14. Medo de se entregar
Emily não podia acreditar no que lia. Como assim vai embora? Para onde? De quê diabos ele estava falando? As perguntas surgiam em sua mente, mas e as respostas? Só Evan as tinha.
Tentou ligar, sem sucesso mais uma vez. Apelou então para o celular de Olivia, quase desistindo também, mas na quarta chamada uma voz chorosa atendeu:
— Oi, Emily!
— Olivia? Você está chorando? Cadê o Evan? Por que ele não me atende?
— As coisas não estão nada bem — os soluços atrapalhavam sua narrativa — Você precisa fazer alguma coisa pra que ele mude de ideia... Emily, você é a única que pode.
— Olivia, eu não posso sair a uma hora dessas — murmurou, como medo que a mãe pudesse lhe ouvir — Quer me contar o que está acontecendo?
— Não consigo mais falar, desculpa!
O telefone ficou mudo, Olívia havia desligado e Emily ficara novamente sem entender nada. Foi até o quarto da mãe, decidida a lhe dizer que precisava visitar a amiga e pronta para inventar alguma mentira bem convincente, mas quando abriu a porta viu que Elizabeth dormia profundamente. Fechou a porta com cuidado, e desceu as escadas tentando ao máximo não provocar nenhum ruído, saindo sem ser percebida.
Ao chegar em frente a casa verde, tocou a campainha da porta e aguardou. Em poucos segundo, Annabel atendeu, vestindo o seu tradicional roupão preto — Emily? — a mulher parecia surpresa — O que está fazendo aqui a essa hora? Sua mãe sabe ou a está desobedecendo?
— Sim, ela sabe! — sorriu, torcendo para que não fosse pega na mentira — Só preciso falar com a Olivia. É rapidinho! — juntos as mãos e arqueou levemente os joelhos em súplica
— Está bem — a mulher assentiu — Olivia está no quarto, pode ir até lá.
— Obrigada, dona Anna! — agradeceu-lhe com um beijo na bochecha.
Annabel não era boba, sabia o porquê da menina estar ali tão tarde na noite, e também sabia que era muito improvável que aquela visita tivesse o consentimento de Elizabeth, mas não poderia impedir que a menina e seu filho se entendessem.
Emily bateu, antes de adentrar o quarto onde Olivia se encontrava deitada, na penumbra de um ambiente iluminado apenas por um pequeno abajur. Aproximou-se lentamente da cama, tocando o rosto molhado da loira, consolando-a sem nem saber direito o motivo.
— O quê houve, Liv? Por que seu irmão quer ir embora?
— Minha mãe vai trazer o tal cara pra morar com a gente — seu peito subiu e desceu com respirações rápidas.
Emily moveu os lábios, mas não emitiu som algum.
— Evan vai embora, vai me abandonar como todos me abandonam — seu lamentar se tornava penoso e o choro incessante não lhe permitia explicar coisa alguma.
— Mas vai embora pra onde? Olivia, me explica direito essa história.
Emily tentava ouvir seus próprios pensamentos, mas sua cabeça latejava e a impaciência por não conseguir compreender o que fato estaria ocorrendo, fazia seu corpo tremer em agonia.
— Nova York! — Olivia finalmente diz — Ele vai voltar pra Nova York, pra nossa antiga casa.
— Não! — Emily gritou em objeção, esquecendo-se de onde estava — Ele não pode fazer isso com você, não pode fazer isso comigo. Depois de tudo que ele me disse...
— Já tentei falar com ele um milhão de vezes — Olivia não estava sendo literal, mas queria que Emily entendesse a gravidade do problema — Só você pode fazer ele mudar de ideia. Por favor, Emily! Não posso ficar nesse lugar sem meu irmão.
— Mas eu? Como vou fazer isso? — ela encolheu os ombros.
Olivia projetou o corpo à frente, segurando as mãos da amiga num pedido irrefutável — Vai até o quarto dele, peça pra que fique, diga qualquer coisa, mas não deixa ele ir.
Emily não hesitou, movida por um impulso momentâneo, deixou o quarto de Olivia e rumou para o de Evan, batendo em sua porta com firmeza e extrema urgência.
— Me deixa em paz, Olivia! — berrou ele, antes que Emily girasse a maçaneta — Já disse que amanhã conversamos.
— Não. Sou eu — ela pigarreou, abrindo passagem e deixando que a porta se fechasse lentamente atrás de si.
No completo escuro, Evan tateou a parede em busca do interruptor. Quando o cômodo se iluminou, seus olhos encontraram a figura por de trás da voz melodiosa que ouvira, embora ele já soubesse bem de quem se tratava.
— O quê faz aqui, Emily? — indagou ele, aflito por estar diante da única pessoa capaz de desestabilizá-lo.
— Quando você pensou em me contar que pretende voltar para Nova York? — ignorou o questionamento dele — Ou achou que uma droga de mensagem de texto resolveria tudo, sem problemas?
— Olha, Emily...
— Você nem ao menos pensou na Olivia — ela apontou o indicador para o quanto ao lado, sem deixá-lo falar — Vai deixar ela sozinha com um completo desconhecido?
— Porra, Emily! Quer, por favor me escutar? — ele andou até a porta, deu um giro em volta de si mesmo e esfregou o rosto, tentando se controlar — Você tem noção do inferno que vai ser viver aqui, com outro cara circulando pela casa, tomando café da manhã na cozinha e dormindo com a minha mãe?
—Você não pode fazer isso comigo! — sentou-se sobre a cama desarrumada, agarrando-se a uma almofada e se desmanchando em lágrimas, tão sinceras quanto a convicção de que significa tão pouco para o garoto.
Ele arfou, se acomodando e ponto sua mão em contato com a dela — Emily, não chore! Parte meu coração te ver dessa forma — disse, contendo com dedo as lágrimas que rolavam constantemente pelas bochechas avermelhadas da menina.
— Para de mentir e de vomitar desculpas — afastou-lhe a mão com rispidez — Como eu fui idiota de acreditar que um cara como você poderia gostar mesmo de mim — coçou o nariz e girou os olhos para o teto, desdenhosa — Sou tão patética!
— Não fale assim — Evan segurou-a pelo pulso, trazendo-a para junto de seu peito — Por favor, entenda...
— Não há mais nada o que entender. Agora me solta! — Emily conseguiu se desvencilhar do rapaz, andando a passos pesados até a porta — E quer saber de uma coisa? esqueça que eu existo!
Ele se colocou a frente da porta — Não faz isso comigo, eu estou implorando.
— Saia da minha frente!
Emily girou o corpo, trocando de posição com ele, que a prendeu em meio aos seus braços fortes, fincando-lhe as costas na parede ao lado da porta.
— Mas que droga Emily! — Evan socou a madeira, próximo ao rosto da menina e exausto, repousou a cabeça no ombro da mesma — Minha mãe está agindo feito uma vadia.
— É? Por que ela traiu o pai que você tanto odeia? — ela soltou o riso sarcástico — Você nem liga para o que sua mãe sente, como posso querer que ligue para o que eu sinto!
— É claro que eu ligo, se não ligasse seria bem mais fácil te dar as costas e ir embora — inclinou a cabeça para trás, frustado por não conseguir se fazer entender — Eu nem sei como vou conseguir ficar sem você!
— É fácil! Ache outra com quem se divertir! — o tom irônico continuava preso a fala e despedaçando aos poucos o coração de Evan — Já fez isso um vez. Não será nada difícil fazer de novo.
As mãos dele apertaram os punhos — Acha mesmo que só quero me divertir com você?
— Acho! — ela deu-lhe às costas, buscando pela maçaneta.
Evan bateu a porta no mesmo instante em que Emily a abriu, puxando-a pelo braço e segurando seus pulsos a frente do corpo. Mas ela era teimosa demais para aceitar aquilo sem lutar, se soltando e o empurrando para o mais longe que suas forças eram capazes de o projetar, ela tentou outra vez destrancar a saída.
— Eu fico! — as palavras foram ditas no impulso de não querer vê-la partindo — Por você eu fico!
As lágrimas não paravam de verter ao longo do rosto da menina que tentava erroneamente se fazer de durona.
— Você só diz isso para que eu continue fazendo parte desse seu joguinho ridículo — disparou ela — Você não vai mais brincar comigo. Pra mim chega, Evan!
Emily, por fim, conseguiu abrir a porta, mas antes que pudesse sair por ela, Evan puxou-lhe pelo pulso bruscamente, trazendo-a para seus braços e lhe fazendo sentir todo o calor do peito e o coração que batia descompassado.
—Sua garotinha idiota, será que você não consegue entender que eu te amo?
Naquele instante, Emily ficara sem reação, petrificada pelas palavras ditas por ele. Aquele "eu te amo" ressoava em sua mente, ela podia sentir as lágrimas queimarem pelo rosto, fervilhavando de emoção, enquanto cada vértebra de seu corpo estremecia e tudo agora parecia colorir-se magicamente diante de seus olhos.
— Diga isso de novo! — pediu-lhe, apenas para confirmar que não estava, de verás à sonhar.
— Eu digo quantas vezes precisar para que você acredite que eu te amo, Emily Marshall!
Evan passou as mãos em volta da cintura dela, a pressionando contra sim, beijando-lhe os lábios com uma ânsia desmedida e sentindo o cheio do perfume adocicado preso a nuca desnuda.
— Não vai embora, por favor! — ela suplicou, como se pudesse fazê-lo ficar apenas com seu olhar pedinchão —Deus! Eu amo tanto você, Evan Blake.
Ele sorriu e dessa vez, suas bocas se uniram em um beijo calmo e tranquilo, sem nenhum tipo de pressa e nem medos escondidos. Aquela era sua forma de dizer que não iria a lugar algum, sua felicidade era estar ao lado dela e não importava o que teria de passar para que aquilo se tornasse realidade.
No ímpeto de tê-la inteira para si, Evan deixou que suas mãos percorressem o corpo da menina, abrindo passagem para que sua língua aprofundasse o beijo, fazendo o quarto pegar fogo como o próprio inferno.
Não tinha mais forças para suportar aquela aterradora tortura a que se sentia exposto. O desejo de torná-la sua de todas as maneiras possíveis o controlava feito um ventríloquo e ele quase que automaticamente, abriu os botões da blusa que ela vestia, sem se dar conta do que estava verdadeira fazendo, tamanha era sua fome de amá-la.
Mas sentindo-se intimidada com a aproximação entre eles, Emily de repente afastou-se, girando na ponta dos calcanhares e sumindo pela fresta aberta da porta. Evan ficou ali, parado com toda sua culpa e sentindo-se péssimo por ter, mesmo que sem notar, se aproveitado da fragilidade da garota que tanto amava.
Aquilo era extremamente difícil para Evan, jamais havia pensado na possibilidade de namorar alguém ao qual não pudesse ter por completo. Era frustrante, mas ao mesmo tempo, o fato de saber o quanto ela era inocente, pura e livre de qualquer malícia, a fazia ainda mais especial para ele.
Emily correu de volta para casa, a mãe parecia continuar dormindo sem ter notado sua ausência em momento algum. Jogou-se em sua cama e chorou, chorou por se sentir uma covarde, por se sentir a garota mais burra do mundo.
Algumas perguntas vagavam por seus pensamentos enquanto ela tentava acalmar os soluços que a essa altura controlavam seu corpo. Por que ela fugiu? Por que tinha sido tão medrosa? Por que não deixou acontecer? Afinal, já tinha total certeza de que o amava, de que o queria e que uma hora ou outra aquilo teria que acontecer. Adormeceu lentamente, lamentando ser tão fraca e tão insegura.
Nos dias que se seguiram, Emily evitou ao máximo encontrar-se com Evan. Se sentia envergonhada pelos últimos acontecimentos e ele também andava bastante ocupado, desde que muito embora, bastante contrariado, decidira aceitar a oferta do pai e se mudar para um apartamento alugado por ele, a 20 minutos de sua antiga casa e claro, da casa de Emily.
Ela ainda não o havia visitado e não sabia dizer se ele gostaria que ela o fizesse.
— Eu acho que você deveria ir — encorajou Olivia — Tenho certeza que ele só não te convidou ainda porque o apartamento não está pronto, está tudo uma bagunça, caixas pra todo lado...
— Liv, sejamos realista - Katie sentada ao lado de Emily na escadaria de acesso ao prédio da escola, interrompeu o discurso de Olivia, antes de mordiscar pela primeira vez seu sanduíche — Tá na cara que ele está evitando ela por causa do que aconteceu.
— Do que você está falando?
Olivia se fez de desentendida para ver se Katie notava o quão inconveniente estava sendo, mas a garota parecia afim de deixar Emily ainda mais confusa.
— Estou falando do fato de que cada vez que ele tenta algo relacionado a sexo, a nossa amiga virgem aqui resolve escapulir. Vamos encarar a realidade, ele é homem e homens precisam disso.
— Cala a boca, Katie! — ordenou Olivia, nitidamente irritada com a ironia presa às palavras da garota — Eu já disse que meu irmão não é desse jeito.
— Comigo ele foi! — Katie revirou os olhos, cuspindo o rancor guardado por meses.
— Porque você se jogou pra cima dele — Olivia rebateu — Ah, e também ele nem lembra de nada, estava bêbado.
— Continuem pensando assim e serão pra sempre duas perdedoras — Katie se ergueu, deu de ombros, juntando suas coisas e subindo o restante dos degraus para dentro da escola.
As outras a ignoraram.
Katie fora a amiga mais antiga de Emily e mesmo que Olivia desejasse com todas as forças de seu bom senso se afastar da inveja dela, sabia que a decisão precisava partir de Emily.
— Por que você não liga pra ele? — insistiu Olivia — Sei que Evan não está chateado, na verdade se sente até culpado por ter agido daquele jeito.
— Liv, eu travei, mas eu quero, eu quero muito transar com ele, só que fico insegura com tudo que está acontecendo e...
— E você acha que ele vai ficar comparando você com a Katie! — Olivia completou-lhe a frase, levantando-se e esticando a mão para a amiga — Ele nem lembra do que rolou com ela e se você for se comparar com todas as garotas do passado vai acabar enlouquecendo.
— Será que foram muitas?
— Emily!
— É, você tem razão!
A menina ergueu-se com a ajuda da loira, sacou o celular de dentro do compartimento da mochila, teclando o número 1 em sua chamada rápida e logo aquela voz que ela tanto gostava de ouvir atendeu-lhe do outro lado da linha:
— Em?
Fez-se silêncio, apenas se ouvia o ruído estático da linha telefônica.
— Emily, é você?
— Hã... Sim, sou eu! — gaguejou — Estava pensando se poderia dar uma passada no seu apartamento hoje à noite? Como eu ainda não conheço...
Deixou o restante da frase sem complemento, esperando por uma resposta conclusiva.
Ele fez silêncio por alguns segundos, deixando Emily ainda mais apreensiva e impaciente.
— Evan, está me ouvindo? — insistiu.
— Ahm... Sim, perdão! Estava terminando o café — ele finalmente falou — Hoje? Mas como vai chegar aqui sem sua mãe descobrir?
— Bem, eu não havia pensado nisso — olhou para a amiga como se pedisse ajuda, mesmo que ela não soubesse o que se passava ao telefone.
— Posso te buscar se estiver com Olivia! — sugeriu o rapaz.
— Seria perfeito!
Seu tom aliviado fez Evan sorrir alto.
— Okay! Nos vemos às sete — Ele fez uma pausa — E Em, eu... Eu amo você!
— Também amo você, Evan!
Emily desligou o aparelho, voltando-se para Olivia que a olhava com o semblante de quem via um filme 3D romântico.
— O quê? — a morena abriu os braços, com as mãos voltadas para cima, se fazendo de desentendida, enquanto segurava o copo que quase esquecera na escada.
— Vocês são tão fofos! — Olivia abraçou seus livros, sorrindo de orelha a orelha.
— E o que me diz, vai me dar cobertura hoje?
— Sempre que precisar!
Depois da escola, Emily passou a tarde pensando no que vestir para não dar na vista que iria mais longe do que a casa da amiga, mas que não fosse tão largado a ponto de Evan achar que ela não havia se preocupado com o visual.
Optou então por uma blusa rosa fechada com botões em toda a sua extensão, uma saia jeans curta e sapatilhas confortáveis. Deixou o cabelos soltos, caírem como cascata por sobre os ombros finos e fez uma maquiagem leve, para que sua mãe não desconfiasse de nada.
Disseram a Annabel que veriam um filme e Olivia inventou que precisavam conversar a sós e que não queriam ser incomodadas, tudo para que sua mãe não percebesse a ausência da amiga em casa, pois por mais que ela apoiasse a relação dos dois, nunca iria contra as ordens de uma mãe.
Assim que Evan chegou, Emily correu para a porta e Olivia deu cobertura para que nada desse errado. A menina estava uma pilha de nervos, não só pelo perigo de ser escondido, mas também por que aquela noite seria única e marcaria sua vida para sempre.
— Rápido, vamos embora antes que alguém perceba que eu saí, ou minha mãe nos veja — disse ela, adentrando o carro e puxando o cinto de segurança por sobre o corpo.
Evan, acelerou o veículo, notando o nervosismo da menina, mas assim que afastou-se da rua em que ela morava, estacionou o carro embaixo de uma árvore grande.
— Porque parou? — questionou a garota, aflita.
— Queria dizer oi, olhar pra você e... Uau! — ele fez uma pausa, boquiaberto com a beleza que lhe saltava os olhos — Você está linda!
Um tímido sorriso desabrochou em seu rosto, diante do elogio espontâneo.
— Mas a única coisa que você disse até agora foi "Vamos sair daqui" — completou Evan, num sorriso irônico.
— Desculpa! — pela primeira vez, desde que saíram, Emily relaxou no banco de couro do Mustang, o beijou delicadamente — Oi! E... Você está... Está lindo também, como sempre.
— Agora melhorou! — ele voltou-se para o volante, sorrindo — Já podemos ir! Pedi pizza para a gente!
— Que bom, estou faminta!
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