Capítulo 39
Capítulo 39
Huma
Saía do banho e a campainha tocava insistentemente. Achei estranho o porteiro não ter avisado que alguém subia. Não era o Kim, porque ele tinha chave, e outra, combinamos esperar mais alguns dias. Mãe? Não, falei com ela mais cedo.
Pelo olho mágico não consegui ver ninguém, mas o som estridente persistia. Liguei no apartamento da senhora Ester, minha vizinha. Ela atendeu na hora e me informou que já olharia quem era.
— Não! Vou perguntar o porteiro quem subiu.
— Imagina, já saio com o taco e beisebol na mão.
Nem deu tempo de impedi-la, escutei a porta do lado abrir e sua voz reclamar.
— Eita, minha Nossa Senhora! Campainha a gente toca e espera, sabia não? Onde é o fogo?
A pessoa falou alguma coisa, puxei na memória de quem era. Sabia que conhecia. E no instante que ela disse:
— Meu filho não vai se esconder de mim.
Caiu a ficha.
Abri a porta já não me importando de estar vestida com um roupão de banho e ter uma touca de toalha nos cabelos.
— A ela aí! Pensei que não abriria a porta.
— Boa tarde senhora Jina, desculpe-me se demorei a atender, me encontrava no banho e o porteiro não avisou que eu teria visita.
— Oi minha querida, até pensei que não estivesse em casa — senhora Ester disse, após me dar uma piscada —, essa senhora está atrás do filho. Será que se trata do nosso príncipe?
— Príncipe?! — indagou com um revirar de olhos, não sei se com ciúmes ou achando aquele adjetivo indigno para o filho — Quero saber por onde ele anda. Está aqui?
— Não tenho visto... — Dona Ester fez cara de pensativa. — Huma, minha linda, ele voltou de viagem?
Eu comentei no dia que ele foi para São Paulo, porque ela veio lhe pedir um favor, que eu mesmo acabei fazendo. O casal era do grupo de risco da covid e os filhos não podiam estar sempre aqui, principalmente porque a Dani morava no Espírito Santo e o filho preferia manter o distanciamento por ele estar sempre exposto ao vírus.
— Sim, dona Ester, ele apenas está fazendo a quarentena, por causa da viagem.
— Entendi... manda ele vir me ver na hora voltar.
— Pode deixar, falo sim.
Dona Ester adorava o Kim. Desde o início que se conheceram ele lhe trazia mimos, com a pandemia se dispunha às compras do supermercado deles, pão e leite da padaria e outros favores que ela o pedia. Não podia culpá-la, claro que ele se sentia em dívida, pelo fato dela me desmascarar em sua frente.
Voltei meu olhar para a senhora elegante e impaciente.
— Aceita entrar? — perguntei e abri espaço de passagem à porta — Até mais, dona Ester.
Ela passou por mim e parou no hall de entrada. Tirou seu salto e me olhou com ar de: "Vamos menina! Cadê algo para eu calçar? " Até eu perceber o que significava sua expressão deu um minuto inteiro. Abri o armário e tirei de dentro de um saquinho um par de chinelinho, abaixei e quase coloquei em seus pés pequenos.
Eu, às vezes, me esquecia deste novo jeito de nos comportar perante esse vírus. O que para eles era mais que normal, nós estávamos nos habituando a não usar o calçado que andou nas ruas dentro de casa.
— Então você está me dizendo que o Kool não está aqui com você?
Sua pergunta soou lenta e duvidosa ao percorrer a sala colocando reparo em tudo. Como se quisesse avaliar cada peça e mobília.
— Sim. Depois que veio de São Paulo, ele foi para o seu apartamento.
— O que não é mais neste prédio? — Olhou as fotos dos porta-retratos. —Exigiu que ele pedisse o primo para desocupar a cobertura para ambos poderem se mudar para lá?
— Como é? Que cobertura?
— O apartamento do Kool, a cobertura de luxo que ele insiste em manter.
— Eu não conheço o apartamento dele, para falar a verdade nem sei em que bairro está situado. Sempre achei que ele morasse aqui, quer dizer, ele me enganou por um tempo.
— Este aqui é seu? — Perguntou tirando a máscara, abriu a bolsa de aparência muito cara, retirou algo parecido com envelope e guardou-a.
— Sim. Sente-se por favor — Apontei o sofá. — Quer um café, chá ou um suco?
— Não, obrigada.
— Pode me explicar que história é essa de eu exigir alguma coisa e mudar daqui?
Ela sorriu pela primeira vez, ao me olhar de cima a baixo e aceitou meu convite para sentar. Foi então que me lembrei de como me apresentava.
— Dê-me um minuto de licença para eu vestir algo apropriado. Fique à vontade.
O que a mãe do Kim queria comigo? Essa foi a pergunta que me fazia desde o instante que coloquei meus olhos sobre ela. Percebi que estava atrás do filho e que tivera uma conversa com o meu famoso vizinho, seu sobrinho.
Coloquei uma calça jeans e uma camiseta. Olhei no espelho e pensei em trocar e vestir algo mais, mais... parei e decidi sair do quarto assim mesmo. Pensei melhor, peguei meu celular e passei uma mensagem.
— Melhor assim — falei ao sentar no sofá bem distante dela. — Agora pode me dizer sobre o que mencionou? Eu exigir...
— Ah sim, foi meu sobrinho que veio me contar algumas coisas, ele acha que eu sou uma mulher ingênua. Sei que quis fazer intriga se fazendo de vítima e achou que caí na dele. Sempre teve ciúmes do Kool ser como é, mas isso nem vem ao caso.
— Jae... imaginei que poderia ser ele, porque veio aqui, imaginou que o Kim não tivesse me contado algumas coisas.
— Aproveitei a boa vontade dele para vir aqui conversar com você sem sermos interrompidas dessa vez.
— Olha, se for para me pedir intercessão...
— Não! — ela me cortou.
— Dessa vez é outro assunto. Sei que você está ajudando minha filha a assumir um cargo na empresa...
— Não é bem assim — foi minha vez de interrompê-la —, eu não tenho este poder. Estou assessorando-a a se inteirar dos problemas e situações que a empresa enfrenta.
— Ela quer assumir o lugar do pai, até que ele possa voltar, como sabe ele vai levar um tempo nesta recuperação.
— E a senhora nem concorda ou não aprova, certo? — Ela mexeu nas pulseiras em seu braço e pensou um pouco antes de me olhar novamente.
— Pode parecer cruel o que vou dizer, mas sei que Min-a não tem competência para dirigir uma empresa. Ela nunca administrou corretamente sua finança. Seu lar. Seu marido. Como quer, de uma hora para outra, exercer tal função?
— Será que a senhora conhece mesmo a sua filha? — Seu olhar caiu sobre mim com reprovação. — Quero dizer, me desculpe, mas pelo que tenho conversado com ela, não me parece uma pessoa inexperiente. Ela tem uma ótima noção financeira sobre o mercado que atuamos e está por dentro de todas as dificuldades com essa pandemia.
— Não sei... — Levantou. — tenho minhas suspeitas e já mandei investigar o Ju-Ly-Na, para mim ele está por trás de tudo isso.
Não entendia onde ela queria chegar com tudo isso. Se fosse para o Kim fazer parte da empresa seria mais absurdo ainda, porque ele sim, não entendia nada e nem tinha interesse.
— E o que a senhora deseja de mim? — Seu olhar sério e duro voltou-se em minha direção.
— Bem... — Ela começou a falar e parou. Não sei se recolocava as palavras em ordem ou pensava se eu poderia mesmo ser a pessoa a recorrer.
Pensei comigo, se ela mandou investigar o genro, a minha ficha já devia estar em sua mesa faz tempo. E outra, se teve o trabalho de vir aqui e vai me pedir algo, com certeza não fui totalmente reprovada. Apesar de seguir por este raciocínio, não cheguei a nenhum ponto final. Precisaria escutá-la com cautela.
— E então? — Seu silêncio começou a me incomodar.
— Não vir aqui para falar do Kim, já entendi que essa questão está fora, pelo menos por enquanto. A Min-a é algo que ela vai cair em si ao enfrentar os acionistas e a diretoria. Claro que minha opinião conta, como dona de todo patrimônio, sou responsável direta na ausência do meu marido. — Sorriu para mim com superioridade. — Fique tranquila que não tenho a pretensão de assumir nada. Sei perfeitamente minha competência e até onde posso ir.
— É este o ponto que estou interessada a saber. Qual o motivo que veio aqui falar comigo. Devo confessar que estou curiosa.
— Escutei o Jae e soube que ele mentia e várias partes. Sei que é uma ótima funcionária, vem crescendo por mérito e conquistou um cargo importante, mesmo sendo mulher. — Minha vez de revirar os olhos. — Soube que demorou a aceitar meu filho como namorado. Tem uma família, aparentemente estável e é independente financeiramente — A minha ficha sendo exposta. —, no entanto...
Ela parou de novo, voltou a se sentar e me deixou mais impaciente com essa enrolação, minha vontade era tirar dela as palavras que não saia de sua boca.
— Não sou asiática e nem tenho pai rico e empresário. Sou filha de professores e sou uma mera funcionária da empresa do pai do meu namorado. É isso?
— Pelo visto sabe onde quero chegar.
— Que não sou a pessoa certa para seu filho.
— Exato. É uma executiva excelente e pode crescer muito mais se souber usar de inteligência.
— Caso eu me separe do Kim posso ter uma promoção ou quem sabe fazer parte da diretoria?
— Melhor. Pode ir para a presidência, se minha filha for substituir o pai. Alguém como você junto dela pode lhe dar credibilidade perante os acionistas.
Limpei a garganta. Coloquei a mão na boca e forcei um acesso de tosse. Levantei e pedi licença. Fui para a cozinha.
— Aceita uma água? — gritei.
Ela não respondeu, mesmo assim coloquei água gelada num copo alto e levei, coloquei na mesa em sua frente com um guardanapo em baixo.
— Deu tempo de pensar um pouco em minha proposta? — Ela pegou a água levou até a boca, mas não tomou.
— Não coloquei sonífero e nem veneno. Apesar de estar parecendo cena de filme essa história — comentei.
— Não descarto essas possibilidades — Sorriu ao balançar a cabeça. — Eu não tomo água gelada, querida. Não aprendeu ainda com meu filho?
— Ele não é de falar da família.
— E os costumes dele?
— Ele bebe água gelada sem problema algum. Principalmente com esse calor.
— Este país estragando nossos costumes.
— Ele viveu dez anos nos Estados Unidos.
— Então, vamos voltar ao que interessa. Aceita minha proposta ou precisa pensar?
— Não. Claro que nem preciso pensar.
— Sabia que seria inteligente.
*****
Huma vai aceitar a proposta dela?
Cadê o coreano que não está ali para expulsar essa mulher? Saberemos semana que vem.
Dê sua opinião, ela é muito importante.
Abraço a todas.
Lena
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