Capítulo 12



Capítulo 12


A conquista – Parte 1

Kim

Entrei no carro com o coração pulando no peito. Meu plano ia perfeitamente, sabia que ela não poderia ter o coração tão duro assim e me deixar plantado no aeroporto. Após sair do estacionamento e ganhar a pista, ela direcionou para uma estradinha vicinal e, eu vi a cidade ficar para trás.

Fiquei quieto. Não perguntei nada, mas achava estranho o caminho. Não era o que acostumava ver o motorista do grupo fazer. Questionar? Nunca! Não iria correr o risco de ela mandar eu descer do carro. Nada disto.

Ela me olhou e perguntou:

— Está tudo bem? Tem medo de mulher no volante?

— Claro que não. Confio em você até de olhos fechados.

— Nossa! Obrigada, mas se eu fosse você desconfiava um pouco. Posso estar te raptando e com intenção de pedir o resgate. — Sorri e relaxei. Coloquei as mãos atrás da cabeça e comuniquei:

— Nossa, que maravilha. Pode ficar comigo e ainda te do o valor. Onde vai ser o cativeiro? Sua casa?

— Não. Num galpão bem afastado da cidade. Com dois homens fortes de segurança e com comida uma vez por dia.

— Credo! Você não tem senso de humor e nem sabe brincar.

— Se eu tivesse brincando... — Ela deu um sorriso cruel e deu-me uma breve olhada. — Quanto você acha que devo pedir. Será que sua banda te acha valioso? Ou teria que apelar para família?

— Para começar, eu já te falei que é grupo musical. Sim, sou o vocalista, ou seja, a voz do grupo, e outra, não tenho família.

— Como assim não tem família? — Senti seu olhar novamente, mas dessa vez não a encarei. — Você comentou algo que veio com a família para o Brasil.

— Vamos dizer que eles não me consideram mais membro da família. Escolher a música foi um ponto para ser excluído, mas vamos voltar ao sequestro. Não aceito cativeiro. É minha exigência.

— Quem diz que tem direito a escolha?

— Veja bem — Virei-me para ela. —, acho, ou melhor, tenho a impressão que você será a principal suspeita.

— Por isso mesmo vou te deixar bem longe de mim.

— Assim não aceito ser sequestrado.

Notei que ela sorriu largamente e diminuiu a velocidade. Fez uma rotatória e passou por baixo de um pontilhão. Em segundos entrava na rodovia movimentada.

— Que caminho é este que você fez? Por um momento eu achei que iria mesmo para algum lugar abandonado.

— Um desvio. Conhecimento de anos de prática. Ganhamos tempo e não pegamos o trânsito infernal da saída da cidade.

— Gostei. Precisa ensinar ao Do-Sin, ele perde horas neste trajeto.

— Quem?

— Nosso motorista.

— Não é simples explicar, se percebeu, tem várias opções de ruas e se errar uma lascou!

— Lascou?

— Sim. Vai ficar mais complicado achar o caminho e talvez não compense. Eu aprendi com meu pai e confesso que já cometi erros.

— Quer dizer que a Bela Huma é sujeita a erros? Não imaginava.

Ela voltou seu olhar a mim, séria agora e não respondeu de imediato. Pensei que nem iria falar nada, mas após alguns minutos ela afirmou.

— Todos erram. — Fez mais uma pausa. — A diferença é reconhecer e aprender com eles. Sempre é tempo de avaliar, voltar, se desculpar e corrigir. Recomeçar faz parte da vida.

Suas palavras soaram a mim de forma diferente. Ela não mais falava do caminho e nem da Huma executiva. Tive certeza que era um toque, sutil talvez, sobre o que eu havia falado mais cedo sobre minha família. Por isso fiquei em silêncio por um tempo bem maior que planejava.

— Então mora em Piracicaba e não me contou... — mudei o rumo da conversa — Será que somos vizinhos?

Ela não me olhou, mas sorriu.

— Mora em que bairro? — Ela não respondeu. — Onde trabalha? Você fica no escritório da empresa central ou no distrito industrial?

Ela continuava quieta e atenta ao trânsito. Diminuiu a velocidade com aproximação da praça de pedágio. E eu continuei:

— Você mora em apartamento ou casa, algum condomínio? Sozinha ou com seus pais?

— Vai perguntar, sou filha de quem?

— Pode ser, se quiser começar a me contar de sua vida por eles. — Ela deu risada, baixa, mas foi audível a mim. Então percebi que talvez fosse alguma piada. — Não vai me dizer nada?

— Kim, lembra que é para esquecer as palavras: Piracicaba. Huma. Morar. Residir. Trabalho.

— Todas têm que estar na mesma frase?

— Sim.

— Tudo bem... vamos ver o que pode então... Você vai me dar aquele beijo que ficou me devendo?

— Não, porque não te dei nem esperança de dá-lo.

— E outro? — Ela riu e balançou a cabeça.

— Vai, confessa, não tem nem um pouquinho de vontade de saber como é um beijo oriental?

— Não! Se for igual nas séries é muito estranho. — Olhou para mim. — Sim. Isso eu confesso, já tentei assistir algumas indicada por uma amiga que adora doramas. Mas não deu liga para mim. Achei extremamente... melhor nem dar minha opinião.

— Ah, nem venha com essa, as séries coreanas são as maiores sensações no mundo. Vem crescendo muito. E as brasileiras amam.

— Não sou todo mundo. Sempre escutei isso de minha mãe. E hoje vejo que ela estava certíssima.

— Não mude de assunto! Vida real é diferente de drama coreano. É certo que a demonstração em público não é algo muito aceito no pais. A diferença que Brasil é tudo muito permitido.

— Sei...

— Se você quiser comprovar é só me deixar te mostrar.

— Fique quieto! Já falei, esqueça de mim na hora que eu te deixar na porta de sua casa. Falando nisto, onde mora?

— Ah... Você pode saber onde eu moro, muito engraçadinha.

— Tudo bem. Posso de deixar em qualquer ponto da cidade? Shopping? Rua do Porto? Ou...

— Não! Tudo bem... já entendi. Tenho duas residências. Pode ser no condomínio coreano ou no apartamento perto da universidade. Qual preferir e for melhor para seu caminho — falei, tentei parecer perder todo o humor.

Fiquei calado.

O tempo foi passando e ela não mencionou mais nada. Eu precisava pensar em como tocar de alguma forma aquele coração. E de tanto queimar meus neurônios a cidade luminosa apareceu ao longe.

Chegávamos e eu não sabia para onde ela me levaria, aquilo me consumia. Foi ela que quebrou o silêncio ao perguntar:

— Escolha o local que vou te deixar. Para mim tanto faz.

— Pode ser no apartamento — falei o nome do prédio e a rua e ela tomou o caminho sem nenhuma dificuldade.

Parou o carro e sem me olhar falou:

— Entregue. Boa noite.

— Quer tomar um...

— Não!

— Você nem deixou eu acabar de falar, Huma.

— Porque qualquer convite é um não, estou cansada e quero ir para minha casa.

— Um jantar?

Ela me olhou com a cara de poucos amigos e desceu do carro. Seu humor havia mudado drasticamente. Abriu a porta do carro e o porta-malas, pensei que fosse atirar minha bagagem na calçada.

— Huma, por favor, pelo menos vamos ser amigos?

— Amigos? Sei.

— Veja! — Mostrei a ar a nossa volta. — Moramos na mesma cidade. Isso deve ser algum sinal. É o destino que nos fez encontrar por algum motivo.

— Boa noite e até qualquer dia, em qualquer hotel pelo mundo. Você e eu somos pessoas que não tem lugar fixo. Trabalhamos e moramos muito fora de nossa própria residência. Correto?

Entrou no carro. Deu partida e acelerou. Quase escutei o pneu cantar. Ela realmente estava irritada.

Eu sorri para a poeira imaginária que vi subir no ar e fiquei observando o carro sumir na avenida.

— É Huma, pode não ser o destino agindo sozinho, eu dei uma mãozinha, mas você não vai me escapar tão fácil. — Puxei a mala e olhei o prédio. — Não vai ser fácil domar essa fera.

Hum... Nada mal. Sei que poderia ter sido um pouco melhor a minha sorte, mas até agora é o que basta. Entrei na portaria e peguei as chaves.

*****

Peço mil desculpas pela demora do capítulo. Não sou uma pessoa que deixa os leitores a mão. Devido a alguns problemas pessoais não havia revisado. Mas qualquer erro que tenho ficado, podem me apontar.

Espero que gostem. Afinal Huma teve uma bela surpresa. O que vocês imaginam que pode ser?

Até breve.

Beijos, Lena.

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