Capítulo 38

Nova Iorque, NY — Segunda - feira — 12h30

Marianne já estava pronta para sair e encontrar James numa lanchonete próxima ao Central Park para almoçarem. Ao caminhar rumo à porta do seu escritório, pegou sua bolsa e o casaco de couro preto e depois fechou a porta, trancando-a. Meredith disse que isso não era necessário, as moças que trabalhavam lá era todas confiáveis. Marianne obviamente riu com isso. "Onde já se viu mulheres confiáveis numa loja da Victoria's Secret?" Depois, isso acabou fazendo Meredith repensar e a se habituar em trancar tudo que fosse possível.

Os dois se encontraram na porta da lanchonete que do lado de fora, dava para ver que estava lotada e a fila estava quase chegando na calçada da lanchonete. Sendo assim, optaram por um quiosque de hot-dogs e compraram Pepsi para acompanhar. Almoçaram com calma, milagrosamente, já que quase todos os dias tinham que colocar na boca e engolir direto por causa do tempo apertado. E como não enfrentaram fila e comeram algo mais rápido de se digerir, ainda tinham mais quinze minutos para descansarem antes de voltarem para o "inferno". Aí Marianne notou que James estava procurando por algo nos bolsos da calça e da jaqueta.

— O que é isso?! — perguntou ela, observando-o abrir um vidro alaranjado com comprimidos.

— Glicocorticoides. — respondeu ele. Depois pegou um comprimido e colocou na boca, engolindo-o com a ajuda do refrigerante.

— Glico-co o quê?! — indagou ela, fazendo uma careta.

— É para tratar minha asma. — respondeu, colocando o vidrinho de volta no bolso da calça.

— Não sabia que você tinha asma! — retrucou ela, surpresa. — Por que não me contou?

— Não achei que fosse necessário... — respondeu. Marianne hesitou.

— É sério? — perguntou ela. James fez uma cara de "o quê?". — Isso. A asma. É grave?

— Não. — respondeu ele, firme. Mas ele sabia que estava tomando os comprimidos da forma errada, sem receita. — Os comprimidos estão me ajudando muito. — ele sorriu simpaticamente. — Vamos, sabe que não podemos nos atrasar! — ele riu.

— Vamos! Meu Deus! Estou mais atrasada do que você! — Marianne quase gritou e ambos saíram correndo pelo Central Park até o ponto de encontro.

— Tyler! — berrou Betty. — Está atrasado! Thomas quer você na sala dele.

— Ok, já estou indo... — James pegou o vidrinho novamente para ver quantas drágeas ainda tinham. — É... dá pra sobreviver mais esse mês e algumas semanas. — aí ele guardou o vidro alaranjado de volta no bolso quando entrou.

— Bem, James, eu preciso conversar com você sobre isso aí... — Thomas se referiu ao que ele estava segundo no bolso da calça. Aquele mesmo vidrinho alaranjado. James hesitou.

— B-Bom, o que o senhor q-quer saber? — gaguejou e engoliu seco.

— Quero saber o que você está tomando. — Thomas foi direto ao ponto. — Você está doente?

— Não senhor... — James retirou o vidro do bolso e ficou encarando-o. — Isso é glicocorticóides. — ele sorriu com os lábios tentando não demonstrar o medo de pensar que perderia o emprego ou que descobriria que ele estava tomando comprimidos sem prescrição médica.

— Glico o quê?! — Thomas gaguejou. — Para o quê serve isso?! — questionou.

— É pra tratar minha asma. Não se preocupe, senhor. Eu estou bem... — ele suspirou de novo —... Tenho asma desde criança.

— Você tem certeza?! — indagou. James fez que sim com a cabeça. — Tudo bem. Tem notícias de Louise?! — perguntou ele, parado na porta da sua sala.

— Bem, ela está se reaproximando do pai... Isso é muito importante pra ela, que perdeu a mãe cedo.

— Não sabia que a mãe dela tinha falecido...

— Afogada. — James se lembrou de anos atrás, da sua infância, vendo Louise chorar sem parar agarrada as pernas do pai, no enterro de Susan. — Estavam de férias num Cruzeiro...

— O Sain't Claire? Em Miami?! — perguntou surpreso.

— Sim. Soube do acidente?!

— Perdi um sobrinho naquela tragédia... Testemunhas disseram que ele pulou pra tentar se salvar mas..., mas foi em vão. — gaguejou. — Ele caiu próximo as rochas, numa área rasa.

— Sinto muito.

— Eu também... — Thomas voltou para sua sala com uma expressão triste e pesada.

Voltar a dançar era tudo o que Louise sempre quis, mas o seu trabalho com a Revisão de textos e matérias há muito tempo estavam impedindo o desejo de poder praticar ao menos uma vez na semana. E após chegar à Fazenda do pai, praticou até não conseguir mais, até surgirem bolhas nos pés e sentir o corpo todo dolorido. Se existe uma dor "boa", Louise com certeza diria que a melhor é aquela que vem depois do que você faz o que mais ama. Desde o dia em que havia chegado a Memphis, a primeira coisa que queria encontrar quando saísse sozinha era uma escola de dança pequena ou qualquer ginásio antigo e abandonado para que pudesse praticar sozinha.

Era uma sexta-feira. Robert havia prometido levar a filha a uma pequena academia de dança – uma filial da Escola de Dança Pierre Dulaine, organizada por uma ONG – que estava fixada entre a área rural e a cidade. A escola seguia as tradições de Dulaine, por isso estava situada mais próxima a área rural. Seu objetivo era dar aulas de dança para pessoas da classe média para baixo, que não tinham condições de pagar as aulas mensais, mas que tinham um desejo sobrenatural para aprender dança de salão. Louise sabia apenas Jazz desde os 8 anos de idade. Agora, tinha um desejo enorme para aprender dança de salão, principalmente tango, bolero e salsa, ritmos que não faltavam na Escola Dulaine. Mas infelizmente, toda essa felicidade havia durado pouco.

Quando o professor voltou para o centro do salão, onde Louise estava dançando mais livre do que antes, encontrou-a sentada no chão, encurvada, segurando com força um de seus pés. De início, pensou que estava fazendo o alongamento recomendado, mas quando se aproximou mais, viu uma coisa comum, mas não muito agradável. Louise estava com o tornozelo esquerdo torcido, devido a uma manobra arriscada que havia tentado sem estar preparada. Louise não estava chorando, até porque não tinha fôlego pra isso. A dor e o susto, haviam sugado quase toda a sua respiração.

— Louise! — exclamou ele, abaixando-se para analisar a situação. — O que aconteceu?!

— Quis dar alguns saltos e rodopios e então, caí de mau jeito, em cima do meu p-pé... — disse ela, gaguejando e balbuciando enquanto segurava com força, seu pé esquerdo.

— O que houve? Louise o quê... — Robert ficou assustado com o tornozelo torcido.

— Vamos! Me ajude, precisamos levá-la ao hospital! — exclamou o professor, abaixando-se para pegar Louise de um lado e Robert do outro.

— O que aconteceu?! — indagou Robert.

— Fui dar uma pirueta e caí de mau jeito... — disse ela, respirando fundo, ainda segurando a perna esquerda com bastante força.

— Certo. Tem um hospital próximo... Fica a uns dez minutos daqui.

— Vamos... — disse Robert, apontando para a sua camionete com os olhos, para que levassem Louise até ela.

No hospital, Louise estava com o pé esquerdo enfaixado e engessado. Havia sido liberada meia hora depois do incidente, após alguns exames e radiografias. O professor se lamentou pelo acontecido e pediu desculpas pelo mal estado do salão, enquanto Louise insistia em dizer que a culpa não era do piso e sim da sua falta de prática. Como sempre foi teimosa, ela tentou levantar-se da cama, sem o apoio das muletas, que a enfermeira havia ido buscar. Isso resultou num choque, que num instante percorreu todo o seu corpo, ao pisar com o pé que ainda estava um pouco torcido, no chão. Sendo assim, Louise poderia ter caído de joelhos, se não fosse pelos braços do pai e do professor, que a seguraram. Em seguida, vieram as broncas do pai, da enfermeira e do médico, que a viu ainda em posição de queda.

— O que você está fazendo?! — exclamou a enfermeira, furiosa. — Quer ficar com esse pé torcido pra sempre, é? — resmungou ela. Louise fechou a cara e ficou em silêncio.

— Não precisa ser grossa com a moça, Rachel! — a voz do doutor soou suave e quase confortadora. — Aqui estão as muletas. Aconselho que não tente andar sem elas, ou você não poderá dançar mais... — ele a encarava com um olhar e um tom severo.

— Obrigada. — agradeceu ela, pegando as muletas.

— Esses são os comprimidos para as dores. Deve tomá-los a cada doze horas, pois são muito fortes e geralmente dão sono. — o homem alto de jaleco branco entregou um frasco alaranjado com 20 analgésicos. — Se você tomá-los na hora certa, sem esquecer, provavelmente vai melhorar mais rapidamente, então, creio que 10 comprimidos serão o suficiente.

— Certo. Obrigada, Dr. Raymond! — Louise checou as informações do frasco e depois saiu do quarto, acompanhada do professor e do pai.

— Você ouviu né, mocinha? Nada de andar sem as muletas! — repetiu o pai.

— Sim pai, eu entendi. — Louise bufou e revirou os olhos.

— Quanto tempo ela terá de ficar de repouso? — perguntou Robert.

— Sugiro que fique de repouso total em casa por uma semana. Depois, ela pode voltar aqui para analisarmos a situação novamente... — Raymond notou uma expressão de preocupação no rosto de Louise. — Algum problema com isso?

— Ah, não, é que... — ela balbuciou — ... eu não moro mais aqui, moro em Nova Iorque, eu deveria estar voltando para lá hoje...

— Bem, nesse caso, você deve ligar para o seu chefe e conversar com ele sobre isso. — sugeriu o Dr.

— Tom não é tão fácil assim de lidar. — ela riu forçado. — Com certeza vai dizer que forcei esse acidente pra ficar mais tempo aqui.

— Mas que emprego é esse que você arrumou? Você precisa descansar! Peça à ele mais uma semana pelo menos, e depois poderá se tratar com o seu médico lá. — sugeriu.

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