Capítulo 04
A semana passou rápido para Rafael, entre as aulas e o trabalho, ele sentia que mal tinha tempo para respirar. Mas com o passar os dias, algo o estava incomodando, Victor ainda não tinha falado com ele por telefone ou pessoalmente. Quinta-feira chegou e ele estava preocupado. Como ia fazer o trabalho de sociologia se sua dupla não falava com ele?
- Você devia ir falar com ele antes de ficar com torcicolo - Anelise revirou os olhos - Sério, Rafael vai falar com o seu futuro marido logo.
- Cala a boca, Análise - Rafael ressaltou o apelido sabendo que isso irritaria a garota - Eu tenho que fazer o relatório prévio de sociologia. Se minha dupla continuar me ignorando isso vai ficar um pouco difícil.
O rapaz desviou o olhar do lugar onde Victor estava sentado com suas irmãs e Marcos e voltou seus olhos para o sanduíche meio comido em sua mão. O fato de Victor ter se aproximado tanto de Laura e Letícia só tornava as coisas mais difícil, as duas meninas odiavam Rafael e sabe-se lá o que poderiam ter dito para o rapaz.
- Por que você não começa a conversa? - Bianca sugeriu com um encolher de ombros.
- Eu já dei meu telefone a ele. Ele não ligou. - Ele se calou por um momento e então arregalou os olhos - Meu Deus, ele deve estar pensando que eu estou dando em cima dele e... e...
- Não surta, cara - Pedro o Interrompeu. - Dar o número de telefone não é o mesmo que chamar alguém para sair. - Ele olhou para Anelise e perguntou - O que você faria se eu te desse meu número?
- Mandaria você enfiar ele no cu - A garota respondeu com naturalidade. Bianca riu da expressão ofendida no rosto do irmão, mas apesar de achar o comentário engraçado, Rafael permaneceu sério, seu olhar assustado agora voltado para a ruiva.
- Pedro tem razão - A menina o acalmou dando um tapinha em seu braço. - Além disso você avisou a ele que era sobre o trabalho.
- Ele nem deve saber que você é gay. - Bianca o tranquilizou, mas recebeu um olhar cético dos outros.
- Claro - Bufou Anelise - Como se Anastasia e Drizela alí fossem permitir isso. Mas isso não significa que ele acha que você está dando em cima dele. - Ela tentou tranquilizar o rapaz - Apesar de que você absolutamente deveria. Ele é gostoso.
Bianca concordou com a cabeça e seu irmão acertou uma cotovelada em suas costelas.
- O que? É verdade. - Ela disse
- Isso é inapropriado. - Pedro olhou para Rafael procurando por apoio, mas o rapaz apenas deu de ombros.
- Por quê? - Anelise bufou - Vocês falam assim das garotas o tempo todo.
Pedro abriu a boca para protestar, mas Rafael o Interrompeu:
- Nem tente. Ela tem razão sobre isso - Seu olhar se voltou para a ruiva que tinha um sorriso triunfante - Eu sei que você está tentando ajudar, Ane, mas não está funcionando.
O que quer que Anelise disse a seguir foi abafado pelo som do sinal que indicava o final do intervalo. Os amigos se levantaram e começaram a andar na direção das salas com passos lentos e desanimados.
- Te vejo na sala - Bianca anunciou - Tenho que ir ao banheiro. - Ela não esperou uma resposta antes de se separar dos outros.
- Qual a próxima aula de vocês? - Pedro perguntou.
- Biologia - Rafael informou ao mesmo tempo que Anelise dizia "Filosofia" - E a sua?
- Não sei - o rapaz deu de ombros - Gosto de ser surpreendido na primeira semana.
- Típico - Anelise revirou os olhos - Ah, vou ter sociologia hoje também. - A garota estremeceu
- Boa sorte. - Rafael jogou um braço ao redor dos ombros da amiga e deu um beijo molhado em seu rosto.
- Isso é nojento - Anelise protestou, limpando a saliva do rosto.
- A propósito, se a sua dupla for algum idiota, você sabe que pode me chamar, não é? - Rafael brincou enquanto os três paravam em frente às escadas. Era uma piada interna, já que todos sabiam que Anelise era a única pessoa do grupo que "se garantia no soco" - Qualquer pessoa que for menos que educada com você, irá enfrentar minha fúria.
- Meu herói - Ela revirou os olhos.
Nesse exato momento Victor e Marcos passaram por eles indo em direção à sua sala de aula do primeiro andar. Victor lançou um olhar estranho à Rafael antes de começar a subir as escadas.
- Vocês viram isso? - Rafael olhou para os amigos - Ele me olhou como se eu fosse um chiclete preso na sola do sapato. Talvez eu tenha comemorado cedo demais não ter que trabalhar com Kevin ou Bryan.
- Você está exagerando, cara - Pedro revirou os olhos.
- Mas... Merda - Rafael amaldiçoou quando viu a professora de biologia passando por eles e começando a subir as escadas com o Click de seus saltos audível mesmo sobre o tumulto dos alunos. - Tenho que ir, a senhora Helena odeia atrasos.
Ele se despediu de seus amigos e praticamente correu pelas escadas, conseguindo ultrapassar a professora no último degrau. Todos os alunos pareciam estar na sala no momento em que a mulher entrou com sua habitual cara fechada.
Rafael lançou um olhar para trás na esperança de ver Bianca, mas seu lugar estava vazio. O motivo foi explicado no momento seguinte quando a garota entrou ofegante na sala e lançou um olhar apologético para a professora.
- A fila do banheiro estava enorme - Ela se desculpou, mas seu batom borrado contava uma história diferente. Helena parecia tão irritada como sempre quando alguém se atrasava para a sua aula, porém não impediu sua entrada.
Quando Bianca se sentou, Rafael olhou para ela e passou o dedo ao redor dos próprios lábios indicando que os dela estavam borrados. A garota agradeceu apenas mexendo os lábios sem som. Ao desviar os olhos da amiga, o olhar do rapaz encontrou o de Victor. Rafael tentou chamar sua atenção para dizer que precisavam conversar, mas o outro desviou o olhar e o ignorou.
Helena começou a aula falando sobre Mendel, genes recessivos e algo sobre cromossomos xx e xy. Rafael tentou prestar atenção nos primeiros minutos de aula, mas conforme o tempo passava, sua mente começou a trabalhar em maneiras de se aproximar de Victor sem assustá-lo e esclarecer que ter lhe dado seu número tinha fins exclusivamente acadêmicos.
Quando o sinal para o almoço bateu, cerca de meia hora depois. Rafael respirou fundo e começou a caminhar na direção do lugar de Victor. Ele viu Marcos se aproximando também e ficou tenso, o loiro não era uma pessoa ruim, mas ter essa conversa na frente de outra pessoa só tornaria tudo mais esquisito, sobretudo quando nem ele tinha certeza do que diria.
Rafael estava prestes a desistir quando Raquel se aproximou e praticamente arrastou Marcos para fora da sala, dizendo algo sobre fortalecer seu vínculo durante o almoço.
Bianca, ainda em seu lugar, deu um sorriso de encorajamento sabendo o que seu amigo pretendia, isso o fez se sentir um pouco melhor, mas não era o suficiente. Murmurando palavras de encorajamento para si mesmo, Rafael deu alguns passos na direção de sua dupla.
Quando o menino mais alto começou a andar, no entanto, ele congelou. Com medo de deixar passar a oportunidade de conversa, Rafael abriu e fechou a boca algumas vezes, procurando algo para dizer. Ele não precisou dizer nada, porém.
- Seu nome é Rafael, né? - Victor perguntou em um tom áspero enquanto se aproximava.
- Sim - Apesar de ofendido com o tom, o garoto branco não podia disfarçar o alívio de não ter que começar essa conversa. Com o canto dos olhos, ele viu Bianca sair da sala, deixando-o completamente sozinho com o outro menino.
- Sobre o trabalho, acho que temos que fazer o primeiro contato para entregarmos o relatório segunda. - Rafael concordou com a cabeça, feliz que o outro tivesse o mesmo pensamento - Mas eu quero que fique claro: Eu não gosto de você, ouvi o que disse segunda, hoje também, e tenho nojo de pessoas como você.
Rafael olhou em choque para o rapaz a sua frente, a única coisa que se lembrava de ter dito enquanto estava ao alcance auditivo de Victor segunda era o maldito "Graças a Deus" e não se lembrava do rapaz estar por perto em nenhum momento mais cedo. Ainda assim, sua reputação na escola, junto com aquela frase de alívio na segunda eram indicadores bons o suficiente do que Victor estava falando.
- Ah, você é um desses - Rafael zombou antes que pudesse se conter. Todo o nervosismo de antes foi afastado quando sua sexualidade foi atacada
- Um desses? - O outro menino bufou - É assim que você chama quem não apóia esse tipo de atitude horrível?
- Bem, eu não me importo com o que você pensa. - Rafael dispensou o comentário - Em todo caso, ainda precisamos fazer o trabalho de sociologia. Não precisamos nos falar pessoalmente. Você tem meu número e pode me perguntar as coisas importantes para o seu relatório, eu vou fazer o mesmo.
- Tudo bem, Vamos fazer isso logo. Hoje depois da aula eu mando a lista do que preciso.
- OK - Respondeu Rafael em um tom irritado.
- OK - Victor espelhou o tom do outro e deixou a sala sem lançar mesmo um olhar para trás.
Quando Rafael saiu alguns instantes depois não ficou surpreso em ver Bianca encostada na parede esperando por ele.
- O que aconteceu? - Ela perguntou percebendo o mau humor do amigo.
- Ele é um dos idiotas, disse que tem nojo de pessoas como eu - Rafael respondeu, a forma como seus lábios apertados se projetavam para frente o faziam parecer infantil, mas a garota podia entender sua frustração. - Eu estou cansado de ser tratado como merda só porque as pessoas nessa escola maldita não entendem que gostar de garotos não me fazem um pervertido.
- Ei - Bianca passou o braço ao redor de seus ombros em um abraço desajeitado - Eu não sei o que poderia te dizer para animar você agora, mas estou aqui. - Ela sorriu a ver a expressão tensa do amigo suavizar um pouco.
- Então, quem foi o sortudo? - Ele perguntou de repente. Bianca sorriu maliciosa antes de disfarçar com um olhar interrogativo - Ah, não se faça de desentendida, seu batom tava tão borrado quando você entrou na sala que poderia se passar por um cosplay do Coringa.
- Yuri do segundo ano. - Ela admitiu por fim - Você não vai contar ao Pedro, vai?
- Não, eu sei o quão quadrado ele pode ser às vezes - Respondeu o rapaz - Mas você devia falar com ele, você tem todo o direito de ficar com quem quiser.
- Eu sei - Ela suspirou - Mas não acho que ele ia entender. A maioria dos alunos daqui me chamam de puta pelas costas. Não preciso que meu irmão pense isso de mim também. Estou surpresa que ele já não tenha ouvido os boatos.
- Acho que somos jovens bastante evoluídos para a nossa geração, né? - Rafael cutucou a amiga com o cotovelo quando viu seu rosto se tornar sombrio. - Talvez o mundo ainda não esteja preparado para a gente. Ou pelo menos, não essa merda de cidade. - Nesse momento o sinal voltou a bater indicando o final do almoço - Eu não acredito que perdi o almoço por causa daquele idiota - O rapaz bufou.
- Eu posso te emprestar dinheiro pra comprar alguma coisa - A garota respondeu - Você me paga quando puder.
- Ah, sim, quando eu estiver formado e conseguir um emprego realmente remunerado em vez de um excelente exemplo de escravidão moderna.
- Exatamente - Ela sorriu, mas seu sorriso era preocupado. - Você realmente devia exigir um salário de verdade de Luciana. O que ela te paga mal dá pra comprar roupas, materiais e pagar o ônibus.
- Segundo ela eu já tenho sorte de não precisar comprar a minha própria comida também - Bianca Bufou e ele continuou - Eu sei que isso é errado, mas falta tão pouco... Eu não quero ficar em piores termos com ela do que já estou.
Bianca concordou com a cabeça, entendendo a visão do amigo. Nesse momento Victor passou por eles voltando para a sala. O rapaz não olhou na direção de Rafael, mas a forma como ele ficou tenso indicava que tinha percebido sua presença.
- Idiota - O garoto branco bufou.
- Ei, sempre podemos pedir para Ane dar um soco nele. - Bianca brincou - Você sabe que ela tem um ótimo gancho de direita.
Os dois riram um pouco antes que a presença de Roberto, o professor de física se fizesse conhecida. O homem fez um sinal na direção da sala, indicando que eles deveriam entrar. Rafael e Bianca obedeceram e voltaram para seus lugares desejando que o período terminasse logo.
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Rafael estava no ponto de ônibus havia meia hora quando Mathias apareceu. Não era uma surpresa. O rapaz mais velho estava sempre por perto para atormentá-lo. Rafael não podia deixar de pensar que ele havia repetido a oitava série de propósito só para ter mais chances de foder com sua vida.
Quando em vez de empurrá-lo como sempre fazia, Mathias apenas ficou parado a seu lado, Rafael olhou para ele com as sobrancelhas erguidas. Não que ele quisesse ser agredido, seria muito bom chegar em casa sem hematomas para variar, mas esse comportamento era muito incomum para o outro.
Mathias olhou diretamente para ele e Rafael pode ver suas pupilas dilatadas. Não era bem um segredo que Mathias usava drogas, Rafael suspeitava que até os professores sabiam, mas não tomavam uma atitude como chamar seus pais para uma conversa, porque, bem, todo mundo sabia que seu pai era parte do problema.
- Ouvi falar que você está fazendo dupla com o filho do prefeito na aula de sociologia - Mathias quebrou o silêncio de repente, sua voz controlada, muito diferente de seu perjorativo de costume.
- Sim? - Rafael tentou parecer indiferente, mas estava curioso com o porquê do súbito interesse de Mathias por sua vida escolar.
- Você sabe porque ele saiu da outra escola, né? - O outro rapaz perguntou no mesmo tom calmo. Isso tava deixando Rafael cada vez mais nervoso.
- Não - Não era uma mentira, Rafael tinha ouvido boatos sobre Victor ter sido expulso por brigar, mas preferiu não acreditar nisso sem informações confiáveis.
- Você se lembra do meu primo Tomás, né? - Rafael acenou com a cabeça - Ele está no segundo ano da escola que o filho do prefeito saiu. Ele não tem detalhes, é claro, o prefeito fez questão de abafar o caso, mas Tomás ficou sabendo que um cara foi parar no hospital depois de levar uma surra.
- E por que você está me dizendo isso? - Rafael olhou desconfiado pra o rapaz a seu lado.
- Porque o cara que foi para o hospital também era um bicha. - O sorriso malicioso tomou conta do rosto de Mathias assim que disse isso, ele abandonou toda a fachada simpática. - Eu tenho certeza de que você já ouviu os boatos sobre a expulsão do Martins Júnior.
- Ao contrário da maioria dessa escola, eu não me deixo levar por boatos.
Mathias deu de ombros.
- Só avisando. - Ele sorriu - Vai ser meio triste saber que você está no hospital e não fui eu quem te colocou lá, mas vou superar. Até mais viado, não se esqueça do que eu disse.
Mathias empurrou Rafael para frente com força, o rapaz não caiu, mas tropeçou um pouco e levou um tempo para recuperar o equilíbrio. Quando conseguiu, Mathias já havia desaparecido
Rafael engoliu seco ao lembrar da conversa com Victor mais cedo. O que Mathias havia acabado de dizer fazia sentido e não era nem um pouco tranquilizante. Ele estava em uma dupla com um cara que além de insulta-lo, podia mandá-lo para o hospital. Ótimo. Talvez ele precisasse que Anelise o protegesse a final.
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