Capítulo 7
O dia amanheceu perfeito.
Era raríssimo ver o sol brilhar tanto e iluminar tão bem a cidade, deixando-a mais bonita. Os raios amarelados atravessaram intrometidamente à janela do quarto de Antonio, fazendo-o acordar por conta da imensa claridade da qual estava desacostumado a ver. O rapaz se enrolou em meio aos lençóis, se mexeu tanto que rolou até cair no chão e agora sim estava acordado de vez. Espreguiçou-se ali mesmo deitado no chão, quando alguém invadiu seu quarto ás pressas para saber o que era aquele estrondo feio que vinha do quarto dele. Giulia e o irmão começaram a dar altas gargalhadas e a garota, como uma ótima irmã mais nova, pulou em cima do irmão, quase que o esmagando.
Os irmãos se levantaram do chão ainda gargalhando do acontecimento, Giulia como sempre de tanto rir, já havia começado a soluçar, algo que nem água curaria, levaria tempo até a garota voltar ao normal, e para Fred era um motivo a mais para continuar a zombaria. Todos finalmente conseguiram se conter o máximo e foram para a cozinha, tomar o café da manhã. O celular de Fred tocou e Giulia como sempre, o pegou para atender. A mãe do rapaz estava preocupada, mas a garota logo a acalmou dizendo que havia dormido como um bebê, realmente estava, era um babão que nem Antonio, claro que ela não deixou de fazer esse desagradável comentário. Fred ficou chateado, mas nunca conseguia ficar assim por tanto tempo. Logo os dois estariam fazendo bagunça pela casa de novo, ou melhor, quase colocando fogo na casa. Passava das dez e meia da manhã e Antonio já não se encontrava em casa mais, provavelmente teria saído à procura de Louise.
•••
No Belaggio, Louise ainda estava dormindo, toda esparramada na cama por conta da tarde cansativa, porém divertida que tivera no dia anterior. A mulher só foi acordada pela batida na porta. Demorou quase dez minutos para se colocar de pé e caminhar até a porta para abri-la. O funcionário do hotel levou um susto ao vê-la, pois estava meio descabelada e com uma cara de sono muito bem notável. Ele entregou uma rosa que tinha um cartão pendurado á jovem e pediu desculpas por tê-la acordado. Louise por sua vez, agradeceu-o e fechou a porta, sem deduzir muito sobre a pessoa que deveria ter lhe entregue aquela rosa. Sentou-se na cama novamente e cheirou a rosa, com os olhos fechados e logo pegou o pequeno cartão que havia algo escrito a mão, com uma letra bem bonita.
"Buongiorno, cara Louise. Dormiu bem? Espero que sim. Esta rosa é um convite á você para almoçar comigo hoje. Espero que aceite viu? Estarei lhe esperando no Bellotero, o restaurante fica abaixo daquela praça onde estávamos ontem á noite. Te espero. Baci. — Antonio."
Louise deu um bocejo misturado com um enorme sorriso no final, feliz pelo que leu. Em instantes, sua mente começou a ficar uma baderna pelos pensamentos sobre qual roupa usaria para encontrá-lo em breve. Correu até o pequeno guarda-roupa que o hotel oferecia e escolheu um de seus vestidos preferidos. Ele era amarelo. Um amarelo bem claro, digamos que desbotado com um pequeno laço na frente. Nos pés, calçou sapatilhas de veludo de cor azul marinho, e ajeitou os longos cabelos castanhos de lado, deixando-o solto e pôs um pequeno laço branco na franja, para segurá-la e por fim, passou um batom cor-de-pêssego e pegou uma das suas carteiras de mão e saiu.
A jovem saiu às pressas sentindo-se atrasada para um compromisso, tropeçou várias vezes nas pedras que havia em algumas ruas – que eram feitas de paralelepípedos –, quase chegando ao ponto de esborrachar a cara no chão. Parava quase todo o percurso para ajeitar a sapatilha que estivera machucando o calcanhar. Passou por alguns becos para cortar caminho e ao chegar na Praça, se deparou com Melinda. Louise atravessou a praça fazendo o possível para não encará-la, mas a ex do seu novo amigo fez questão de se apresentar.
— Você é nova aqui?! – perguntou Melinda de longe, quase gritando.
— Está falando comigo?! – Louise se virou e ergueu as sobrancelhas.
— Sim. – Melinda caminhou até Louise olhando-a da cabeça aos pés. — Conhece o Tony faz muito tempo?!
— Há algumas semanas apenas. Me desculpe, mas eu estou atrasada, tenho que ir. – disse Louise voltando a caminhar até o restaurante mas Melinda a impediu.
— Ele me ama ainda, eu sei disso. Aliás, sou... – Melinda foi interrompida.
— Melinda, eu sei teu nome. Isso não é problema meu! – Louise ficou parada batendo o pé direito impaciente.
— Eu sou namorada dele, caso não saiba. – Melinda mentiu, mas continuou firme.
— Você? Namorada dele? – Louise deu uma risadinha de leve. — Depois daquele dia, do jeito que ele te tratou, eu duvido! – Louise continuou rindo e saiu andando.
Melinda ficou intacta, assustada com a ignorância e com a piada que Louise havia feito. Havia sido realmente engraçado. Enrico, que estava na praça com mais alguns amigos estava louco para contar o que Louise havia feito com Melinda para Antonio. Parecia não ser nada demais, mas conseguir fazer com que a garota ficasse calada e quieta do jeito que estava, não era pra qualquer um. Até porque, era filhinha de papai, a princesinha de um dos homens mais poderosos da Itália e quem ousasse mexer com ela, estaria frito. Para Louise não faria diferença. Nunca teve medo de enfrentar esse tipo de pessoas, estava sempre disposta a se defender e a defender seus amigos, no que fosse necessário. E por mais desnecessário que fosse, ninguém jamais poderia duvidar que a jovem era boa de briga.
Mais alguns passos e Louise já haviam encontrado o restaurante no qual Antonio estaria lhe esperando. Era um lugar aparentemente muito sofisticado e quando a jovem adentrou ao estabelecimento, sentiu-se um pouco envergonhada pelo que vestia, e principalmente por ainda não ter encontrado o italiano. Antonio do fundo do restaurante havia avistado a jovem, e pediu á um garçom que a ajudasse a encontrá-lo. Um rapaz que aparentava ter vinte e poucos anos, aproximou-se de Louise e pediu para que ela o acompanhasse. Eles caminharam lentamente pelo restaurante até chegar a mesa que Antonio havia reservado e Louise logo o avistou, abrindo um sorriso simpático. A jovem agradeceu ao garçom pela ajuda e Antonio dispensou o garçom por enquanto para que pudessem conversar e chegar a algum acordo sobre o que pediriam.
— Bom dia, Miss Louise! – Antonio a cumprimentou com beijo na mão da jovem.
— Preciso me acostumar com isso! – Louise sorriu sem jeito e se ajeitou na cadeira.
— E então dormiu bem? O pessoal do hotel de trata bem?! – perguntou ele um pouco sem rumo para iniciar um assunto.
— Sim, dormi bem até demais! – ela riu — Sim, me trataram muito bem até agora, porque a pergunta?!
— Bem, geralmente os serviçais de lá são um pouco mal educados e fazem certas coisas com má vontade. – disse Antonio mexendo as mãos como todo italiano e Louise deu uma risadinha. — Que foi?! – perguntou o homem sem entender.
— Isso é engraçado! – disse Louise remexendo as mãos tentando imitá-lo.
— Isso o quê?! – o rapaz se fez de bobo e sorriu.
— Falar mexendo as mãos! Mas se bem que você não faz isso com muita frequência, pelo que tenho observado. – Louise continuou rindo.
— Você é bem observadora mesmo. – o homem completou.
— Meu trabalho exige isso! – Louise sorriu e olhou para os lados, admirando o local.
— Mas você me disse que não trabalhava mais com jornalismo, isso faz muito tempo? – perguntou curioso.
— É verdade. É muito desgastante. – disse franzindo a testa — Nada, digamos que larguei sem avisar e vim pra cá. — ela sorriu como uma criança sapeca.
— Que responsável você hein?! – ele riu cruzando os braços e se inclinou um pouco para trás.
Louise fez uma careta bem feia com a língua para fora e depois os dois riram juntos. Começaram a implicar um ao outro por conta do assunto anterior, a irresponsabilidade e Louise tentava dar todos os motivos possíveis do por que ter largado um emprego no qual várias mulheres dariam a vida para consegui-lo. O motivo estava evidente desde o momento em que ela havia contado que nada estava satisfeita com o que fazia há muitos meses, ele sabia muito bem, mas queria conhecê-la melhor, entender o verdadeiro motivo dessa virada radical. O italiano chamou o garçom novamente e antes de pedir, deu mais uma bisbilhotada no cardápio, olhou para Louise por cima e decidiu o que pediria.
— Eu vou querer, por favor, uma porção média de Espaguete Carbonara. E de bebida... – tornou a olhar para Louise por cima do cardápio e sugeriu: — Que tal um bom vinho?
— Não conheço muitos vinhos, então por mim tudo bem! – Louise sorriu sem jeito, não sabendo como deferia se comportar ou se pronunciar.
— Ótimo, um Brunello de Montalcino, por favor! – Antonio sorriu simpaticamente para o garçom que anotou o pedido.
— Saindo um Brunello de Montalcino direto da Toscana, senhor! – o garçom sorriu e se retirou para realizar o pedido.
— Os vinhos da Toscana são considerados uns dos melhores; eu não sei se vai gostar, mas eu espero que sim! – ele sorriu bobamente para Louise.
— Não sou muito de beber, tenho que confessar. – deu uma pausa e sorriu torto – Mas um bom vinho de vez em quando é agradável. – Louise sorriu como se entendesse bem de vinhos.
O clima estava perfeito, com aquela brisa fresca de um início de tarde que prometia um sol não muito quente, mas o suficiente para que as pessoas saíssem de casa. O restaurante foi sendo tomado pelos fracos raios solares, que ultrapassavam as enormes janelas de vidro – com um pé direito de cinco metros –, e aos poucos uma música bem suave – mais precisamente um bom Jazz – deixava o ambiente mais confortável do que já era. Não demorou para que o pedido de Antonio chegasse logo. O próprio chef que havia preparado a refeição tinha em uma das mãos a bandeja na qual estava a porção de macarronada. Com muito cuidado, o rapaz pôs a bandeja sobre a mesa, cumprimentou-os com um enorme sorriso e desejou ao "casal" um ótimo apetite.
A aparência daquele espaguete estava ótima, o aroma do vinho melhor ainda, em contraste com o aroma do espaguete. Antonio deixou alguns dos bons costumes de lado e atacou o vasilhame no qual estava o macarrão. Louise por sua vez ficou quieta, observando o jeito moleque do rapaz, principalmente as expressões que ele fazia, fazendo-a rir baixinho. Demorou para que o italiano notasse que a jovem até certo momento ainda não havia se servido, mesmo com a risadinha dela. Ela apoiou os cotovelos na mesa e apoiou o queixo nas mãos tentando chamar a atenção de Antonio da forma mais discreta e um pouco engraçada possível. Finalmente ele parou. Olhou para frente e deu de cara com aquele rosto lindo e angelical, segundo ele.
A garota ainda continuava com o queixo apoiado nas mãos e dessa vez rindo com suas finas sobrancelhas arqueadas. Ele deu uma risadinha e Louise pegou um dos guardanapos que estavam sob a mesa e limpou o canto da boca do rapaz que ficou envergonhado pela atitude apressada. Dizer que estava com fome não seria motivo para isso, mas do contrário de Melinda, Louise de certa forma não achava tão deselegante, era engraçado, divertido de se ver que ainda existiam homens legais e que eram brincalhões o tempo inteiro, até mesmo num restaurante chique.
Os dois degustaram juntos do espaguete da forma mais enrolada possível para sentir melhor o sabor. Já com o vinho, Antonio fazia questão de aproximar a taça ás narinas para sentir o aroma do vinho e logo deu alguns goles. Era provocação. Ele sabia que Louise era do tipo que encontrava graça em praticamente tudo. A jovem já estava ficando vermelha de vergonha quando conseguiu conter o riso, enquanto Antonio agora se comportava como Louise estava anteriormente, parado olhando para ela se fazendo de bobo. Finalmente terminaram as refeições e um outro garçom se aproximou para buscar os pratos e talheres. Enquanto Louise continuava a admirar o interior do restaurante, notando cada detalhe possível, Antonio dava atenção ao cardápio novamente, dessa vez com os olhos grandes sob as sobremesas, suspirando e tentando escolher uma em especial para pedir.
— Porque tantos suspiros?! – perguntou Louise curiosa e riu.
— Vou querer um Tiramisu médio, por favor! – ele sorriu e pôs o cardápio sob a mesa novamente. — Essas sobremesas são maravilhosas, não tem como não suspirar com tanta delícia! – ele sorriu.
— O quê é um tira... – balbuciou tentando se lembrar do nome da sobremesa.
— Tiramisu. É um tipo de pavê com café, chocolate e creme Mascarpone. – ele riu e continuou — Mascarpone é um creme a base de água, açúcar, ovos e queijo.
— Hum, parece bom! Apesar de nunca ter experimentado ou ouvido falar, me deu água na boca. – disse sorrindo e tornou a ficar envergonhada, olhando para os lados.
— Você fica uma graça quando está envergonhada! – Antonio não conseguiu evitar que deixasse ela ainda mais tímida.
— Tudo bem! – falou entre dentes, tentando disfarçar a vergonha.
— Não sabia que eu era um palhaço num circo quando adolescente?! – perguntou esperando a reação dela.
— Verdade? – Louise ergueu as sobrancelhas. Já estava se acostumando com as brincadeiras do rapaz.
— Verdade poxa, duvida?! – tentou se manter sério mas não conseguiu. — Tudo bem, você venceu!
O jovem garçom retornou a mesa no qual estavam Antonio e Louise e pôs sobre a mesa uma vasilha transparente com a sobremesa que estava aparentemente maravilhosa. O rapaz ainda depositou mais duas taças médias, colheres de sobremesa, e por fim água mineral porque a sobremesa era muito doce. Ele recolheu o restante da louça que haviam usado e se retirou, deixando ambos mais á vontade. Antonio deixou que Louise se servisse primeiro, mas a mulher ficou com receio, apesar da boa aparência e o aroma forte do café que estava perfeito. O próprio Antonio então serviu á jovem, preenchendo a taça com algumas colheres da sobremesa e depois serviu á si mesmo.
— E se eu não gostar? – perguntou Louise com expressão de medo de desperdiçar.
— Você não gosta de café?! – ele perguntou arqueando as sobrancelhas.
— Sim. – ela fez bico.
— E não gosta de chocolate?! – agora perguntou rindo do bico da jovem.
— Sou chocólatra! – respondeu ela toda orgulhosa.
— Então ótimo! O Tiramisu é a sobremesa certa pra você! – exclamou com aquele sorriso branquíssimo. — Vamos, experimente!
— Ok, veremos... – respondeu Louise enquanto hesitava em levar a colher até a boca.
— E então?! – Antonio ficou curioso, mesmo sabendo que ela adoraria.
— Espere... – Louise respondeu de boca cheia e de olhos fechados, tentando degustar do doce da melhor forma possível. Obviamente isso deixava Antonio cada vez mais apaixonado. — Meu-Deus! De que planeta veio isso?! – perguntou surpreendida.
— Da terra mesmo! – Antonio agora estava rindo um pouco mais alto, mas moderadamente. — Eu não disse que era incrível?! – ele sorriu.
— Tem razão, isso é... – fez uma pausa — não sei nem descrever! – dizia ela degustando lentamente de olhos fechados, como se fosse a melhor sobremesa do mundo – e de fato era.
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