Capítulo 12
Enquanto isso, em NY...
Era um sábado quente e Marianne ainda estava babando no travesseiro.
O celular já havia despertado duas vezes e ainda assim nada a acordava, pelo visto, a noite anterior havia sido boa. Estar no Bunker's Club todas às sextas era regra, mas nunca aplicada a Louise, que sempre ficava em casa, encolhida no sofá tomando várias canecas de chocolate quente e lendo os mesmos livros pela milésima vez. Marianne por sua vez sempre foi mais elétrica, participando de todas as festas no qual era convidada, chegando a arrastar Louise muitas vezes, mas nada adiantava porque sempre ficava num canto sozinha e quieta até a hora de ir embora. Chegava a ser cantada pelos rapazes que passavam por perto, mas nunca dava bola e sempre voltava para o balcão para pegar mais bebida para ajudar a passar o tempo que parecia eterno.
Acordou com muito custo, como qualquer pessoa que tivera uma noite anterior agitada, caindo da cama depois de tanto se remexer, mas nem isso adiantou. Se não fosse por mais um despertar do celular, ela ficaria ali mesmo o dia inteiro. Acordou-se de vez depois dos gritos do celular, que logo foi arremessado na cama. Espreguiçou-se ainda sentada na beira da cama, mas sua mente ainda parecia estar desligada e os olhos pesados. Caminhou como uma sonâmbula até o banheiro e criou coragem para dar um banho de água fria no rosto.
Isso havia sido o suficiente para que se desse conta de quantas horas faziam naquele momento, era a hora do almoço e pelo que aos poucos se recordava, já deveria estar na casa de uma de suas amigas. Quase entrou em desespero pelo atraso e começou a correr de um lado para o outro tentando decidir-se que roupa usaria, que sempre era um dilema. Antes que pudesse terminar de se trocar, teve de atender o celular que desde cedo um mesmo número conhecido ligava.
— Sim? Sim, sou amiga dela. Com quem eu falo? Mas...Na Itália? "É, ela tem bom gosto!" — pensou Marianne surpresa. — Espionar? Quem? Você vai dizer seu nome ou não? É, ela desligou!
Caramba, e agora? Como vou fazer pra falar com a Lou se a moça da voz fanha está com o celular dela?
Marianne se jogou na cama olhando para o teto tentando pensar em algo, mas dificilmente conseguia, nunca foi uma mulher muito inteligente e esperta nesses casos. Pensou em James, mas não imaginava em quê ele poderia ajudar. Não custa nada tentar! A jovem se levantou rapidamente da cama e seguiu para o estacionamento, enquanto no caminho ligava para as outras amigas avisando que não iria almoçar com elas.
— Alô? James, onde você está? Podemos almoçar juntos hoje? Sim? Ótimo, chego aí em cinco minutos. — Marianne estava tão distraída que ao sentar-se no banco do motorista, bateu a cabeça na porta. — Aw! Vamos garotão, preciso de você! — dizia ao carro que precisava ser aposentado urgentemente.
Dirigiu pela Broadway como qualquer nova-iorquino dirige, buzinando e resmungando com a cabeça pra fora da janela, berrando como se aquilo fizesse o trânsito clichê de Nova Iorque andar mais depressa. Desnecessário. Em dias de trabalho, ninguém tinha prazer de chegar ao trabalho animado, nem mesmo para receber o salário do mês. Esse era o principal motivo para que o trânsito se tornasse uma lesma a cada dia que passava. Marianne aproveitou que a fila de veículos praticamente não se mexia e ligou para James, avisando que demoraria um pouco mais.
Insistiu em ligar o rádio do carro que estava quebrado, que na base de um soco milagrosamente voltou a funcionar, mas uma só frequência apenas. Vamos ver se isso ajuda a passar o tédio. No rádio tocava os clássicos do country do Tennessee, o que ela adorava. Música country sempre a lembrava das festas caipiras em que estava presente, com um chapéu de cowboy quase seminua e uma garrafa de cerveja na mão, o tempo todo gritando "Irrá", ou seja, bêbada.
Francamente, ela nunca precisou beber para ficar ou parecer uma mulher doida bêbada, a própria já havia desenvolvido essas atitudes desengonçadas e idiotas, sempre foi da sua natureza ser assim, fazendo com que perdesse o valor de si mesma. Mas precisava mudar e tinha vontade, só faltava entusiasmo e claro, sua melhor amiga Louise, que agora estava na Itália. Ficou tão pensativa que nem havia percebido que havia chegado ao restaurante onde notou James, esperando por ela na entrada. Saiu do carro e teve de bater a porta umas três vezes até que ela se fechasse, obviamente chamando a atenção das pessoas que passavam por perto.
— Que bom que o carro de vocês não tem esse problema né?! — falou sorrindo, pra disfarçar o fato de que estava irritada, enquanto olhava para James rindo. — Desculpe a demora...
— Tudo bem, vamos?! — o rapaz indicou com a mão para a porta, permitindo que ela entrasse primeiro. — Então, qual o intuito deste encontro?! — perguntou curioso, enquanto com o dedo apontado no cardápio, fazia o pedido das bebidas ao garçom. — Desculpe a pergunta inútil, mas é que não estou acostumado.
— Louise. — ela se ajeitou na cadeira, deixando a bolsa em outra.
— O que tem ela? — ele perguntou franzindo a testa.
— Está na Itália!
— Jura? Caramba, ela fez uma boa escolha! Mas como sabe disso? — ele cruzou os braços.
— É nesse ponto que eu quero chegar. Uma garota com uma voz fanha e esquisita me ligou dizendo que a Lou estava roubando o namorado dela e que estava lá para espionar a Vogue Italiana! — Marianne começou a rir em seguida, por não conseguir acreditar no que havia escutado. — Detalhe: ela pegou o celular da Lou e ligou pra mim faz meia hora.
— Mas o quê? Como assim? — James se ajeitou na cadeira e apoiou os cotovelos sob a mesa. — Então deve ser por isso que a "Lou" não atendia o celular quando tentei falar com ela, a garota ainda deve estar com o celular dela! — ele deu ênfase no "Lou" fazendo aspas com os dedos. — Mas ela disse mais alguma coisa a ponto de fazer você vir até mim?!
— Ela disse que se a Louise não for embora de lá, ela vai denunciá-la para a Vogue Italiana – o que eu sinceramente não duvido – pedindo para que ela vá embora á força pela Vogue daqui de Nova Iorque! — Marianne arregalou os olhos para James, arqueando as sobrancelhas. — Mas se pararmos pra pensar, uma coisa não tem nada haver com a outra. Ela está equivocada!
— Essa garota é doida. Louise nunca trabalhou pra Vogue. — James quase ficou branco, pois se isso realmente acontecesse, obviamente ele estaria no meio e com certeza muito encrencado. — Mas o que vamos fazer? — a cabeça do rapaz estava prestes a explodir de tanto pensar.
— O que será que a Lou aprontou... — Marianne perguntava a si mesma tentando imaginar.
— Não acho que ela tenha aprontado nada, pelo tipo de ameaça da garota, deve ser mentira, talvez uma ex querendo se vingar. Mas de qualquer forma, temos que avisar Louise sobre isso. Mas, como? — James se relaxou na cadeira, inclinando a cabeça um pouco para trás.
— Eu - não - sei! — Marianne disse pausadamente, quase entrando em desespero, encarando-o nos olhos.
— Bem, se quiséssemos ir para a Itália, deveríamos saber onde exatamente ela está, o que não será muito fácil de descobrir, creio eu. — disse o rapaz, enquanto agradecia o garçom, que acabara de chegar com os pedidos.
— Podemos tentar pelo número do celular, quem sabe na central eles não têm a localização da ligação?! — ela sorriu e pegou algumas batatas fritas.
— É uma boa ideia! Podemos tentar. Tirarei esta tarde de folga hoje, podemos tentar resolver isto. — ele sorriu.
A sugestão de Marianne era realmente boa, agora só lhes faltavam sorte para conseguir tal localização o mais rápido possível. Manchar o nome da Vogue por causa de uma ex-namorada insatisfeita com o término do relacionamento era pura bobagem, mas ainda assim era um problemão, na verdade, um problemão para James, Louise e toda a diretoria do New York Times! Era verdade que em parte, Louise havia sido um pouco irresponsável talvez, por de fato, ter abandonado seu cargo, mas isso jamais deveria ser motivo para tanta infantilidade. E enquanto isso na Itália, Melinda se divertia com as piadinhas e ameaças que fazia ás outras editoras em que Louise trabalhava ou era funcionária voluntária nos finais de semana, e Louise ainda nem se dava conta de que alguém havia pego o seu celular.
— Com licença, os senhores vão querer sobremesa?! — o garçom voltou á mesa dos dois sorridente, e entregando á eles o cardápio das sobremesas.
— Esse bolo de sorvete para ser maravilhoso! — disse Marianne sorrindo, olhando para James por cima do papel.
— Um bolo de sorvete médio, então, por favor! — James sorriu e ambos devolveram o cardápio o rapaz.
— Sinto falta da Lou, das nossas conversas, ela sempre foi uma ótima conselheira! — Marianne apoiou o queixo nas mãos, com os cotovelos apoiados na mesa.
— É, Lou é uma ótima psicóloga! — James sorriu e dois garçons se aproximaram. — Obrigado!
— Hum! Vamos fazer o seguinte, você pega essa parte... — dizia Marianne cortando um terço do bolo e entregando para o amigo. — ...e eu fico com o resto!
— Hahaha, muito engraçadinha! Você continua gulosa como sempre! — ele riu, enquanto pegava uma colher.
Os amigos degustaram juntos da sobremesa até Marianne passar a colher nos pratos para acabar com toda a cobertura de caramelo que ainda restava. Ela nem ligava para o fato de que o barulho chato da colher na vasilha estivera incomodando os demais. Depois que James a convenceu á ir embora, seguiram em direção ao apartamento de Marianne, onde dali talvez descobririam de onde vinha aquela ligação. Só depois de várias tentativas – quase vinte para ser mais exato – conseguiram falar com uma das atendentes. Por sorte, era uma moça paciente e educada, coisa rara em departamentos de telemarketing.
Depois de responderem algumas perguntas, Marianne deu o seu número e o de Louise para que a jovem pudesse verificar na rede e assim, quem sabe, descobrir de onde aquela ligação havia sido feita. Não foi um trabalho difícil, mas demorado, por conta dos países envolvidos que eram muito distantes um do outro. A demora foi tanta, que a ligação caiu e a jovem retornou prometendo que ligaria de volta quando conseguisse alguma informação. Este não era um caso policial como mostravam os filmes e seriados, ainda que muita coisa fosse "viagem", vulgo "exagero" nas ações, mas era interessante e Marianne sentia-se uma detetive. Infelizmente demorou mais do que esperavam, mas quase duas horas depois, a jovem retornou, dizendo que Louise estaria em Veneza, ou a cidade das "gôndolas românticas" como Marianne gostava de chamar.
— Vai ser meio complicado tentar falar com ela, Jay. Não sabemos exatamente onde ela está, quero dizer, em qual hotel. — Marianne se jogou no sofá com os braços abertos.
— Talvez tenhamos que ir até lá, mas também não posso fazer como Louise. Precisaria esperar chegar algum feriado ou um período de folga mais longo. — James estava tenso, mas pensativo.
— A questão é: quanto tempo nós temos. Não temos nada haver com isso, mas, estamos numa enrascada! — Marianne riu irônica para não chorar. Fazer planos para uma situação como esta, nunca foi seu forte.
— Droga! — James resmungou ao ver o celular vibrar e o nome de Jeremy no visor do celular. — A garota contou para Jeremy onde Louise está!
— O quê? É ele?! — perguntou ela surpresa. — A coisa está piorando! Vai atender?
— Não sei, se ele está ligando é pra ter certeza de que Louise está realmente na Itália. — dizia ele olhando para o celular que parou de vibrar.
— Vamos ter que deixá-lo Jay, vamos fazer a nossa parte e tentar ajudar a Lou daqui mesmo. Estarei torcendo para que Jeremy não vá ou pelo menos para que não consiga piorar as coisas ainda mais. — A verdade era que ela não sabia muito bem o que estava dizendo.
A expressão esquelética do rosto de James estava mais tensa do que já era. E suas olheiras só pioravam a imagem de um cara sozinho e sinistro. Por mais que já soubesse que Louise realmente estivesse envolvida com o namorado, ou melhor, ex-namorado da garota da voz fanha, ainda estava apaixonado por ela, e não seria nada fácil aceitar isso. Talvez futuramente teria de passar por experiências mais duras, só assim talvez abriria os olhos para a realidade: que Louise jamais seria sua. Esforçou-se ao máximo para esquecer das vezes em que tentou conquistar a melhor amiga, e da última conversa que tiveram, tal qual teve a certeza de que Louise sempre estaria com outro cara. Ele fechou os olhos e suspirou profundamente afim de tentar esquecer de tudo de uma só vez. Sabia que seria inútil, mas precisava começar a exercitar essa tarefa.
Após uma tarde quente, o início da noite estava começando a esfriar. Motivo suficiente para que James se oferecesse para preparar panquecas e uma variedade de caldas. Não estava tão tarde, então decidiram pedir pizza um pouco mais tarde. Como de costume, os dois fizeram uma obra de arte na cozinha, não por não saberem cozinhar, mas de propósito, porque sempre amaram uma bagunça. A parte ruim dessa "festa" era que depois da bagunça ninguém estava disposto a limpar tudo, sempre ficava para o outro dia e a preguiça era cada vez maior.
— Se Louise estivesse aqui com certeza limparia tudo e sozinha! — Marianne disse num resmungo, já morrendo de sono depois de perder a conta de quantas panquecas e pedaços de pizza havia comido.
— Aham... — James já estava entrando em seu primeiro sono, todo largado no sofá.
E como estava previsto, aconteceu. O apartamento ficou uma bagunça, mas muito pior do que das outras vezes quando Louise estava presente. Marianne e James dormiram no meio da sala amontoados um no outro, com um sono tão pesado, que nem se importavam com o barulho da festa que estava acontecendo na vizinhança, e muito menos com os roncos de Marianne.
Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top