Capítulo 35

Nova Iorque, NY — Sábado


Louise ainda estava esparramada na cama, meio dormindo e meio acordada, com os olhos semicerrados. A cama estava cheia de lenços de papel, havia também uma garrafa de vinho cheia no chão, ao lado da cama e uma taça preenchida até a metade de vinho no criado mudo. Sempre que abria os olhos totalmente, olhando diretamente para a janela, via a imagem de Antonio abrindo as cortinas e depois indo se deitar com ela, para acordá-la com aquele jeitinho que ela adorava. Quase todas as noites eram assim. Livros de Shakespeare e uma garrafa de vinho ao lado da cama e nada mais. Esses eram os remédios para tentar se curar do seu próprio "remédio".

Estava se torturando de novo, e de novo. Tentava imaginar como Antonio estava na Itália, tanto no sentido emocional como profissional. Gostaria de acompanhar cada passo dele, em todos os lugares em que fosse, conhecer as pessoas que o rodeiam, mas isso era de fato impossível. E sinceramente, todos nós sabemos que ela não aguentaria né? Provavelmente estaria preparada para receber uma notícia desagradável como aquela que em breve receberia, mas não agora, não nesse momento, nessa crise emocional de alguém que se sentia num conto de fadas, e que depois simplesmente teve seu amor levado embora pelo destino e pela encrenca que Melinda lhe meteu.

Mas estava incrivelmente disposta a fazer o que há semanas havia planejado. Viajar para o Tennessee para reencontrar o pai, na tentativa de se reaproximar após quase dez anos afastados. Depois de muito custo, conseguiu convencer Thomas a lhe dar uma folga de uma semana. "Uma semana e nada mais!" Dizia ele, apontando com o dedo indicador. Então, ela colocou o telefone de volta ao gancho com um sorriso de satisfação. Fez uma pequena mala, que daria para uma semana e procurou saber qual seria o próximo vôo para o Tennessee. Louise decidiu por pegar o vôo do meio-dia e ajeitou-se rapidamente, para antes de ir para o Aeroporto, passar no apartamento de Marianne e explicou tudo, dizendo que ficaria fora por uma semana. Marianne ficou surpresa, porém feliz e desejou boa sorte.

No Aeroporto de NY, Louise caminhava pelo saguão carregando a mala numa das mãos, enquanto na outra, segurava as passagens e o celular com dificuldade. Por um momento, se lembrou de quando viajou sem compromisso para a Itália e, bem... quando conheceu Antonio. Ela parou, suspirou profundamente com os olhos fechados e virou-se para a fila de Embarque, se colocando na fila dando mais alguns passos. O relógio digital dependurado acima da sua cabeça, mais à sua frente, marcava onze e meia da manhã. Olhar para aquele relógio foi torturador, principalmente com aquele pensamento de que daria tempo de comprar um último lanche, mas agora, teria de contentar-se com os serviços da companhia de aviação.

— Espero que isso valha à pena... — disse para si mesma, enquanto acariciava uma foto sua com seu pai e depois, já dentro do avião, adormeceu.

No apartamento de Marianne, quem dormia largado na cama era James. A ressaca do dia anterior era tão grande que não havia conseguido se levantar da cama nem para ir ao banheiro, então despediu-se de Louise ali mesmo, quase que inconsciente do que estava fazendo. Aí, quando o avião de Louise decolou, o celular de James tocou, mas Marianne atendeu.

— Alô, James?! — perguntou uma voz conhecida do outro lado da linha.

— Não, é a Marianne. Quem é? — perguntou ela, afastando-se da cama onde James ainda dormia.

— É Antonio... — respondeu a outra voz. — Você tem notícias da Louise? Tentei ligar pra ela, mas está sempre fora do ar ou diz que o celular está desligado...

— Ah, oi Antonio! Bem, a Louise viajou. Foi passar um tempo na fazenda do pai. Tentar se reaproximar dele e tudo mais... — disse Marianne. Aí James acordou e ela sussurrou que era Antonio ao telefone. — Precisa de alguma coisa?!

— Eu precisava conversar com ela. — Antonio fez uma pausa e suspirou. — É algo sério, e-e um pouco de difícil de dizer... — gaguejou.

— Bem... Eu posso tentar conseguir o número do pai dela para que você ligue... — disse Marianne tentando ajudar. Antonio suspirou de novo e Marianne ouviu.

— Ahhh não, eu confio em você. Isso já está me deixando confuso, está entalado aqui dentro... — Antonio mordeu o lábio inferior e esperou que Marianne respondesse algo.

— Bem, então, me fale! — prosseguiu ela, dessa vez mais preocupada do que curiosa. — Vou tentar te ajudar... Vamos direto ao ponto, qual é o seu problema?

— Melinda. — respondeu ele.

— Certo. Melinda é...? — questionou ela, não lembrando muito bem de alguém com esse nome.

— Minha ex-namorada. — disse Antonio, num tom desanimado e seco.

— Ah sim, lembro dela. E qual é o problema central? — perguntou ela, novamente.

— Ela está grávida. — quando Antonio respondeu, sentiu um pouco de peso cair das suas costas.

— O QUÊ? Isso é realmente um problema. — exclamou ela, surpresa. — Caramba! — exclamou de novo.

— Eu não sei como dizer isso à Louise, Marianne... — disse ele, com a voz quase sumindo.

— Mas você acredita nela? Na Melinda? Acredita mesmo que esteja grávida de você?! — Questionou. Marianne estava achando essa história muito estranha. Houve um silêncio.

— Pra falar a verdade, eu não parei para pensar nisso... — respondeu ele, coçando a nuca.

— Exija um exame que comprove primeiro a gravidez. Porque sinceramente, acho que ela está querendo dar um golpe em você. — ela fez uma pausa. — Se ela conseguir forjar o exame, só nos resta o exame que comprove que você é o pai da criança. — continuou ela. Aí os olhos de Antonio se abriram. — Tony? — perguntou ela, achando que a ligação tinha caído.

— Estou aqui, me sentindo um idiota... — resmungou.

— Você não é idiota. Qualquer homem que recebe uma notícia inesperada como essa ficaria meio perdido. Mas acontece que, isso vir da sua ex, é difícil de acreditar. Digo por que uma vez ela me ligou falando um monte pra mim, da Louise. Ela é doida! — relembrou Marianne.

— Irei providenciar os exames sem que Melinda saiba, assim ela terá menos chances de tentar forjar alguma coisa... Mas de qualquer forma, quero que conte isso à Louise, sendo verdade ou não. Você saberá como dizer.

— Certo. Darei um jeito. Mas já deixo avisado, se você ama mesmo a Louise, faça isso por ela, porque quando eu conversar sobre isso com ela, pode ter certeza de que ela vai desmoronar, mais do que já está! — recomendou Marianne.

— Farei o impossível que estiver ao meu alcance. Diga à ela que eu prometo, prometo que irei resolver isso! — exclamou, disposto a lutar um futuro com Louise pro resto da vida. — Agora preciso ir, depois nos falamos! Abraços. — e então, ele desligou.

Depois que Marianne desligou e devolveu o celular a James, ele por sua vez, ficou parado de braços cruzados, esperando que ela lhe contasse o que estava acontecendo. Ela contou, fazendo um breve resumo, deixando-o a par da situação e depois arrumaram a baderna do quarto juntos, pensativos. Em um dado momento, ambos pensaram juntos na mesma coisa: Essa Melinda combina direitinho com o Jeremy! E era verdade. Eram dois loucos e obsessivos, eles mais do que se mereciam.

— O que vamos comer? — perguntou Marianne à James, num tom sugestivo.

— Pizza. — respondeu James rindo baixinho.

— Ah não! Pizza não! Eu não aguento mais, James! Você não enjoa não?! — resmungou ela, juntando alguns sapatos e guardando-os no lugar.

— Ué, você disse que era apaixonada em pizza... — disse ele.

— Amo pizza, mas não no café, no almoço, no lanche e na janta né? Não sei como você não engorda! — retrucou ela, enquanto James, ficava rindo.

— Então, o que sugere?! — perguntou ele, num tom debochado e ainda rindo.

— Saladas, coisas leves e mais saudáveis! — retrucou ela, no mesmo tom — Que tal Sushi?

— Pode ser.

— "Pode ser"! — implicou ela, imitando-o. — Se quiser comer pizza, coma. Mas bem longe de mim, já estou enjoada do cheiro da mussarela, do molho... Argh! — resmungou ela, arrepiando-se.

— Irei comer uma média inteira e depois te encher de beijos! — implicou James. Aí começou a guerra de quem fazia as piores caretas e depois a cartada final, o beijo que Marianne sempre cedia.


Memphis, Tennessee — Sábado

O atraso do vôo de Louise foi mais demorado do que esperava, mas havia chegado bem. Estava tão feliz por isso, que se esqueceu do susto das turbulências e do cansaço de ter de ficar esperando o avião decolar. Do Aeroporto, pegou um táxi que a levaria para a Fazenda do pai, que não era muito distante da cidade e era bastante conhecida. Não sabia o que dizer, quando encontrasse o pai, parado, intacto, encarando-a com os olhos marejados, como um pai chora pela volta do filho pródigo, porque ela sabia que ele sempre agia assim, quando reencontrava alguém especial.

O avião de Louise havia aterrissado às duas e meia da tarde e o taxista levou mais meia hora para levá-la até a Fazenda. Quando chegaram, Robert estava fazendo uma limpeza geral num velho galpão que ficava do lado direito do Casarão. O motorista saiu do carro para retirar as malas do porta-malas, enquanto Louise ficou no banco de trás do carro, tentando manter-se calma, respirando pausadamente e tentando pensar em algo que pudesse dizer ao pai, mas não conseguiu. Quis deixar que tudo acontecesse naturalmente. Então, Robert pôs no chão, alguns blocos pequenos de fenos, para dar atenção a visita que estava recebendo e que também não esperava. Aí seus olhos brilharam e seu coração amoleceu, ganhou vida e um pulsar mais forte, que ele há tempos não sentia.

— Louise?! — sussurrou ele, com os olhos cheios d'água. Ela não disse nada, apenas sorriu com os lábios, deixando as malas para trás, caminhando até o pai. — Louise, minha pequena, quanto tempo! Quanto tempo! Que saudades! — exclamou ele, abraçando-a bem forte por quase dois minutos.

— Muitas saudades, pai! Muitas! — sussurrou ela, no ouvido do pai, segurando o choro. — Senti muito a sua falta... — ela o encarou nos olhos e deixou uma lágrima escapar.

— O que te trás aqui, depois de tantos anos?! — questionou ele, curioso e ainda surpreso.

— Precisava de um tempo, aconteceram muitas coisas esse ano... — ela soltou um suspiro. — Precisava do senhor, do seu abraço, dos seus conselhos, embora seja um pouco tarde para pedir isso... — Louise deitou a cabeça no ombro do pai, ele maneou a cabeça negativamente.

— Nunca é tarde para pedir conselhos, querida! — sussurrou. Depois se soltaram do abraço e Robert foi buscar as duas malas pequenas de Louise para levar para dentro do casarão. — Vamos entrar, está frio! — ele pegou as malas e caminharam juntos para a Varanda. — A porta está meio velha, range sempre que a abrimos, mas prometo que vou consertar! — ele sorriu.

— Esse é o mesmo casarão? — perguntou Louise, rodopiando, olhando ao redor a decoração rústica que lembrava sua mãe.

— Sim, dei uma reformada em algumas partes, pintei de azul há uns meses atrás, mas como pode ver... — ele fez uma pausa colocando as malas num canto —... A tintura está branca agora!

— Mas está bom assim! Eu gosto desse toque descascado! — ela sorriu com os lábios, e Robert enxergou Louise quando ela tinha seis anos de idade, naquele olhar doce que percorria a sala.

— Quase que eu consigo ouvir a voz da sua mãe dizendo: "Você sempre do contra, que nem seu pai!" — Robert riu, agora mostrando aquele mesmo sorriso de dentes perfeitos.

— É verdade! Ela não gostava de ver nada mal feito ou estragado! — relembrou.

Esse parecia ser um momento quase único. Robert nunca esperou que uma de suas filhas um dia fosse lhe visitar. Mas se fosse para pensar nisso, a única que ele teria certeza de que visitaria sempre, era Louise. Nunca teve nada contra a filha mais velha, Lena, mas quando Louise tinha 10 anos, ele já havia notado que Lena começou a ficar com ciúmes da caçula com os pais. E desde então, para Lena, Louise é a culpada pela morte da mãe naquele acidente no Cruzeiro Marítimo em que estavam de passeio, há uns 15 anos atrás.

A noite caiu e o céu ainda estava claro. Robert levou Louise até uma feira para que pudessem comprar alguns legumes e verduras, para fazerem aquela sopa que só Susan e Robert, sabiam fazer. Passaram por algumas barraquinhas de doces, onde Robert comprou alguns potes das geléias preferidas da filha. Depois, voltaram para a Fazenda e se enfurnaram na cozinha, Robert de avental e Louise debruçada sob um velho balcão que dividia parte da cozinha da sala de jantar.

Passaram quase que a noite toda sentados na mesa de jantar, conversando, relembrando momentos, contando sobre as novas fases da sua vida, e principalmente, Louise, quando viajou para a Itália e conheceu Antonio. Então, contou tudo o que aconteceu, até o momento em que chegou à Fazenda. Aí o celular de Louise vibrou. Uma mensagem de Marianne havia chegado. A mensagem dizia para que no dia seguinte, retornasse a ligação, para conversarem. Depois disso, pai e filha se juntaram para lavar a louça e depois de muitas risadas enquanto guardavam a louça limpa foram dormir.  

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