De quem é a culpa?
Poucos sabiam as verdades por trás do sorriso largo do menino, nem sequer desconfiavam que ele não estava feliz, e quando digitava "kkk" na verdade, estava chorando. E pretendia continuar a manter esse segredo enquanto a chuva caísse ao seu redor, enquanto ainda tivesse dentes para mostrar em seu sorriso e forças para levantar da cama de manhã.
Naquele dia, ele não teve forças para se levantar de manhã. Tudo dóia. E sabia que doeria mais ainda se não juntasse seus pedaços e se levantasse de uma vez da cama. Afinal, ele não tinha o direito de chorar. Se o garoto que todos tiravam como exemplo de felicidade fosse ao psicólogo chorar, em quem eles se inspirariam?
Respirou fundo, primeiro a cabeça, apoiou-se nos braços, levantou a coluna e se sentou na cama, sentindo tudo latejar. Antes que ele mesmo visse o próprio corpo, vestiu o moletom que estava sobre sua cabeceira. Quase caiu ao tentar apoiar os pés no chão, mas ele não podia cair. Se caísse, em quemas pessoas iriam se inspirar para levantar? Como poderiam ter esperança?
Vamos lá, é só o primeiro dia. Ainda tem o ano inteiro. Sorria, sorria, sorria. Eles precisam de você. O garoto nunca percebeu que na verdade, não fazia por eles, mas sim porque se chorasse, sabia que não seria capaz de parar e acabaria morrendo asfixiado nos próprios soluços.
Se enfiou embaixo do chuveiro, vestiu-se e colocou o moletom habitual, mas ele não reparou que naquele dia não chovia. Estava quente, pois o verão ainda não havia acabado, mas o calor em seu corpo já havia passado há muito tempo.
Tudo estava errado. Ele não tinha forças para sorrir, suas bochechas doíam. O sol não estava escondido atrás das nuvens e a chuva não caía. Pensou em ficar em casa, mas os outros precisavam de ajuda, da sua ajuda. Precisavam de alguém que os abraçasse e dissesse que tudo iria ficar bem. Então saiu de casa.
É só o primeiro dia... só o primeiro dia de aulas e ele já não via a hora da férias de dezembro, quando finalmente completaria seus dezoito anos e sairia de casa nem que fosse para morar na rua.
Depois dos portões azuis da entrada, pessoas andavam de um lado para o outro, risadas e conversas animadas ecoavam por todos os lados, grupinhos se formavam. Talvez eles não precisassem de sua ajuda, mas sim ele que precisava da deles. Ninguém via que o brilho em seus olhos eram lágrimas.
Ele só se deu conta de que não estava sorrindo quando o namorado entrelaçou o braço no seu e disse com um sorriso tímido: "senti sua falta."
O menino sorriu de volta, o mais sincero que pôde, também sentiu falta daqueles olhos negros brilhantes como sorriso branco, seus dedos formigavam na expectativa de enterrar-se nos fios castanhos do cabelo do namorado. Abraçou-o demonstrando toda a saudade que tinha dele, que aqueles foram os piores três meses de sua vida sem ele:
— Também senti sua falta. — sussurrou no ouvido do outro.
Como faziam normalmente, sentaram-se um atrás do outro. O moreno na frente, pois o outro gostava de esticar a mão e mexer em seu cabelo quando estava entediado. A aula começou.
A primeira professora se apresentou, falou de sua vida e sua história de superação, de como saiu da pobreza extrema e cursou letras em uma das melhores faculdades do estado. Ele fechou os olhos querendo dormir, mas uma voz lhe chamou:
— Nossa, como você aguenta esse calor com um moletom? — a garota soltou uma risadinha nervosa para ele.
Nunca havia visto a dona dos cabelos vermelhos antes, era nova, poderia estar se sentindo deslocada. Então, ele sorriu como se tivesse motivos para isso e soltou:
— Eu praticamente não sinto. — mentiu ele, mas quem poderia discordar? Ele era o único que sentia seu corpo. — Gosto de moletons. — mentiu de novo. Detestava aquela roupa, mas precisava dela ou tudo estria perdido.
— Percebi. — ela riu animada. — Pode me emprestar uma caneta? Acho que esqueci de comprar.
— Claro. — o menino concordou automaticamente, abriu o estojo pegou e entregou a caneta a garota.
— Depois eu te devolvo, ok? — sorriu de novo.
Será que como ele, ela tinha de sorrir para parecer bem? Ele pensou enquanto encarava a menina prender os longos fios ruivos com um lápis de cor enquanto escrevia a matéria. A observou tanto, que esqueceu de olhar para o que estava a sua frente. Seu coração quase parou quando duas coisas se misturaram: sangue e gritos.
Gotículas vermelhas sujaram seu rosto, mas ele não se importava, já estava acostumado com aquilo, mais do que deveria. Mas se importou a virar a cabeça e perceber que o sangue jorrava do pescoço do namorado que estava no chão com a garganta cortada. Não, não, não!
Ele se ajoelhou no chão ao lado do outro, tentando estancar o sangue que insistia em jorrar. Em um ato impensado, ele tirou o moletom, que era grosso o suficiente para estancar o sangue na garganta do namorado. Por que você tentou me deixar, Alan? Não está feliz o suficiente comigo? Ele pensou enquanto apertava o moletom contra a garganta ferida do namorado.
Os gritos e murmúrios continuava altos, enlouquecendo-o, mas ele não reparou que não falavam apenas sobre a tentativa de suicídio de Alan, os hematomas em seu corpo também era pauta dos alunos. Ele chorou, por não conseguir ver seu pilar cair.
Alan fechou os olhos e seu coração parou de bater, pois não havia mais sangue para isso. Ele, que ajudou tantas pessoas — ou pensava ter ajudado —, não fora capaz de salvar o amor da sua vida. Chorou porque doía e quando ele soluçava doía mais ainda. Gritou, porque quando gritava sentia-se livre, as correntes quebravam quando ele mostrava sua dor:
— Eu sinto muito. — a ruiva falou se ajoelhando ao lado do menino, que não conseguia parar de chorar para sorrir para ela e dizer que tudo vai ficar bem.
Ele abraçou o próprio corpo envergonhado por ter mostrado tanto de si e chorou ainda mais. Pegou o moletom banhado de sangue e vestiu-o, sem se importar seu aquilo o sujaria, se acabaria com a boa aparência de seu sorriso. O menino correu. Correu mesmo que tentassem o segurar, já estava cansado de ser enjaulado, então correu o quanto pôde, até sentir-se seguro. Sozinho, ou nem tanto.
A ruiva sentou ao seu lado sobre o muro da escola:
— Quem fez isso com você? — perguntou ela sem sorrisos, estava séria. Será que ela também fingia estar alegre e naquele momento resolveu assumir seu verdadeiro estado?
— Promete que não vai contar para ninguém? — ele desconfiou da palavra da garota, mas contou — Meu pai.
— Mas por quê?
— Ele diz que eu faço ele passar vergonha por ter uma namorado ao invés de namorada. — chorou lembrando das palavras duras do pai quando se assumiu.
Mais duras que as palavras do mais velho, foram os chutes, os socos, as surras:
— É mesmo assim tão errado? — soluçou.
— Claro que não...
— Isso custou a vida do Alan. Parece certo para você? — questionou. — Se nós não estivéssemos juntos... se ele fosse como todo mundo, os pais não o teriam o expulsado de casa e ele não apanharia todo dia na rua.
— A culpa não é sua ou dele! — afirmou sem exitar. — A culpa nunca é da vítima. Vocês não fizeram nada além de tentarem ser felizes. — a ruiva abraçou o garoto, que de início ficou surpreso, mas retribuiu.
— Por que você veio atrás de mim se mal me conhece?
— Porque eu já fui estuprada e eles disseram que eu não deveria ter saído tão tarde com roupas tão curtas. Eu sei que a culpa não é minha, achei que você precisava saber disso também. — ela sorriu. — Nós não somos criminosos. Somos como passarinhos enjaulados que, aos poucos estamos achando uma saída. Essa é a nossa luta, não nossa culpa.
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