Capítulo XVIII
Cᥲρίtᥙᥣo 18
Sua atenção estava totalmente focada na mulher que diante de si estava, segundo aquela que fora a apresentação feita pela esposa do marquês, ela era esposa de um dos tantos ministros ali presentes, e diferente da maior parte das pessoas ali presentes, esta parecia mais amável e menos preconceituosa. Alissa não era parva, e nem tola, ela sabia perfeitamente que todos ali estavam a espera que ela cometesse alguma falha e tivessem a razão de que precisavam para enfim apontá-la com os dedos e criticá-la, porém, a mulher diante de si parecia diferente de todos os outros o que sem dúvida alguma, deixara-a mais à vontade em sua presença, embora que ainda com um olho aberto. É dito que o ataque vem sempre – ou pelo menos assim o é na maior parte das vezes – de onde menos esperamos, portanto era sempre bom manter a guarda, não é mesmo?
- Foi-me dito pelo meu esposo que com os últimos acontecimentos, o porto de Zenit mal tem recebido navios vindos de fora, já que eles temem um ataque.
- Tanto a família real, como os ministros e responsáveis por manter o país nos trilhos, estão a fazer o que lhes compete para solucionar a situação – respondera Alissa vagamente.
Uma das frases que seus professores no palácio asseguravam-se de que ela nunca esquecesse repetindo-a vezes e vezes sem conta, era que ela em hipótese alguma devia expressar sua opinião sobre a política para quem quer que fosse, fosse quando e/ou onde quer que fosse. E se não houvesse como escapar a questão, ela devia ser o mais vaga possível sobre.
- Eles moldaram-te bem... – falou uma voz a ela desconhecida. – Falas exactamente como um dos tantos robôs por eles criados.
E o ataque veio.
- Diz-me, eles também tiraram-te a essência toda para que te transformasses na princesa que eles desejam?
E tal como o previsto, fora inesperado. Porém, não fora nem da mulher com quem conversava e nem de qualquer outra pessoa presente naquele âmbito. Viera de alguém tão inesperado que sequer se encontrava ali até alguns segundos atrás.
Lentamente, seu olhar seguira até o local de onde se originara tal voz. E quando seus olhos pousaram sobre a figura a quem pertenciam aquelas ditas, ela imediatamente a reconhecera.
Princesa Cilla, de Surheyna. A tão temida e abominada monarca do reino Surheyna estava ali, em suas vestes delicadas e sofisticadas, mostrando quão abastado era a economia de seu reino, seu cabelo com fios dourados como o sol e seus olhos de um azul tão gélido quanto seu coração.
- Não é suposto fazeres-me uma vénia? – inqueriu com sua frieza usual. – Embora sejas agora uma princesa, eu claramente possuo uma posição mais elevada com relação a tua.
Um sorriso ladino adornou a face de Alissa. Então era aquele o jogo que ela queria jogar?
Ela queria humilhá-la diante de todos ali presentes?
- Segundo sei, devemos ambas reverência, uma a outra. E se Sua Alteza Real, Princesa Cilla de Surheyna puder fazer as honras, seria por mim imensamente estimada, já que neste momento encontra-se em solo limere.
A confusão estava clara na expressão da mulher que outrora era a única com quem Alissa conversa. Ela parecia não entender o que se estava ali a passar. Já Alissa, de expressão séria e postura erecta, deixava claro para quem quer que para ela olhasse naquele momento que não se deixaria intimidar, principalmente quando não havia feito nada de errado. Quanto a Cilla? Bem, era possível ver algumas fagulhas em seu olhar ao ter alguém a bater de frente com ela como Alissa o fazia naquele momento.
Ah! E não nos podemos esquecer dos outros convidados ali presentes. Que naquele momento, assistiam a tudo com extrema curiosidade e desejavam ardentemente ser uma mosca para ali estarem e a conversa puderem ouvir, ou então, mais obviamente, a mulher com quem Alissa conversava antes.
- Eu não preciso da tua estima! – rebateu Cilla.
- E nem eu da sua, então presumo que podemos ambas quebrar o protocolo real que ninguém irá falar a respeito, certo? Já que quem devia reverenciar primeiro é a Sua Alteza.
A tal átimo, fora possível para Alissa, ver a mulher trincar o maxilar contrariada.
- Vamos conversar – ditara a mulher em um tom de demanda e sem esperar que Alissa respondesse algo, colocara-se a andar rumando a varanda que havia ali perto.
E para evitar criar situações desnecessárias, Alissa a seguira.
- Presumo que estejas surpresa com a minha presença aqui – começara Cilla a dizer com um sorriso desdenhoso.
- Em verdade, não. Acredito que tal como eu e o Ian fomos convidados para cá estar, a Princesa e o seu irmão também o seriam.
Ignorando os dizeres de Alissa, Cilla prosseguiu.
- Quis ver com os meus próprios olhos, a mulher pela qual o Ian decidiu trocar-me.
Com o olhar crítico e analítico, Cilla olhara-a de cima abaixo com tanto desdém e desprezo que a morena teve a sensação de que era impiedosamente despida pela mesma.
- Eu pensei que serias algo mais... – pausou e franziu os lábios – inestimável. Raro, talvez? Proveitoso, principalmente. No entanto, não vejo nenhuma dessas características em ti.
A sobrancelha esquerda da morena arqueou-se em um arco perfeito, ao ouvir as ditas da mesma.
- É suposto eu ofender-me ao ouvir tais adjectivos a minha pessoa atribuídos?
- Pois devias. Se tens bom senso, devias.
- E no que é que a Princesa fundamenta as suas avaliações? – inqueriu Alissa. – É apenas com base no seu olhar? Na sua análise? É tendo tais pontos como fundamentos que eu me devo ofender?
Não era preciso ser um génio, ou um perfeito leitor de expressões e/ou mentes, para saber que suas palavras haviam ferido o orgulho da princesa, pois suas expressões mudaram de presunçosa, para confusa, e então para indignada e por fim para furiosa. E fora com base nesta última que ela decidira atacar Alissa em um ponto a ela delicado.
- Essa tua pose de mulher imbatível, não te vai servir de nada... – começou ela e a passos firmes dela se aproximou e apontando-a com o dedo, batendo com o mesmo em seu peito, ela falava. E Alissa, surpresa com a reacção da mesma, era forçada a dar alguns passos para trás. – Aos olhos de todos, tu vais continuar a ser uma plebeia que teve a sorte de subir de classe e tornou-se princesa. Tu serás devorada pela corte inteira sem piedade alguma e eu irei amar ver essa tua pose desmoronar e a nada seres reduzida – dissera com a expressão cruel.
- Qual é o teu problema?
- Tu pensas que o Ian casou-se contigo porque ama-te? Pensas que ele está perdidamente apaixonado por ti e que o vosso casamento será lindo e só flores como o tem sido até agora? – perguntou e uma risada de escarnio deixara seus lábios. – Ele irá usar-te até não seres mais necessária para ele, e quando isso acontecer? – Seu olhar fixara-se no de Alissa. – Ele irá descartar-te como a um objecto qualquer sem mais uso e tu não passaras de mais um objecto de decoração no Palácio de Limes, o qual eles usarão apenas quando lhes for conv...
- E como é que tu sabes disso? – A voz de Ian soara tão fria e cortante... aliás, mais fria e cortante que a dela. Facto, este que as fizera petrificar, mas principalmente a Cilla que parecera perder um pouco da sua cor naturalmente, rosada.
A passos firmes, Ian caminhou até elas e puxou Alissa para si, colocando-a a sua trás como se a quisesse proteger.
- Diz-me, como é que sabes tu sabes disso?
- Porque essa é a tua natureza, Ian – respondeu Cilla voltando a si. – Tu não amas a ninguém mais além da tua família e do reino. Tu não permites que exista lugar para ninguém em teu coração senão os dois já citados – um pequeno sorriso tomou seus lábios. – E é por isso que somos perfeitos um para o outro. Nós somos iguais, Ian. Nós magoamos as pessoas que amam-nos e desprezamos os demais. Eventualmente, tu irás perceber isso. E se não fores tu a fazê-lo – olhou para Alissa – ela o fará.
Alissa elevou o olhar para ela e quando o fez, o seu olhar assustou-a.
- É engraçado como pareces conhecer-me melhor do que eu próprio conheço-me a mim mesmo.
Uma risada fluiu pelos lábios tingidos de vermelho sangue, da loira.
- Eu conheço-te melhor do que pensas, sei que não a amas, e que o vosso casamento... – pausou. – Será que devo mesmo chamá-lo de casamento? É uma farsa para enganar a todos.
- Estou curioso – dissera Ian após soltar uma risada. – Estás assim tão incomodada que eu a tenha escolhido a ela, e não a ti? – Seu olhar encontrara-se com o dele e com a expressão séria prosseguiu. – Estás assim tão incomodada que eu a ame a ela e não a ti?
Alissa sentiu algo afundar-se em seu interior ao ouvi-lo dizer que a amava, pois embora soubesse que ele não o fazia, de algum modo incomodava-a a facilidade com a qual ele dizia aquela palavra com um significado tão forte, para encobrir suas mentiras. E bem lá no fundo do seu ser... Mesmo lá no fundo, ela ressentia-se e ressentia-o por se ter submetido a um casamento no qual a probabilidade de nele haver amor era quase nula, para não dizer, completa e irrevogavelmente, nula.
- Tu vais magoá-la, Ian – declarou Cilla dando continuidade a suas ditas. – Vais feri-la tão profundamente que a irás destruir por completo. E quando isso acontecer, eu irei adorar assistir a como o vosso Casamento Arranjado ruí sem sobrar nada para contar história a não ser os destroços daquilo que ele e principalmente, que Alissa era – sorriu e Alissa sabia que aquilo era ela a destilar seu veneno. – Aproveitem o resto do jantar.
E dito isto, ela deixara o local.
Nos minutos que se seguiram, tanto Ian, como Alissa mantiveram-se em silêncio a assimilar os dizeres da loira que ali os deixara, assegurando-se de que havia estragado a noite de ambos. E por mais que não se quisesse deixar ludibriar e/ou manipular pelas ditas da mesma, Alissa sabia que no fundo, elas tinham um fundo de verdade e em algum momento nos últimos meses pensara que algo parecido se fosse a passar. A jovem princesa não desejava por um casamento cheio de amor, ela sabia que pedir por algo parecido tendo em conta as circunstâncias podia ser demasiado, contundo, ela queria apenas um casamento no qual havia respeito, companheirismo, fidelidade e amizade. Ela não esperava que Ian a amasse, mas que a respeitasse e fosse seu companheiro. Mas as ditas de Cilla...
Sua vida na corte não seria fácil, ela estava ciente disso. Sempre soube e começava a sentir tal facto em sua pele, porém não queria acreditar que as pessoas estivessem tão indignadas que ela se tivesse tornado uma princesa ao ponto de desejassem ardentemente que ela falhasse. Estaria ela realmente pronta para aquilo? Seria ela forte o suficiente para lidar com tudo o que estava por vir? Porque ela sentia que algo estava por vir, talvez não tão já. Mas eventualmente.
- Alissa? – chamou-a Ian e ela levantara o olhar para ele. – Estás bem?
Um pequeno sorriso adornara seus lábios, embora fosse tão fraco que nem aos seus olhos chegasse, ainda era um sorriso.
- Estou.
- Ela não magoou-te? Ou disse algo...
- Eu estou bem, Ian – assegurou-o.
- Sobre o que a Cilla disse...
- Não vou levar em consideração – interrompeu-o concluindo suas ditas. Não queria falar mais sobre aquilo, ou ouvi-lo dizer algo mais, que iria feri-la mais do que Cilla o fizera. – Ambos concordamos desde o início, que iríamos apenas manter as aparências, então não teria como tu magoares-me, não é? Eu não tenho sentimentos por ti e nem tu por mim. Então não temos porquê preocupar-nos.
Ela não sabia...
Mas eles tinham. E isso seria provado nos dias subsequentes.
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Olá Príncipes e Princesas!!!
Voltei!
Depois de um século, mas voltei. E com um capítulo bem quente, não?
Então digam-me...
O que é que acharam? Será que a Cilla tem razão? Será que o Ian é que nem ela e irá magoar a Alissa?
Tipo assim... Eu, Naira, não sei de nada. Tanto que para escrever esse capítulo levei imenso tempo a fazê-lo. Pensar e colocar no papel quão insensível e fria a Cilla é foi mais difícil do que eu esperava que fosse e céus...
Sinto que ela ainda irá aprontar imenso. Ou talvez não.
Vamos esperar para ver o que acontece, não é mesmo?
Bem, então até lá espero que aguardem tão ansiosamente quanto eu o faço.
Até breve!
Beijos e abraços. Não se esqueçam de cuidar-se sempre e de sorrir, sorrir faz bem a saúde mental.
Atenciosamente,
Naira Tamo.
02.09.2020
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