Capítulo 16
Capítulo 16
A pandemia
Kim
Claro que não fui embora do apartamento. Se acaso o segundo tempo tivesse acabado, eu entraria na prorrogação e se precisasse iria aos pênaltis. Afinal, ela não me emburrou quando a beijei e foi o mais longe que cheguei.
Acordei com celular tocando. Olhei e voltei a fechar os olhos assim que ele ficou silencioso. Assustei com o toque insistente novamente. Atendi.
— Kool, o show do fim de semana foi cancelado.
— Por quê? — perguntei sem abrir os olhos. — Assim em cima da hora vai dar confusão.
— Pelo visto o vírus que chegou no Brasil está se espalhando. Foi confirmado vários casos suspeito. E para evitar aglomeração estão cancelando todos eventos de grande público.
— Ok. Qualquer novidade me avise.
— Ligue a televisão, só se fala deste assunto.
Desliguei o celular e procurei pelo controle remoto da TV. Realmente era o assunto de todos telejornais. Olhei na internet e não tinha outras informações que não fosse covid 19. O mundo entrou em alerta. Países da Europa com muitos casos e fechamento de fronteiras.
Passei o dia dentro de casa com TV ligada e acompanhado tudo que se falava sobre essa doença. E não ter nada para fazer acabei, num impulso, comprando vários eletrodomésticos, inclusive uma sanduicheira elétrica que mandei de presente para minha amada. Comprar pela internet é um hábito ou virou vício, adquirido por ter tempo ocioso. Já que minha temporada expandia aqui precisava de mais algum conforto.
Dois dias arquitetando planos para encontrar com Huma novamente, queria ir à casa dela com algum pretexto, mas não achava nenhum razoável.
A campainha tocou. Tive uma pequena esperança dela vir agradecer o presente, mas sabia que seria fantasia de minha parte. Ao abrir a porta, certo de encontrar o porteiro ou meu primo, quem estava lá? Ela. Isso mesmo. E seu rosto demostrava que não vinha agradecer. Tive medo. A sua expressão de braveza me fez dar um passo atrás, me esconder já não era opção.
Seu olhar era diferente de tudo que já tinha visto. E olha que não foram poucas as vezes que ela me fuzilou com aquela cor de caramelo. Uísque seria o mais correto afirmar, forte e descia queimando, porque caramelo é doce e não combinava com aquela expressão.
— O que significa isso? — Entrou ela feito um furacão e depositou uma caixa sobre a mesa. — Pode me dizer?
— Boa noite a você também, Huma. Entre e fique à vontade. Se quiser pode deixar seu sapato ali e tem um chinelinho... — Ela me cortou.
— Deixe de sarcasmo e vamos direto ao ponto. Não quero presente seu e não preciso que venha com este tipo de agrado para me convencer a ser sua amiga.
— Huma, deixa de ser mal-agradecida! É uma retribuição pelo lanche, pela carona e nem chega a ser um presente.
— A não? É o que então? — perguntou irritada com as mãos na cintura.
— Você precisava.
— Eu iria comprar!
— Quando se sua vida se resume ao trabalho?
— Qualquer hora. Quanto custou? Eu te pago.
— Foi um brinde.
— Não acredito.
— Veja bem, eu fiz umas compras aqui — Caminhei até a cozinha e mostrei as novas aquisições, algumas dentro das caixas. — Entrei no site porque queria este grill, acabei comprando este outro aqui também e os pegadores de madeiras para não riscar os aparelhos. Ao ver aquela coisa de pão, eu me lembrei de você. Saiu de graça porque o seu valor seria o frete que eu pagaria. E ao acrescentar ele na cesta, o frete saiu de graça. Entendeu?
Ela ficou quieta e pensativa.
— Você inventou essa história...
— Pare com isso. Parece que comprei um anel de brilhante ou um jatinho para você. Um exagero sem fim. Se não quiser doe para alguém, pois aqui não precisa.
Caminhei para sala com expressão de magoado com a situação. Ela me acompanhou e a princípio não disse nada. Ficou parada sem ação.
Peguei o controle remoto e desliguei a TV, sentei no sofá, apontei o outro para que ela fizesse o mesmo. Mudei o rumo da conversa para entrar numa área que ela gosta para se acalmar e ficava um pouco comigo.
— Como está a empresa em que trabalha, com tudo isso que acontece atualmente?
— Um caos. Veio um decreto do estado para diminuir trinta por cento o número de funcionários nas fábricas e várias medidas sanitárias. A parte executiva ainda tem ido trabalhar, mas pelo jeito vamos fazer um home office a partir da próxima semana. Tudo vai depender do avanço desse vírus. O diretor adjunto veio do exterior e contraiu a doença. Ficou de quarentena e ainda não voltou. Está bem, mas não se recuperou totalmente. — Sentou no outro sofá, longe de mim. — O problema que participou de uma reunião e transmitiu a mais três pessoas. Um deles com mais idade está internado e seu quadro é crítico.
— Nossa! Quem? — perguntei sem pensar. E no instante que ela me olhou com um ar de questionamento, acrescentei: — Até parece que conheço.
— Talvez o sobrenome seja familiar, afinal é da Coreia também. Senhor Park, Park Tae-Jeong.
— O que mais tem na Coreia é Park. Acho que metade da população talvez — mencionei e sorri. — Kim também é muito popular.
— Já percebi. Na empresa, além do presidente, temos outros, entre os diretores e nas fábricas.
— Aqui no Brasil o Kim, meu sobrenome, pegou mais que meu nome verdadeiro.
— Por que, este não é seu nome?
— Sim. Mas na verdade, Kim Dong Kool, mas por causa do grupo invertemos, Kim Kool Dong. Assim ficou Hyung KK que resumiu em KK. Era para ser KKK, mas por causa de um lance nos Estados Unidos tiramos um K.
— Uma organização terrorista, já escutei falar. Aqui usamos muito como símbolo de estar dando risada nas mensagens de texto.
— Sei disto. As peculiaridades da língua.
— Não sei qual é mais complicada a nossa ou a de vocês.
— Claro que é a portuguesa.
— Não senhor, aqueles desenhos que significa palavras é uma obra de arte.
Dei risada. Como percebi que o clima acalmou, arrisquei perguntar:
— Você já jantou?
— Não. Acabei de chegar e encontrei sua encomenda... — Ela me olhou de relance e levantou do sofá. Eu mais que depressa perguntei.
— Janta comigo?
— Não obrigada. Eu vou...
— Eu pedi agora a pouco. Fica aqui e vamos ter uma noite calma e sem atritos. Por favor, me faça companhia. — Ela ficou pensativa e indecisa. Não poderia forçar demais, essa mulher de gênio forte teria que ir devagar, por isso esperei.
— Preciso tomar um banho.
— Vai demorar mesmo a entrega e se chegar eu te espero. Tome seu banho e volta.
Eu já pipocava por dentro de alegria por ela aceitar. E sua decisão pareceu-me durar uma eternidade.
— Tudo bem. Daqui a pouco eu venho. — Olhou a caixa sobre a mesa na indecisão.
— Leve — incentivei. — Comprei com carinho.
— Tudo bem. — Pegou e saiu pela porta sem me deixar abri-la.
Assim que ela sumiu pelas escadas, eu corri para o celular e a caixinha de panfletos do meu primo de disk comida, precisava fazer o pedido. Ainda bem que ela nem perguntou o que seria, pois não sabia o que improvisar.
O que pedir? — perguntei-me. Fui pelo básico. Pizza.
Arrumei a mesa.
Em tudo eu tinha dúvidas. Colocava uma toalha e os talheres ou convidava para sentar na sala e comer sentado no chão com apoio da mesa de centro. Cadê uma toalha descente nesta casa? Preciso fazer mais compras e vou colocar tudo na conta daquele filho da mãe.
Oferecer um vinho ou água? Ahh... como fui me tornar alguém tão indeciso e patético dessa maneira? A campainha tocou.
— Uau, uma mulher com todas as caracterizas boas. Linda, profissional e pontual. Diferente da pizza que ainda não chegou. E por falar nisso. Você gosta, certo?
— Sim, eu gosto. Trouxe um vinho — Mostrou a garrafa em sua mão. — Espero ter acertado o seu paladar.
Nem respondi o que pensei: "tudo que beber de sua boca vai me agradar". Ainda bem que me contive, senão correria o risco de ela dar meia volta ou mostrar o sabor em minha cabeça.
Desta vez ela tirou a sapatilha e entrou descalça.
— Tem chinelos ali na entrada.
— Estou bem assim. Gosto de ficar de pé no chão.
— Fique à vontade. Preparei ali na sala para comermos, mas se você preferir posso arrumar a mesa. — Peguei o vinho e fui para cozinha torcendo para ela aceitar sentar no chão.
— Tudo bem.
Voltei com a garrafa aberta e duas taças bonitas, pelo menos isso aquele cretino tinha, vários copos e taças elegantes. Na mesa baixa de centro eu havia colocado alguns petiscos, estes que não faltava nos armários. Fiz uma mistura cremosas com tofu, e os ingredientes que tinha, a receita pedia mais algumas coisas que não encontrei na geladeira. E era justamente este que ela experimentava quando me abaixei ao seu lado.
— Não ficou muito bom porque faltou alguns ingredientes frescos.
— Está gostoso — falou mastigando. — Desculpe, nem te esperei, mas esta torrada pareceu-me com uma cara tão boa e com a fome que me encontro, não resisti.
— Fique à vontade. Foi feito pensando em você. — Sorri e lhe servi o vinho. — Achei que não bebia álcool.
— Não bebo fora do meu ambiente. Aqui estou — Ela sorriu lindamente para mim. —, quase em casa.
— Pode se sentir em casa. — Que isso? Onde tirei ser deste jeito. Chega a ser até brega.
Ela tomou do vinho e fiz o mesmo. Não era minha bebida preferida, mas tinha um sabor forte e acentuado que significava ser de boa qualidade. E junto dela tornou-se ainda mais saboroso.
— Gostou? Vinho é um tanto peculiar e acertar o que agrada o outro é um pouco complicado. Este eu ganhei do meu compadre, Renato. Não tenho dúvida da qualidade.
— Sim. Muito bom. Ele é um especialista, certo? — Ela balançou a cabeça. — Como os conheceram?
Através desta pergunta ela começou a contar um pouco de sua adolescência e amizade com a esposa dele.
A pizza chegou.
Busquei na portaria e nossa noite foi regada pelo vinho e uma conversa leve, com algumas risadas. Até que ela perguntou:
— E sua família? Por que me disse que foi deserdado e excluído? Era brincadeira? Afinal você é um astro da música.
*******
Será que nosso astro k-pop tem um segredo? O que ele aprontou para não ser bem-vindo na família?
Vai revelar? Claro que não, pelo menos agora. Pode ser que, você leitora já tenha captado um sinalzinho. Verdade?
Até semana que vem.
Beijos Lena.
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