34. Perdendo a linha

Era seu primeiro dia de trabalho e Evan não podia conter a euforia e tão pouco o nervosismo.

Assim que chegara a empresa, as sete horas em ponto, Ruby mostrou-lhe todos os setores da companhia, explicou tudo que ele precisava saber sobre seu cargo e que ele deveria se reportar a ela, sempre que tivesse algum problema com o financeiro.

Em seguida levou o garoto até sua sala, onde haviam duas mesas instaladas em lados opostos do cômodo.

Disse-lhe que, num primeiro momento, ele deveria apenas observá-la.

Mas que algumas semanas seriam mais do que suficientes para que ele aprende-se todo o ofício e assim que estivesse apto e seguro para exercer sua função sem auxílio, ela assumiria um cargo maior e Evan ficaria em seu lugar, consequentemente, com sua sala inteiramente para ele.

A moça era muito amável e atenciosa, o que fazia ele sentir-se a vontade para tirar todas as dúvidas que pudesse vir a ter.

Após semanas de treinamento, além de uma instrutora, Evan via em Ruby, uma boa amiga.

Ela lhe confidenciou coisas de sua vida pessoal e ele, por sua vez, falava muito sobre a sua também.

Era sexta-feira e após a escola, Emily e Olívia resolveram levar o almoço de Evan, já que o mesmo estava muito ocupado e quase nunca almoçava direito.

A menina andava sentindo muita falta do mesmo, mas sabia que os estudos e o trabalho eram de extrema importância para ele.

A recepcionista da empresa já conhecia Olívia, pelas vezes em que visitara seu pai no escritório, então prontamente lhes indicou a sala onde Evan trabalhava.

As meninas entraram sem bater, imaginando que ele estaria só e não se importaria se fossem dispensadas as normas de educação e cordialidade que se deveria ter em uma empresa daquele porte.

O garoto foi pego de surpresa, mas ficou feliz com a visita e tratou logo de apresentá-las para sua colega de trabalho.

- Ruby, essas são Olívia, minha irmã e Emily, minha namorada.

A moça sorriu e as cumprimentou dando um beijo no rosto de cada menina, voltando-se em seguida para Emily - É um prazer enfim te conhecer, Evan fala tanto de você!

- É mesmo? - Emily parecia feliz por saber que Evan falava dela para seus amigos e colegas de trabalho - Bem ou mal?

- Bem, é claro! - Respondeu-lhe a jovem, mostrando algum desconforto com a a situação - Nem sei se esse moço é capaz de execrar alguém.

Olívia por sua vez, notara o olhar de interesse que a mulher lançava na direção de Evan.

- Bem, temos que ir, vocês terão a noite toda pra matar a saudade - a garota quis proteger a amiga, mostrando a outra, que seu irmão era comprometido.

- Evan, você e Emily combinaram de jantar após seu expediente, não é?

O rapaz não entendia o porque daquilo. Olivia estava cansada de saber que Evan estava ansioso por esse jantar e havia preparado tudo a dias.

Emily já havia lhe prometido que daria um jeito de convencer os pais a deixarem que ela dormisse fora de casa, com a desculpa de que faria um trabalho de escola com suas colegas de classe.

Ao que parecia, as coisas andavam teoricamente bem na casa de Emily, então era provável que não ouvesse problemas maiores com a desculpa dada por ela e eles poderiam sim sair para jantar e depois dormiriam juntos em seu apartamento.

- Sim, vamos sim, porque a pergunta, Liv?

- É que Emily está te preparando uma surpresa - Olívia inventou.

A amiga franziu o cenho e lhe lançou um olhar duvidoso - Eu estou?

- Claro que está! - a piscadela fez Emily entender seu jogo.

- Sim, eu estou. - ela confirmou a história da amiga, um tanto preocupada com o que faria pra cumprir uma promessa tão repentina como aquela.

Ela deu-lhe um beijo, fazendo Ruby desviar o olhar.

- Estou ansioso por isso!

As meninas seguiram para fora do local e Evan acompanhou-as até a portaria.

Despediram-se em seguida.

Evan passara a tarde toda impaciente para vê-la, já que com o trabalho e a decoração da casa nova, quase não tinha tempo para ficar a sós com sua amada.

Fechou seus balanços e foi buscar um café para Ruby em forma de agradecimento por tudo que estava fazendo por ele nos últimos dias, mas a máquina de café estava com problemas, então voltou para a sala, de mãos vazias.

- Desculpe! Voltei sem café - disse ele coçando a cabeça envergonhado - A máquina está com problemas.

Ruby sorriu, recostando-se em sua mesa.

- Azar o seu, vai ter que me pagar um café - ela mordiscou a tampa da caneta que segurava - Fiquei sabendo que abriu um ótimo, a algumas quadras daqui. O que acha?

Evan ficou sem jeito com o convite inusitado e ousado da jovem - Desculpe-me, vamos ter que deixar para outro dia, marquei de jantar com Emily hoje.

A garota parecia desapontada com o fora que levara, mesmo assim insistiu - É só um café, prometo que te libero a tempo de seu jantar.

- Está bem, mas só porque você tem sido muito gentil e atenciosa - Evan pegou o casaco da moça e pôs sobre seus ombros - Vamos?

- Obrigada, cavalheiro! - ela ironizou.
Seguiram a pé até a cafeteria.

Evan pediu dois cappuccinos e sentaram-se em uma mesa perto da janela.

Conversavam sobre o trabalho, mas a todo o instante, Ruby interropia o assunto para lamentar-se sobre o fato de viver sozinha e de não ter uma companhia masculina para satisfazer suas carências afetivas.

Evan começara a sentir-se constrangido, então disse-lhe que precisava ir.

A garota levantou-se meio a contragosto e os dois voltaram para o estacionamento da empresa, a fim de pegarem seus respectivos veículos.

- Obrigado pela companhia, Ruby - Evan buscava em seu bolso as chaves do carro - Minha dívida de cafeína está paga!

- Eu que agradeço, a tempos não tinha um papo tão gostoso com alguém!

- Ruby aproximou-se, olhando-o nos olhos e deixando o garoto sem jeito mais uma vez.

- Uma pena você ser tão fiel aquela garotinha, podíamos nos divertir muito juntos.

- Aquela garotinha, a quem você se refere, é o amor da minha vida, Ruby!

Ela revirou os olhos - Sexo não tem nada a ver com amor, meu querido!

Chegou ainda mais perto de Evan e antes que ele pudesse ter qualquer tipo de reação, ela o beijou.

O beijo durou menos de meio minuto e ele a afastou bruscamente - Você está louca? Por que fez isso?

- Desde a primeira vez em que eu te vi, fiquei com muita vontade de provar um beijo seu, de sentir o calor do seu corpo no meu, não me importo com sua namoradinha - a garota admitiu sem pudor algum - Pode continuar bancando o namorado apaixonado com ela, enquanto eu faço você se sentir um homem de verdade.

O rapaz estava atônito, não conseguia acreditar no que ela dizia. Será que era tão desligado a ponto de não ter notado o interesse da moça todo aquele tempo? Como uma pessoa conseguia se transformar em algo completamente diferente em poucos minutos?

- Olha, você só pode ser doida, nunca te dei nenhum tipo de abertura para que tivesse esse tipo de atitude - sua cabeça latejava enquanto ele praguejou - Isso não pode se repetir, ouviu?

- Não gostou do meu beijo? - fingiu um semblante tristonho - Aposto que ela não te satisfaz como eu poderia, Evan!

- Você sabe que não é nada disso, eu tenho namorada, a amo e respeito mais do que tudo.

Evan virou-se para abrir a porta de seu carro, a fim de sair daquela confusão em que havia se metido. Mas tamanha foi sua surpresa ao deparar-se com uma cena que jamais imaginaria.

A mulher havia despido sua blusa e vestia apenas um sutiã de renda vermelho, em pleno estacionamento, em horário comercial.

- Ai, meu Deus! - Evan exclamou.

- Sei que gosta do que vê. Seus olhos te entregam - Sorriu insolente - Essa situação me deixa toda molhada.

O rosto de Evan ia corando, a medida em que a moça o provocava.

Nunca se sentira intimidado na presença de uma mulher, mas naquele momento, Ruby lhe tirara todas as palavras.

- Vai dizer que você nunca sentiu vontade de transar num local público?

A jovem apoiou-se no carro do garoto, passou a mão em seu peito, descendo até o fecho de suas calças e enquanto falava, abria a veste do rapaz.

- Imagina só toda essa adrenalina e o medo de ser pego no ato.

Evan parecia hipnotizado. Ela é verdadeiramente linda, seu corpo perfeito, extremamente convidativo ao ato.

Claro que aquela situação o excitava, fazia seu sangue ferver, mas a imagem de Emily surgiu em sua mente.

O sorriso, o jeito meigo, o olhar dela pareceu acordá-lo do transe em que estava e ele repeliu Ruby, sem que ela entendesse o porquê.

- O que ouve? - a moça chegou perto novamente e ajoelhou-se a frente do rapaz, com as calças ainda abertas - Posso sentir todo o seu tesão, pare de se torturar.

Evan empurrou-a, destravando as portas de seu carro.

- Tesão é algo de pele, o que sinto por Emily é muito maior do que um par de seios e algumas palavras provocantes.

- Evan entrou em seu carro rapidamente, fechando a porta e arrancando. Deixou Ruby prostrada, ajoelhada em meio aos outros carros e seminua.

O turbilhão de pensamentos não deixava a mente de Evan nem por um segundo enquanto dirigia.

Pensava se deveria ou não contar o ocorrido a Emily.

Com certeza a menina ficaria insegura se contasse, afinal Evan trabalhava ao lado de Ruby todos os dias, mas por outro lado, se não contasse, e de alguma forma, Emily descobrisse, o problema seria ainda maior.

Resolveu então que contaria e se fosse o caso, na segunda-feira pediria ao RH para não mais ter contato com ela, afinal já conhecia todos os macetes e Ruby não lhe era mais essencial.

Chegou em casa por volta das sete e meia, tomou banho e aprontou-se o mais rapidamente possível, para não deixar Emily esperando, já que aquele contratempo com Ruby havia tomado muito de seu tempo.

Foi ao encontro de Emily em sua antiga casa, ela disse aos pais que iria com Olívia até a casa de uma menina da classe e que as duas ficariam por lá a noite e Evan torcia para que eles não suspeitassem de nada.

Levou a menina ao seu restaurante favorito.

O lugar era aconchegante, a comida era ótima e o clima romântico deixava tudo muito mais gostoso.

Tudo estava perfeito, tirando o fato de que ele precisava achar um momento propício e contar a Emily sobre Ruby.

A noite estava relativamente quente, então após o jantar, tomaram um sorvete, enquanto tinham uma conversa bem descontraída sobre o porquê de Emily ter um medo absurdo de palhaços e ainda assim, ter lido IT pelo menos umas cinco vezes.

- Você tem que aprender a superar seus medos, meu caro - ela zombava - Por isso o li tantas vezes.

- Prefiro a versão cinematográfica, sem sexo infantil - ele franziu o cenho - Mas sério, palhaços são fichinha perto daquelas coisas demoníacas.

- Fala sério??! - Emily exclamou - Gremlins são as criaturinhas mais fofas desse mundo.

Evan franziu o cenho - Fala isso para o Billy Peltzer.

Os dois riram sem parar de seus medos de infância e que de certa forma, ainda os assombravam a noite.

O caminho até o apartamento de Evan fora bastante pitoresco. Fizeram o caminho mais longo, para apreciar a paisagem do bairro vizinho.

Assim que Emily adentrou o lugar de destino, jogou-se sobre o sofá, tirando seus sapatos para ficar mais a vontade e deitou-se, com a cabeça apoiada sobre os braços.

- Vou sentir falta desse apartamento - ela fez o comentário olhando para ele e sorrindo - Você não?

- Claro! - Evan sentou-se, trazendo os pés de Emily para seu colo - Nossas melhores lembranças estão aqui!

- Não se preocupe - o sorriso dela era radiante - Construiremos outras lembranças na casa nova.

Evan, vendo a expressão de alegria no semblante de Emily, desistiu de contar o que tanto lhe incomodara durante o jantar.

Não podia estragar a felicidade dela, trazendo inseguranças bobas para a vida de quem mais amava.

O jeito era se afastar daquela maluca, assim não teria nenhuma maneira de Emily ficar sabendo sobre aquele beijo e sobre Ruby ter ficado seminua em sua presença.

- Vamos sim - ele sacudiu a cabeça e se desfez do pensamento ruim.

- Então que tal a gente aproveitar que estamos aqui de bobeira - Emily ergueu-se sobre o sofá, se apoiando nos cotovelos para olha-lo - E deixarmos esse lugar bem gravado em nossas memórias?

Evan ergueu uma sobrancelha, sentando-se ao seu lado - O que você tem em mente, sua moleca?

- Eu prometi uma surpresa, não prometi? - os olhos dela refletiam uma emoção diferente - Que tal descermos e fazermos amor lá em baixo - Emily mordiscou o lábio.

O garoto estremeceu com o convite da menina. Como era possível que ela tivesse tido essa idéia justo no dia em que Ruby lhe fez a mesma proposta?

O destino parecia mesmo estar tirando uma com sua cara.

Pensou naquilo por um instante.

Recordou-se então de uma conversa online que tivera com Emily, algum tempo atrás, onde havia confidencializado a ela, seu fetiche por algo proíbido, como o sexo em local público.

Será que Ruby, de alguma forma, teria tido acesso a essas mensagens e por conta disso, protagonizou aquela cena no estacionamento?

Seu computador e telefone celular ficavam sempre sobre sua mesa, na sala em que Ruby e ele dividiam.

Independente do que tivesse realmente acontecido, o deixou enleado. Ele mal sabia o que dizer.

- Eu... - gaguejou.

- Acho que exagerei, não faço o tipo mulher fatal - Emily arfou.

Ficara sem graça com o titubear do garoto, mas resolveu brincar com a situação e assim sair da saia justa em que se metera.

- Não está mais aqui quem convidou, vamos ficar com sua cama ou quem sabe a mesa da cozinha, é mais tranquilo, não?

Evan riu, agora mais calmo.

Pegou a menina em seus braços e a levou até a mesa, fazendo-a sentar-se e ficando entre suas pernas - Não acha que é um lugar meio desconfortável para uma boa lembrança?

- A cama então? - ela questionou - É confortável, sem muito perigo, eu só pensei em fazer algo diferente, porque você me disse que...

Evan interceptou a fala já meio tristonha da menina.

- Acho que prefiro o banco de trás do meu carro lá em baixo.

Queria muito aquilo, não com Ruby, mas com Emily, ainda mais agora que a iniciativa partia dela - Os bancos de couro são super confortáveis.

- Vamos lá ver se isso é verdade - ela desceu de sobre a mesa e correu até a porta, abrindo-a e correndo em direção ao elevador - Não esquece a chave!

Ele correu atrás da menina, como se fossem duas crianças descobrindo o amor.

O medo de serem pegos e o frenesi que sentiam, fez com que tivessem juntos, uma das noites mais inusitada, empolgantes e divertidas de suas vidas. Mas acima de tudo, mostrava-lhes que a relação dos dois era de pura cumplicidade e isso não se consegue da noite para o dia, muito menos com qualquer pessoa.

Evan sentia-se um homem de sorte, por ter em sua namorada, uma amiga, uma confidente e parceira.

Saber que o sentimento que nutria por ela era mútuo, o deixava ainda mais eufórico.

De repente, lembrou-se de Ruby e do acontecido. Pensou que talvez devesse contar a Emily, ela merecia sua total sinceridade, a confiança era a base de tudo para ele e sabia que para Emily isso não era diferente.

Mas e se ela não entendesse, se a insegurança a fizesse imaginar coisas sem sentido e ele nada pudesse fazer para convencê-la do contrário?

Decidiu que aquilo podia esperar mais um pouco. Cá um dia tivesse certeza que em nada afetaria o relacionamento dos dois, quem sabe ele cogitaria a hipótese de contar a ela, caso contrário, deixaria isso trancado a sete chaves, no passado.

Ainda deitados no banco do Mustang, ela o abraçou fortemente, pegando-o de surpresa, enquanto viajava em seus pensamentos.

- Que tal bebermos algo, deitados naquela cama lá em cima, que me parece tão mais confortável que o carro.

- Ah é, está mesmo reclamando do meu bebê? - ele fazia cócegas na garota que começou a contorcer-se sem parar - Você pareceu gostar agora a pouco.

- Gostei! Eu gostei! - ela ria descontroladamente - Eu admito, mas para com essa tortura.

Evan parou com as cócegas imediatamente - Desculpe, sou um idiota!

- Eu amo você mesmo assim! - ela zombou - Aliás, pensei que eu fosse seu bebê.

- Tá com ciúme de um carro? - Evan arqueou uma sobrancelha - Vou te arranjar um ótimo psiquiatra amanhã.

Emily deu de ombros - Posso ser maluca, mas não sou eu quem trata um carro dessa forma.

- Somos dois malucos.

Eles riram descontroladamente, como se somente eles pudessem se entender e se completar, mesmo nas coisas mais singelas.

Subiram pelo elevador, trocando carícias e afagos.

Assim que retornaram ao apartamento, Evan caminhou até seu armário de bebida - Vinho?

-Eu adoraria!

No quarto, a meia luz, o vento soprava um ar quente pela janela entreaberta. Aquela noite estava perfeita.

Algumas poucas taças de vinho se encarregaram de fazer com que Evan e Emily adormecessem abraçados sobre a cama confortável do garoto.

Um sentindo o calor do outro, o conforto e o carinho que só se tem nos braços de quem se ama verdadeiramente.

Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top