Capítulo V
Cᥲρίtᥙᥣo 5
Estavam ambos em seus aposentos, porém cada um focado em seus próprios afazeres, Ian estava concentrado em seu portátil enquanto digitalizava algo no mesmo e vez a outra franzia o cenho provavelmente confuso ou irritado com algo que via na tela do aparelho. Já Alissa olhava a caixa de entrada do seu correio electrónico enquanto aguardava que o mais velho lhe dissesse quando iriam partir. Apesar de estarem ambos em seu respectivo mundo, a dúvida sobre como Alissa conseguira escapar ilesa naquela manhã, ainda pairava na mente do jovem príncipe que queria a todo o custo sanar tal dúvida, mas para tal ele teria de questionar a sua então esposa, sobre como o fizera, e fora exactamente isso que ele fizera.
- Como é que conseguiste? – inqueriu e Alissa levantou o olhar intrigada.
- O quê?
- O lençol e os hematomas?
Alissa olhou para o mesmo com o semblante sério e então fechou os olhos soltando um suspiro.
- Porque tu achas mesmo que eu te irei dizer? – indagou Alissa e continuou com o que fazia no telemóvel.
- Tu tens noção de que se eu quiser posso muito bem, reportar esta situação ao meu pai e a corte, certo? – ameaçou-a Ian e Alissa revirou os olhos.
- Então de que é que estás à espera? – olhou para o mais velho com a expressão desafiadora. – Vai fazê-lo. Fá-lo, Príncipe Ian. – incitou-o. – Reporta o que se passou aqui na noite passada. Di-los a todos que eu recusei-me a dormir contigo e forjei as provas da consumação do nosso casamento – desafiou. – Não tenho nada a perder, mesmo – acrescentou Alissa dando de ombros.
- Certeza que não tens nada a perder? Tu tens mesmo a certeza disso? – questionou Ian. – Ah! Claro... Tu não tens nada a perder, mas a tua família tem. – Discretamente, a mão do novo membro da realeza de Limes fechou-se em punho. – A ti o máximo que te pode acontecer é ter de divorciar-se e abdicar do trono, e na pior das hipóteses ser banida do Reino. Mas a tua família... é a tua família quem irá pagar pelos teus erros, começando pelos teus pais até os filhos dos filhos dos teus irmãos.
- Isso é uma ameaça, Príncipe Ian?
- Cabe a ti decidir como é que a irás levar – respondeu Ian com a expressão neutra. – Se como uma ameaça, ou uma advertência.
Alissa deu uma breve risada, isenta de emoção. Desde o início, sempre soubera que as coisas não seriam fáceis e tendo Ian como adversário, pior ainda.
- Eu não tenho medo de ti, Ian. Ou do teu título.
- Pois devias – apontou ele. – Tanto eu, como ele, podemos acabar tanto contigo, como com a tua família em um estalar de dedos.
A jovem Princesa sentiu um nó formar-se em sua garganta e na boca do estômago. Estaria ela preparada para enfrentar a batalha que se aproximava e vencer a guerra que eclodira entre os dois?
O som do telemóvel de Ian a tocar soou pela sala de estar e o jovem Príncipe atendeu a ligação que acabava de entrar, após alguns minutos na chamada, ele finalmente findara a mesma e olhou para Alissa.
- Os teus pais aqui – avisou-a. – Eles estão no jardim a tua espera.
- Certo. – Respondeu Alissa e levantou-se. Ela passara as mãos pela saia do vestido e então deixou os aposentos, seguida por Ian.
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Palácio de Limes – Jardim da Ala Oeste
Assim que Alissa chegou ao jardim, fora recebida por um abraço caloroso por parte da sua mãe e um sorriso do seu pai, que logo de seguida cumprimentava Ian, este último que ela sequer sabia que a seguira.
Alissa retribuiu o abraço da mãe e sorriu para a mesma, quando ela apartara o abraço e afastara-se ligeiramente dela, ainda com as mãos a segurar os braços da filha e a analisá-la minuciosamente.
- Alissa, minha querida, tu estás linda – disse Lynn após terminar sua análise e tornar a abraçá-la. – E pelo que vejo a tua noite de núpcias fora intensa – acrescentou com um sorriso e discretamente, apontou para o "suposto" hematoma que havia em seu pescoço.
- Mãe! – exclamou Alissa constrangida, não só pelo facto de o hematoma ser falso, como também de elas estarem a iniciar uma conversa sobre a sua vida sexual activa que em realidade nunca fora activa.
- O quê?! – perguntou a mãe dando de ombros. – Estás preocupada que eu esteja a falar sobre o teu hematoma? – continuou. – Querida, nós e a Limes inteira vimos o lençol que provava a tua virgindade.
- Mãe, por favor... – reclamou Alissa e baixou a face, envergonhada. Mesmo que tal sangue não fosse de facto a prova da sua virgindade, já que essa continuava intacta. – Não vejo a necessidade disso.
- Por que não, filha? – perguntou Lynn e acrescentou. – É a prova de que tu eras virgem antes do casamento.
- Pois, mas ninguém, precisa saber disso, só eu e o meu marido – rebateu Alissa.
- De facto, e tu continuas a falar aquilo que te incomoda, como sempre, sem problema algum – concordou Lynn.
- Eu acho essa tradição, extremamente antiquada e evasiva.
- Alissa, não digas coisas dessas. Não quando o Príncipe Ian cá está – repreendeu-a Lynn. – Apesar de ser o teu esposo, ele continua a ser o Príncipe deste Reino e se falas mal das tradições do mesmo, estás automaticamente a falar mal da governação da família real.
- A senhora sabe perfeitamente que...
- Está tudo bem, Condessa Jory – interveio Ian e enlaçou o braço a volta da cintura de Alissa. Acção, essa que a deixara tensa e surpresa. Não esperava tal atitude de Ian e em verdade, a mesma a deixava um tanto incomodada.
- Condessa, não, Príncipe Ian – negou Lynn. – Trata-me apenas por Lynn, afinal agora que desposaste a minha Lis, temos um pequeno elo de ligação – pediu.
- É um pouco estranho para mim tratá-la de forma tão casual quando passei a vida toda a chamá-la de Condessa.
- De facto, tens toda razão – concordou Lynn –, mas podes sempre tentar.
- Prometo fazê-lo. – Um sorriso adornara seus lábios.
- Agora vamos deixar-nos de falinhas mansas e vamos ao que interessa – começou, Rance. – Ouve-me bem rapaz, podes ser o príncipe de Limerance ou até mesmo o rei, a mim não me interessa que título tu carregas, tens de prometer-me que vais cuidar da minha menina, ou então eu não me responsabilizo pelos meus actos.
- O senhor não tem com o que se preocupar, que eu vou cuidar muito bem da Alissa – respondeu Ian. – Afinal de contas ela é minha esposa e eu amo-a – acrescentou Ian e abraçou Alissa.
"O quê?", pensou Alissa e teve que conter-se para não ficar de queixo caído na frente dos seus pais, "Como pode ele mentir tão facilmente sobre isso?", perguntou-se ela.
- Ainda assim, quero que me prometas que vais cuidar dela, que vais valorizá-la e acima de tudo que não a vais fazer sofrer, aconteça o que acontecer e independentemente de quais forem as circunstâncias – pediu Rance com uma expressão séria no rosto, que mostrava que ele não estava para brincadeiras, pois na realidade não estava.
Alissa olhou para Ian, com medo de que ele dissesse que não podia prometer tal coisa, afinal de contas era tudo uma farsa, ele não a amava, mas as únicas pessoas que sabiam disso eram o seu pai, – que era o mesmo homem que estava naquele momento a obrigar o Ian a contar mais essa mentira, irónico, não é mesmo? – o Rei, a Rainha e os irmãos dele. Nem a sua mãe ou o resto da sua família sabiam do enredo em que se metera e não queria que sua mãe soubesse um dia depois do seu casamento, se dependesse dela, a sua mãe nunca saberia, mas claro... Em algum momento, todo o segredo acaba por ser descoberto, ela só rezava para que esse momento ainda estivesse muito, mas mesmo muito longe.
- Prometo – respondeu Ian e viu Alissa soltar um suspiro de alívio, esta que parecia estar demasiado preocupada com a resposta que ele fosse a dar. – Não me imagino a magoar, aquilo que tenho de mais precioso – disse Ian e para comprovar suas ditas, depositou um breve selar nos lábios de Alissa. Quando afastou-se dela, viu que tal como no dia anterior, na capela, ela sorria do mesmo jeito encantador que o fizera, e sentiu um sentimento estranho tomar conta de si.
- E para onde é que vocês vão? – perguntou Lynn sem conseguir esconder sua curiosidade.
- A Condessa... Digo, a Lynn vai ter que esperar pela nossa volta, porque nem a Alissa sabe para onde é que vamos, ou quando é que voltamos – respondeu Ian.
- E vão deixar que eu me morda de curiosidade até que vocês regressem da vossa lua-de-mel?
- Sim, diz que sim.
Um homem vestido formalmente surgiu e saudou-os antes de pedir para falar com Ian, este que fizera sinal para que ele se aproximasse. Feito isso, o homem sussurrara algo no ouvido do príncipe que logo respondeu-o de volta em um tom baixo, e então o homem tornou a fazer uma reverência e foi-se embora.
- As nossas malas já estão todas no carro, temos que ir – informou Ian.
- Vamos sentir muito a tua falta, filha – disse Lynn enquanto rompia em lágrimas e abraçava Alissa.
- Também eu, mãe – respondeu a mais nova. – Mãe, por favor. A chorares assim, até parece que eu nunca mais irei voltar.
- Vais fazê-lo, mas já não será a mesma coisa – apontou a mãe e Alissa tinha de concordar. De facto, depois que voltasse da sua lua-de-mel ou de fel... Ela ainda não sabia qual das duas iria ter nessa viagem, as coisas não mais seriam as mesmas. Quando ela regressasse, seria para o Palácio, para a corte e não para a casa dos seus pais.
- Cuide bem da minha filha, sua majestade, que se algo lhe acontecer considere-se um homem morto – sussurrou Rance ao ouvido de Ian enquanto o abraçava. – A mim não me importa se o vosso casamento é real ou não, se é um príncipe ou não, se magoas a minha filha eu dou cabo de ti.
- O Conde não tem com o que se preocupar – respondeu Ian a Rance. – Alissa, nós temos que ir.
- Adeus, pai – despediu-se Alissa e abraçou ao pai. – Amo-vos aos dois.
- Nós também, querida – respondeu Rance e viu a filha entrar na limusina preta acompanhada do seu esposo.
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Durante o trajecto até ao aeroporto ambos mantiveram-se em silêncio, provavelmente perdidos em seus próprios pensamentos. Todavia, era Alissa quem sua mente divagava sobre os acontecimentos que se deram pouco antes de despedirem-se dos seus pais. O modo como o jovem Parrik agira, era algo atípico de sua personalidade, ou pelo menos, da personalidade que ele estava tão determinado em mostrar para ela nos últimos tempos. Mas claro, apesar de tudo isso e de todas as discussões que eles tinham, Alissa não podia negar que o facto de ele ter interpretado o papel do esposo apaixonado diante da sua mãe foi sem dúvida uma acção louvável e que lhe salvara a pele. Lembrando que dos quatro que ali estavam, Lynn era a única que não sabia a real natureza daquele casamento e, bem... foi tendo tudo isso em mente que a mais nova integrante da Família Real Parrik, quebrou o silêncio sepulcral que pairava no carro.
- Obrigada – agradeceu em um sussurro e sem olhar directamente nos olhos do mais velho.
- O quê? – indagou Ian parando o que fazia.
Alissa questionava-se se sempre que estivessem juntos, ele estaria colado a aquele tablet e com a atenção toda virada para ele. Mas talvez até fosse melhor assim, pois não teriam de forçar conversa alguma quando o que mais sabiam fazer, era discutir.
- Podes falar um pouco mais alto? Pois acho que não fui capaz de ouvir perfeitamente o que disseste – continuou Ian, tendo Alissa fechado os olhos e expirado profundamente para evitar revirá-los, pois estava mesmo muito perto de fazê-lo.
- Não forces – declarou Alissa. – Tu ouviste perfeitamente o que eu disse. Então não forces.
- Eu achei que estávamos em meio a um agradecimento, como é que isto de repente mudou para ti com os nervos a flor da pele? – questionou Ian com um sorriso presunçoso. Ele sem dúvida alguma gostava de testar a paciência da mais nova, e sinceramente? Ele estava a conseguir. – Vá... Continua de onde paraste.
Alissa mordeu o interior do lábio inferior e respirou fundo.
- Obrigada, Príncipe Ian – repetiu o agradecimento, desta vez com mais firmeza e tendo acrescentado o título do mesmo.
- Porquê?
- Por não teres contado a minha mãe que não existe amor entre nós e que o nosso casamento foi arranjado.
- Sempre as ordens, também eu não me arriscaria a perder a confiança que a tua mãe tem por mim, quero dizer, ela é uma óptima sogra.
Alissa soltou uma gargalhada que iluminou o seu rosto e preencheu o silêncio que havia no carro. Aquela era primeira vez que ele a via gargalhar verdadeiramente desde o seu reencontro no jantar do seu trigésimo aniversário e até então, nem ele achava ser possível ficar encantado pelo som da gargalhada de alguém como ele ficara ao ouvir a gargalhada de Alissa.
- Tu achas mesmo que a minha mãe é uma óptima sogra?
- Sim, foi a primeira impressão que tive dela.
- Espera só até fazeres algo que não lhe agrade, para ver se vais continuar a ter a mesma opinião sobre ela.
- Por quê? Ela é assim tão assustadora?
- Tu já viste bem como é que eu sou? – perguntou Alissa com a expressão séria.
- Claro! Tem como não ver?
- Pois, a minha mãe é bem pior.
- Eu não acho que ela seja esse monstro de sete cabeças que tu dizes ser.
- Como eu disse, espera só até fazeres algo que não lhe agrade.
Assim que chegaram ao aeroporto, o jovem casal dirigiu-se imediatamente ao jacto da família real, e alguns minutos depois, após a tripulação de bordo organizar-se a aeronave descolou rumo ao destino da lua-de-mel dos recém-casados.
Em meio a viagem, depois de terem passado as primeiras horas da mesma em uma conversa civilizada.
Um milagre?
Talvez.
Mas, enfim... Algumas horas após a descolagem, Alissa adormecera e inconscientemente repousara a cabeça no ombro de Ian que naquele momento a analisava e zelava pelo seu sono.
Sua mente gravava cada detalhe da mulher que descansava serenamente em seu aconchego, e que vez a outra remexia-se em seus braços em busca de uma melhor posição para o seu tão merecido descanso. Ian não era um completo ignorante no que dizia respeito a casamentos, principalmente, no que concerne a Casamentos Reais, ele sabia perfeitamente, quão exaustivo e fatigante havia sido para a mais nova as últimas semanas, e por mais que ela escondesse seu cansaço por baixo da maquiagem devidamente colocada com o intuito de esconder tal falha ele estava ciente da real situação.
Naquele momento, em meio ao seu sono e alheia a tudo o que se passava ao seu redor, Ian reparou o quão frágil ela parecia. Diante daquela imagem ela em nada se parecia com a Alissa que estava sempre na defensiva e que não aceitava ser oprimida, naquele momento, ela mais se parecia com uma mulher frágil que precisava ser protegida, protegida por ele. Em um movimento um tanto desleixado, ela virou-se e mudou de posição, encostando sua cabeça estava a janela da aeronave.
Não havia dúvidas de que ter aquela mulher como sua esposa seria um desafio e tanto, porém nem mesmo ele sabia, mas inconscientemente, ele estava disposto a aceitar tal desafio e conquistar a mulher obstinada e com determinação em seu olhar cor de Ónix.
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Olá Príncipes e Princesas!!!
Como é que estão?
Enfim voltei com um novo capítulo.... Yeeeeiiiiihhhh!!!
E a motivação para publicar o mesmo veio de uma leitora muito querida, que ontem enviou-me um comentário que deu-me o empurrão de que estava a precisar.
Obrigada ericamagalhaes16
Agora digam-me, o que é que acharam do capítulo?
Esses dois... Pensam que eles se irão dar bem na lua-de-mel ou será uma lua de fel?
Rsrsrs
Quem sabe?!
Deixem-me saber as vossas opiniões nos comentários.
Beijos e abraços bem gostosos para vocês.
Até breve, até lá não se esqueçam de cuidarem-se e alimentarem-se como deve ser.
Atenciosamente,
Naira Tamo.
25.09.2019
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