OneShot
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Era sexta-feira, por volta das cinco da tarde. A chuva caía sobre a cidade sem a menor piedade ou resistência, não perdoava ninguém: carros, casas, plantas, bancos, postes... pessoas!
Exemplo disto, era o jovem de cabelos negros estranhamente alinhados e respiração ofegante que gerou: óculos embasados, que agora se encontrava encharcado de água embaixo de uma das partes cobertas de uma das lojas de conveniência fechadas por causa do temporal. Usava a vestimenta comum a todos os estudantes colegiais, o que indicava que o rapaz havia saído da escola por volta daquele horário e que ainda não havia conseguido ir para casa por causa da chuva. O adolescente parecia sério, bem sério... Já que estava encharcado e seus materiais escolares também estavam, assim como toda a sua mochila e mesmo assim o jovem não mostrava indício algum de que iria surtar ou algo do gênero.
Frequentemente ele ajeitava os óculos que escorregavam pelo seu úmido nariz, além de coçar ele com as costas dos dedos, o que indicava que provavelmente havia contraído alguma gripe, por conta desta "brincadeirinha na chuva". Toda via o clima calmo e mórbido do local já estava para se esvair pois ao longe podia ser visto uma pequena criatura de cabelos descoloridos correndo feito um louco com a pasta/mochila em suas mãos, ou melhor, na cabeça o protegendo da impiedosa chuva.
Aquilo de certa forma afetou o "certinho" que já estava ali. o loiro realmente se destacava em meio a todo aquele "silêncio" da chuva enquanto gritava:
- Ahhhhhh, não me molha! Não me molha! -
De certa forma aquilo era peculiar, principalmente para o adolescente detentor de miopia, que mesmo com seus óculos embasados podia ver claramente a pequena criatura correr. Mas o que mais o surpreendeu, foi que a pequena coisa amarela e veloz, viera justamente se esconder dos pingos "maléficos" que a chuva proporcionava, bem debaixo de sua tenda (não que ela fosse realmente sua). Aquilo fora tão perturbador e ao mesmo tempo tão vergonhoso, que o moreno teve que se atrever a retirar os óculos e os limpar ávidamente, para visualizar mais de perto, tal exótica criatura.
E por incrível que pareça, aquela não era a primeira vez que se encontravam, tanto o "Quatro olhos" quanto o "nanico" já haviam se visto, não uma, nem duas, mas diversas vezes. O loiro/ruivo de cabelos espetados e olhos vibrantes em tons de mel, era sempre acompanhado por algum grupo de amigos no trem da ida e volta para a escola e nessas horas, ele sempre via ao longe o solitário e "literário" moreno enterrado com a cabeça em algum livro ou em pensamentos em outros mundos, e na maioria das vezes sozinho... ele as vezes sentia uma grande vontade de se aproximar do maior, mas nunca poderia fazê-lo perto de seus amigos! Imagine se os outros rapazes de sua "gangue" acabassem se tornando amigos dele! O moreno era pertencente à ele e a mais ninguém!
E eram nessas horas que o pequeno delinquente juvenil, acabava se surpreendendo com suas próprias atitudes. Mas... era difícil manter a compostura, principalmente pela forma com que se conheceram:
Era um dia qualquer a mais ou menos... um ano atrás! Na estação de trem, estava tanto o loiro quanto o moreno. O pequeno havia se atrasado na escola em copiar o dever, por tanto corria para pegar o trem, de um outro lado, o moreno lia e andava sem pressa para chegar ao embarque, estava bem próximo do trem. E então! assim como em vários filmes, os mundos dos dois se cruzaram! Na verdade se esbarraram, mas isso não vem ao caso. Bem desde aquele fatídico dia, quando o loiro se inclinou oferecendo sua mão e disse: - EI! Olha por onde anda! - E o moreno nada respondeu, vermelho e trêmulo de vergonha por ter causado tal tormento, apenas se agarrou a mão do pequeno, que por sua vez pode notar o tremor nas mãos do outro, e quanto o loiro perguntou se o maior estava bem, acabou não podendo não se deliciar com aquela expressão tão... tão... assustada, com aquela vermelhidão que ficava tão bem em contraste com a pele incrívelmente branca do outro, ou com como as íris negras do outro, haviam se tornado tão humidas, como se a qualquer movimento brusco, o outro se colocaria em uma incessante choradeira. Era definitivamente fofo.
Logo após isso, os dois entraram no trem. O maior sentou-se continuando a ler o seu livro enquanto o menor apenas pegou seu celular e colocou em alguma playlist aleatória. Não estava realmente ouvindo a música, sua mente estava mais ocupada com o pensamento de que a poucos segundos, as mãos dos dois haviam se tocado... e que aquilo não era o suficiente. Queria sentir o cheiro daqueles cabelos tão negros e tão alinhados, queria tocar ainda mais em suas mãos, gravar em sua mente como era cada parte de seu corpo, queria sentir o gosto daqueles trêmulos lábios avermelhados, que combinavam tão bem com aquela que descobriria ser uma típica expressão de vergonha. Porém por mais que tais pensamentos fossem um pouco absurdos... ele queria muito conhecer aquelas interessantes expressões.
Bem mas... o que o rapaz na época não sabia, e que eventualmente agora descobriria, era que não fora só ele a ser enfeitiçado naquele dia, pois hora ou outra, o moreno acabava se repreendendo por seguir o pequeno com os olhos ou acabar por pensar muito no pequeno que tanto o intrigava, seria ele gentil? Educado? Ou nenhuma dessas opções?! Bem... de qualquer forma não iria descobrir, era tímido demais para isso!
E por mais que o destino as vezes não facilitasse muito as coisas, naquele fatídico dia, eram apenas os dois embaixo daquela tenda. Mesmo que nenhum dos dois soubesse o nome do outro, seus passatempos ou algo do gênero... por algum motivo, eles ainda tinham uma conexão forte.
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Nenhum dos dois havia se encarado ainda, nenhum dos dois havia reparado ainda que já estavam nesta pequena troca de olhares já fazia meia-hora. E nenhum dos dois queria que a troca se desse por acabada, queriam continuar! Queriam continuar com aquele... frio na barriga, aquele medo de que o outro notasse o que fazia, aquelas borboletas no estômago causadas pela expectativa de que os olhos se cruzassem.
-O-oi!- Foi o que o loiro disse. Tinha medo de ter estragado tudo, mas não havia muito o que fazer, não iria perder a chance da sua vida de - finalmente - falar com o maior.
O moreno se sobressaltou e não respondeu. O que responderia afinal? Oi? Bem... pensando por aquele ângulo, era isso mesmo. Mas... como? O jovem não tinha idéia de como iria vencer sua timidez e enfim se libertar das barras que o separavam das palavras. Mas o que não podia negar, era que havia ficado envergonhado - mas precisamente virado um tomate - se tentasse falar, sua voz sairia trêmula e isso seria vergonhoso e pelo fato de não estar acostumado com esse tipo de atitude ou abordagem, suas mãos e pernas também tremiam.
"Do que eu tenho tanto medo? " Ele se perguntava e acabava não encontrando uma resposta.
Se apercebendo disto, o loiro acabou por suspirar. Não queria força-lo, afinal cada um tinha o seu tempo, porém a insegurança de que talvez a resposta nunca viesse assolava seu peito. Talvez... tivesse sido uma má ideia dizer oi.
- Oi - Sussurrou quase inaudível o moreno, que no momento havia notado que se não respondesse algo talvez nunca teria coragem para responder novamente e definitivamente aquele dia, não podia ser desperdiçado, Não... não podia!
O loiro por sua vez, enquanto estava perdido em pensamentos melancólicos sobre a vida e em como era azarado emocionalmente, acabou por ouvir apenas o ruido das palavras (na verdade só uma) emitidos pelo maior, portanto havia escutado porém não entendido e em um ato súbito e talvez irracional o pequeno se aproximou - o que fez o moreno dar um passo para trás - e disse:
- Repete! eu não entendi! -
Os olhos do pequeno brilhavam, pareciam até estrelas na visão do outro, mas aquela aproximação o havia assustado, então era difícil se acalmar apenas com aquilo e talvez hipnotizado com aqueles grandes olhos de mel, o moreno respondeu:
- O-oi - Mas acabou por ser um sussurro novamente, mesmo que tenha sido audível para o loiro, ele no momento pensou "Se eu me aproximar mais... " o pequeno era fisicamente e piscicologicamente incapaz de se recusar a se aproximar, então como uma desculpa esfarrapada ele disse:
- Desculpe, ainda não entendi! - Então se aproximou mais, desta vez ficando nas pontas dos pés e colando sua orelha esquerda nos lábios do maior - Poderia repetir - finalizou.
- O-o-oi - E assim o fez, quase que explodindo de vergonha, ele o fez. E talvez para o loiro, aquela forma do moreno era a mais fofa.
- Oh, entendi! Bem meu nome é Satoru! Satoru Kenji! - Disse o pequeno, agora desgrudando a orelha da boca do outro e o encarando. Ah... como era bonito! O moreno tinha um beleza invulgar, seria e sóbria. Tal como uma folha em branco, folha em que Kenji queria ser o giz que a pintaria em tons de carmesim e então, quando tivesse o feito a guardaria como seu tesouro mais precioso, a guardaria com a própria vida. O protegeria com a própria vida.
- M-meu n-nome é . . . Meu n-n-nome é . . . Momoru , Momoru Reichi. - Disse Reichi totalmente envergonhado - como de costume - com a aproximação de Satoru, Como algo podia o deixar tão nervoso porém tão feliz? Como aquelas borboletas em sua barriga podiam ser tão gostosas de se sentir e ao mesmo tempo problemáticas? Bem... desde que havia esbarrado com Kenji na estação de trem, era isso que o maior mais queria saber.
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A chuva já estava para parar, apenas algumas gotas de água ainda restavam nas recheadas nuvens que preenchiam o céu. Os carros já não mais estavam tão molhados e seus vidros não tão embasados; as calhas das casas e locações ao redor já não jorravam água com tanta força, agora apenas alguns filetes escorriam; As folhas pareciam mais verdes e as flores se assemelhavam a grandes copos de água, repletas do líquido transparente sem gosto ou cheiro; a madeira dos bancos das praças se encontravam já encharcadas e eventualmente iriam apodrecer; os postes tinham em seus mastros várias pequenas gotículas de água, que agora escorriam lentamente acompanhadas dos últimos pingos de chuva.
*Smack*
Foi o que se tornou audível, quando o loiro - ao não se afastar do maior - passou os braços em torno de seu pescoço e então o beijou... o beijou na bochecha, aquilo em outra hora seria algo tão vulgar, tão simplório. Mas naquele momento, era tão importante, tão especial, tão precioso.
Aquele som: *Smack* tão calmo como um sino e na hora, tão intenso como o último grito de um guerreiro em plena batalha. Este ecoou por toda rua, profanando o silêncio do local.
Kenji após o ocorrido se "desculpou" e correu envergonhado de suas ações, com medo de que não tivesse agradado o moreno. Feliz, quando se lembrava da textura, do gosto e do som que sentiu e ouviu quando o beijo aconteceu, esperava poder falar algo com ele no dia seguinte e que o menino respondesse.
Já Reichi... se dissessem que o menino era a cor vermelha em si, seria pouco para o rubor em seu rosto. O que havia acontecido a poucos segundos atrás? Como foi abaixar sua guarda a esse ponto?
O jovem tocou sua bochecha. Ela ainda estava quente e agora seus dedos também estavam. O que era aquele sentimento? Bem... Momoru não sabia, só tinha certeza de duas coisas:
1) Que era incapaz de não sorrir timidamente por conta do ocorrido e temia nunca mais parar de sorrir.
2) Que mesmo não sabendo bem que sentimento era aquele, sabia que não precisa se apressar, sabia que não precisava se preocupar. Outros dias de chuvas viriam e com elas novas experiências.
Por mais frio que estivesse naquele dia, algo havia sido derretido, só não sabiam o que era ainda. Talvez não fosse tão ruim um dia de chuva.
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