54. Perdendo tudo
Naquela manhã, Emily acordou com o coração apertado. Seria o primeiro dia de Dylan na escola, após o acidente e vê-lo enfrentar os olhares de piedade e principalmente, de curiosidade, a deixava muito inquieta.
Alexia se ofereceu para levá-los, até que o carro adaptado de Dylan estivesse pronto. Emily queria chegar ao lado dele e cuidar para que tivesse um dia calmo, sem maiores complicações.
Foram recepcionados, logo na entrada, por Lucy, Bradley e Adam. A vergonha que o rapaz sentia por seu irmão ter sido o autor daquele crime, não cabia nele. As meninas não tiveram coragem de afastá-lo do grupo, até porquê, ele em nada tinha culpa, mas temiam pela reação de Dylan ao vê-lo.
- Bem vindo de volta, herói! - Lucy abriu um sorriso largo, enquanto abraçava o garoto na cadeira.
Bradley, com os olhos marejados, também o abraçou carinhosamente - Sentimos sua falta!
- Obrigado pela recepção, meninas!
Adam, parado atrás delas, apenas observava, tentando achar a melhor forma de entrar na conversa e dizer que, se dependesse dele, Joe teria um castigo merecido.
- Dylan, eu queria que soubesse que, não compactuo com a forma do meu irmão agir e se você preferir...
- Cara, cara, calma... - Dylan chamou a atenção do outro - Você e seu irmão são pessoas diferentes, eu sei disso. Não precisa se sentir culpado, muito menos se afastar da galera.
Emily sorriu com a reação indulgente do namorado. Não era nada fácil ter de conviver com alguém tão próximo de seu algoz e mesmo assim ser tão compassivo.
- Valeu, cara! - Adam suspirou aliviado - Emily é uma garota de sorte!
Bradley fuzilou a garota posicionada atrás da cadeira de rodas. Podia se ver, no olhar estreito da jovem, a raiva se sobressair e o desprezo gerar um desconforto geral. Todos puderam perceber o clima pesado que existia entre elas.
- Eu não aguento mais isso - enfim, a menina de olhos puxados, explodiu - Já que Emily não tem a decência de lhe dizer a verdade, eu mesma digo.
- Bradley, por favor, não se meta nos assuntos que não te dizem respeito!
Lucy a repreendeu, mas a amiga estava decidida a não deixar aquilo continuar - Não! Eu avisei a ela que não iria compactuar com isso, dei a chance que ela própria contasse a verdade. Mas agora chega!
Emily fitou Bradley, como se, mentalmente, pudesse apertar seus dedos em torno do pescoço da mesma e fazê-la se calar.
Dylan mantinha em seu semblante, um olhar perplexo - Do que diabos vocês estão falando?
- Quando estava em Miami, Emily beijou o ex - a morena cuspiu as palavras como flechas envenenadas de ódio - Depois, como se não bastasse, enquanto você lutava pela vida no hospital, ela andava por Los Angeles com ele, tentando convencê-lo de esperar até que você estivesse bem, pra então ficarem juntos, mas claro, ele não topou. A culpa dela é o que mantém vocês dois juntos ainda, Dylan!
Todos se calaram. Emily mantinha seu olhar firme em Bradley, mas lágrimas vertiam por sua face avermelhada - Sua vadia insensível, porque acha que tem o direito de fazer isso com a gente. O que ganhou com esse espetáculo todo?
Bradley deu de ombros - Quero ver Dylan com alguém que realmente o ame, não uma cadela falsa que só está com ele pra se sentir melhor da culpabilidade do que aconteceu.
Emily caminhou até a menina que se afastava vagarosamente do grupo, a puxando pelo ombro - Não de as costas pra mim. Me diga porquê! Porque esse ódio repentino por mim?
Bradley riu sarcástica - O mundo não gira em torno de você, princesinha!
- Do que está falando?
- Que não fiz isso pra te afetar. Fiz porque eu amo o Dylan e você não.
As sobrancelhas do garoto na cadeira de rodas se enrugaram, a dúvida flutuava por sua cabeça e as palavras travaram na garganta ao ouvir Bradley dizer que o amava. Não podia crer que, por tanto tempo, ela havia camuflado uma paixão por trás da amizade deles.
- Apoiei esse namoro no início, porque ele estava feliz e você parecia sincera, mas agora sei que isso é tudo pra que você se sinta bem consigo mesma.
Dylan deu as costas para todos, digitou o número de sua irmã em seu aparelho celular e pediu que ela retornasse. Não tinha cabeça para assistir a aula alguma naquele momento.
Bradley afastou-se, seguida por Lucy. Adam também seguiu até o prédio, deixando Emily a sós com Dylan. Os olhos dele refletiam o tamanho de sua decepção, o que fez o vocabulário da jovem lhe fugir inteiramente.
- Não acredito que fez isso comigo!
- As coisas não aconteceram exatamente assim como Bradley contou - precisava ser convincente, fazer com que ele entendesse seus reais motivos - Ela está magoada e quis me ferir, mas eu jamais teria ficado ao seu lado apenas por dó. Eu gosto muito de você, Dylan!
- Está mentindo pra si mesma, Emily - ele a encarou sem expressão definida - Gostar não é e nem nunca será amor. Você ama o Evan e só ele vai te fazer feliz por completo.
- Tem razão, eu o amo - Emily confessou - Mas ele nunca se esforçou por nós. Me deixa sempre só, nas piores horas e quando estou bem, ele volta, bagunça tudo e vai embora de novo, não luta, prefere apenas se afastar e não entender o meu lado.
A dor que a garota sentia em dizer aquilo era devastadora. Seus lábios transformaram-se em uma linha dura e os olhos derramavam lágrimas de angústia, enquanto ela tentava prosseguir.
- Nosso relacionamento é tóxico. Somos duas bombas relógio quando estamos juntos, apenas esperando o momento mais inoportuno para explodir - ela fixou seus olhos nos dele - Tenho que tirá-lo da minha vida de uma vez por todas. Dylan, não fiquei com você por pena, nem por culpa, fiquei porque preciso de você, tanto quanto você precisa de mim.
- Tudo isso que você acabou de dizer, não importa, Emily - Dylan finalmente se pronunciou, diante das confissões feitas por Emily - Você o ama, isso transcende tudo que de ruim possa ter acontecido entre vocês.
- Você está se auto sabotando ou realmente quer que te deixe em paz Sim, porquê eu não consigo te entender.
- Você ficou ao meu lado por pena. Você pediu a ele que esperasse por você até que eu estivesse melhor e você não tivesse mais motivos pra se sentir culpada. Eu estou puto, Emily!
Ela afastou-se e seus olhos o fitaram rapidamente, desviando para a paisagem do outro lado da rua - Bradley não tinha o direito de te dizer aquilo.
- Emy, fazem dois meses que estamos juntos desde o acidente e achou que eu nunca descobriria isso? - ele rodou a cadeira até ela - Ela só fez o que você deveria ter feito.
- Mas as coisas realmente mudaram, Dylan - ela apoiou as palmas das mãos nos braços da cadeira de rodas do garoto e tentou beijá-lo, mas ele desviou - Evan é passado, ele quis assim e eu quero ficar com você agora.
- Eu sou um aleijado, não sei se algum dia voltarei a andar e você precisa se preparar para a faculdade. Pensa que não noto o quão interessada você fica quando minha irmã começa a falar das aulas dela?
- E o que isso tem a ver com nós dois?
- Tem que você vai precisar de alguém que te apóie e não que te dê mais trabalho - Dylan baixou a cabeça tristonho - Eu só vou te atrapalhar.
- Para com isso! O que eu preciso é de alguém que me faça feliz e você faz.
O carro de Alexia estacionou próximo a eles e a garota desceu rapidamente - O que aconteceu?
- Só me leva pra casa, não estou me sentindo bem, Lexi!
Alexia franziu a testa hesitante sentindo a tensão que existia entre eles - Será que dá pra me dizer o que tá rolando aqui?
- Vamos embora, Alexia!
Emily tentou chegar mais próximo de Dylan, enquanto a irmã atendia seu pedido e o guiava até o carro - Dylan...
- Não quero mais ver você, Emily! - o garoto adentrou o carro, com a ajuda da confusa Alexia - Mas se quer mesmo ser feliz, sugiro que pare de se enganar e aceite o fato de que, mesmo não sendo perfeito, você tem um amor e não sou eu.
O veículo deixou a escola. Emily sentou-se, em meio ao pátio, agarrada as próprias pernas, com os joelhos colados ao corpo e chorando compulsivamente.
Quando finalmente conseguiu se acalmar, Emily não entrou mais nas aulas. Não seria capaz de ficar no mesmo ambiente que Bradley. Não agora.
Foi caminhando até a praia. Precisava espairecer, limpar a mente e seguir em frente. A vida já havia lhe dado tantas rasteiras, que mais essa não a impediria de continuar.
O ano acabaria, ela iria pra faculdade e deixaria para trás, todo e qualquer passado que tenha lhe atormentado. Evan, Dylan, Bradley, ninguém seria capaz de impedir que Emily Marshall fosse feliz.
O ódio repentino por todo e qualquer ser que se atrevesse a fazê-la derramar mais uma lágrima que fosse, seria esmagado por seu egoísmo.
Voltou para casa algum tempo mais tarde. Almoçou as sobras do jantar anterior e dormiu um pouco, sobre o sofá macio da sala.
Acordou sobressaltada e já era por volta das 4h da tarde. Levantou-se ainda meio sonolenta, caminhou até a cozinha e encontrou seu celular sobre o balcão. Notou que haviam dezenas de ligações não atendidas. Apenas ignorou-as sem averiguar de quem eram.
Ainda com o aparelho em mãos, não pode evitar sentir vontade de ligar para Olivia. Suspirou tristemente. Como sua amiga lhe fazia falta. Agora, em volta de todo esse turbilhão de sentimentos e frustrações, precisava de alguém como ela para desabafar. Olivia e seu modo sempre tão positivo de ver as coisas, era o que de melhor existia no mundo.
Deixou o celular repousar novamente onde estava e correu os olhos pelo ambiente a sua volta, em busca de algo para comer. Sacou um pacote de batatas do armário aéreo, passou a mão no telefone celular e voltou para sala.
Enquanto mergulhava seus dedos entre as batatas fritas e zapeava o televisor em busca de algum entretenimento, ouviu as sonoras batidas e vibrações do aparelho ao seu lado. Leu o nome no visor. Era lucy.
- Porque não atende a droga do telefone, Emy? - a garota ralhou do outro lado da linha - Te liguei a tarde inteira. Você está bem?
- Tirando o fato da maluca da Bradley ter dado aquele espetáculo em meio a escola, justo no dia em que o Dylan resolve voltar e depois ele ter terminado comigo, me deixando sozinha?
- Você precisa entender que o que a Brad senti pelo Dylan ficou guardado por muito tempo - Lucy tentava justificar a atitude impensada da amiga - Ela o ama, Emy!
- Eu não preciso enteder nada - Emily bradou - O que ela fez foi me humilhar na frente dele, como se o que eu fiz fosse tão repulsivo que ela não teve forças pra suportar e teve que alertá-lo da minha canalhice.
- Mas é exatamente isso - Lucy também aumentou o tom de voz - Você só pensou em si mesma e mesmo que diga que ficar ao lado de Dylan, quando na verdade queria estar com Evan, foi apenas por querer vê-lo bem, não é verdade.
- O que quer dizer com isso?
- Acho que você sente medo, Emily! - o timbre de Lucy ainda estava levemente alterado - Você mente pra si mesma. Tem medo de se entregar pra Evan de novo e ele te machucar, como aconteceu no passado. Dylan serviu apenas para que você pudesse dizer não a ele, sem necessariamente dizer.
- Não diga asneiras. Você não me conhece, não sabe nada sobre mim e Evan - Emily vociferou, já com o choro preso na garganta - A única amiga que eu tinha se foi. Bradley e você podem ir se ferrar.
Assim que as palavras deixaram seus lábios, o silêncio era a única coisa que restava do outro lado. Lucy havia desligado.
Emily passou o jantar inteiro quieta. Os pais notaram seu semblante fechado e a falta de interesse da jovem nos assuntos deles, mas preferiram ficar em silêncio também quanto a isso. Mesmo que quisessem perguntar algo, não obteriam nenhuma resposta, ela agora se fecharia completamente para os assuntos do coração.
Foi para o quarto e jogou-se sobre a cama repleta de almofadas fofas, mas diferente das outras vezes, nenhuma lágrima foi derrubada.
Abriu as cortinas e os vidros da janela e deixou que o ar refrescante da noite entrasse por ela. O céu estava estrelado, a lua cheia brilhava intensamente e como se um flash back cruzasse seus pensamentos, ela viu o rosto de Evan.
Chacoalhou a cabeça e se livrou da imagem. Ele havia decidido tirá-la de vez da sua vida e agora, ela faria o mesmo.
- Adeus, Evan Blake! - balbuciou apenas para seu subconsciente enteder que não desejaria ver mais a face do rapaz em sua cabeça novamente.
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