08. Visitando o papai

Encontravam-se em frente a um prédio grande, branco e com árvores bem podadas. No alto uma placa dizia Everywood Clinic Hospital. Um dos hospitais mais caros de Miami.

— Quarto 201, por favor! — informou Olivia à recepcionista entregando-lhe um documento seu.

— Paul Henderson Blake, correto? — perguntou a mulher loira de olhos claros atrás do balcão.

— Sim. É meu pai! — disse Olivia sorrindo e pegando de volta seu pertence.

— Ok! Segundo quarto à direita — a mulher explicou, entregando a elas dois crachás com a palavra VISITANTES impressa.

Olivia bateu à porta duas vezes, a abrindo e enfiando a cabeça para dentro do quarto, ouvindo uma voz grave, vinda do lado de dentro — Filha!

Olivia adentrou o quarto, puxando Emily pela mão — Oi pai! — disse ela enquanto se aproximava da cama.

— Que bom que veio. Eu estava com saudade! — ele levantou-se, para abraçá-la.

— Não pai, não se esforce! — Olivia tentou impedí-lo, mas de nada adiantou, pois ele se pôs de pé, olhando para Emily com o semblante confuso.

— Teimoso! — resmungou ela — Pai, essa aqui é minha amiga Emily!

—Prazer, minha jovem! — esticou a mão para cumprimentá-la.

Da primeira vez que Emily o vira, estava muito longe e não pode notar o quanto Evan se parecia com ele. Era magro e esguio. Seus cabelos, apesar de um pouco mais escuros e com alguns fios brancos bem distribuídos, tinham o mesmo corte bagunçado. Mas os olhos verde-brilhantes e o sorriso eram, sem dúvida, iguais aos do filho.

— O prazer é todo meu, Senhor Blake — Emily o cumprimentou apertando firmemente sua mão.

— Prevejo um "me chame de Paul"! — debochou Olivia.

— Não tenho sessenta anos ainda, não é mesmo Emily? — ele sorriu — Por isso, me chame apenas de Paul.

— Viu Em, eu disse! Meus pais são duas figuras mesmo — ela lembrou que Annabel disse o mesmo à Emily.

Paul fez uma careta e ignorou o deboche da filha, sentando-se em uma poltrona ao lado da cama  — Então, e os namoradinhos, meninas?

— Eu não sei por que você sempre faz esse tipo de pergunta. Mas já que quer saber, o namoradinho... — ela fez sinal de aspas com os dedos, sua marca registrada — da Em é o seu filho.

Emily ficou vermelha e desejou poder cavar um buraco para enfiar a cabeça como um avestruz — Que isso Olivia, ele não é meu namorado, nós só...

— Estou vendo que Evan herdou o meu bom gosto para mulheres — Paul à interrompeu, notando que a menina ficara sem jeito.

— Ganhou o sogro! — falou Olivia que pegava um biscoito de um prato sobre uma mesinha.

— Faça ele feliz, pois ele é um garoto muito bom! — o pai, ao contrário do filho, não parecia estar magoado. Seus olhos indicavam um arrependimento sem igual e até mesmo certo orgulho ao falar de Evan.

Ele prosseguiu — Filha, espero do fundo do meu coração, que você me perdoe pelo mal que fiz a nossa família, sua mãe não merecia tal atitude de minha parte, eu a amo e por isso vou deixá-la livre, mas juro que irei concertar nossa relação de pai e filha, começando por me livrar desse maldito vício que herdei de seu avô.

Os olhos de Olivia se encheram de lágrimas — Oh, pai — ela o abraçou fortemente — Eu perdoo você e vou visitá-lo assim que estiver instalado na sua nova casa. Espero ter um canto para mim, por lá.

Paul sorriu encantado — Terá a casa inteira pra você, minha princesa.

Os dois se abraçaram novamente, o homem, ainda bem machucado por conta do acidente, parecia estar nas nuvens com aquele momento.

Assim que pai e filha se afastaram um do outro, Emily sorriu, nitidamente emocionada e sem saber o que falar, olhou para Olivia e sussurrou — Precisamos ir!

Despediram-se do homem e foram em direção à porta. O caminho foi demorado, já que Olivia parava a cada vitrine que vira.
Emily chegou em casa com o estômago roncando de fome. Eram 6h30 da tarde e ela ainda não havia almoçado. Foi até a cozinha, preparou um sanduíche e após comer, deitou-se no sofá da sala. Acabou por dormir.

Acordou assustada, olhou pela janela e viu que o dia já havia escurecido. Procurou pela mãe, mas apenas encontrou, sobre a mesa da cozinha, um bilhete escrito por ela:

Querida!
Quando cheguei você estava dormindo
e eu não quis te acordar.
Precisei ir ver seu pai, mas volto
o mais rápido possível.
Beijos, mamãe

Novamente estava sozinha em casa. Isso estava se tornando freqüente demais, o que fez Emily imaginar o que seus pais estavam tramando. Engoliu em seco. Eles não podiam estar voltando.

Embora amasse muito seus pais, o que menos queria agora, era que eles voltassem a viver sobre o mesmo teto. Só de imaginar todas aquelas brigas e gritos, já fazia Emily querer fugir.

Afastou os pensamentos e quando levantou-se para ir até a cozinha preparar um sanduíche, a campainha tocou. Pelo olho mágico da porta, pode ver sua amiga do lado de fora. Abriu-a.

— Oi Em! — Olivia partiu para um abraço na amiga.

— Liv! Aconteceu alguma coisa? — Emily falou retribuindo o carinho.

— Na verdade, vim para ver se sua mãe por acaso tem alguns tomates para emprestar — Olivia falou enquanto entrava pela porta da casa de Emily — Hoje é nossa noite do cachorro-quente e meu irmão, mesmo trabalhando dentro de um supermercado, esqueceu de comprar.

— Minha mãe não está, mas vamos até a cozinha, vou verificar se temos tomates — ela se dirigiu até o outro cômodo, seguida por Olivia.

— Ah, então vem comer conosco — convidou a menina sorrindo.

— Claro. Eu adoraria e acho que minha mãe não vai se importar. Só deixe-me trocar de roupa então — Emily concordou logo, pois só conseguia pensar em ver Evan novamente e obviamente, estava faminta.

— Te espero aqui em baixo! — anunciou Olivia — Mas não demore muito, porque é capaz de meu irmão vir atrás de mim.

Emily correu até o quarto, tirou o pijama que havia vestido após o banho e colocou um vestido solto, branco e de mangas compridas. Calçou suas sapatilhas, soltou o cabelo e desceu até a sala, onde a amiga a esperava impaciente.

— Vamos? — disse ela.

— Vamos! Antes que meu irmão tenha um chilique — exclamou Olivia, mostrando o celular que indicava três mensagens de Evan.

Entraram pela porta da casa de Olivia e deixando a amiga na sala, Emily adentrou a cozinha e pode ver, atrás de um balcão repleto de ingredientes, aquele em quem não parava de pensar.

Evan, cortava uma cebola — Já era hora, Olivia — ele ralhou com a irmã, sem notar a presença de Emily — Pensei que havia ido plantar os tomates...

— A demora foi culpa minha — disse Emily — Olivia me convidou pra jantar com vocês.

Quando enfim, Evan ergueu a cabeça e viu o semblante da menina parada a sua frente, abriu-lhe um enorme sorriso — Desculpe, gatinha, pensei que fosse a Olivia. Quer dizer que você veio provar minha receita secreta?

Ela sorriu. Seu coração batia forte e as borboletas voavam de um lado para outro no estômago da menina — Hm! O cheiro está maravilhoso. Não sabia que você cozinhava!

— Tem muita coisa sobre mim que você ainda não sabe, essa é uma das menos relevantes — falou ele de forma convencida, mas em seguida fazendo uma careta que indicava que estava apenas brincando. Mas isso não impediu que o rosto de Emily cora-se.

— Estão aqui os tomates, mano! — Olivia entrou pela porta e esticou uma sacola à Evan.

— Obrigado! — ele assentiu, pegando o pacote, sem broncas dessa vez, o atraso dela havia valido a pena ao final.

— Onde está a dona Anna? — Emily olhava ao redor procurando pela mãe da casa.

— Não a deixe ouvir você a chamando de "dona" — Evan brincou — Ela teve de ir ver Paul no hospital.

Era a segunda vez que Emily via Evan se referir ao pai pelo nome, parecia que a mágoa dele não passaria tão cedo.

— Já disse para parar de chamá-lo assim! — Olivia rosnou, franzindo o cenho fazendo cara de poucos amigos.

— Chamo do jeito que eu bem entender - ele retrucou de maneira ríspida — Você pode até querer fazer visitinhas a ele e arrastar Emily com você, mas eu não o devo absolutamente nada.

— Mas o carro que você anda por aí, foi ele quem te deu — Olivia cruzou os braços e batia o pé.

— Foi um presente, não pedi nada a ele — Evan picava os tomates, de cara fechada.

Emily, percebendo que o clima estava ficando pesado, tentou amenizar as coisas — Falando em carro, amanhã a corona está de pé ou você vai trabalhar cedo novamente?

— Está! — Evan falou enquanto mexia a panela no fogo, ainda nitidamente irritado.

— Acho que vou tomar um banho, esse cheiro está me deixando com fome! — a cara emburrada de Olivia não parecia querer se desmanchar e ela os deixou a sós.

— Em, prove aqui! — Evan levantava a colher cheia de molho oferecendo a Emily, tentando ignorar a discussão com a irmã.

Ela deu a volta e parou ao lado dele, mas quando foi provar o conteúdo da colher, Evan a surpreendeu tirando-a e lhe dando um beijo que quase a deixou sem fôlego.

— Eu estava louco pra fazer isso! — a colher voltou ao molho e em seguida ele ofereceu-a outra vez.

— Posso provar o molho agora, ou vai me roubar outro beijo? — Emily tentava conter a euforia que sentia naquele momento.

— O que você prefere? — ele arqueou uma sobrancelha.

No impulso ela o beijou novamente.

— É molho, parece que meu beijo venceu — ele zombou olhando para a panela.

— Não conte vantagem, ainda não o provei! — ela riu.

Evan lhe alcançou a colher — à vontade, gatinha!

Ela mergulhou a colher na panela, em seguida a levou à boca — Hm, uma delicia, chefe! Mas acho que preciso de mais um beijo para decidir-me — ela provocou e nem sentiu-se envergonhada dessa vez, surpreendendo a si mesma.

— Estou a sua inteira disposição! — ele a puxou para seus braços e a beijou, fazendo-a derrubar a colher que tinha em mãos. O corpo de Emily estremeceu, como se tivesse levado um choque ao se encontrar com o de Evan, sentiu um calor subir e instintivamente pressionou ainda mais seu corpo ao do garoto. Ele a apertou contra o balcão e mais coisas caíram ao chão, fazendo um barulho estrondoso, quando Olivia surgiu à porta, com uma toalha enrolada aos cabelos e pigarreou para chamar a atenção dos dois. Eles assustaram-se e
Emily deu um pulo se afastando de Evan.

— Desculpe Olivia, nós só... — Emily tentava se explicar.

— Não precisa falar nada, estou feliz por vocês! - Olivia sorriu — Agora vamos comer, estou faminta!

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