Capítulo 37

Memphis, TN — 11h


"O quê eles estão fazendo?

Espera, aquilo foi uma piscadela?!"

Dizia Louise em pensamento, enquanto mantinha os olhos fixados em ambos. "Meu pai está paquerando a dona Martha!" Exclamava para si mesmo em pensamento e com sorriso enorme nos lábios. "Não acredito!" ela quase ficou de boca aberta, realmente não conseguindo acreditar que depois de anos, seu pai estaria gostando de uma pessoa novamente. Se deixasse, Robert e Martha ficariam ali até que houvesse um sinal natural de seus organismos, como por exemplo, a fome, para interrompê-los. Mas Robert ainda estava nas nuvens. Daí, Louise teve uma ideia engraçada.

— Com licença... — ela aproximou-se de uma prateleira onde havia algumas velas. — Pronto, agora está mais romântico. — disse, segurando a vela na altura dos ombros.

— O que... Louise o que está fazendo com essa vela erguida?! — perguntou o pai.

— "Segurando vela" ué. — retrucou, dando ênfase no segurando vela.

— O que... — Robert fixou os olhos na filha, esforçando-se para entender. Aí dona Martha riu. — Louise! — exclamou ele, corado de vergonha.

— Ai pai... — ela colocou a vela de volta na prateleira e saiu andando até a porta, escorando-se nela e olhando para os dois, que ainda flertavam, mesmo envergonhados.

— Que foi?! — questionou, quando viu Louise rir mostrando os dentes. — Isso não tem graça! Ok? Não tem graça nenhuma... — dizia apontando o dedo indicador para ela, e caminhando em sua direção.

— Tchau dona Martha! — despediu Louise — Qualquer dia desses vá nos visitar na fazenda! Irei fazer um jantar bem gostoso pra vocês! Comida Italiana! — gritou ela, antes que seu pai tapasse sua boca e quando ele conseguiu, Louise começou a ter uma crise de risos.

— Está de castigo, mocinha! — brincou ele, tentando ficar sério.

— Tá bom... — ironizou ela. — Mas vem cá, e aquela piscadela? Que foi aquilo?! — implicou ela.

— Pára! — sussurrava ele, com as sobrancelhas erguidas, com um sorriso sem graça e um olhar severo.

— Isso foi muito fofo! Aiai... — brincou ela. — Vamos almoçar, estou com fome. — resmungou.

— Quando você não está com fome?! — questionou ele.

— Você sabe, nunca. — respondeu ela, sorrindo com os dentes que nem fazia quando criança.

No início, Louise pensou que, passar uma semana ali na fazenda com seu pai, poderia ser desgastante, dramático e triste. Por muitos anos Robert sofreu com a morte de Susan. Teve insônia, pesadelos que agora mostravam que as águas também queriam levar suas duas filhas. Por muito tempo ficou só trancado no quarto ou preso em casa. Saía apenas para fazer as compras mensais e depois disso, ninguém não o via mais. As pessoas que moravam ali nas redondezas até começaram a suspeitá-lo, achando que estaria envolvido com drogas, bebidas, tráfico, ou qualquer coisa ruim que pudesse lhes causar dano. Mas por sorte, Robert tinha um amigo que sempre viveu ali. Joseph Gillian, mais conhecido como Joe, vinha de uma família rígida alemã. Pagou um alto preço, assim como Robert, quando contrariou a família dizendo que se mudaria para a Califórnia, estudar Direito. E foi lá, que ele e Robert se conheceram e durante os anos da faculdade, dividiram um apartamento.

Estar ali com seu pai estava deixando Louise mais jovem, mais determinada, mais esperta e menos dramática, muito menos. Uma nova Louise estava se formando ali na fazenda dos Kennedy's e o responsável por isso era o homem mais experiente que ela poderia conhecer seu próprio pai. Louise estava começando a considerar isso como uma terapia básica e rápida. Tudo o que precisava depois daquela louca viagem à Itália, era de um tempo sozinha, numa Fazenda como a do seu pai e acompanhada dele, que sempre foi seu melhor amigo. Precisava estar um pouco rodeada por pessoas simples, por ambientes agradáveis, por um aroma diferente daquele cheiro horrível do catalisador, das fumaças, dos milhões de bueiros esparramados pelas ruas de NY. Precisa exalar o ar que chamava de o Ar da Renovação. Talvez isso não fosse nada espiritual, apenas um desejo de paz interior.

No Egito, Lena ainda cumpria pena por algo que nunca cometeu. Já se faziam cinco anos. Cinco anos dormindo numa cela mal iluminada, fria, cheia de mulheres "grandes", das quais se houvesse qualquer olhadela no rumo delas, ela poderia contar os minutos para a morte. De alguma forma, estar passando por essa situação, ainda que injustamente, estava fazendo com que Lena valorizasse mais a família que tinha. Todas as noites, pensava em como havia sido má com Louise por muitos anos. E também com seu pai, muitas vezes também o culpando pela morte da mãe. Muitas das mulheres que dividiam a cela com ela, eram mulheres amarguradas, que nunca tiveram infância ou uma família. E francamente, Lena não estava nem um pouco interessada em "se acabar" como elas. Mas ainda pensava que esse arrependimento tivesse chegado na hora errada. Pensava que era tarde demais para pedir perdão e voltar para os braços do pai e da irmã caçula, que nunca teve culpa de nada do que aconteceu no passado. O pessimismo aumentava a cada dia, enquanto a fé de que um dia teria a liberdade mais do que merecida, só diminuía.

Louise havia acabado de desligar o celular, do qual conversava com Marianne. No início, não foi nada fácil processar tudo o que ela havia ouvido, por mais que Marianne repetisse ou falasse bem devagar, tudo aquilo era verdade. Mas, Louise não precisava se preocupar tanto, não até que Antonio descobrisse a verdade sobre essa "gravidez". Francamente, aquela "notícia" havia abalado-a um pouco, mas depois do susto, passou a pensar como Marianne, que aquilo era só mais uma armação de Melinda. Esse fato havia mexido muito com Louise, ainda que uma parte de si mesma, acreditava que era mentira. "Mas e se fosse verdade?!" Pensava ela. Por um segundo, Louise quase deixou que essa armação – que ainda não sabia se era verdade ou mentira – quebrasse todo o sentimento que tinha por Antonio.

— Quem era? — questionou Robert, observando a filha voltar para a mesa do restaurante em que iriam almoçar.

— Marianne. — respondeu num tom duvidoso.

— Lewis? Sua amiga de infância? — perguntou surpreso, mas atencioso à expressão facial dela. Louise fez que sim com a cabeça e deu um sorriso com os lábios. — Você vai me dizer o que aconteceu? — questionou de um jeito convidativo.

— É complicado pai, não quero falar sobre isso agora, talvez mais tarde, quando estivermos em casa... — ela suspirou.

— Tudo bem. Mas eu quero saber. Irei cobrar! — respondeu. — Não gosto de vê-la assim. — disse encarando-a.

— Tudo bem, pai. — ela sorriu. — Eu já pretendia lhe contar sobre o Antonio... — adiantou ela.

— Antonio?! — Robert franziu o cenho.

— Contarei depois. Vamos comer! — ela riu.

— Certo. — respondeu sério.

— Ah! Vai virar o carrancudo de dez anos atrás, de novo?! — Louise riu.

— Não gosto da ideia que você está passando desse rapaz. Ele te fez algum mal?

— Não pai! Não tem muito a ver com ele. Podemos conversar sobre isso depois? Por favor?! — pediu ela, erguendo as sobrancelhas e esperando que ele pudesse compreendê-la.

— Ok. Desculpe... — ele sorriu carinhosamente e depois foi fazer o seu prato e o de Louise.

— O Sr. sabe... O de sempre! — exclamou ela para o pai, enquanto ele caminhava rumo aos pratos.

Tudo havia corrido bem, até o momento em que um motorista bêbado havia sido imprudente e batido na traseira da camionete de Robert, enquanto ele e Louise voltavam para a Fazenda. A traseira estava intacta, afinal, uma Dodge Ram não se amassa tão facilmente, mas o carro do rapaz estava um pouco amassado. Ainda teve coragem de reclamar para o policial que estava à paisana no momento do acidente. Berrou alguns palavrões, mas Robert ignorou, atitude que deixou a filha surpresa, que por muitos anos viu o pai se meter em brigas em que não deveria estar. Ele certificou de que Louise estava bem, resolveu a sua situação com o policial e depois foi liberado, ambos voltaram juntos para a Fazenda.

Quando chegaram em casa, Louise foi a primeira a entrar. Deixou a bolsa pendurada numa cadeira que ficava na sala e depois se jogou no sofá, morrendo de sono, como quase sempre acontecia depois que almoçava. Robert entrou depois, carregando algumas sacolas até a cozinha, para guardar o que haviam comprado. Pegou as guloseimas e colocou todas num pote médio de vidro transparente e voltou para a sala, com ele em mãos, encarando a filha jogada de mau jeito no sofá.

— Que foi?! — questionou Louise, após perceber que estava sendo encarada. — Me dá um... — ela se levantou estendendo a mão pedindo alguns doces.

— Só se você me contar sobre esse tal de Antonio... — retrucou ele, segurando o pote mais próximo do peito. Louise revirou os olhos por brincadeira, como uma criança.

— Ok, sente-se aqui... — disse ela, batendo com a palma da mão no assento do sofá de três lugares. Quando ele sentou-se, ela encheu uma das mãos de balas e jujubas.

— Pronto. — ele se ajeitou no sofá. — Onde o conheceu? — brincou ele, indo direto ao assunto. Louise riu lembrando-se de quando era adolescente.

— Bem, antes de contar como eu o conheci, tem uma pequena história. — ela fez uma pausa, colocando uma jujuba na boca. — Desde que me formei, eu trabalho no New York Times... Não sei se o senhor sabia disso, enfim... — Robert ergueu as sobrancelhas, surpreso, pois não sabia disso. — O trabalho lá é muito puxado e cansativo, apesar de amar escrever. Pra piorar minha situação, um ex-namorado me obrigou a terminar com ele e isso não foi... Quero dizer, não está sendo fácil. — ela suspirou. Robert ficou sério. — Então, num belo dia, tive uma brilhante ideia, porém, nem um pouco responsável da minha parte, eu posso dizer. — ela entortou a boca, olhou para os lados e deu um risinho sem graça.

— O que foi que você aprontou?! — questionou ele, sorrindo de forma amigável com os lábios.

— Bem... — pigarreou com aquela expressão de quem estava prestes a ser repreendido. — Eu resolvi tirar umas "férias" por conta própria... — ela fez uma pausa mordendo os lábios —... Ou seja, sem avisar o "chefão". — Louise deu uma risadinha. — Quer dizer, o James meio que avisou pra mim... — ela apertou os olhos.

— Bem, isso não foi muito legal de se fazer, porque afinal, muitas mulheres se matariam para ter o emprego que você tem e poderia perder por isso... — ele fez uma pausa, colocando duas jujubas na boca e mastigou por alguns segundos. —... Mas por um lado, isso foi bom. Às vezes precisamos ser um pouco ousados se quisermos sair da rotina... Mas nesse caso, você teve sorte?!

— Sim, mesmo sendo rebaixada de cargo e ganhando menos... — ela sorriu satisfeita. — Mas francamente? Estou cansando desse emprego... Talvez eu seja só professora de Dança.

— Bem, se isso é o que te traz mais conforto, faça. — Robert abriu um sorriso e olhou para a filha de um jeito carinhoso. Ela retribuiu com um sorriso maior. — Então...? — arquejou.

— Então, viajei para a Itália! — exclamou ela. — Lá é lindo pai, você iria adorar! Principalmente o povo de lá. São muito receptivos, alegres, hospitaleiros... pelo menos a maioria. E os anos 70 ainda vive por lá! — brincou ela, se lembrando de quando visitou Veneza e viu ciclistas pelas ruas, e principalmente quando conheceu Antonio, um homem romântico que jamais havia conhecido na vida.

— Presumo então, que tenha conhecido Antonio lá.

— Exatamente. E sabe o que ele fez no primeiro dia? Me apelidou de "repórter dos pés calejados"! — exclamou, fingindo estar indignada. Robert riu e passou a encará-la de um modo diferente. — Que foi?! — estranhou ela.

— Você o ama, não é? — perguntou ele, sorrindo. Louise hesitou, e por um pouco de vergonha, sentia-se como uma adolescente novamente.

— Por quê? C-como sabe disso?! — perguntou ela, mais tímida do que já era.

— Bem, o seu modo de falar, seu comportamento, o sorriso que abriu quando falou do apelido que ganhou do rapaz... — Louise corou.

— Ele é diferente, entende? — ela respondeu, e Robert enxergou isso muito bem no olhar dela.

— Então, qual é o problema?! — questionou ele. Aí Louise fechou um pouco a cara.

Demorou um pouco para ela conseguir começar a falar sobre "a parte ruim" da viagem. Contou sobre a ex-namorada de Antonio, lembrou de como a família de Antonio era unida e muito carinhosa, contou sobre o que Melinda havia feito para afastá-la de Antonio e por fim, sobre o suposto golpe da barriga. Não foi algo difícil de contar, porque dessa vez, estava usando a cabeça, ao invés do coração para compreender e planejar as resoluções dos problemas. No final das contas, Robert também duvidava dessa gravidez. Ele sabia muito bem que Louise não inventaria algo como a "gravidez" da ex-namorada do homem que agora amava. Definitivamente, encontrar seu pai nesse momento conturbado de sua vida havia sido perfeito. Pela primeira vez, pensava que havia feito a coisa certa e na hora certa.

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