25. Erro sem volta

A maior burrada de sua vida, essa era a sensação que Emily tivera assim que acordou ao lado de Ian no chalé. Ela havia agido por impulso e agora não sabia como sair da situação que se encontrava.

Ian era uma pessoa maravilhosa, os dois tinham muito em comum, o sexo havia sido bom e com certeza ele seria um ótimo namorado, mas o dono de seu amor era Evan. Mesmo depois de tudo, ele ainda fazia seu coração bater acelerado apenas aparecendo em seus pensamentos.

- Que horas são? - "Ian é tão lindo acordando", Emily sorriu por ter esse tipo de pensamento superficial - Quer tomar café, Em?

- Bem, eu até gostaria, mas são sete e meia dá noite - ela riu.

- Nossa! - ele exclamou, esfregando os olhos - Dormimos a tarde inteira?

- É o que parece - ela fez uma pausa - Eu preciso conversar com você - era agora ou nunca, ele precisava saber que estava arrependida, não era justo enganá-lo - Ian, o que aconteceu entre nós...

- Foi ótimo, mas não pode acontecer de novo, por que você ama o Evan - ele a interrompeu, parecia ler seus pensamentos - Eu sei que você não está pronta pra começar algo novo.
Não estava quando decidiu namorar com Ryan.

- Não. Não estava - ela concordou envergonhada - Eu quero esquecê-lo e agora, depois de saber daquilo, quero ainda mais.

- Sei que você está magoada, eu bem poderia usar isso para ficar ao seu lado - ele segurou a mão da menina -
Mas não seria justo. Não seria algo que um amigo faria e antes de mais nada, é o que somos.

Emily sorriu timidamente, lembrando de tudo que fizeram - Porque eu sinto que você está prestes a me dar um sermão? - zombou ela, tentando não pensar nos detalhes sórdidos de algumas horas atrás.

- Não sou pastor para passar sermão - ele ironizou - Mas acho, mesmo que queira ficar com você, que deveria conversar e se entender com Evan.
Vocês se amam e precisam um do outro.

- Mesmo que ele me explique e seja convincente, depois do que fizemos, não vai querer mais ficar comigo.

- Emily, você está carente e machucada, sem falar que vocês nem estavam mais juntos. Ele não tem direito algum de sentir-se traído por causa do que aconteceu entre nós.

- Preciso ir - ela desviou o olhar, antes que sentisse vontade de beijá-lo - Minha mãe deve estar maluca atrás de mim.

- Eu levo você - Ian levantou-se pegando as chaves do carro de sobre a mesa.

Ao chegar em casa, Emily ignorou todas as broncas de seus pais e foi direto à seu quarto. Deitou-se na cama e tentou convencer-se que não podia dar mais chances para que Evan se explicasse, mas seu coração gritava para que escutasse o que ele tinha a dizer.

Pegou sua bolsa e saiu. Passou pelos pais sentados à sala, mas não deu importância ao que diziam. A partir de agora seria assim, nada faria com que ela desistisse do que queria. Pegou um táxi, para que assim chegasse mais rápido até a casa de Evan. Tiraria tudo a limpo. Era preciso, não podia continuar passando por tudo aquilo sem ter certeza de que deixar Evan, para sempre, era o melhor a fazer.

Tocou a campainha do apartamento, três vezes seguidas. Ele a atendeu vestindo apenas as calças de um pijama e com os cabelos bagunçados. Parecia estar dormindo.

- Em? - o semblante do garoto era de pura dúvida - O que faz aqui a essa hora?

- Preciso falar com você - ela disparou
- Posso entrar?

- Pode, claro! - deu-lhe espaço para que ela adentrasse - Sobre o que quer falar?

- Percebi que não deixei que se defendesse e, bem... - ela fez uma pausa - Me comportei como uma criança, saindo correndo daquela forma.

Ele estava ainda mais confuso. Não esperava uma visita tão amigável de Emily, muito menos aquela hora - Estou surpreso, mas enfim, sente-se!

Foi até a cozinha, serviu duas xícaras de café e sentou-se ao lado da garota, oferecendo-lhe a bebida.

- Emily, quando conheci você - ele começou - Fiquei encantado com seu jeito meigo, tudo que aconteceu daquele dia até o nosso primeiro beijo, não teve nenhuma mentira.

- Ficou mesmo indeciso sobre o fato de eu ser mais nova? - tentava entender cada instante do que eles viveram.

Ele balançou a cabeça em afirmação - No dia em que Ryan e eu conversamos, nós tínhamos combinado de almoçar, fui buscar Olivia e ele acabou vendo Katie e você conversando com ela.

- Então vocês apostaram que você conseguiria ficar com nos duas? - ela tentou, mas não conseguiu controlar seu sarcasmo.

- Não, Em - o olhar dele era de puro arrependimento - Eu disse a ele que estava ficando maluco, mas que estava apaixonado por você e ele foi bem claro quanto ao fato de ficar com Katie.

- E como isso virou uma aposta? - as coisas ainda não se encaixavam e Emily começava a ficar impaciente.

- Eu fiz uma brincadeira e acho que dei a entender que você era apenas uma obsessão minha, por ser um tanto difícil de me aproximar, mas Katie era fácil - Evan pensava numa forma de fazê-la entender que nunca teve a intenção de brincar com seus sentimentos - Então falei a Ryan que se eu quisesse ficar com Katie, ele não teria a menor chance.

- Ficou com ela por causa disso?

- Não! - esbravejou - Jamais faria isso com ninguém, Emily.

- Ryan soube quando transamos pela primeira vez? - ela questionou.

- Soube. E quis apostar o mesmo - baixou a cabeça - Mandei ele ficar longe de você, falei que não era brincadeira e que estávamos namorando.

- Espera, então foi por isso que Ryan estava tão interessado em ficar comigo? - agora tudo fazia sentido - Era pra ganhar uma aposta que você nem ao menos tinha feito?

Evan assentiu - Falei com ele, assim que soube do que estava acontecendo entre vocês - Evan confessou - Disse pra se afastar, nós tivemos uma briga feia, mas mesmo assim ele continuou. Até a noite na Planet.

Isso explicava os olhos e a boca inchadas de Ryan uns dias antes. Ele havia apanhado de Evan - Mas por que você não me falou isso, ao invés de brigar com ele?

- Eu tentei, Em - aproximou-se - Mas Olívia me disse que não funcionaria, pois você estava feliz ao lado dele.

- Estava apenas fingindo - Emily foi sincera - Nunca esqueci você!

- Naquela noite na boate, eu sabia que vocês estariam lá, ia aproveitar o momento para falar com você - a cada instante, o que ele ia contando parecia machucá-lo - Vi vocês dois juntos, pensei que talvez ele estivesse sendo sincero e era melhor que vocês ficassem juntos, já que ele te fazia feliz.

- E a garota loira? - Emily lembrou-se - Você disse que foi apenas pra me fazer ciúme.

- Foi apenas uma forma de não passar a noite olhando vocês se divertirem - Evan sorriu sem humor - Quando vi você sozinha e bêbada, não pude deixá-la.

Emily queria abraçá-lo, beijá-lo e esquecer tudo que acontecera antes, mas sabia que ainda havia algo que Evan desconhecia e isso poderia mudar tudo.

- Minha menininha, nunca quis magoar você, tudo que contei é absolutamente verdade - os olhos não o deixavam mentir - Eu amo você e se me afastei foi apenas por querer seu bem.

Ele tentou beijá-la, mas Emily o afastou - Tem algo que você ainda não sabe - começou - Depois que brigamos, eu não fui para casa, encontrei com Ian aqui em baixo, no prédio.

- Ian? Meu primo Ian? - Evan não sabia que os dois sequer se conheciam.

Emily sacudiu a cabeça em afirmação - O conheci a algumas semanas atrás, sua irmã nos apresentou e nós acabamos nos dando muito bem.

- Ian é uma cara legal. Não me admira terem se dado bem, afinal vocês tem muitas coisas em comum - Evan sorriu - Mas não entendo o que isso tem haver.

- Ian e eu começamos a sair. Conversávamos muito, íamos a livrarias, lanchonetes, mas antes da Planet, ele me disse que não podíamos mais nos ver, que estava apaixonado por mim.

Evan estava atônito com tudo aquilo - E vocês se afastaram mesmo?

- Sim. Ele saiu da casa de Olívia, acho que arranjou um emprego e um apartamento, mas não sei onde fica - ela fez uma breve pausa e novamente se pôs a falar - Enfim, acho que hoje pela manhã, ele estava aqui para te fazer uma visita, entrei no carro dele e pedi para que me levasse para longe de você.

- Então era Ian - Evan pensou alto - Para onde foram?

- Para o chalé do pai dele - as palavras pularam dos lábios de Emily - Evan, eu estava muito mal com tudo isso...

- Emily - Evan usara o nome inteiro da menina, fazendo-a estremecer - O que aconteceu?

- Nós... ele não queria, eu insisti - ela fugia da resposta - Estou muito envergonhada.

- Você transou com ele? - Evan perguntou, mas soou como uma afirmação - Que droga, Emily!

- Eu sinto muito - ela tentava se explicar em meio ao choro - Fiquei chateada por causa da aposta, tenta entender.

Evan levantou-se e caminhou até a porta, abrindo-a - Sai agora!

- Mas pelo menos deixa eu explicar - ela se negava a sair - Eu não estava pensando direito.

- Não pensou quando dormiu com Ryan também? - Evan cuspiu sua mágoa acumulada - Agora quem não te conhece mais sou eu.

As palavras de Evan pareceram um tapa. Emily mal podia acreditar no que estava escutando - Nunca fiz nada com Ryan, ele tentou naquela noite, mas eu não quis, por isso ele me deixou lá.

- Me poupe, Emily - ele perdera a confiança na menina e sua maneira de falar doce, agora era completamente fria e impiedosa - Você é uma vadia!

Emily ficara chocada com o insulto, chorava de forma constante e só queria sumir. Não disse nada, apenas saiu pela porta aberta pelo garoto e desceu as escadas automaticamente.

Caminhava pela rua, sem rumo, como se tivesse perdido o chão. Ir para casa seria outra tortura, seus pais iriam fazer milhões de perguntas e isso a deixava ainda pior.

Caminhou a pé, enquanto a chuva fria começava a cair sobre a cidade, misturando-se às lágrimas de Emily.

Chegou em casa perto das onze horas da noite, ouviu os gritos dos pais sem nada dizer, parecia nem ao menos estar ouvindo o que diziam. Tomou banho e deitou-se. Dormiu enquanto a música que Evan mais gostava, tocava em seu iPod. A letra dizia:

"O que eu quero eu pego
O que eu não quero eu quebro
E eu não quero você
Com um golpe de minha faca
Eu posso mudar sua vida
Não há nada que você possa fazer"

As palavras faziam sentido e o choro voltou ainda mais doloroso, levando todas as possibilidades que ela ainda pensara ter com Evan.

Emily ficou três semanas sem ir a escola. Inventava doenças, ou apenas zanzava pelas ruas até o horário de retornar para casa.

Em um desses dias, esbarrou em Olivia e não pode evitar a desagradável conversa que tanto fugira.

- Como você está? - Olivia disparou - Meu irmão não quer falar sobre o assunto, mas sei que aconteceu algo depois daquela noite.

- Não quero falar também, Liv - Emily fora direta.

- Droga, Em - Olivia pôs as mãos na cintura - Você está um bagaço, cheia de olheiras, mal fala ou come. Se não quer me contar, tudo bem, mas vai acabar ficando doente assim.

Emily perdera as contas de quantas vezes ouvira os pais dizerem a mesma coisa que olivia, mas ela não conseguia seguir em frente.

Já fazia muito tempo da briga com Evan e ela só conseguia se culpar. Ian ligara muitas vezes, mas ela o ignorou. Não tinha notícia alguma de Evan.

Emily passava suas tardes deitada, ouvindo as mesmas música. Saía do quarto apenas para fingir que ia a escola, ou comer, mas a segunda parte era rara.

Suas notas estavam cada vez mais baixas, pegara recuperação em quase todas as matérias e sua mãe fora chamada inúmeras vezes pela secretaria da escola para falar sobre o mau comportamento da menina.

Perdera todos os seus amigos, exceto Olivia que ainda insistia em ajudar, porque odiava ver a amiga daquela forma.

Faltavam menos de um mês para as férias começarem e os pais de Emily pretendiam leva-la para a Califórnia, afasta-la de tudo que pudesse estar deixando-a tão distante e infeliz.

- Não, eu não quero ir - Emily falou aos berros - Odeio aquela cidade, odeio as pessoas, odeio tudo lá. Quero ficar aqui, no meu quarto e pronto.

- Emily, nós não estamos perguntando se você quer ir, apenas comunicando - Elizabeth estava decidida - Nós vamos para Los Angeles e está decidido.

Emily deu as costas para a mãe, batendo a porta do quarto com toda sua raiva e força. Não sabia mais o que fazer, não queria sair de Miami, muito menos ir para um lugar onde as pessoas são metidas e acham que o mundo gira em torno delas.

Foi para a escola contrariada.
Estava esperando o ônibus, quando um carro parou, baixando o vidro. Era Ian.

- Quer carona, Em - o garoto sorriu sem graça - Preciso falar com você.

- Não, obrigada - ela negou, sem ao menos olhar para ele - Prefiro ir de ônibus.

- Por favor! - ele insistiu.

Emily deu a volta, entrando no carro do garoto, meio a contragosto, mas sabendo que ele não desistiria.

- Tentei te ligar várias vezes, o que ouve? Está zangada comigo? - ele estava confuso com o afastamento da garota depois do que aconteceu entre eles - Em, me desculpe, nunca devia ter...

- Para! - ela deu um grito gutural - Para de se desculpar, você não fez nada, eu que me joguei pra cima de você feito uma vadia.

Lágrimas começaram a rolar pelo rosto da menina que estava extremamente nervosa e culpada - Perdi Evan para sempre!

- Não chore - ele secava o rosto da garota com o dedo - Você não é vadia, nunca mais diga isso.

- Foi Evan quem disse - ela jogou a cabeça para trás.

- Ele está errado - Ian pegou a mão de Emily com doçura - Você e eu foi um erro, mas nós dois temos parte nisso.
Se Evan não é maduro o suficiente para entender que você estava magoada, não te merece como eu pensei que merecia.

- Ele acha que Ryan e eu dormimos juntos também, mas você sabe que isso não é verdade - ela abraçou o garoto no impulso, afastou-se rapidamente - Desculpe, eu estou ficando maluca, Ian!

- Vou te levar para a escola - foi só o que ele disse.

Foram quietos o caminho todo, mas assim que estacionaram e Emily abriu a porta para sair do carro, Ian a segurou pelo braço - Ei, se precisar conversar, me liga. E sobre o que aconteceu naquela noite, pare de se culpar, foi um erro, apesar de para mim ter sido...

Emily bateu a porta do carro atrás de si e caminhou até o portão da escola, sem olhar para trás, sem ouvir o que quer que Ian fosse dizer, mas com a certeza de que ele a estava observando.

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