01. Criatura indesejada

Era seis e meia da manhã, o sol já brilhava e o dia estava absurdamente quente para aquele horário.
Antes mesmo de o despertador de Emily tocar, sua mãe Elizabeth bate à porta de seu quarto — Hora de levantar, Em!

— Tudo bem, mãe! — Sua voz sonolenta fez-se ouvir, mas sua dificuldade para levantar era tamanha que, por um momento, ficou deitada, tentando entender por que, sempre que podia, sua mãe insistia em acordá-la para ir à escola. Definitivamente, ela não confiava no relógio despertador, que agora soava o alarme, em cima do criado-mudo.

Será que era por conta de seu formato, extremamente fofo de Hello Kitty, ou por que alguma vez o coitado a tinha deixado na mão? Ao que se sabe, o objeto fora um presente de aniversário de sua avó, portanto era quase impossível ele tê-la desapontado em alguma ocasião.

Chacoalhou a cabeça como se para fugir daquele pensamento bobo e finalmente conseguiu se erguer na cama. Com a maior preguiça do mundo, empurrou as cobertas com o pé, espreguiçando-se e, com um pulo, deixou a cama. De pé, à frente de seu guarda-roupa, olhava para ele, como se esperasse que suas roupas a escolhessem e não o contrário.

Emily Marshall era uma garota de 15 anos de idade, estatura baixa, muito magra e pálida. Sua pele branca como papel, parecia nunca pegar sol, como a de alguém vinda diretamente de Barrow no Alasca,como em 30 Days of Night, ou mais provável, de Seattle.

Seus cabelos eram de um castanho claro, lisos, porém ondulados nas pontas e compridos. Os olhos castanhos esverdeados, eram grandes e expressivos, pareciam avelãs. Muito embora fosse um estereotipo comum, era bonita.

Seu quarto revelava uma personalidade única.
Pôsteres de bandas de rock cobriam as paredes, as prateleiras de sua estante eram repletas de CDs e seus livros favoritos, mas isso tudo se misturavam com coisas de menina como algumas almofadas de crochê, bichos de pelúcia e um macio edredom cor de rosa, agora todo embolado, sobre a cama branca.

Ao lado, em cima de um criado-mudo, além do despertador de gatinha fofo, também haviam um abajur branco e uma caixinha de música que ela ganhara a muito tempo de seu pai e embora não funcionasse mais, ela guardava com muito carinho. Ainda sobre a estante, um televisor pequeno e ultrapassado, mas que funcionava muito bem e um porta-retratos branco com uma foto sua e de seus melhores amigos. A poltrona que ela usava para ler era de um tom rosa claro, bem delicado e para completar o seu lado romântico, no assoalho avermelhado, um tapete em formato de coração.

Normalmente tudo era muito bem organizado e harmonioso, mas por conta das férias, estava uma perfeita bagunça, assim como seu reflexo no espelho, que imediatamente a fez querer voltar para a cama.

Estava com uma cara horrível, olheiras enormes e o cabelo bagunçado, como se tivesse ficado horas de cabeça para baixo em uma roda gigante. Era muito provável que a culpa por ela estar naquele estado, fosse única e exclusivamente ocasionada por um mesmo pesadelo constante.

Tudo começou a algumas noites atrás. Via-se em um lugar ermo, na beira de uma ponte, à baixo apenas um rio profundo. Estava prestes a pular, quando uma mão a puxava de volta para a estrada deserta e uma voz masculina que Emily não conseguia identificar, lhe dizia que ela não podia fazer aquilo, que precisava dela. Nunca conseguia ver o rosto daquele homem e aquilo a estava deixando maluca.

Como não podia retornar ao seu refúgio debaixo de seu edredom, vestiu uma camiseta e jeans confortável, seus tênis surrados e prendeu os cabelos lisos em um rabo-de-cavalo alto, deixando alguns fios soltos na nuca.

Abriu a janela de seu quarto e se arrastou até o banheiro para lavar o rosto e escovar os dentes. Em seguida voltou ao quarto, pegou sua mochila, já organizada na noite anterior e desceu as escadas.

— Tchau, mãe! — gritou ela, abrindo a porta que dava para a rua e já se virando para sair.

— Por que não come alguma coisa antes de ir, querida! — em um segundo sua mãe já estava ao seu lado — Você precisa se alimentar.

— Como um donut no caminho, obrigada mãe! — saiu, mas parou-se na varanda por um instante, para sentir o calor do sol em seu rosto.

Era uma bela manhã de Segunda-Feira no condado de Miami-Dade, no estado americano da Flórida. Apesar do calor, as folhas das arvores balançavam com a leve brisa que soprava. As pessoas em sua rua já se preparavam para mais um dia de trabalho.

Cumprimentou o Senhor e a Senhora Wilson que saiam para sua caminhada matinal, passou por algumas crianças que brincavam de pega-pega, no gramado da casa dos Stewart, até finalmente chegar ao ponto de ônibus.

Hoje era o primeiro dia de aula e Emily estava animada em rever seus amigos, mas algo a preocupava. Iria para o 2° ano do ensino médio e talvez o último na Divine Savior Academy.

Seus pais estavam se separando e era provável que, no próximo ano, assim que a papelada do divórcio saísse, ela se mudaria para o condado de Los Angeles, na Califórnia, com sua mãe, morar com a avó Ellie.

Perderia o contato com a maioria das pessoas que amava. Teria de começar tudo novamente. Procurar novos amigos, grupos onde se encaixar e todas essas coisa irritantes para qualquer novato. Mas agora não era hora de pensar nisso, não queria pensar. Tinha todo um ano pela frente, e era nisso que queria focar agora. Na sua atual e pequena escola, ela não era a mais popular, mas tinha certo reconhecimento e estava decidida a aproveitar isso ao máximo.

Entrou no ônibus escolar e se dirigiu ao fundo, como era de costume. Pôs os fones de ouvido e relaxou no banco, olhando a paisagem. Quase dormiu novamente, mas como o caminho era curto, logo chegara à escola.

Ao entrar pelo portão, avistou Chuck Peters, um garoto ruivo, com sardas por todo o rosto. Era alto e magricelo, Junto a ele estava sua irmã gêmea Beatrice Peters. Trix, como era normalmente chamada, também era ruiva, magra e alta.

Chuck e Trix vinham em sua direção, seguidos por Cassie Green, essa loira, olhos verdes e muito alta. Poderia ser modelo, não fosse o seu nariz enorme, que tirava toda a delicadeza de seu rosto angelical.

Junto a Cassie, estava Thomas Carter, um garoto bonito, com olhos e cabelos castanhos. Era esguio e magro, porém nem tanto. Embora não admitisse, Emily tinha uma quedinha por ele, desde a 2ª série.

Mais atrás, vindo também em sua direção, sua melhor amiga Katie Underwood. Era pequenina como Emily, igualmente magra e pálida. Seus cabelos tinham um tom loiro escuro, muito bonito e seus olhos castanhos claro às vezes pareciam verdes.

Emily, ao se aproximar, cumprimentou a todos com um aceno de mão e um "oi!" geral. Apenas Katie lhe deu um abraço caloroso, que Emily retribuiu com a mesma intensidade, já que não a vira o verão todo.

A família de Katie era de Manhattan. Um dos cinco distritos da cidade de Nova York, por isso suas férias eram sempre longe de Miami. Detestava estas viagens. Seus pais sempre a obrigava ficar com os primos, que ela julgava metidos e arrogantes.

— Como foram as férias? — Emily já tinha noção da resposta, perguntara apenas por mera formalidade.

— Você sabe, como sempre. Meus primos parecem ter saído de algum seriado de TV. São tão esnobes e metidos — ela parecia bem chateada ao falar — Não via a hora de voltar pra cá, com pessoas normais, só pra variar.

Como de costume, sentaram-se todos juntos na escada que dava acesso à porta de entrada da escola. Conversaram até o sinal tocar, e todos irem para sua respectiva sala, a fim de pegarem seus lugares favoritos ainda vazios. Emily e Katie fariam a primeira aula juntas. Biologia, na classe do professor Willians.

Assim que adentraram a porta, seguiram em direção ao fundo da classe, na última janela, bem no canto da sala. Seus lugares tradicionais. Mas para a surpresa das meninas, um dos lugares já estava ocupado e era exatamente o de Emily.

Nunca à haviam visto antes. Era loira e de cabelos compridos, extremamente lisos, mas pareciam ter sido cacheados com modelador. A pele branca como a de Emily, apenas um pouco mais maquiada. Parecia também magra e de estatura média, mas o que chamava mais a atenção nela, eram seus grandes, azulados e brilhantes olhos. Eram muito bonitos, assim como ela. Estava muito bem vestida, com roupas de grife e parecia não ser de Miami.

As duas amigas então se aproximaram da garota, mas apenas uma delas as apresentou — Oi, sou Katie e essa é minha amiga Emily. Nós sempre nos sentamos aqui, será que teria algum problema?

A menina abriu um enorme sorriso quando às viu. Seus dentes eram perfeitamente alinhados e brancos. Com toda a simpatia que lhe cabia, falou:

— Prazer sou Olivia Blake! — estendeu a mão para Katie que a cumprimentou — Vim transferida de Nova York.

Emily fechou a cara e ignorou a mão da menina, estendida em sua direção. Olivia por sua vez, meio constrangida, apenas sorriu sem humor.

— Cidade de Nova York? Indagou Katie, quebrando o silêncio que se instaurava entre as meninas.

— Sim. Sou de Manhattan — Olivia sorriu aliviada por manter uma conversação.

— Nossa, que coincidência, eu sou de Manhattan também. Ou melhor, minha família é. Eu cresci aqui em Miami, mas todo o ano eu vou para Nova York nas férias, visitá-los. Acabei de voltar de lá... — Katie falava sem parar.

—  Que bom te conhecer, Katie. Na verdade é mesmo um alivio. Aliás — continuou ela — Não tem problema algum. Vocês podem sentar aqui, fiquem à vontade. Vou procurar outro lugar vago! — falou enquanto recolhia suas coisas de sobre a mesa — Espero que possamos nos dar bem.

— Obrigada, é muita gentileza sua nos deixar ficar com o lugar — Katie abriu-lhe um sorriso enorme e deixou seus matérias repousarem sobre a mesa agora vazia — Com certeza poderemos ser amigas.

Olivia olhava ao redor, à procura de um lugar adequado para sentar-se, ainda em diálogo com Katie — Ah, que isso. Não precisa agradecer, Kat!

Emily ficara com o rosto em chamas. Era orgulhosa demais para admitir, mas sentia um enorme ciúmes de seus amigos, em especial de Katie, pois eram amigas desde o jardim de infância.

Quem aquela tal Olivia achava que era para ter esse tipo de intimidade com Katie? Pensou ela, franzindo o cenho sem ao menos perceber.

— Venha, Kat! — falou dando ênfase ao apelido pelo qual Olivia chamara Katie — Vamos procurar outro lugar para sentar. Deixe que fique com esse.

Katie assentiu, recolhendo os materiais que já havia deixado sobre a classe e sem entender o comportamento da amiga, sentou-se na segunda fileira, ao lado de Emily, que a essa altura já estava de cara fechada. Depois, olhando para trás, em direção a Olivia, que tentava se reorganizar na classe, balbuciou — Desculpa!

Olivia sorriu e fez um gesto afirmativo com a cabeça.

Na hora do intervalo, Emily e Katie foram sentar-se junto à Cassie, Thomas e os gêmeos Chuck e Beatrice, na mesa de sempre, no refeitório.

Enquanto comiam, conversaram sobre as férias fizeram piada com a nova professora de inglês, que mais parecia ter saído de um bordel francês e com a plástica nos lábios feita pela diretora Kelly, que a deixara parecida com um chipanzé.

De repente uma voz tímida e gaguejante, atrás de Emily, interrompeu os risos por um momento — Oi, Katie e... Hã... Oi Em! Será que... Será que posso sentar com vocês?

Ao virar-se, Emily deparou-se com a menina loira, que tomara seu lugar ao fundo da sala. " Olivia 'sei lá o que' ", pensou por um instante e antes que pudesse dizer algo, Katie educadamente puxou uma cadeira, convidando a garota à sentar-se ao seu lado e apresentou-a ao resto dos amigos.

— Galera, essa é Olivia Blake, ela é de Nova York.

A menina meio tímida, cumprimentou a todos e sentou-se no lugar indicado pela outra — Prazer em conhecê-los, eu espero que não esteja sendo inconveniente, mas não tenho amigos por aqui.

— Seja bem vinda a Miami! — saudou Chuck. Seus olhos pareciam estar olhando para uma pintura de Da Vinci. Olivia agradeceu, sem jeito com os olhares do garoto.

— Não se preocupe, pode ficar com a gente, sempre que quiser, não é pessoal? — a ruiva tentou fazer com que seu irmão se tocasse e desviasse o olhar da menina envergonhada.

— Claro! — todos disseram em coro.

Em menos de 10 minutos a menina e seus olhos azuis, já haviam conquistado a todos naquela mesa, exceto Emily, é claro, que ainda pensava irritada na ousadia que Olivia tivera ao chamá-la de "Em".

O sinal tocou, indicando que o intervalo chegara ao fim.

Emily passara o resto da aula desenhando em seu caderno e tentando ignorar os constantes comentários que Katie fazia sobre a tal Olivia e como ela era bonita, simpática e todos os melhores adjetivos que conhecia.

A aula havia chegado ao fim. O dia na escola não podia ter sido mais exaustivo. Professores novos, alguns contratempos e claro, a garota nova que tentara incansavelmente, roubar seus amigos.

Saiu pelo portão, procurando o celular na mochila, quando sem perceber esbarrou em Thomas que parecia estar voltando.

— Desculpe Em, esqueci um dos livros que ganhamos — disse ele coçando a cabeça, sem jeito.

— Oh! Sem problemas Tom, eu estava distraída e não percebi que vinha em minha direção — ela sorriu e ruborizou — Preciso ir, nos vemos amanhã?

Ele assentiu e voltou para dentro do pátio da escola como um relâmpago, afim de evitar que o portão se fechasse com ele lá dentro.

Emily também correu, mas até a parada mais próxima. Pra variar, havia se atrasado e se não fosse depressa, perderia o ônibus.

Entrou e outra vez procurou o banco ao fundo. Estava indo para casa, agora podia felizmente relaxar um pouco. Mas quando se preparava para colocar seus fones de ouvido e se deliciar com sua playlist eis que, surge a pessoa mais indesejada do dia, Olivia.

Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top