escadas, subindo para seu quarto - Eu amo vocês!

- O jantar vai estar na mesa logo, logo! - Elizabeth gritou ao ver a filha se afastar - Não demore!

No dia seguinte, após o café, os três entraram no veículo de Bruce e seguiram até o destino que tanto empolgava Emily. Sempre quis ter seu próprio carro, poder ir e vir sem depender dos pais ou de amigos. Principalmente porque agora não os tinha mais.

Logo de cara, Bruce e Elizabeth caminharam entre os carros no pátio, avaliando os que mais lhe interessavam. Emily mal sabia por onde começar, então deixou que os dois mostrassem qual seria a melhor escolha.

- Que tal aquele Beetle vermelho? - Elizabeth indicava um pequeno carro de fabricação mexicana - Tem até teto solar!

- Ou quem sabe aquele Volvo S40 prata? - indicou Bruce, caminhando na direção do veículo a que se referia - Eles sempre dão prioridade a segurança.

- Pai, está dizendo que eu não sei dirigir e por isso preciso de segurança máxima. É isso?

Os três riram juntos, enquanto eram observados de perto pelo vendedor do local. Um homem esguio, de cabelos loiros e grandes olhos amendoados. Não parecia ter mais do que vinte e poucos anos, estava bem vestido e parecia bastante charmoso.

- Se posso lhes dar uma sugestão - disse ele, caminhando para o lado esquerdo do pátio onde ficavam os veículos expostos - Essa belezinha aqui seria uma ótima aquisição para a moça.

O jovem apontava para um Toyota Prius branco. Os olhos de Emily deixaram o Volvo e se iluminaram diante do Prius, já o olhar do vendedor de carros não saia da menina em nenhum momento.

- A propósito - o rapaz esticou sua mão, com longos dedos finos pra Bruce - Sou Kyle e serei responsável por atendê-los e auxiliá-los para que façam a melhor escolha.

- Obrigado, Kyle - Bruce murmurou enquanto variava seu olhar da filha para o rapaz intrigado.

- É lindo! Eu realmente gostei muito desse - disse Emily tocando o capô do carro branco a sua frente elevando os cantos da boca em um sorrindo largo.

- Quer dar uma volta? - perguntou o vendedor também sorridente.

Emily olhou na direção do pai, como se para pedir permissão, depois retornou para o jovem que aguardava sua afirmativa - Posso mesmo?

- Não só pode, como deve! - Kyle sorriu amável.

- Vai lá, minha querida! - Bruce sorriu rendido ao desejo nos olhos da filha.

- Vou pegar as chaves! - anunciou o vendedor.

Em alguns minutos, Kyle retornou. Deu a volta no veículo, abrindo-lhe a porta do motorista e indicando amavelmente que Emily adentrasse. Em seguida, alcançou para ela as chaves e perguntou a Bruce se desejaria acompanhar a menina em uma volta pelo quarteirão.

- Vá você com ela - os lábios do homem enrolaram-se em um sorriso - Acredito que possa ter mais informações sobre o carro para passar para uma jovem motorista sem experiência.

- Pai! - Emily o repreendeu, olhando por entre a janela aberta do automóvel - Assim ele vai ficar com medo de me acompanhar.

Kyle deu de ombros, abriu a porta do caroneiro e sentou-se no banco de couro, ao lado da menina e zombou - Que isso, eu sou fã de Velozes e Furiosos, não me assusto fácil.

Emily devolveu o sorriso, girou a chave na ignição e deu ré, saindo do pátio e indo em direção a estrada.

- Nossa! Esse carro é super confortável - a animação no tom de voz da garota era nítido, enquanto conduzia o automóvel pela rua deserta ao redor da loja - E é lindo!

- Embora ele seja um tanto simples internamente, é bem amplo e espaçoso, sem falar que é bastante funcional - explicou Kyle - Ele utiliza um motor 1.8 Dual VVT-i de ciclo Atkinson, usado em parte como propulsor e em outra como gerador. Apesar do tamanho, o motor tem números equivalentes aos do 1.5 Dual VVT-i do Etios, entregando 98 cv a 5.200 rpm e 14,2 kgfm a 3.600 rpm...

- Para, Para, Para! - Emily o detém de continuar - Sabe que está falando grego comigo. Não é?

O sorriso tímido vagueia pelos lábios de Kyle - Desculpe-me! É seu primeiro carro?

- É sim - ela assentiu, engolindo nervosamente - Deu pra notar? Dirijo tão mal assim?

- Não. É que seu pai deixou escapar que você não tem experiência e me parece um pouco tensa na direção - a voz suave do garoto faz o corpo de Emily estremecer inesperadamente - Assim como eu estou, ao lado de uma garota tão bonita como você.

O final do percurso começava a se aproximar e as palavras de Kyle pareciam tê-la atingido em cheio. Suas mãos suavam em torno do volante, seu batimento cardíaco acelerava instantaneamente e ela respirava extenuada. No impulso, Emily estacionou o carro próximo ao meio fio e voltou-se para o rapaz, sustentando seu olhar.

- Deu para perceber que me acha atraente, você não é nem um pouco discreto - ela mordeu o lábio inferior - Acho que até meu pai percebeu.

Kyle arfou, gaguejando enquanto tentava achar as palavras certas para se desculpar por sua indiscrição - Me perdoe, não quis deixá-la sem jeito, eu...

- Calma, eu gostei!

- Gostou?

Emily chacoalhou a cabeça positivamente - Vou te mostrar o quanto - a garota então aproximou-se mais ainda, debruçou-se sobre ele e o beijou.

Kyle, pego de surpresa, apenas correspondeu o beijo da melhor forma que pôde. Depositou uma mão sobre o rosto de Emily e dava o máximo de si para causar boa impressão.

Quando seus rostos foram se afastando lentamente, o sorriso nos lábios do jovem, deu a Emily a melhor visão em dias. Como era bonito. Seus olhos grandes contrastavam muito bem com as sobrancelhas perfeitas e os belos traços de seus lábios levemente avermelhados, com os dentes alinhados e esplendidamente brancos.

- Por essa eu não esperava - disse ele, ajeitando-se no encosto do banco.

- Não gostou? - Emily indagou, dando partida no carro e voltando para junto de seus pais.

- Claro que gostei. Seria louco se não gostasse, mas você não me parece do tipo mulher fatal. Ou aquilo era só uma atuação, pra quando está perto de seus pais?

Kyle soou engraçado para ela que revirou os olhos e sorriu - Não é não. Estou tentando mudar meus conceitos sobre ser uma boa moça.

- E porque isso? - ele indagou.

- Porque já me magoaram muito! - Emily baixou o olhar, estacionando o carro no local onde estava antes da volta, onde os pais já a aguardavam impacientes.

- Me da seu telefone pelo menos? - Kyle falou, antes que Bruce se aproxima-se.

- "Uma garota sábia beija mas não ama, escuta mas não acredita e parte antes de ser abandonada!"

- Você citou Marilyn Monroe para me dar um fora?

- Uma ótimo atuação. Não acha? - Emily piscou para ele, saindo do carro satisfeita. Aquela sensação de controle a deixou no ápice consigo mesma. Sentia que ninguém teria o poder de magoá-la, nunca mais. Daquele dia em diante, as coisas seriam do jeito que ela quisesse que fossem.

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