3.
Eram quase dez da noite quando saiu de casa para a sua habitual atuação no conhecido Bar da Velha Senhora no Cais do Sodré. A hora do espetáculo era às onze e, nesse espaço de tempo, Bianca conseguia perfeitamente efetuar o caminho de casa até ao bar e ainda preparar-se para a atuação. Afinal, já atuava como bailarina burlesca há quatro anos e há muito que os rituais prévios de caracterização se encontravam enraizados nos seus hábitos quotidianos.
Chegada ao bar, cumprimentou os empregados que se encontravam atrás do balcão, encaminhou-se para uma pequena divisão que servia de camarim e preparou-se para o espetáculo. Em frente a um espelho, com dois focos de luz branca a apontarem para o mesmo, começou por tratar da maquilhagem, colocando a base. Passou de seguida para as pálpebras, onde utilizou uma sombra branca e finalizou com um risco na pálpebra superior cuja espessura aumentava à medida que o eyeliner preto caminhava para a parte exterior do olho, bem ao estilo das divas de cinema dos anos 40, mas não sem antes rematar com a colocação de um par de pestanas postiças. Por fim, concluiu com um batom cor-de-rosa nos lábios e passou então ao figurino que iria usar.
–Já estás pronta? – Perguntou a D. Isabel que veio ter com Bianca ao camarim. Era ela quem subia ao palco antes das bailarinas para apresentar o espetáculo.
–Estou quase, são só mais dois minutos. – Respondeu Bianca. – Mas já que aqui está, aproveito para falar consigo.
–Diz lá então! – Entrou para dentro do camarim.
–Ainda está com a ideia de colocar mais uma bailarina a atuar aqui no bar? Sei de uma rapariga que poderá ser a pessoa indicada! – Introduziu Bianca sem querer revelar que essa rapariga era sua amiga.
–E tem experiência?
–Ainda não tem muita, até porque ela é mais nova do que eu. Mas, se quer a minha opinião, acho que tem imenso potencial e é capaz de ir bem longe! Ela só precisa de uma oportunidade para mostrar o que vale.
–E tens algum contacto dela? – Perguntou Isabel. Se Bianca tinha críticas assim tão boas acerca da rapariga então iria dar-lhe uma oportunidade.
–Sim, trouxe um CD com os trabalhos que ela já fez. Ela chama-se Sofia e os contactos dela estão todos aí. – Retirou o CD da mala e entregou-o à patroa.
–Muito bem. Vou dar uma vista de olhos então. – Afirmou aceitando o CD. – Já estás pronta? Vou anunciar-te então. – Saiu do camarim e dirigiu-se ao palco onde Bianca ia atuar. – Ora muito boa noite a todos! Espero que o serão esteja a ser do vosso agrado. E com certeza que vai ser ainda mais com a atuação que aí vem. Vocês já a conhecem, ela é uma artista fantástica e dispensa apresentações. Meus senhores, fiquem com Miss Dior! – Abandonou o palco e a manifestação da plateia antecedeu a entrada triunfal de Bianca, que em palco atendia por aquele nome artístico.
Colocou-se em posição, o público silenciou-se e aguardou pelo início da música, que despoletou o espetáculo.
Começou então por percorrer o palco em pontas dos pés seguindo o compasso da música e rapidamente se livrou da cartola. Continuando a caminhar sobre o palco ergueu os braços ao alto, envoltos numa estola de penas vermelhas e, brincando um pouco com o acessório, descartou-se igualmente da mesma. Continuou a dançar e, fixando sempre o olhar na plateia que se deleitava a observar os seus movimentos bamboleantes, foi despindo com alguma lentidão as
luvas em veludo cor de vinho que lhe cobriam os braços quase por completo rodopiando-as antes de as deixar cair no chão.
Entretanto entra em palco uma cadeira que, num instante, Bianca tratou de a colocar no centro do palco. Sentou-se e ergueu a perna direita bem ao alto, baixando lentamente o tronco, apoiando-se nas costas da cadeira para não se desequilibrar. Voltou à posição inicial e levantou-se, colocando a ponta do pé em cima do assento. Ergueu de novo o tronco para trás e gesticulou com o braço. De seguida retirou as meias de rede. Primeiro a da perna direita, dando depois a volta à cadeira e retirado a da perna esquerda, que havia poisado na cadeira. Desfez-se da cadeira e continuou a dançar por todo o palco. O vestido curto de alças fininhas cor de vinho foi sendo retirado lentamente. Começou por abrir ligeiramente o fecho de lado ao mesmo tempo que abanava lentamente as ancas, deixando o público em êxtase. Depois de fazer sofrer a plateia durante dois longuíssimos minutos a peça de vestuário acabou por escorregar do seu corpo abaixo deixando à vista o sutiã de cor azul enfeitado com pedras da mesma cor. A figura esbelta de Bianca levou os espetadores ao delírio. Continuou a dançar e retirou o corpete que lhe cobria o tronco e que fazia conjunto com o sutiã. Mais uma vez, Bianca levou a expectativa do público ao extremo e, só mesmo no final da música, é que retirou a derradeira peça que ainda restava, terminando a sua atuação em palco apenas com uns mini calções azuis com folhos e um par de tapa mamilos da mesma cor em forma de flor.
Bianca foi ovacionada com uma enorme salva de palmas em pé, fez uma vénia e abandonou o palco sorridente, regressando ao camarim. Como habitual, a D. Isabel veio ter com Bianca ao camarim para trocarem impressões sobre o espetáculo.
–Parabéns! Estiveste fantástica, aliás, como sempre!
–Obrigada. O público também foi fantástico! – Acrescentou enquanto retirava a maquilhagem com o auxílio de um disco de algodão e um desmaquilhante. Esta tinha sido, sem dúvida, uma das suas melhores atuações de que tinha memória. Por mais cansada que ficasse no final das suas atuações, a verdade é que o carinho e a admiração daqueles que, todas as noites, faziam questão de a ver atuar e aplaudir lhe davam ânimo para continuar a fazer do burlesco, a sua forma de vida.
–Tudo graças ao teu talento, minha querida! Agora vai para casa descansar que na 6ª feira vamos ter outra vez casa cheia.
–Se fossem todos os dias assim…! – Exclamou Bianca. Trocou de roupa e foi então para casa. – Boa noite, D. Isabel!
–Boa noite e descansa que bem mereces!
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