Capítulo XXXVI
Cᥲρίtᥙᥣo 36
- Estás bem? – indagou Ian. – Sentes-te...
- Eu estou bem Ian – assegurou-o pela quinta vez em menos três minutos, ao passo em que acompanhados por parte da sua equipe de segurança, os mesmos seguiam para o carro, enquanto o restante da equipe dava um jeito no patife que quisera colocar as mãos em Alissa.
- Não, mas a sério...
Alissa soltou um suspirou.
- Eu estou bem, a sério.
- Por que cargas de água tens de ser tão obstinada com as coisas e insistir que podes fazer tudo sozinha? – questionou Ian, ligeiramente chateado.
- Ah... Porque posso? – respondeu Alissa enquanto o encarava com os olhos estreitos e o cenho franzido.
- E vê só onde é que isso nos levou...
Embora, não o tivesse dito por mal, aquelas ditas pura e simplesmente fluíram pelos seus lábios antes que as pudesse impedir de saírem e o semblante culpado de Alissa deixara claro o quanto as mesmas tiveram impacto sobre ela.
- Eu sinto muito, eu só... Eu só não queria ficar trancada o resto do dia no quarto do hotel enquanto tu fingias estar a desenhar o vosso suposto plano de segurança.
- Ei! Eu não...
- Por favor, Ian. Ambos sabemos que tu e o Jacob não estavam a desenhar plano algum, tu apenas querias ver-te livre de mim.
- Eu não diria...
Alissa bufou ao mesmo tempo em que revirava os olhos, para então soltar um suspiro.
- Obrigada – agradeceu com sinceridade, por ele a ter salvado –, eu não sei, e sequer faço questão de saber, o que teria acontecido se não tivessem chegado a tempo.
- Não foi nada.
- Oh foi sim! – rebateu Alissa e olhou para os nós dos dedos de Ian que estavam manchados e pareciam estar ligeiramente feridos. – Tu literalmente deste cabo do homem.
- Eu? Ah! Aquilo foram apenas algumas noções básicas de autodefesa.
Com a sobrancelha arqueada e a cabeça a perder levemente para o lado, Alissa olhou para ele.
- A sério? Chamas a aquilo, noções básicas? – perguntou enquanto entravam no carro.
- O quê? Achaste que pelo facto de ser da realeza e ter sempre uma equipe inteira de guarda-costas a minha disposição, significa que não sei lutar? – um breve riso fluíra pelos rubros de Ian. – Todos nós sabemos. Eu, o Jeremy, a Dalilah, tivemos os três, aulas de autodefesa. E vendo bem... – Ian pausou suas ditas, como que a ponderar sobre algo e então sorriu, voltando-se para ela –, tu também deverias ter.
- Pois claro, com a agenda ENORME que a tua mãe organizou para mim, eu terei imenso tempo para ter aulas de autodefesa.
- Pois devias, é importante e extremamente necessário. Eu irei falar com a minha mãe sobre isso, nem que tenha de ser eu a dar-te as aulas.
- O quê? – questionou Alissa sem esconder sua surpresa e talvez, só talvez, um pouco da sua indignação.
Em resposta, Ian deu de ombros e sorriu ladino.
- É uma excelente ideia.
- Para quem?
- Oh vá lá! Não será assim tão mau – sorriu-lhe e Alissa conhecia muito bem aquele sorriso, era o sorriso típico de Ian quando sabia que se iria divertir imenso as custas dos outros, e naquele momento, ela sabia perfeitamente que ele estava a pensar nos inúmeros cenários para tornar aquilo realidade –, eu serei um excelente professor para ti.
- Exactamente! E esse é que o problema!
E então ambos perderam-se em gargalhadas.
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- Tens a certeza de que estás bem? – novamente, questionara Ian fazendo com que Alissa revirasse os olhos em razão da pergunta, pois hajamos e convenhamos, já era trigésima, senão quinquagésima vez que ele fazia aquela pergunta e verdade fosse dita, embora em todas as outras vinte e nove vezes, senão quarenta e nove, a resposta de Alissa fosse a mesma, um firme e taciturno, SIM, ela não tinha assim tanta certeza daquilo.
No fundo, a jovem princesa ainda sentia sua pele arrepiar com o pensamento do que poderia ter acontecido se Ian e os guarda-costas não tivessem aparecido naquele momento. E com isso vinham os questionamentos: "Teria ela prejudicado a si própria ao decidir sair sem o aval de Ian? Seria ela, como Ian dissera, tão obstinada com as coisas e insistente em assegurar que podia fazer tudo sozinha? Seria ela o tipo de pessoa que clamava para ter controlo de tudo a sua volta e para mostrar quão independente era?"
Suspirou.
Estava certa de que o homem não a havia reconhecido como Princesa Alissa de Limerance, em verdade, parecia que ninguém o havia feito, tivera apenas o episódio com o feirante, no qual ele percebera a aliança em seu anelar e constatara que ela era uma mulher casada, mas nada mais que aquilo. Então não se podia dizer que fora atacada pelo facto de ter sido reconhecida como princesa, mas... Mas por ser vista como uma mulher que explorava as belezas da ilha sozinha... Esse é que era o epicentro daquela situação toda, O facto de ser uma mulher que explorava as belezas da ilha sozinha fizera de si o alvo perfeito.
E céus!
Era tão frustrante para si, que fosse como fosse, apenas pelo simples facto de ser mulher ter de duplicar, não, quadruplicar... aliás, ter de tomar infinitamente mais cuidado que qualquer outro homem, pois se não olhasse sempre por cima do ombro, se não tomasse atenção as pessoas a sua volta, ou ao que se passava, corria o risco de ser atacada e submetida a infinitos actos indescritíveis e às vezes difíceis de se falar sobre, tudo isto, porque ousara sair sozinha, ousara aproveitar o pouco que podia da sua independência – esta que já era limitada –, e no fim, ainda ser responsabilizada por querer, por ser, por implorar por algo que deveria ser seu de direito.
- Alissa...
Contudo, era assim que a sociedade era, ao invés de poder andar livremente sem medo e sem amarras, tinha de viver sempre com medo de que alguém a atacasse, com receio de que alguém considerasse suas roupas ousadas demais, seu andar hipnotizante demais, suas curvas atraentes demais, e sua simpatia e carisma a abertura necessária na porta que levaria para algo mais que por ela nunca fora transmitido, mas que por alguém fora subentendido e que automaticamente, até mesmo pelos pensamentos de outrem ela seria culpada. Discursos sexistas e machistas do género eram usados constantemente para culpar a mulher por algo que de longe é responsabilidade sua, mas dos patifes que não sabem controlar seus desejos e/ou suas vontades, buscando por alguém que tal como eles, esteja apto para tal, no entanto, ao invés disso, forçam mulheres, jovens, e até crianças, algumas vezes – os mais inescrupulosos e nojentos – até mesmo a idosas, a satisfazer seus desejos carnais, mantendo-se indiferentes aos desejos alheios. Para no fim, quando a vítima decidir aplacar sua dor e engolir sua humilhação e medo, elevando a sua voz e prestar seu depoimento, ser considerada culpada apenas por ser... Mulher.
- Alissa? – a voz de Ian tornara a soar, puxando-a bruscamente de volta para a realidade. – Alissa!
- O quê? – indagou a mais nova e então respirou fundo. – O que raios?
Ian olhava fixamente para seus olhos, mas então seu foco mudara para suas mãos e só então ela percebera que tinha-as fechadas em punho e que suas unhas feriam sua pele.
- Eu estou-
- Não estás – interrompeu-a Ian, antes que ela terminasse sua frase e com a expressão séria, Alissa encarrou-o confusa e ao mesmo tempo, como que a analisá-lo. – Tu não estás bem, mas vais ficar.
- Como é que-
- Está tudo bem agora – calmamente, Ian tornara a interrompê-la e começara a dizer –, ele não mais te pode fazer mal – acrescentou e atento aos seus movimentos todos, passou a acariciar as palmas de suas mãos. – Eu sinto muito que tenhas tido de lidar com essa situação, ou que a sociedade te obrigue e a outras mulheres, a saírem sempre acompanhadas para evitar que idiotas que nem aquele, vos façam mal. Porém, está tudo bem agora, Alissa. Está tudo bem e eu estarei sempre aqui para ti.
Estaria mesmo?
Estaria ele ali para si, ou estaria apenas a falar aquilo no calor do momento, em razão da adrenalina que o tomava? Afinal... Tivera um aumento e tanto quando encontrara-a e desferira alguns golpes certeiros no patife de minutos atrás, então, deveria ela crer naquelas palavras ou continuar a jogar pelo seguro e zelar por si própria?
Seu olhar seguira para o vidro do carro e ao fazê-lo, seus olhos arregalaram-se em surpresa ao ver a paisagem que preenchia os mesmos. Rapidamente, Alissa voltou-se para Ian para então, encontrá-lo a sorrir.
- O que é que... Como é que-?
- Não estaríamos realmente a aproveitar Fira se não assistimos o Ifestia Festival.
Ao ouvir tais ditas, Alissa franzira o cenho ao perceber que ele usara exactamente as mesmas palavras em que ela pensara quando esteve com o feirante que sobre o festival a contara.
- Como é que tu-
- Eu posso não ser o melhor esposo, nem o que desejavas – risonho dizia e deu de ombros –, porém, sou muito bom e extremamente atento aos detalhes. E definitivamente, não deixaria este passar.
Um sorriso genuíno adornara seus lábios e o carro parara de andar. Sem dar-lhe muito tempo para pensar sobre, Ian desceu da viatura e deu a volta a mesma seguiu até ao lado em que Alissa estava, abrindo a porta para a ela e estendendo-lhe a mão.
- Vens? – indagou com um sorriso. – Tem um barco a nossa espera para assistirmos ao espetáculo de fogos de artifícios tal como suposto; em alto mar e com a melhor vista.
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P.O.V de Ian
Naquele momento, enquanto assistia ao espectáculo de fogos-de-artifício com uma Alissa admirada e atenta a cada pequena explosão, involuntariamente, Ian estalara os dedos e ao fazê-lo, um pequeno e inaudível gemido deixara seus lábios. Seu olhar seguira para suas mãos e só então, ao ver o estado em que elas estavam, lembrara-se do episódio que preenchera o final de sua tarde, embora limpas e não mais manchadas de sangue alheio, ainda lhe parecia surreal o modo como desferira golpes descontrolados contra aquele homem. Não sabia explicar exactamente o que acontecera, apenas que uma raiva, um furor incontrolável tomaram conta de si e movido por tais sentimentos, ele libertara a besta que sequer sabia que habitava em si, mas que se Jacob não o tivesse segurando, certamente ter-se-ia assegurado de matar o homem que já desacordado, jazia no chão imóvel.
Ian respirou fundo e tentou relembrar tudo o que se passara, tudo o que sentira e talvez assim... Talvez assim, a confusão que em seu interior se formava, por fim se dissiparia. E céus... Como ele queria que aquela confusão se dissipasse, seus pensamentos estavam tão ruidosos quanto o vento em uma noite tempestuosa, e seus sentimentos... Esses estavam tão agitados quanto as ondas do mar também em dias de tempestade. Por algum motivo alheio ao seu próprio saber, sentia como se todo e qualquer controle que tivesse sobre a sua vida, sobre si mesmo, se esvaziasse por entre os seus dedos sem que pudesse fazer algo para impedir. Tal como a água passa por entre os nossos dedos sem que seja possível segurá-la, ele sentia acontecer o mesmo com sua vida e aquilo...
Aquela revelação...
O assustava.
Mais do que se permitia aceitar, ou sequer ponderar, a ideia de perder totalmente o controle de sua vida o aterrorizava e a causadora daquilo, a única e absoluta responsável por aquela atribulação em sua vida tinha nome e sobrenome, que coincidentemente, era o mesmo que o seu agora... Ela tinha a personalidade imprevisível e os cabelos negros como a noite. A responsável pela confusão que em seu interior se formava, era a mulher que do seu lado estava e maravilhada, assistia ao espetáculo de fogos-de-artifício, como se fosse a encenação mais bela de todos os tempos.
Sua mente transportara-o para o momento em que soubera que o guarda-costas que a acompanhava perdera-a de vista. A princípio, ao passo em que ouvia um dos homens de Jacob narrar que pelo facto de estar entediada, a mais nova decidira que queria sair para explorar a cidade, ele sequer se preocupara. Conhecia a mulher que tinha por esposa e acções dessas eram completamente normais no seu dia-a-dia, afinal, Alissa sempre fora o tipo independente e espírito livre. Nunca havia sido do tipo que aceitava ser domada e/ou ficar presa em um único lugar por muito tempo e em parte, desconfiava que esse fosse um dos motivos pelos quais, sua adaptação no Palácio de Limes estivesse a ser tão difícil. Contudo, fora ao ouvir o guarda-costas dizer que o homem que a acompanhava perdera-a de vista, que Ian sentiu todas as células de seu corpo entrarem em estado de alerta e antes mesmo que pudesse sequer ponderar sobre o que fazer, já ele saía do escritório a passos largos enquanto questionava com a voz ligeiramente áspera os detalhes todos sobre o ocorrido e onde é que o guarda-costas a havia visto pela última vez.
Pela primeira vez em seus trinta anos de vida, Ian sentiu uma angústia descomunal tomar conta do seu ser a medida em que pelas ruas de Fira, procurava por Alissa e para o seu desespero, nenhuma delas parecia albergar sua presença nela. Seus batimentos cardíacos tornavam-se cada vez mais rápidos e sua respiração pesada. No entanto, fora no momento em que ao passo em que seus olhos perscrutavam avidamente pelas ruas movimentadas de Fira, que eles repousaram naquela imagem, naquela cena que despoletara uma descarga indescritível de adrenalina que os níveis de epinefrina e norepinefrina em seu organismo aumentaram e seu corpo passara a ser dominado pela besta que ele sequer sabia habitar em seu interior, para então, com uma força ligeiramente anormal, afastar aquele homem de Alissa e só após assegurar-se que ela estava bem, direcionar toda aquela carga de adrenalina e furor, no homem que ousara assustá-la e tocá-la.
E céus!
Ele nunca pensara ser capaz de perder o controle daquele modo, não até vê-lo tentar tocá-la e encontrar o olhar aterrorizado de Alissa.
Em um gesto nervoso, suas mãos seguiram para suas pernas, no intuito de limpá-las sobre o tecido das calças, como se as mesmas estivessem sujas, ou apenas para limpar a perspiração que por elas começava a fluir, entretanto, ao fazê-lo pôde sentir a forma sólida e presumidamente de textura aveludada, que a mesma caixa que estivera todo o dia naquele mesmo bolso e a qual ele hesitara tirar todas as vezes em que dela se lembrara, se mantinha. Aquele era provavelmente, o momento perfeito para enfim entregar a mesma a quem de direito pertencia. Em meio ao cenário panorâmico que os fogos-de-artifício e o mar, o céu preenchido por pontos cintilantes e até mesmo o vulcão, tornavam aquele momento, o momento ideal para por fim entregar-lhe aquela caixinha, e ele pretendia fazê-lo. Ele ia fazê-lo.
Sua canhestra adentrara no bolso esquerdo de suas calças e estava ele a tirar a caixa do mesmo, quando Alissa virara-se para ele com um sorriso genuíno e radiante, encarando-o com o olhar cintilante e as maçãs do rosto salientes.
- É lindo, não é?
Por alguma estranha razão, aquele momento, aquele olhar... Tiveram um impacto tão grande em si, que foi como se de forma certeira, uma flecha tivesse atravessado o seu coração, e todo aquele receio... Aquela relutância que sabe-se lá porque cargas de água ele estava a sentir, vieram ao de cima com toda a sua força, tanta, que por um momento, ele petrificara, apenas perdido naquela visão, naquele sorriso radiante e olhar cintilante, o que resultara nele a franzir o cenho e de seguida, a mão que em seu bolso jazia, soltara a caixa aveludada, novamente, deixando-a ali estar, para em resposta aos dizeres alheios apenas assentir e um sorriso fraco adornar seus rubros.
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Olá Príncipes e Princesas!!!
Adivinhem quem está de volta?! Exactamente, aqui a vossa autora desnaturada. Por favor, perdoem-na, o trabalho a tem sugado a um nível descomunal, no entanto, para se redimir, preparou um capítulo novo para vocês, o qual ela espera verdadeiramente que vocês tenhm gostado!Adivinhem quem está de volta?! Exactamente, aqui a vossa autora desnaturada. Por favor, perdoem-na, o trabalho a tem sugado a um nível descomunal, no entanto, para se redimir, preparou um capítulo novo para vocês, o qual ela espera verdadeiramente que vocês tenhm gostado!
Enfim, só esta autora louca para falar convosco na terceira pessoa. Hihi. Maso facto é que espero que realmente tenham gostado do apítulo, pois novidades estão por vir e bem... Vamos ver como este casal irá reagir e lidar com tudo o que está por vir, não é mesmo?
Até breve!
Beijos e abraços. Não se esqueçam de cuidar-se sempre e de sorrir, sorrir faz bem a saúde mental.
Atenciosamente,
Naira Tamo.
20.04.2023
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