Capítulo 11

Dona Marie havia acabado de chegar da rua, quando viu Melinda sair ás pressas de sua casa. Ela não estava chorando, mas pela expressão que tinha, deveria ter visto algo desagradável. A senhora de 68 anos caminhou com dificuldade até a porta da sala e dali se deparou com Giulia, Antonio – com os pés enfaixados – e Louise sentados no chão. Só depois de se aproximar mais do corredor da casa que percebeu o que poderia ter acontecido e porque estavam no chão. Os cacos grandes ainda eram visíveis e Dona Marie logo se pôs a pegar a vassoura para recolhê-los.

— Pode deixar mãe, eu vou limpar. — disse Antonio tentando se levantar.

— Não senhor, você vai ficar no sofá! — disse Louise se levantando. Estendeu a mão para Antonio se levantar e o ajudou a sentar-se no sofá de pernas erguidas. — Pode me arrumar uma vassoura, Giulia, por favor?

— Claro. Está aqui na cozinha. — Giulia se levantou com cuidado e pegou a vassoura que a mãe havia deixado próximo á geladeira. — Aqui está! Agora irei pegar uma pá. — disse ela entregando a vassoura á Louise.

— Ei mãe, o que tem de bom nessas sacolas?! — disse Antonio se erguendo novamente para pegar as sacolas e bisbilhotá-las. — Espera, a senhora trouxe todo esse peso sozinha de novo?! — disse Antonio bravo olhando para a mãe que voltava do jardim.

— Meu filho, não sou aleijada! — disse ela rindo, sem se importar com a cara feia do filho.

— Mas pode ficar se continuar assim! Já disse que não quero a senhora carregando todo esse peso sozinha. — dizia ele num tom de reprovação.

— De qualquer forma, você não poderia me ajudar, olhe só seu estado! — disse ela rindo, como se isso fosse uma desculpa.

— Mãe! — exclamou. — Vou colocá-la de castigo! — disse ele, agora emburrado. Louise e Giulia se disparam a rir de novo. — Vocês estão rindo de quê?! — quase gritou.

Você, vai pôr sua mãe de castigo?! — disse Louise, apontando a cabeça na quina da porta do corredor, rindo.

— Ah, eu vou é comer maçãs que eu ganho mais! — disse pegando uma das maçãs mais avermelhadas, ainda com a testa franzida não se sabe se era de raiva ou má criação.

— Faça isso Tony, está precisando mesmo descansar. — disse Giulia da cozinha.

— O quê quer dizer com isso?! — gritou Antonio.

— Maçãs são um bom sonífero. — disse Louise rindo.

Giulia e Louise terminaram de recolher os cacos de vidro e com bastante cuidado embrulharam com jornais e depois jogaram na caçamba de lixo, que tinha de frente á casa. Voltaram pelo quintal, onde dona Marie estava preparando pastelões de carne moída e mussarela. Já Antonio, como comprovação da informação de Louise sobre maçãs, dormia que nem um bebê no sofá de três lugares que mal o cabia. Giulia como sempre, fazia arte na cozinha e claro que Louise e a mãe também estariam no meio, logo as três estavam lambuzadas de ovos e farinha.

Depois da farra, organizaram os pastelões numa bandeja para serem fritados, Antonio como um "farejador" humano, obviamente acordou com o cheiro da fritura, embora não fosse muito bom, mas o aroma sempre se sobressaía. Quis se levantar e ir até a cozinha para bisbilhotar, mas seus pés ainda doíam. Tornou-se a deitar a cabeça no braço do sofá e ouviu berros das garotas, que em segundos apareceram na sala, uma de frente a outra, ambas tentando se defender da arte de uma da outra.

— Que bagunça é essa?! — exclamou Antonio quase dando um pulo do sofá.

— Espera... — disse Giulia olhando para Tony com uma cara de sapeca. — Tenho uma ideia melhor!

— Vai sonhando! — disse Antonio fechando a cara.

— Seu irmão não coitado, ele está machucado, nem teria como se defender. — disse Louise rindo, com pena.

— Tá, mas da próxima ele não escapa! — Giulia e Louise voltaram para a cozinha e Antonio deu um suspiro de alívio. Depois passaram pelo corredor para o quarto, para tomarem banho.

— Ei Lou, o que minha mãe está fazendo?! — perguntou ao vê-la passando.

— Bem, como é que eu vou falar isso... — falou desajeitada e Antonio começou a rir, por estar engraçada por conta da sujeira que estava. — Zeppole. — ela tentou falar com o sotaque italiano.

— Que foi?! — Louise perguntou arquejando, envergonhada.

— Você está linda desse jeito — ele disse de um jeito apaixonado. — E você quase falou certo. Só praticar. — piscou.

— Quero só ver como você vai ficar! — ela riu e foi para o quarto de Giulia.

— É o que nós veremos! — Antonio gritou.

Enquanto Giulia se ajeitava para ir pro banho, Louise tirava o excesso de ovos e farinha que ainda estavam grudados na roupa.. Já dona Marie continuava entretida na cozinha, vigiando os pastéis para não passarem do ponto. Com passos leves e curtos, andava pra lá e pra cá, recolhendo vasilhas sujas e ainda revirando os pastéis. Até de longe o filho tentava controlar a mãe com as atividades de casa, gritando pra que ela se aquietasse, para deixar que as meninas ajeitassem tudo depois, mas dona Marie fingia que nem ouvia, dando aquelas risadinhas engraçadinhas de sempre.

Depois, a mãe apareceu na quina da porta do corredor para ver o filho que cochilava sentado, estava com os braços encolhidos e o queixo próximo ao peito, sinal de que teriam mais uma noite fria. Dona Marie aproximou-se de seu "garoto" para despertá-lo e ajudá-lo a caminhar até seu quarto, para que pudesse dormir tranquilamente e mais confortavelmente. Antonio sentiu as mãos frias e enrugadas da mãe sobre o ombro e abriu os olhos lentamente, se deparando com aquele pequeno sorriso branco e bem cuidado da mãe. Ele gostava de chamá-la de anjo.

Então, se levantou e se apoiou levemente na mãe, até chegar ao seu quarto e se jogou na cama, suspirando de alívio, como se estivesse vencido uma batalha. A mãe depositou um beijo demorado na testa do filho e o cobriu com um edredom, e saiu do quarto com seus curtos e silenciosos passos. Quando voltou para a cozinha, se deparou com Louise e Giulia atacando os pastéis. As meninas levaram um susto ao vê-la, mas dona Marie riu e se juntou ás duas, atacando a bandeja com os pequenos pastéis. Enquanto Giulia preparava sucos naturais de laranja e abacaxi, Louise separava alguns pastéis num cesto para Antonio, que após meia hora acordou e já estava melhor dos pés. O rapaz se levantou com dificuldade e rastejou até a cozinha, quase que flutuando – como nos desenhos animados – com o aroma misturado de queijo e carne.

— Chegou o zumbi! — disse Giulia rindo de boca cheia.

— Uuuuuuh! — Antonio levantou os braços e foi em direção as garotas revirando os olhos.

— Bobão! — Louise riu se afastando.

— Vocês comeram tudo mesmo?! — disse Antonio resmungando, ao olhar para a bandeja vazia.

— Ops! — disse a mãe, arquejando e rindo.

— Quem são as gulosas agora hein?! — disse pondo as mãos na cintura.

— Aqui está, senhor comilão! — Louise entregou o cesto cheio de pastéis que havia separado, á ele.

— Ah, ainda existem pessoas boas por aqui, obrigado Louise! — Antonio pegou o cesto com um enorme sorriso e piscou, logo dando um beijo próximo a boca dela.

— Você disse que se alimenta que nem um boi. Merece mais é uma vasilha cheia de capim! — debochou a irmã, logo rindo em seguida.

Os dois irmãos voltaram com as discussões, mas sempre de brincadeira e no limite. Um mostrava língua, enquanto outro jogava pedaços de pastel e assim a bagunça quase durava por horas se os deixassem ali. Louise estava cada vez mais á vontade com essa família, se apegando cada vez mais á eles a cada dia que passava no meio de pessoas felizes e bagunceiras o tempo inteiro. Há muito tempo precisava conviver no meio desse tipo de pessoas, que ás vezes se esqueciam das regras apenas por um momento, que não se importasse com a casa suja pra arrumar, eles arrumariam sem reclamar, sorridentes e como sempre divertidos como se aquilo fosse a coisa mais engraçada do mundo.

•••

Na semana seguinte, em Roma, Antonio tinha uma surpresa para Louise.

Segundo ele, iria levá-la a um show de verdade. O festival era só uma desculpa para agarrá-la e finalmente roubar um beijo. Não que ele não considerava o artista convidado do festival um artista, de fato, mas ele não era tão bom quanto o cara de quem Louise assistiria. Na verdade, para Antonio, seria uma ofensa compará-los.

Tarde da noite, Antonio estava prestes a levar Louise para o melhor show ao vivo da vida dela. Um dos melhores cantores de todos os tempos e que ainda era cego. Dentro do Coliseu, um palco enorme abrigando a banda e uma orquestra filarmônica mediana. Um telão para que as pessoas de longe pudessem ver melhor o que aconteceria no palco. Louise tinha percebido que havia muita gente, mais do que no dia do festival - que também tinha acontecido num espaço até grande. Achava que talvez conhecesse o cantor, mas não conseguia se lembrar de quem era. No entanto não seria difícil descobrir, Antonio tinha conseguido um par de ingressos vip, pertinho do palco, com direito a mesa e champagne.

Então, depois de mais ou menos trinta segundos de aplausos, Andrea Bocelli subiu ao palco, acompanhado do filho até o microfone. Louise sabia muito bem quem ele era. O admirava muito, apesar de não entender sobre música. Tinha muitos de seus sucessos no seu iPod e não conseguia acreditar que estava ali, a poucos passos dele. Enquanto Bocelli cantava, ela ficava com a mesma expressão de surpresa e emoção desde que o havia visto, como se não acreditasse no que estava acontecendo.

Mas quando o solo de violão de "Besame Mucho" começou, Tony não resistiu e foi o primeiro a se levantar, convidando-a para uma dança. Estavam colados, pareciam que queriam entrar um no outro de tão forte que se abraçavam. Louise estava um pouco envergonhada por sentir que eram o único casal a dançar, mas quando abriu os olhos depois de muito tempo, viu que toda a área vip havia sido influenciada pela atitude de Antonio.

Ele era um romântico incorrigível e ele já tinha certeza de que o amava.

Não cansaram de dançar por um segundo.

E no fim de tudo, ela acabou conseguindo trocar algumas palavras com Andrea. Louise tinha certeza de que Antonio era o amor da sua vida pelo simples fato de se esforçar para realizar o menor dos sonhos dela. 

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