Capítulo 44
Minha cabeça está cheia. Muitos problemas, nenhuma solução. Sinto como se estivesse sufocando, o mundo ruindo aos meus pés. Estou a um passo de gritar com qualquer um que se atreva a falar comigo.
— Eu preciso sair daqui — murmuro, levantando da cadeira enquanto algum dos meus investidores continua a apresentação sobre lucros.
Desfaço o nó da gravata, o ar se tornando cada vez mais escasso à medida que saio da sala de reuniões. Encosto-me na parede do corredor, tentando respirar fundo, buscando desesperadamente o ar que me falta.
— Cazzo.
— Matteo?
Olho para o lado e vejo Betina me encarando com o cenho franzido. Minhas mãos estão trêmulas, e ela percebe.
— Está tudo bem? — sua voz carrega preocupação.
— Não — respondo, balançando a cabeça. Ela se aproxima e segura minhas mãos — Não está nada bem — admito, enquanto encaro seus olhos. Ela me abraça, e por um breve instante, o peso do mundo parece diminuir um pouco.
— O que está acontecendo? — Betina pergunta, ainda me abraçando. — Me conta, Matteo, você parece angustiado.
— É a Aurora — solto de uma vez, as palavras se atropelando. — Ela não sai da minha cabeça. Eu... eu não posso... eu não consigo.
Ficar sem ela é como tentar respirar debaixo d'água. Cada momento longe é como se eu estivesse me afogando em um abismo sem fim, é como tentar respirar debaixo d'água. Cada momento longe é como se eu estivesse me afogando em um abismo sem fim. Sinto meus pulmões se comprimirem, implorando por alívio, mas nada parece suficiente. Não consigo tirá-la da cabeça, não importa o quanto eu tente, quanto mais eu fujo desse sentimento, mais ele me prende.
Aurora. O nome dela ecoa na minha mente. O jeito como ela sorri, como fala, como me olha... Como ela simplesmente faz tudo parecer mais leve. Como ela tem esse efeito devastador sobre mim, sem ao menos se esforçar.
Eu deveria manter distância. Deveria ser racional, controlar isso como sempre fiz com tudo na minha vida. Mas, com ela, não há controle. Ela me tira do eixo, do meu controle calculado, das minhas decisões precisas. E eu odeio isso. Odeio como me sinto vulnerável, como ela quebra todas as minhas defesas apenas existindo ao meu redor.
— Matteo? — Betina me chama de novo, com o tom mais suave agora, me puxando de volta da tempestade em minha mente.
— Não consigo parar de pensar nela — confesso, a voz saindo baixa, quase em um sussurro. — Eu tento, mas é impossível. Ela está em tudo, em cada pensamento, em cada maldito segundo.
Betina me olha com um olhar compreensivo, como se soubesse exatamente o que estou sentindo, mas não diz nada. Ela apenas aperta minha mão, me dando um momento de silêncio, talvez entendendo que palavras não resolveriam a confusão que estou vivendo agora.
Eu respiro fundo, tentando organizar os pensamentos, mas tudo volta para o mesmo ponto: Aurora.
O problema é que eu ainda não sei se é a melhor ou a pior coisa que já me aconteceu.
— Vamos para a sua sala — minha irmã sugere, depois que um grupo de pessoas passa por nós, lançando olhares curiosos. — Você precisa de privacidade.
— Não — nego, sentindo meu corpo inteiro em chamas enquanto passo por ela. — Eu preciso vê-la, saber como ela está... Eu preciso dela.
— Você prometeu deixá-la em paz! — A voz de Betina se eleva, firme. — Você acabou com tudo, lembra? — Ela cruza os braços, os olhos fixos em mim. — Você terminou, Matteo!
As palavras de Betina batem como um soco no estômago. Eu sei que ela está certa. Eu terminei. Fui eu quem decidiu que era melhor para ambos, que seria mais fácil se afastar. Mas, agora, cada segundo longe de Aurora me destrói por dentro.
— Eu pensei que estava fazendo a coisa certa — murmuro, esfregando o rosto com as mãos, tentando afastar o peso dessa decisão. — Mas tudo parece errado sem ela.
Betina suspira, suavizando um pouco a postura, mas ainda me encara com firmeza.
— Matteo, você está perdido. E correr atrás dela desse jeito só vai piorar as coisas. Ela precisa de espaço... e você também.
— Eu não posso dar esse espaço — respondo, quase desesperado. — Eu não consigo. Toda vez que fecho os olhos, é ela que vejo. Quando tento focar no trabalho, só penso no que ela está fazendo. Eu estou... eu estou enlouquecendo sem ela, Betina.
Ela balança a cabeça lentamente, sua expressão uma mistura de empatia e frustração.
— Você precisa se encontrar primeiro, Matteo. Correr para ela agora, no meio desse caos, vai te fazer perder de vez. Você sabe disso, mas está com medo de admitir.
Eu fico em silêncio, a batalha dentro de mim crescendo a cada segundo. Ela está certa, de novo. Mas como posso simplesmente deixar passar? Como posso lidar com esse vazio constante sem tentar vê-la?
— Eu preciso dela... — digo mais uma vez, mas desta vez a minha voz é um sussurro, quase implorando. Eu sei que há verdade nisso, mas também sei que é mais complicado do que simplesmente querer.
Betina dá um passo à frente e toca meu ombro, seu olhar suave agora.
— Se for atrás dela apenas para vigiá-la, é melhor não ir. Mas se for em busca dela, vá com a certeza de que está indo para ficar, sem mais abandonos.
Ouço um pigarreio o que desprende minha atenção dos olhos da minha irmã, meus olhos alcançam a Cristal que nos olha com um olhar de pânico.
— Cristal? — Permaneço no mesmo lugar, observando-a minuciosamente. — Está tudo bem?
— Eu pedi ao motorista para me trazer até aqui porque... tem um gato morto na cozinha do meu apartamento. — Ela gesticula com as mãos, e eu troco um olhar rápido com Betina. — Ele era branco e... e tinha sangue espalhado por todos os lados...
— Tudo bem. — Betina se aproxima dela assim que Cristal começa a chorar copiosamente. — Matteo, chame a polícia.
Desperto do meu transe e rapidamente pego meu smartphone no bolso. Digito o número da polícia, que atende imediatamente. Explico o que aconteceu e eles informam que estão a caminho.
— Estou com medo. — Cristal se afasta do abraço da minha irmã e corre até mim, agarrando-se ao meu corpo. Meus braços permanecem imóveis ao lado do corpo, sem saber como reagir. — Preciso da sua ajuda.
— Eu vou pegar uma água para você, Cristal. — Betina diz suavemente, levantando-se e caminhando em direção à cozinha, tentando manter a calma diante da situação.
Enquanto ela sai, olho para Cristal em meus braços, seu corpo tremendo levemente. Nunca fui bom com consolo, mas vendo-a tão frágil, sinto uma estranha urgência de protegê-la.
— Vem, vamos para minha sala. Você vai se sentir mais segura lá. — Minha voz sai mais firme do que eu esperava.
Cristal levanta o rosto, os olhos marejados, mas assente em silêncio. Com cuidado, guio-a pelo corredor até minha sala. Assim que entramos, fecho a porta atrás de nós, criando uma barreira contra o caos lá fora. O ambiente é mais tranquilo, e o som abafado do trânsito parece distante.
— Senta aqui. — Indico o sofá de couro preto próximo à janela. Cristal obedece sem hesitar, encolhendo-se no canto do sofá, os olhos ainda perdidos em algum ponto distante.
— Matteo... — Ela começa, mas sua voz falha. — Eu não consigo parar de pensar naquela cena... o sangue, o gato... — Suas palavras saem entrecortadas, como se revivesse tudo novamente.
— A polícia já está a caminho. Vamos resolver isso, eu prometo. — Tento transmitir segurança, embora por dentro eu também esteja tentando processar o que aconteceu.
Nesse momento, Betina retorna com um copo de água, entregando-o a Cristal.
— Toma, vai te ajudar a se acalmar. — Betina sorri gentilmente.
Cristal pega o copo com as mãos trêmulas e bebe um pequeno gole, tentando se recompor. Eu e Betina trocamos um olhar rápido. Sabemos que não será fácil tirá-la desse estado.
— Obrigada, Betina. — Ela murmura, colocando o copo sobre a mesa de centro.
— Quer que eu fique aqui com vocês? — Betina pergunta, sua voz cheia de preocupação.
— Não, você já fez muito. — Cristal tenta forçar um sorriso, mas não chega aos seus olhos. — Acho que só preciso de um tempo...
Betina hesita por um segundo, mas assente, dando um leve aperto no ombro de Cristal antes de sair da sala.
Quando ficamos sozinhos, me aproximo e me sento ao lado dela no sofá, embora mantenha uma distância.
— Você está segura aqui, Cristal. Nada vai te machucar. — Falo, observando-a.
Ela desvia o olhar por um instante, mas depois volta a me encarar, com os olhos ainda assustados.
— Obrigada, Matteo... de verdade. — Sua voz é baixa, mas sincera.
— De verdade. — Digo em um murmuro encarando seus olhos que contém uma aura diferente de anos atrás.
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