capítulo 9
Capítulo 9
Jantar
Huma
Ele sentava mal acomodado na cadeira, sua mão cobria a boca e seus olhos varriam o lugar. Era nítida a sua fúria, como um vulcão em ebulição preste a explodir. Uma dúvida instalava dentro dele. Acredito que não sabia se me mandava às favas, ou aceitava minha companhia, onde eu desejava. Minha vontade de rir foi tremenda, por isto coloquei mais salada em minha boca.
Ele olhou para mim e por fim, falou:
— Se é assim que prefere. Vamos ficar aqui — Levantou a mão e chamou o garçom. — O que deseja beber?
— Já tenho bebida. — Levantei o copo. — Água. Aceita?
Ele não falou nada. Assim que o garçom aproximou, acredito que com a cartela de vinhos, ele pediu uma água e exigiu o da garrafa azul, apenas fresca.
— Água gelada não deve ser bom para quem tem a voz como instrumento de trabalho, não é mesmo. — Ele sorriu e concordou.
— Sim. E tomar água de qualidade é muito importante. Você devia experimentar essa marca.
— Água solarizada?
Ele pegou um petisco da mesa e colocou na boca. O garçom chegou e parecia que iria perguntar algo, mas ele o interrompeu e agradeceu.
— Eu tomo água solarizada desde um curso que fiz de cromoterapia. Pode ser crendice, mas me sinto bem. E você?
— Eu o quê?
— Por que decidiu tomar?
— Ah... Alguém indicou... Você vai se servir ali — Apontou a ilha de comida. —, ou podemos pedir um prato específico?
— Eu não gosto de nada muito pesado a noite, e tarde assim, prefiro a grande variedade de saladas e uma carne. Vamos nos servir?
No fim das contas, até que a noite não foi tão ruim. Ele podia ser até um playboy, mas tinha um bom papo e me fez até dar risadas. E um homem com bom humor, é um ponto positivo na sua lista de qualidades. Conseguiu apagar alguns deslizes pelo nosso caminho de conhecimento. No entanto, não contou sobre a Janaína invadir seu quarto, mas outras loucuras semelhantes dessas fãs insanas.
— Quem é o homem dos vinhos? — perguntou de repente.
— Não entendi?
— Percebi que tem intimidade com o rapaz do bar.
— Ah, sim, é meu compadre. — Seu olhar me informou seu não entendimento. — Sou madrinha da filha dele. A Chef da cozinha é minha melhor amiga. E toda vez que venho a Curitiba fico aqui neste hotel, gosto muito do atendimento. Nunca tive problemas, mas não sou celebridade igual a você. Ninguém invadiria me quarto.
— Eu talvez, — falou com um sorriso — se eu soubesse teria batido a sua porta, ou ligado.
— Por isso digo que eles são ótimos neste ponto. Segurança perfeita. Fico tranquila.
— Nem tanto, fica esperta ao atender a sua porta. Sempre verifique. Não abra e confie assim. Tem falhas.
— Por que diz isso?
— Por que conheço as falhas.
Ele não vai me contar — pensei. Como vou fazer? Precisarei ser direta? Terminei o jantar, sobremesa e até pedi um café. Estendi o máximo que pude.
— Obrigada pela companhia, não foi de todo mal — falei, dei a entender que chegou ao fim. Sabia que ele iria fazer outro convite. Prolongar a noite.
— Já! Vamos ao bar?
— Eu acordo cedo e o meu horário já até ultrapassou.
— Mais um pouco... Pensei em te convidar... — parou o que iria dizer e a sua cara de gato sem leite voltou em cena.
— Realmente tenho que ir.
— Vou te acompanhar. Não quero ninguém te seguindo e invadindo sua privacidade.
Sim, ele iria me acompanhar. E nada de eu conseguir entrar no assunto que me levou a este jantar. Última chance. Chamei-o para uma volta na área externa perto das piscinas.
— Você já fez denúncia formal contra assédio?
— Pensei em fazer aqui, para sua decepção do hotel perfeito.
— Por quê? — Fiz-me de surpresa.
— Tive uma invasão aqui também, nada grave, mas confesso que sempre me assusta.
— Medo de mulher? — perguntei e sorri.
— Não! — Sorriu e me olhou de lado. — O que ela pode inventar por ser encontrada no quarto de um homem sozinha. Você não entende o que essas meninas são capazes. As brasileiras são doidinhas.
— Não generaliza.
— Como? — Eu percebia que apesar dele falar bem o português, ter um sotaque até que gostoso de ouvir, algumas palavras ele possuía dificuldade de entender o significado.
— Nem todas, eu quero dizer.
— Você podia ser um pouco brasileira. — Dei risada.
— Você não me contou o que houve aqui?
— Bobagem. Em minha opinião registrar a ocorrência serviria para eles ficarem mais atentos com o nível dos clientes. Parece que é filha de um garçom.
— Espera! — Fiz-me de surpresa de novo. — Não me diga que é a filha do Samuel que invadiu seu quarto?
— Não sei o nome do pai, mas como sabe disto?
— Ontem passei a tarde na casa do Renato e a Josi, como te disse, meus amigos, ele comentou por cima a dificuldade que o Samuel passava, este garçom. Você não vai fazê-lo perder o emprego, vai?
Ele parou. Ficou de frente para mim. Pronto! Ele iria negociar um acordo e eu conhecia como os coreanos eram dureza em voltar atrás nas questões. Não sabia se tinha preparado a contraproposta exatamente.
— Você acha que não devo?
— Já pensou o que vocês, o grupo quero dizer, desenvolve na cabeça dessas adolescentes? O porquê elas fazem esse tipo de atitude? Ela pagou para passar uma noite neste lugar. Tem direito para isso como nós, ou até mais, pois cada centavo pago deve ter sido com muito suor. — Percebi que não entendeu o termo. — Trabalhado duro para tê-lo e chegar perto do seu ídolo. E como você vai retribuir este amor? Deixar o pai dela sem emprego?
— Calma! — Elevou as mãos. — Não fiz nada.
— Vai fazer?
— Não sei... pensei... mas, analisando por este lado...
— Não faça, afinal, como você mesmo disse não aconteceu nada.
— Como é um pedido seu, posso deixar passar. — Sorriu e se aproximou.
Nem acredito, deu certo, ele falou as palavras que desejava a noite toda. Sabia que não voltaria atrás, conheço a índole das pessoas com quem trabalhava, ele não seria diferente. Já podia me despedir dele.
— E você não me falou muito do seu trabalho. Apenas eu contei a vida de um artista musical.
— A minha vida não tem essa diversão toda. Sou executiva. Trabalho com pessoas sérias e às vezes complicadas. Você deve saber melhor que eu, trabalho para um grupo empresarial coreano.
— É mesmo? — Pareceu-me surpreso. — De onde, São Paulo?
— Trabalho na região de Campinas, interior.
— Interessante. Já fizemos vários shows na região e inclusive na cidade. Conhece Piracicaba?
— Sim. Por quê?
— É onde tenho residência fixa.
Não podia acreditar em tamanha coincidência. Fiquei muda.
— Preciso subir agora.
— Vou te acompanhar — afimou.
— Não precisa.
— Não pedi a permissão. Eu vou.
Acredito que meu total abalo com a novidade me deixou muda. Subimos com ele falando da minha cidade e seus pontos turísticos. Na porta do quarto me despedi dele sem muita demora. Pelo menos tentei.
Recusei firme lhe passar o número do meu celular, por mais que ele insistia saber. Se a televisão brasileira desse um prêmio para o cantor mais insistente. Votaria nele sem pensar duas vezes. Sua atuação no palco, eu não conhecia, mas se tudo aquilo fosse teatro, ficou difícil saber.
— Boa noite, senhor Kim, obrigada pela companhia.
— Quero te dar um beijo, posso?
— Virei o rosto para que ele beijasse minha bochecha
— Não assim. Quero sentir seu sabor. — Balancei a cabeça que não. E bati com o dedo no rosto.
— Aqui. Caso queira, senão...
— Um beijo Huma... Um apenas. Não te pedi nada, já você...
Sabia que iria ter um preço. Pensei rápido.
— O número do telefone.
— Troca muito injusta, mas aceito.
Ele me passou o seu aparelho e eu digitei. Ele discou e escutou tocar na minha bolsa.
— Tem certeza que vai ser essa troca mesmo?
— Boa noite, Kim. — Abri a porta do quarto — Por favor, não vamos estragar a noite agradável.
— Seria para selar a nossa amizade.
— Amigos não se beijam, não na boca no Brasil.
— Você está bem desinformada. Aprendi nesta terra que os beijos são livres. E o meu amor por você merece lacrar o final de noite.
— Aprenda o que é amor primeiro, isso que você sente se chama ego.
— Um convite para um café? — pediu querendo entrar.
— Pode ser — Comecei a abrir a porta e respondi. — Peço para levar no seu quarto, este horário eu não tomo mais.
Rindo da cara de cachorro molhado dele, eu abri um pouco mais a porta e quase o empurrei para mergulhar dentro do quarto.
Escutei ele falar do outro lado da porta bem alto.
— Mulher sem coração!
Dei risada.📝💼📊✒📈
Huma conseguiu o que queria e o Kim? Será que agora ele desiste?
Aguardem!
Até a próxima semana.
Lena Rossi
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