Capítulo 28
— Me lembre de nunca mais entrar em uma briga — Comentou Pedro enquanto ele e Ane caminhavam de volta para a escola depois de fazer alguns curativos no posto de saúde.
— Como se eu fosse fazer isso – A ruiva bufou – Eu ajudaria se você estivesse em desvantagem, mas é óbvio que não ia impedir.
— Muito obrigado pela preocupação – Assim que o rapaz pronunciou essas palavras percebeu que eram mais sinceras que sarcásticas.
— De nada – Ane deu um leve tapa em suas costas antes de atravessar a rua e ele a seguiu quase imediatamente – Foi bom ver você não agir como o senhor namastê pela primeira vez.
— Achei que a gente concordava que o senhor namastê era o Rafa – Pedro lançou um olhar de canto para a garota. Ele sabia onde ela queria chegar e esse não era um território em que se sentia confortável.
— Nah. O Rafa é irritantemente bonzinho, do jeito que precisa de alguém que fique puto por ele as vezes.
— E esse alguém é você, né? – O loiro interrompeu com outro olhar de soslaio, em um tom que soava um pouco ciumento.
— Você esconde seus sentimentos com piadas – A ruiva continuou sem se importar com a interrupção ou notar seu tom – Acho que a única vez que vi você falar sério foi quando me contou que estava fazendo aulas de balé. Fora hoje quer dizer.
— E aqui temos o sujo falando do mal lavado – Pedro suspirou em um tom sofrido – Você percebe que faz exatamente a mesma coisa, né?
— Eu não. – A ruiva declarou ofendida – Eu nunca tento esconder quando tô com raiva.
— Claro que não, você só usa a raiva pra esconder todo o resto... – Pedro foi interrompido quando Anelise parou na sua frente e se virou para encará-lo.
— Não começa, Pedro.
— Foi você quem começou – O rapaz ergueu as mãos em um gesto apaziguador – E eu só tô dizendo que tá tudo bem em não ser tão durona as vezes... Quer dizer, o que aconteceu hoje, você não está triste, magoada ou...
— Furiosa... – A ruiva declarou, cerrando os dentes para confirmar suas palavras –Eu estou com uma puta raiva assassina.
— Sim – O rapaz acenou brevemente com a cabeça em reconhecimento – E o que mais?
— Pedro – O tom era de aviso, mas o olhar que Ane lhe deu era triste, quase como se estivesse implorando para ele parar.
— Tudo bem – O loiro suspirou, não conseguindo negar um pedido da garota, fosse verbal ou não – Mas se você não quer falar comigo, pelo menos fala com o Rafa, tá? – Ele voltou a andar esperando que a ruiva não notasse o ciúmes em sua voz.
— Você sabe que eu confio em você tanto quanto confio nele, seu idiota – A ruiva interpretou corretamente seu tom deu uma cotovelada dolorida em seu braço esquerdo. "Só que tem coisas que é mais fácil de contar para seu amigo gay que para o idiota loiro por quem se está apaixonada" completou em sua mente antes de acrescentar em voz alta – Mas a Bianca vai precisar de todo seu apoio agora e não tenho certeza se você não vai precisar quebrar mais uns dois ou três braços por ela até essa merda esfriar.
Pedro grunhiu com a menção a mão boba de Kevin. A possibilidade de outros idiotas tentarem alguma coisa com sua irmã ou Ane, o irritava e o amedrontava. E se ele não estivesse por perto da próxima vez?
Fora isso, a forma como Ane havia falado sobre Bianca e não sobre si mesma, também o incomodou.
— Eu também quebraria o braço dele se você com você — Sentiu necessidade de esclarecer. Ane nunca poderia pensar que significava menos para ele que sua irmã – Eu vou fazer isso se alguém tentar te tocar contra sua vontade.
— Você fala como se eu não pudesse quebrar alguns ossos sozinha – A garota zombou, tentando se afastar do terreno emocional que a conversa se aproximava – Ou como se alguém quisesse me tocar.
— Eu estou falando sério – Pedro parou de andar novamente e segurou o braço de Ane para que ela também parasse.
A garota virou-se e olhou no fundo de seus olhos, não vendo nada além de sinceridade. Era um convite a uma declaração impulsiva de amor, mas o dia já havia sido humilhante de mais para acrescentar uma rejeição a isso e ela se contentou em lhe oferecer um sorriso.
— Eu sei. Obrigada – Como o clima ainda parecia muito piegas, acrescentou – Ei, você já apanhou demais por um dia ou acha que ainda pode apostar uma corrida?
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Bianca não apareceu na escola por uma semana e, enquanto sua família e amigos estavam preocupados com ela, no fundo achavam que era melhor deixar as coisas esfriarem um pouco e evitar o máximo de comentários maldosos e possíveis assediadores. Ela podia ser uma garota forte, mas apesar de ter se endurecido para insinuações e comentários sussurrados de que era alvo por "pregar o amor livre", ser atacada de maneira tão direta doeu mais do que podia imaginar que doeria.
Ane, por sua vez, se recusou a ficar em casa. Ela se recusou a mostrar vulnerabilidade até mesmo para Rafael, não importa o quanto ele insistisse para ela desabafar. Seu amigo já tinha os próprios dramas – já que a briga na escola tinha interrompido sua tentativa de revelar sua identidade para Victor e ele não conseguia reunir coragem para tentar de novo – e ela não queria trazer mais preocupações a ele .
Na escola, a ruiva respondia a todos os comentários odiosos mostrando o dedo do meio ou com comentário que fazia o insulto dos assediadores parecer birra de criança. Pedro fazia questão de andar perto da garota tanto quanto possível, a história sobre ter quebrado o braço de Kevin correu a escola como fogo na palha seca e isso na melhor das hipóteses fez com que os mais atrevidos mantivessem as mãos para si mesmos, se era por medo de Pedro ou da própria Ane, não importava.
Algumas coisas mudaram na dinâmica da escola nos dias seguintes. Victor começou a passar os intervalos com Rafael e os outros, se sentindo mais próximo deles depois de todo o passeio pela diretoria.
Laura o acompanhou. Ela não se dava bem com o irmão adotivo ou com seus amigos, mas estar perto de sua irmã e ouvi-la dizer coisas ofensivas e nojentas sobre outras mulheres lhe causava repulsa, sobretudo porque no fundo suspeitava que Letícia tinha alguma coisa a ver com as fotos.
Bianca tinha ouvido sobre as mudanças de disposição nas mesas, mas ainda assim não pôde deixar de ficar surpresa quando Laura se sentou com eles no primeiro intervalo em que estava de volta à escola. A loira não dirigiu a palavra a ninguém, exceto Victor, mas participou dos tópicos levantados, mesmo que de forma indireta e até mesmo riu – apesar de tentar ao máximo disfarçar – de algumas piadas de Pedro.
Outra aquisição para o grupo de amigos, e essa mais indesejada, foi Flávia. A garota estava reclamando desde a segunda anterior sobre como Pedro estava seguindo Anelise como um guarda-costas e ignorando as justificativas do loiro de que estava apenas preocupado com uma amiga. Como solução para seu problema a garota resolveu colar no namorado como chiclete, não apenas ficando por perto, mas se agarrando a ele fisicamente para demonstrar posse. Ela usava palavras gentis para falar de Bianca e da "situação horrível" que estava vivendo, mas não perdia a oportunidade de lançar comentários mordazes sempre que sabia que apenas Anelise poderia ouvir.
Uma semana a mais passou e parecia que as coisas finalmente iam se acalmar. O culpado por espalhar as fotos ainda não tinha sido pego (embora todos soubessem que era Mathias porque o idiota nem se preocupava em fingir), mas os insulto e o assédio havia diminuído, continuando a vir apenas dos grupos mais escrotos da escola.
Na terça-feira quando entrou no banheiro junto com Bianca, Ane quase bateu de frente com Flávia que estava saindo. A ruiva quase pediu desculpas antes de ver quem era, mas resolveu apenas desviar da garota e entrar na fila com as duas outras meninas que esperavam as cabines desocuparem.
— Acho que você está no banheiro errado, Maria-macho – Flávia declarou, insultada por ter sido tão prontamente ignorada.
Bianca, como boa barraqueira que era, estava pronta para começar uma briga por esse simples comentário, mas Anelise a impediu colocando a mão em seu ombro. Mesmo com raiva, a ruiva decidiu contra um ataque físico, ela já havia visto o suficiente da cara do Sr. Alcides pelo resto da vida.
— Eu acho que você está no universo errado, mas não costumo jogar isso na sua cara assim, de graça – Ane desviou da garota outra vez para entrar na cabine da qual Shamaelly tinha acabado de sair, mas a morena parecia determinada a começar uma briga e entrou no seu caminho outra vez.
— Não me sinto confortável em ter uma sapatão no meu banheiro – Ela declarou com uma careta de nojo, recebendo o apoio verbal de uma das garotas na fila e de outra que tinha acabado de sair de uma das cabines.
Anelise e Bianca viram Shamaelly se encolher um pouco com o comentário e isso só fez a raiva aumentar.
— Eu saio assim que você me mostrar seu certificado de propriedade – A ruiva lhe deu um sorriso afetado – Caso contrário me deixa usar a porra do banheiro, antes que eu esqueça que você é a namorada do Pedro e te dê os tapas que você merece.
— Você é tão violenta – Flávia balançou a cabeça e estalou a língua em desaprovação – Tão pouco feminina, uma sapatão nojenta e...
Bianca avançou pronta para começar uma briga, mas Ane foi mais rápida. Sua mão estalou no rosto presunçoso da garota deixando uma marca vermelha. O sorriso de Flávia se apagou por um momento e então se alargou. Lágrimas brotaram em seus olhos e ela saiu do banheiro, correndo e chorando.
— E tem gente que me chama de louca – Comentou Bianca balançando a cabeça, chocada com o desenrolar das coisas.
Anelise não respondeu, sua atenção voltada para Shamaelly que estava encolhida em um canto e parecia prestes a chorar. Ela ignorou a passagem das duas meninas que haviam apoiado as falas odiosas de Flávia e se aproximou mais da garota assustada.
— Você está bem? – Anelise olhou para trás quando alguém fez a pergunta que pretendia fazer. Ela não havia percebido que Laura também estava no banheiro, mas o olhar em seu rosto deixava claro que ela tinha pelo menos ouvido a conversa.
Shamaelly ergueu os olhos ao ouvir a voz da loira e pareceu se acalmar um pouco. Anelise queria dizer algo sobre como tudo o que Flávia tinha falado não passava de um monte de merda, mas os olhares trocados entre as duas outras garotas faziam com que ela sentisse estar espiando um momento particular. Sem dizer uma palavra, ela puxou Bianca para fora do banheiro, ambas esquecendo o motivo pelo qual estavam lá em primeiro lugar.
A maioria dos alunos já havia voltado para as salas com o final do intervalo, mas uma pequena aglomeração tinha se perto do quadro de avisos.
Ane gemeu ao perceber que no centro da comoção estava Flávia, se agarrando a Pedro como uma tábua de salvação e chorando de uma forma que faria um ganhador do Oscar perder o emprego. Quando viu Ane se aproximar, ela fez um teatro ainda maior se encolhendo e escondendo o rosto no pescoço do namorado.
— Você bateu nela? — Pedro tinha as sobrancelhas erguidas, mas não havia acusação na sua voz.
— Parece que não bati o suficiente – A ruiva declarou sem um pingo de remorso, fazendo alguns adolescentes ao redor soltarem ruídos de desaprovação pelo que acreditavam ser um ato de violência gratuita.
— O que ela fez? – Rafael perguntou à amiga, alto o suficiente para que todos ao redor ouvissem. Ele sabia que Flávia provocava Ane em todas as ocasiões possíveis e que o único motivo de não ter levado uns tapas até o momento era porque apesar de todas as ameaças de violência, Ane era bastante comedida quando o assunto era começar uma briga física.
— Eu não fiz nada – Declarou Flávia se afastando um pouco de Pedro e olhando ao redor, parecendo desolada com a acusação – Eu só estava saindo do banheiro e ela me bateu. Assim... do nada.
Ane, irritada com o teatro e as mentiras de Flávia, estava prestes a agarrar os cabelos da garota e esfregar sua cara no chão, ela deu alguns passos furiosos na direção da morena que se escondeu atrás de Pedro e o segurou por trás como algum tipo de escudo.
— Te bateu do nada é o seu rabo, sua sebosa do caralho – Ane parou ao ouvir essas palavras e olhou para trás, chocada ao ver Laura se aproximando novamente, dessa vez com passos furiosos, uma expressão assassina e Shamaelly agarrada ao seu braço. – Você sabe muito bem o quanto provocou antes de levar aquele tapa.
Pedro se desvencilhou de Flávia com alguma dificuldade e se aproximou de Ane, não tendo dificuldade nenhuma em acreditar nas palavras de Laura. Na verdade a única coisa chocante era o fato de uma das irmãs de Rafael estar defendendo um deles.
— Você vai ficar do lado dela? – Flávia chorou quando o loiro se afastou – Vai continuar a seguir essa... essa garota como um cachorrinho? Eu sou sua namorada.
— Se você não pode ser pelo menos educada com a Ane, acho que não é mais. – Pedro decidiu em um tom áspero, passando um braço protetor ao redor dos ombros da ruiva.
— Você tá terminando comigo por causa da Maria-macho? – Agora a morena parecia ter se esquecido completamente do teatro anterior, concentrando-se apenas na raiva pela rejeição. – Por causa dessa sapata de merda?
Pedro abriu a boca para defender Anelise, mas antes que tivesse a chance de dizer qualquer coisa, Bianca saltou sobre a morena agarrando-a pelos cabelos gritando "Eu vou te mostrar a sapata de merda". Laura atacou no instante seguinte, parecendo bastante feliz em trabalhar em equipe pelo menos daquela vez.
A confusão não demorou a atrair a atenção dos inspetores que chegaram separando a briga, felizmente para Flávia que corria perigo de ter que usar uma peruca pelo resto do ano letivo.
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— Sou só eu ou você também está sentindo um déjà vu? – Perguntou Victor quando ele e Rafael se sentaram nas cadeiras de frente para a diretoria.
O moreno bufou em concordância sabendo que tinham sorte em estar naquelas cadeiras esperando e não dentro da sala de Alcides quando até mesmo Pedro, Elly e outras três garotas que não tinham nada a ver com a briga tinham sido conduzidos para lá.
— Eu juro que esperava ver uma tartaruga ninja montando um unicórnio antes de ver a Laura entrando em uma briga para defender um dos meus amigos – Rafael quebrou o silêncio alguns momentos depois.
— Ei. Ela não é uma garota ruim – Victor sentiu necessidade de defender a amiga.
— Eu sei – O moreno respondeu com um breve aceno de cabeça – Mas ela me odeia e, até hoje, tinha certeza que odiava a Ane também.
— O que posso dizer? – O negro deu de ombros – As mulheres são um mistério.
— Sim – Rafael suspirou e depois como um toque de humor acrescentou – Fico feliz em saber que nunca vou me apaixonar por uma – Como era de se esperar, Victor respondeu à piada erguendo o dedo do meio para ele.
A voz de Flávia se alterou dentro da diretoria, não o suficiente para que os dois rapazes entendessem as palavras, mas o suficiente para que soubessem que a conversa lá dentro ia demorar mais que o esperado. Ambos suspiraram e olharam para frente pensando em algum assunto sobre o qual podiam conversar.
— Eu ainda não vi seu filme favorito – Victor declarou de repente.
— Merda – Declarou Rafael passando a ponta dos dedos pelos cachos – Com toda essa confusão das últimas semanas eu esqueci do trabalho.
— E a gente precisa entregar essa parte semana que vem – Victor acrescentou em um tom de desculpas.
Rafael sabia que poderia facilmente passar o nome do filme para Victor e esperar que ele assistisse sozinho ou procurasse um resumo na internet, mas isso iria desperdiçar uma das poucas oportunidades que teria de se encontrar com o rapaz e pelo menos fingir um encontro, já que não tinha certeza se algum dia conseguiria reunir novamente a coragem necessária para se declarar para ele novamente.
— A gente pode se reunir esse sábado – O moreno sugeriu por fim – Quer dizer, se a gente puder usar sua casa... Minha madrasta vai receber visitas e elas provavelmente vão roubar meu quarto.
— Claro – O outro concordou imediatamente, mais feliz com a ideia de ter Rafael como companhia no sábado que com a perspectiva de terminar o trabalho – Sábado então.
— Sábado – Reafirmou Rafa desnecessarimente, sentindo o familiar frio em seu estômago e se controlando para não demonstrar qualquer sinal do nervosismo que estava sentindo.
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NOTA DA AUTORA
Como já dizia Whitesnake, Here I go again.
E dessa vez nem demorou um ano.
Espero que vocês tenham gostado do capítulo e que fiquem felizes em saber que já tenho o próximo planejado, não como a maioria dos capítulos q eu simplesmente tiro do cu uma vez por ano.
Agora só falta o ânimo pra escrever.
Tchau e até o próximo capítulo 🤟💙
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