Capítulo 29
A semana pareceu se arrastar para Rafael, cada dia o deixando mais ansioso que o anterior. Ele estava enlouquecendo seus amigos ao mudar uma e outra vez de ideia sobre usar o encontro de sábado para contar que ele era Alec Raagarif.
— Pelo amor de Deus – Anelise gemeu, jogando a cabeça para frente em um gesto dramático e a apoiou sobre os braços que estavam estendidos sobre a mesa do refeitório. Era sexta-feira e Rafael tinha acabado de mudar de ideia pela 3a vez desde que se encontraram no portão ao chegarem na escola, apenas vinte minutos atrás. A garota até sentiria mais empatia por ele se não fossem 6:45 da manhã e ela não estivesse com tanto sono– Se eu soubesse que minha semana seria te ouvir seu monólogo de "Contar ou não contar, eis a questão" não teria o trabalho de convencer o diretor a não me dar suspensão.
— Não seja tão insensível – Bianca repreendeu a amiga com um tapa na cabeça, embora estivesse tão exasperada quanto ela.
— Ai gente, me desculpa. Sei que é chato, mas eu não sei mesmo o que fazer – O moreno correu os dedos por seus cachos e segurou uma parte deles com força suficiente para arrancar alguns fios
— A gente já te deu nossa opinião. – Ane falou com a cabeça ainda apoiada nos braços.
— E você não tem nenhuma obrigação de seguir. – Bianca acrescentou antes que a ruiva deixasse seu mau humor matinal vencer e dissesse algo ofensivo.
— Mas seria muito bom se seguisse – Anelise ergueu a cabeça e encarou Rafael por um momento antes de voltar a deitar na mesa.
— Você pode só deixar rolar, sabe? – Sugeriu Pedro que ficou em silêncio durante toda a divagação de seu amigo naquela manhã.
— Deixar rolar? – Rafael lançou um olhar desconfiado para o amigo, já se preparando para uma piada.
— Tipo. Você vai na casa dele, assiste o filme e, se no meio da conversa sentir uma súbita vontade de dizer a verdade, você diz.
Apesar do tom ligeiramente sarcástico, Rafael percebeu que não era uma piada. Na verdade era um conselho muito bom, o que era surpreendente vindo de Pedro. Não que o loiro não fosse esperto o bastante para dar bons conselhos, mas ele era geralmente incapaz de se manter sério em uma conversa por mais de cinco minutos.
— Gosto dessa ideia. – Falou Ane levantando o polegar em aprovação ainda deitada com os olhos fechados – Por favor, faça isso.
— Acho que também gosto dessa ideia – Concordou Rafael se sentindo um pouco mais aliviado. Era simples e se fosse com outra pessoa talvez ele mesmo tivesse sugerido isso, mas ansioso como estava, tinha se tornando obstinado em planejar cada momento da noite de sábado.
— Que ideia? – Rafael saltou um pouco no banco quando Victor colocou a mão em seu ombro.
— Meu Deus – O moreno levou a mão ao peito como um reflexo.
— Ótimas palavras para um ateu – Brincou Victor sentando ao lado dele e passando um braço sobre seus ombros.
— Agnóstico, muito bem, obrigado. – Rafael se fingiu de ofendido tentando desviar da primeira pergunta. Para seu alívio o sinal tocou, antes que Victor pudesse insistir.
O grupo se levantou, pronto para seguir a massa de alunos que andavam para suas salas. Apenas Ane permaneceu deitada na mesa.
— Eu quero dormiiiiirrrr – Gemeu a garota outra vez, parecendo que mal tinha forças para levantar a cabeça.
— Vamos lá, Bela adormecida – Rafael sacudiu seu ombro tentando incentiva-la a levantar, quando isso não funcionou, ele olhou para Pedro com um aceno – Ela é toda sua.
Ane pareceu despertar imediatamente após ouvir essas palavras, mas era tarde demais. No momento seguinte Pedro a carregou e jogou seu corpo sobre o ombro como um saco de batatas. A garota xingou e reclamou por um tempo antes de apenas aceitar o passeio, contente em apenas mostrar a língua e o dedo do meio para os amigos que os seguiam rindo.
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Apesar da decisão de apenas "deixar rolar", Rafael estava uma pilha de nervos quando acordou no sábado. Ele arrumou sua mochila com uma muda de roupa e uma toalha, além de sua escova e pasta de dente, caderno de sociologia, estojo e carregador. Depois de borrifar um pouco de perfume em sua camiseta, guardou o frasco na mochila também.
No café da manhã ele quase fez as torradas de Lili virarem "carbonizadas", por sorte a menina estava com sono demais para notar o gosto ligeiramente mais amargo, ou o fato de que a torrada de cachorro só tinha uma orelha e três patas.
Depois de comer, Lili parecia mais acordada e começou a falar de tudo que estava planejando para o dia, desde ir com Laura para o parque no fim da rua até assistir Tartarugas ninja e My little pony.
— Você vai construir um castelo comigo quando voltar? – Perguntou finalmente pulando com energia mal contida.
— Não vou voltar hoje Lilith. – Rafael afagou os cabelos dela com carinho – O pessoal da igreja da sua mãe vai vir, lembra?
— Ah – Ela torceu o nariz – Não gosto deles. Posso dormir com você na 'vanderia? – Perguntou esperançosa sabendo que o irmão dormia no trabalho na maioria das vezes em que a casa enchia de gente.
— Não dá, Lilith. Não vou dormir lá hoje. É verdade – Acrescentou percebendo a descrença no rosto da garota – Vou dormir na casa de um amigo da escola.
— Do tio Pedro?
— Não, do Victor. Lembra dele?
— Lembro – Ela confirmou, sacudindo a cabeça de forma exagerada – É aquele homem grande igual você que veio aqui. Aquele que você gosta dele.
Rafael estava distraído conferindo os itens na mochila, mas essas palavras chamaram sua atenção. Ele olhou para irmã que parecia tranquila, como se tivesse acabado de dizer um fato de conhecimento geral.
— Quem te disse que eu gosto dele? – Seu pensamento foi direto para Ane e ele se perguntou quando ela tinha contado isso para sua irmã.
Lili colocou as mãos na cintura
— Eu sou criança, não sou burra – Afirmou como se a pergunta fosse um insulto – E você olha pra ele igual aquela mulher da novela da mamãe olha pro namorado– Acrescentou com um tom impertinente.
"Agora essa atitude com certeza é coisa da Ane" O rapaz pensou, mas ainda não conseguiu responder ao insulto. Em vez disso optou por apressar sua saída.
— Tudo bem espertinha – Ele afagou seus cabelos um pouco mais, dessa vez bagunçando-os no processo e os deixando mais bagunçados que o travesseiro tinha deixado – Agora eu preciso mesmo ir.
Ele deu um abraço e um beijo na irmã, mas antes que pudesse sair, a menina o chamou de volta. Mesmo com medo do que poderia vir a seguir, ele olhou para Lili, esperando que ela continuasse.
— O Victor não vai ser mau com você, vai? – Perguntou franzindo as sobrancelhas – Ele foi muito mau naquele dia.
— Não Lilith, o Victor não vai ser mau. – O moreno garantiu – Nós somos amigos agora.
— Bom. Porque se ele for mau eu vou furar as bolas de futebol dele. – A menina garantiu com a expressão totalmente séria.
— As bolas de futebol? – Rafael perguntou genuinamente curioso.
— Sim. – Lili sacudiu a cabeça enfaticamente – Tia Ane falou que quando os homens fazem uma coisa ruim a gente tem que ameaçar as bolas de futebol deles – Ela franziu a testa pensando sobre o assunto – Acho que é porque se eles perdem as bolas não tem como jogar futebol e eles ficam tristes.
Rafael olhou para a irmã totalmente séria e acenou com a cabeça concordando que devia ser isso. Ele deu outro beijo em sua testa e se despediu outra vez – muito mais brevemente – antes de sair. Apenas três passos depois de passar pela porta, ele não pôde mais se conter, começou a rir descontrolado e não conseguiu parar até chegar ao ponto de ônibus.
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No trabalho, Rafael passou a maior parte do tempo assistindo Reels e trocando mensagem com seus amigos. Os clientes habituais vieram e, na hora do almoço, Francesca se sentou com ele na recepção e lhe deu uma marmita com lasanha antes de pegar sua própria. Eles almoçaram e Rafael contou à sua "avó", uma versão muito resumida de sua última semana na escola.
Conforme as horas passaram sem que Victor mandasse uma mensagem, Rafael foi ficando mais e mais ansioso. A ideia de bater na porta da casa do prefeito sem ter a confirmação de que o que estavam planejando até o dia anterior era mesmo "pra valer" e não um "vamos marcar", embrulhava seu estômago e lhe dava dor de barriga.
Ele queria mandar uma mensagem para Victor e garantir que estava tudo certo para a noite, apenas para se livrar de suas paranóias, mas não queria parecer tão desesperado quanto se sentia, então se contentou a encarar o celular esperando notícias.
Eram quase 16:00 horas quando a mensagem tão esperada finalmente chegou, mas não era de forma alguma tranquilizante, em vez disso veio a confirmação de que suas paranóias eram na verdade bem fundadas.
Victor:
Oi. Acho que não vai dar
pra você dormir aqui
hoje ☹️
O senhor Carlos Martins
está especialmente
insuportável hoje 🙄
O que rolou?
Victor:
O de sempre. Preocupado
com o que os eleitores vão
pensar se souberem que o
filho do prefeito gosta de
caras 🙄🙄🙄
Isso é por causa de eu
dormir aí?
Victor:
Um pouco, mas a maior
parte é só ele sendo
antiquado e babaca
com a possibilidade de eu
dar minha bunda 🙄
Se você vier, ele só vai
ser escroto com você
também
Não é como se eu não
estivesse acostumado
Você conheceu a Luciana,
né?
Victor:
Eu sei, mas não quero que
tenha que aguentar isso
aqui também.
Rafael encarou a última mensagem sem saber o que responder. Ele estava decepcionado por ter o "encontro" cancelado, mas havia algo reconfortante em saber que Victor se preocupava com ele e o estava protegendo de alguma forma. Ele começou a digitar a resposta, mas foi interrompido quando a porta se abriu e uma cliente entrou.
A senhora Mercedes era uma senhora de oitenta e poucos anos extremamente míope e tagarela. Ela errou o balcão por quase um palmo quando foi deixar a sacola de roupa e falou por quase meia hora depois disso. Quando finalmente se despediu, Rafael não conseguiu deixá-la ir sozinha e insistiu em acompanhá-la de volta para casa que não era muito longe dali.
Ele voltou quase vinte minutos mais tarde – mais por causa do falatório da velha que pela distância – e, depois de levar a sacola de roupas para a sala das máquinas, voltou para o balcão e para seu celular. Haviam várias mensagens não lidas de Victor na última hora.
Victor:
Ei, você ainda está aí?
Eu sei que parece uma
desculpa, mas juro que
não é, tá bom?
Rafa?
Você tá bravo comigo?
Me responde, caralho
Vai tomar no cu, então
Rafael não podia evitar o sorriso que se formou em seu rosto ao ver a preocupação nas mensagens de Victor, mesmo que as últimas não fossem muito educadas. Ainda sorrindo ele marcou a última mensagem e respondeu:
Isso é um insulto ou um
convite?
Desculpa a demora 'tava
atendendo uma senhora.
Levou menos de um minuto para que Victor respondesse:
Victor:
Uma senhora? Nesse
tempo todo?
É que ela é uma senhora
sem hora
Victor:
🤨
Merda, eu tô falando igual
o Pedro.
De qualquer jeito, não se
preocupa. Sei que não foi
de propósito.
Victor:
Ótimo, porque acredite, se
eu tivesse outro lugar pra
passar a noite também não
dormiria aqui.
A mãe do Marcos ainda tá
descontando a raiva do seu
pai em você?
Victor:
Tenho sorte de ele ainda não
estar fingindo que não me
conhece na escola.
Você quer dormir aqui?
Rafael não saberia dizer o que o impulsionou a mandar a última mensagem. Ele estava mesmo convidando o filho do prefeito para passar a noite na sala das máquinas de uma lavanderia onde a única acomodação era um colchão de solteiro desgastado e com cheiro de naftalina?
Victor:
Achei que ia ter gente na
sua casa
Tem. Eu tô falando da
lavanderia.
Costumo dormir aqui as
vezes
Victor:
Não sei se fico impressionado
ou se chamo o conselho
tutelar
Impressionado, por favor
E então, quer vir? A gente
pode assistir o filme no
celular
Rafael se sentia idiota por continuar insistindo. Era uma ideia horrível, mas ele ainda esperava que o outro fosse tolo o suficiente para aceitar o convite.
Victor:
Vou levar meu notebook a
tela é maior
Chego aí lá pelas 20:00
O moreno piscou para a mensagem, um pouco atordoado por Victor aceitar a sugestão tão fácil, mas respondeu logo em seguida.
OK, vou esperar
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Se a ideia de passar a noite na casa Victor já o deixava ansioso, saber que os dois passariam a noite na lavanderia sozinhos, levou Rafael a um "gay panic" total. Ele chegou a pegar o celular várias vezes para dar uma desculpa e cancelar, mas sempre que começava a digitar podia ouvir Anelise em sua cabeça o ameaçando com várias lesões se fizesse isso.
As 19:00 os outros funcionários da lavanderia se despediram de Rafael e foram embora. Francesca, sabendo que Rafael passaria a noite, insistiu em deixar um pouco de dinheiro com ele para que pelo menos pudesse comprar alguma coisa na lanchonete na esquina.
Conforme os minutos passavam e a hora em que Victor disse que chegaria se aproximava, o moreno começou a checar o celular com mais e mais frequência, esperando uma mensagem que dissesse que ele estava chegando ou que não iria mais. Em vez da mensagem, no entanto, ele foi surpreendido quando a porta se abriu um pouco antes das 20:00 e Victor entrou carregando uma sacola de papel na mão e uma mochila digna de um campista nas costas.
— Ei – Rafael cumprimentou, passando os dedos pelos cabelos como um reflexo de seu nervosismo – Oi.
— Oi – O outro respondeu com um sorriso confiante enquanto colocava sua bagagem sobre o balcão – Você está bem?
Rafael se sentiu ridículo por deixar tão óbvio o quanto estava nervoso, não era a primeira vez que passavam a noite na casa um do outro, não era a primeira vez que estavam perto o suficiente para se tocar ou que conversavam fora da aula, não era nem a primeira vez que eles estavam juntos na lavanderia, mas por algum motivo isso parecia mais sério.
— Eu? Eu tô ótimo – Sua voz saiu um quarto mais aguda que o normal e ele imediatamente voltou seu olhar para a mochila sobre o balcão para disfarçar – Uau. Você pretende ficar morando aqui?
— Eu posso? – Rafael foi pego de surpresa com a resposta e com o tom sedutor usado nas palavras e ele sentiu seu corpo ficar mais tenso e seu rosto corar – É brincadeira – Victor bateu em seu ombro um momento depois, o sorriso denunciando o quanto a reação do moreno tinha agradado. – Eu tinha um colchão inflável escondido na garagem, achei que era uma boa chance de testar.
— Um colchão inflável? – Rafael ergueu as sombrancelhas quando percebeu que de fato havia um pedaço de algo emborrachado e azul saindo do compartimento maior da mochila. Com a quantidade de quartos na casa do prefeito, ele não imaginava porque precisariam de um desses.
— É – Victor deu um tapinha na mochila – As maravilhas que as pessoas compram quando tem muito dinheiro, nenhuma noção e internet ilimitada. – Ele abriu o zíper para dar uma visão melhor do conteúdo – Em defesa do meu pai, acho que ele realmente pensava que ia me levar pra acampar quando comprou isso.
— Pelo menos serviu pra alguma coisa – Rafael deu de ombros, se sentindo mais relaxado – Acho que você não ia gostar de dormir de conchinha comigo em um colchão de solteiro.
Assim que a piada passou por seus lábios, o moreno se arrependeu e sentiu seu rosto ficar vermelho outra vez.
— Não faça tantas suposições – Victor piscou para ele com um sorriso que ficou ainda maior quando Rafael se atrapalhou com os próprios pés e quase caiu. – Você é bem desajeitado, né?
— Não sei o que possivelmente te deu essa ideia – Rafael respondeu enquanto tentava recuperar a compostura – Então, filme? Você trouxe seu notebook?
— Claro – O negro pegou o dito objeto da mochila junto com o cabo – Onde posso carregar? A bateria não vai durar um filme inteiro.
— Na sala das máquinas – Rafael ficou feliz por ter um motivo para se virar, não sabendo quanto tempo mais ele ia conseguir agir normalmente se Victor continuasse com as piadas, especialmente se seu corpo começasse a reagir também.
O moreno conduziu Victor através da porta para uma sala em que estavam instaladas seis máquinas de lavar e três secadoras, todas de um modelo um tanto quanto ultrapassado. Ele afastou as tábuas de passar que estavam desarmadas em um canto, revelando uma extensão de três furos presa à parede.
— Pode usar essa aqui – Ele apontou desnecessariamente – Se a gente ficar na recepção alguém vai acabar vendo pela vidraçaria e contar pra Luciana.
— Então eu sou seu segredo? – Victor mexeu as sobrancelhas, não resistindo em mexer com o outro rapaz.
Rafael ficou vermelho outra vez, se perguntando se havia algo que ele pudesse dizer durante a noite que não pudesse ser usado por Victor para fazê-lo corar. Sem se virar para não dar satisfação ao provocador, ele se concentrou em ajeitar as tábuas de passar outra vez e manteve sua voz mais neutra possível ao responder:
— Por que você não para de usar suas cantadas baratas e faz algo de útil com a sua boca?
O moreno ficou mortificado com as próprias palavras, percebendo um segundo tarde demais o duplo sentido no que havia acabado de dizer.
— Com prazer
Rafael respirou aliviado por sua gafe ter sido despercebida pelo outro rapaz e voltou à fingir organizar o espaço já arrumado, esperando que o rubor em seu rosto diminuísse.
Um momento depois, no entanto, ele foi surpreendido por Victor aparecendo na sua frente e invadindo seu espaço pessoal. Ele mal teve tempo para uma exclamação de surpresa antes que o negro envolvesse uma das mãos na parte de trás do seu pescoço e se curvasse para beijá-lo.
A mente de Rafael congelou. Levou exatos três segundos para que ele tomasse consciência de que aquilo realmente estava acontecendo e só então se permitiu relaxar e deixar se envolver pela sensação dos lábios firmes de Victor contra os seus. O moreno sentiu seu coração acelerar e suas pernas bambearem à medida que o beijo se aprofundava e o prazer resultante nublava seu cérebro.
Quando Victor se afastou com a respiração pesada, Rafael ainda estava com os olhos fechados, sua mão ainda segurando a gola da camiseta do outro rapaz, mesmo que não se lembrasse exatamente quando a havia agarrado.
— Eu estava falando para você usar a boca para encher o seu colchão – O moreno falou depois de um momento de silêncio, ainda com os olhos fechados.
— Tenho uma bomba para o colchão. Prefiro usar minha boca para isso – Os dedos de Victor tocaram suavemente os lábios de Rafael antes de voltarem para sua nuca.
— Não estou reclamando.
Foi o moreno quem tomou a iniciativa dessa vez, se esticando um pouco para alcançar a boca de Victor ao mesmo tempo que puxava a gola de sua camiseta para trazê-lo mais para perto. O beijo durou menos tempo, mas a sensação de prazer que provocou foi ainda mais intensa que antes, pois era uma reafirmação de que aquilo realmente estava acontecendo.
— Não foi assim que imaginei que isso fosse acontecer – Rafael deixou escapar, um pouco ofegante, quando se afastaram pela segunda vez, dessa vez abrindo um espaço maior entre eles para que pudessem respirar.
— É... Nem eu – Admitiu Victor depois de um momento recuperando o próprio fôlego. Seus olhos ainda fixos nos lábios de Rafael que agora estavam mais avermelhados – Eu juro que queria que fosse romântico, mas você é tão fofo quando fica envergonhado...
— Pera... – Rafael simplesmente não conseguia raciocinar diante dessas novas informações – Foi de propósito?
— Foi ué. O que você acha? Que eu tropecei e bati minha boca na sua? – Victor riu se sentindo um pouco nervoso de repente. Ele estava tão confiante de seu plano quando chegou e agora Rafael parecia chateado. Ele havia cometido um erro?
— Sim... Não... – O moreno grunhiu de irritação sem saber como expressar a questão em palavras, sua divagação tirou Victor de sua própria cabeça a tempo de ouvir as palavras seguintes – Eu só não sabia... Sabe... Se você queria. Se tinha pensado sobre... – Rafael continuou a divagar cada mais ansioso para explicar seus pensamentos – Achei que era só um impulso do tipo "foda-se", sabe?
— Eu queria – Garantiu o negro segurando as bochechas do rapaz e fixando seus olhos nos dele para mostrar a sinceridade de suas palavras. – E eu certamente pensei muito nisso. – Ele se afastou por um momento e pegou algo no bolso de sua calça – Aqui. Acho que isso é seu.
Rafael olhou para o objeto que Victor lhe estendia e sentiu seu coração disparar novamente – não que suas batidas estivessem muito mais calmas entre os beijos e os olhares trocados – aquele era o bloco de notas de seu pai, o pequeno caderno que ele havia deixado cair na praça durante o carnaval das bruxas e que estava começando a pensar que nunca veria novamente. Sem nem mesmo pensar, o moreno estendeu a mão para pegá-lo.
— Oi, Alec – Victor quebrou o transe ao falar no momento em que seus dedos tocaram a capa dura grafitada daquele que era um de seus únicos tesouros. O moreno olhou surpreso para o rapaz ao ouvi-lo usar seu pseudônimo – É bom te conhecer pessoalmente.
NOTA DA AUTORA
SIM, MEU POVO. FINALMENTE ACONTECEU. O MOMENTO QUE ESTAVA ENROLANDO NOS ÚLTIMOS 3 ANOS.
Espero que o capítulo tenha ficado satisfatório e peço desculpas se o beijo pareceu muito pobre, mas assim como Drew Barrymore, I've never been kissed e minhas únicas referências de beijo são fanfics (e não gosto de escrever as coisas com as línguas porque pra mim parece mais nojento que sexy).
Em todo caso, espero que tenham gostado e espero conseguir escrever o próximo capítulo em breve. Obrigada a todos que estão tendo paciência com a demora das atualizações e até a próxima 🤟💞
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