| C a p í t u l o 4 |

— Ainda bem que não gosto de macho! Deus me livre passar por uma coisa dessas! — Sentada na cama, minha irmã me encarava, horrorizada.

— Pois é. Mas o que é dele está guardado. — De frente para o espelho, terminei de lidar com os botões da minha camisa.

— Estou vivendo por esse momento! — O reflexo me mostrou o largo sorriso de Laís. — E também estou louca para o dia em que você vai contar para o restante da família que está grávida! Ainda nem acredito que vou ser tia!

— Fala baixo! — pedi, me voltando para ela. — Eu já disse que não vou contar por agora. Não estou preparada. — Fui até a penteadeira e comecei a revirar minhas maquiagens.

— Mas você sabe que não precisa se preocupar, né? Eles vão amar a novidade! Papai vai levar um susto, mas, depois, vai soltar fogos! Mamãe provavelmente terá uma pequena crise, mas logo estará pulando de alegria! E nosso irmão adora crianças. Vai ficar feliz logo de cara quando souber que terá um sobrinho!

Parei o que estava fazendo e me virei.

Usando seu kigurumi de unicórnio — um resquício da nossa noite do pijama —, com alguns fios loiros escapando pela abertura do capuz e sentada na posição de lótus — sua favorita, mesmo longe das aulas de yoga —, minha irmã exibia uma expressão superanimada.

Testemunhar todo o seu entusiasmo e antever a comemoração dos demais me deixava ainda pior por dentro. Não estava empolgada ou minimamente feliz com a ideia de ser mãe. Não repudiava a maternidade, mas ter um filho aos vinte e cinco anos, sozinha, não estava exatamente na minha lista de coisas para fazer antes de morrer.

Não que me importasse com a irresponsabilidade daquele babaca. Não precisava dele. Para nada. Podia muito bem ter e criar uma criança sozinha. Porém, sempre que me imaginava com um bebê no colo, eu visualizava um marido amoroso ao meu lado. Quando pensava nisso, enxergava Joaquim acariciando o rostinho do nosso filho.

Ver meus sonhos e planos ruindo, em razão de uma noite em que tudo deu errado, era triste e doloroso demais. Contudo, eu não culpava o bebê. Culpava a mim mesma, principalmente por lhe dar um pai tão ruim e por colocá-lo no mundo em circunstâncias tão sórdidas.

— Eles podem amar, Laís. Mas eu não amo essa nova realidade. Não estou pronta para me transformar na filha que engravidou por causa de uma suruba. — Um nó se formou na minha garganta. — Você tem noção do quanto isso é... vergonhoso?

— É claro que não é vergonhoso, Leona! Pelo amor de Deus! Até eu já participei de uma suruba, há alguns anos, com o pessoal da faculdade.

— Sério? — Não escondi a surpresa. — E tinha... homens participando?

— Deus me livre! — Ela riu. — Só tinha mulheres maravilhosas. Foi uma experiência incrível, mas... sei lá. Acho que prefiro algo mais íntimo, sabe? Com algum tipo de conexão envolvida, sentimentos e tudo. Sou esse tipo cafona de pessoa. Queria ser mais ousada, que nem Lisa.

— Lisa é muito porra-louca — comentei, rindo.

— Ela deveria ser filha dos nossos pais. Faria muito mais sentido. É por isso que eu acho que você deveria contar sobre a gravidez. Eles são tão...

— Não quero que saibam — cortei. — Não quero, Laís. E ponto final. — Abri uma das gavetas da penteadeira, voltando a revolver as maquiagens.

— Tudo bem, a decisão é sua. — Pela visão periférica, percebi que ela estava tirando a almofada do colo para se levantar. — Deixa que eu te maquio.

— Não precisa. — Peguei a primeira base que vi.

— Precisa, sim. Quero que você fique bem linda. — Laís se aproximou, tomando o tubo da minha mão.

— Essa é a sua maneira nada sutil de dizer que sou feia e que me maquio mal? — Encarei o rosto perfeitamente harmônico de minha irmã mais nova.

— Você é linda, mas não sabe usar os produtos certos. — Pescou um vidro de alguma coisa. — Vamos começar com essa aguinha micelar que eu te dei. — Embebeu um disco de algodão com o líquido do frasco. — Ai... Acho que vou colar uns cílios bafônicos da Huda em você! Tem um modelo perfeito que testei ontem e...

— Nem pensar! Só passa uma base e pronto.

— Tá, eu colo um ciliozinho bem discreto, então... — Fez uma carinha triste. — Mas vou usar outra coisa maravilhosa em você! — Com a mão livre, agarrou um dos puxadores, revirou os objetos da gaveta e pegou um vidrinho rosado, de conteúdo meio cintilante, que eu nunca tinha visto na vida. Decerto, era mais um dos muitos mimos que ela vivia ganhando e deixando nas minhas coisas. — Algumas gotinhas do novo Farsáli vão deixar sua pele incrível! E, na boca, vou passar um lip tint que é lançamento da minha nova linha de batons líquidos e vai combinar demais com a sua carinha de boneca! Vai ficar linda!

A paixão de Laís por maquiagem havia feito dela uma das maiores youtubers de beleza do mundo. Sua própria e caríssima marca de maquiagens a transformava na Kylie Jenner do Brasil. E minha incapacidade de dizer "não" fazia de mim sua maior cobaia.

— Tá, então faz logo essa merda — cedi, e ela riu.

— Ansiosa para o seu grande dia? — perguntou, passando algo frio na minha pele.

— Na verdade, não. — Fui sincera.

— No seu lugar, eu estaria. Você acha que...

— Leona? — Uma familiar voz masculina ressoou, junto a uma batida à porta. — Já está pronta?

— Não, ela não está! — Laís respondeu.

— Posso entrar? — Ele quis saber.

— Pode — consenti.

— Já são quase sete horas, e você ainda está passando essas porras na cara? — Meu irmão se indignou, alcançando a penteadeira. — Por que vocês vivem perdendo tempo com isso, se quando terminam continuam mais feias que cão chupando manga?

— Ai, que engraçado... — Laís ironizou.

— Sai daqui, palhaço! — Dei um soco em seu braço.

Ele soltou uma risada.

— Anda logo com essa merda, Leona. Tá quase na hora de sair. — Jogou-se na cama, cruzando os braços sob a cabeça e as pernas na altura dos tornozelos.

— Você acabou de acordar! Ainda nem começou a se arrumar! — resmunguei. — E tira esses pés chulezentos da minha cama!

— Já tomei banho. Fico pronto em dois minutos. E esta cama está na minha casa, que só vai ser sua quando eu sair daqui. Por enquanto, posso fazer o que quiser nela. — Raspou as solas descalças no edredom e, em seguida, peidou.

Isso mesmo. Peidou nas cobertas!

O som alto antecedeu o cheiro horroroso que levou meus dedos às narinas.

— Porco desgraçado! — Minha voz anasalada escapou, e ouvi duas gargalhadas.

O unicórnio largou o produto e caiu no tapete, rindo descontroladamente.

O porco ria no colchão, guinchando como se estivesse morrendo.

— Você tá podre, Luan! Podre! — berrei, me levantando. — Meu Deus! Que nojo! — Fiz ânsia de vômito.

Precisei correr de repente, porque uma onda nauseante ameaçou explodir com a força de um tsunami.

No banheiro da suíte, coloquei para fora tudo o que havia dentro de mim.

— Lê, você está bem? — Laís entrou instantes depois.

— Péssima — murmurei, limpando a boca.

Não era a primeira vez que aquilo acontecia. Ultimamente, qualquer odor forte, malcheiroso ou não, me fazia disparar até o sanitário mais próximo. Pela manhã era ainda pior. Às vezes, acabava liberando o jato no chão.

— Acho que o tempo que você passou no exterior te deixou desacostumada aos peidos de Luan. — Laís riu.

— Não é isso. — Fiquei de pé e fui até a pia. — É a gravidez — cochichei.

— Ah... — Seu semblante se iluminou com a compreensão. — Nossa, então os enjoos são reais? Achei que fosse coisa de novela.

— Infelizmente, não é. — Coloquei creme dental nas cerdas e comecei a escovar os dentes, pela segunda vez naquele dia.

Quando voltamos para o quarto, Luan estava de pé, casualmente escorado em uma das colunas do dossel e já devidamente vestido. O terno perfeitamente ajustado ao corpo alto e atlético combinava com a gravata cinza e com o tom pálido de suas íris.

Como se não bastasse, seu cabelo já estava formalmente penteado. As mechas douradas, lisas e densas formavam um topete lateral.

— Agiliza, que eu tô com pressa! — berrou.

Fiquei possessa.

— Cala a boca, filho de porra rala! — Peguei um travesseiro e atirei na direção da cabeça dele.

Queria bagunçar aquele cabelo horrível, mas o idiota aparou a arma flutuante e, rindo, começou a se aproximar da porta.

— Vou ligar agora para o nosso digníssimo pai e contar que você falou que a porra dele é rala! — E, então, jogou o travesseiro na minha cara, que me atingiu com a força de um balaço enfeitiçado.

Perdi o equilíbrio e caí de bunda no tapete, enquanto ele corria, às gargalhadas.

— A gente devia ter assassinado Luan quando éramos crianças — Laís comentou. — A essa altura, estaríamos livres dele e nem teríamos ido para a cadeia.

Mesmo caída e humilhada, não contive o riso.

— Tem razão. Por que perdi a chance de enforcá-lo no berço? — Imaginei minhas mãozinhas infantis estrangulando um pescocinho delgado.

Rindo, minha irmã estendeu a palma, me ajudando a levantar.

— Depois de matar o do meio, enforcaria a caçula também — brinquei, já de pé.

— Idiota. — Ela deu um puxão no meu rabinho-de-cavalo.

— Ai! — Levei a mão à nuca.

— Anda logo, ainda precisamos dar um jeito nesse cabelo. Onde você colocou o triondas?

— Triondas? — Achei graça. — Não sei nem o que é isso.

— Aquele modelador de cachos que eu usei no meu último vídeo. Deixei aqui. Eu... Ah! Lembrei! Tá no seu closet! — E começou a andar rumo às portas abertas que dividiam o cômodo espaçoso.

— Laís, eu não estou indo para uma festa! Vou assim mesmo, com o cabelo liso. Lavei ontem, tá ótimo. — Tirei a presilha, ajeitei os fios e me sentei na cadeira. — Vai, faz a maquiagem mais rápida da sua vida.

— Ai, é bom que eu testo a make naturalzinha pro dia-a-dia que vou gravar daqui a pouco! — Ela se animou. — Vou aproveitar que dormi aqui e usar seu quarto como cenário, tá? Assim que terminar, vou embora.

— Tá — concordei, impaciente. — Agora, anda logo.

Pouco depois, estava pronta, saindo com Luan.

Teria ido sozinha, preferencialmente de moto, mas estava de saia e, além disso, meu irmão e eu estávamos indo para o mesmo lugar. Não fazia sentido recusar a carona.

Ainda faltava aproximadamente meia hora para o horário marcado. E não tínhamos tomado café em casa, o que nos levou à melhor cafeteria do país, conhecida em todo o território nacional e em franca ascensão em terras estrangeiras. Por sorte, havia uma franquia na mesma avenida do nosso destino final.

O ambiente aconchegante e uma deliciosa mistura aromática nos acolheram assim que atravessamos as portas duplas. O local estava lotado, como sempre. Mas um casal desocupou uma das mesas logo que entramos, e Luan e eu nos sentamos.

Uma funcionária se materializou de repente, para registrar nossos pedidos. Seus olhos caíram em meu irmão e ali ficaram. Automaticamente, me tornei invisível. Mas não me incomodei. Estava acostumada a esse tipo ridículo de situação.

— Um mocha, por favor — ele pediu. — E, para ela... Um expresso, né, Lê?

— Não! — bradei, e recebi um olhar surpreso.

Eu sempre pedia um expresso. Sempre. Café puro era a minha bebida favorita. Vivia à base de cafeína, mas, desde que iniciara minhas pesquisas sobre gestação, estava evitando. Tinha lido em algum site que podia fazer mal para o bebê. Inclusive, precisava confirmar isso quando fosse ao médico.

— Você não quer café? Em plena segunda-feira de manhã? Quem é você e o que fez com Leona? — Os olhos dele estavam arregalados.

— Expresso, não. Foi isso que eu quis dizer. Hoje estou a fim de tomar um latte — sucumbi, para não levantar suspeitas desnecessárias. Além disso, um latte não faria mal. Tinha muito mais leite que café. E eu daria apenas um ou dois goles, no máximo. — E, como acompanhamento, uma fatia de cheesecake de oreo — acrescentei.

Luan continuou ressabiado, mas virou-se para a moça.

— Um mocha, um latte e o cheesecake, por favor. — Sorriu polidamente, o que a fez suspirar.

— Já volto. — Juro que ouvi outro suspiro antes que ela se afastasse, rebolando à toa.

Era bonita e dona de uma bunda enorme, mas Luan estava distraído.

Fiquei calada por alguns segundos ao notar que ele tinha ficado meio aéreo, com o olhar perdido.

— Já falou com ela? — sondei.

— Ela quem? — Abandonou os próprios pensamentos.

— Não se faça de besta — recriminei.

— Já, já falei. — Ele se rendeu.

— E como ela reagiu?

— Você sabe como ela é. Levou numa boa. Como vão as coisas com Joaquim? — desconversou.

— Ótimas!

— Espero que vocês se casem logo e me deem um sobrinho ainda no primeiro mês. É o mínimo que podem fazer pelo meu sacrifício.

— Que grande sacrifício... — brinquei, embora estivesse me sentindo terrivelmente culpada.

— Falando nisso, você não vai acreditar em quem acabou de entrar! — Sentado de frente para mim, meu irmão olhava para a porta.

De costas para a entrada, senti um gélido arrepio na espinha. Foi como um mau presságio. Eu não tinha como saber quem havia chegado. Mas era tão azarada que só podia ser ele.

— Fala, Ferrão! — A voz odiosa ecoou ao mesmo tempo em que meu irmão se levantava.

— Bom dia, patrão! — Outro homem saudou, e o identifiquei de imediato. Ramiro.

— Fala, Bel! E aí, Bia? — Enquanto meu irmão os cumprimentava em algum ponto atrás de mim, eu escorregava no banco de couro, desejando me fundir ao estofado vermelho.

Praticamente deitada, comecei a implorar mentalmente que a dupla se afastasse o mais rápido possível, em busca de outra mesa. Tudo o que eu não queria era ser apresentada àqueles dois por meu irmão.

Não, isso não estava nos meus planos. Ainda não estava na hora! Eu precisava do meu grande momento. O que eu havia arquitetado não podia acontecer ali.

Após alguns segundos na posição desconfortável que escondia meu cocuruto, Luan se aproximou do assento, e eu respirei aliviada, certa de que minhas preces haviam sido atendidas.

— Por que você está sentada assim? — Suas sobrancelhas claras se uniram.

— Estava só... — Endireitei o corpo e, ao girar o pescoço, dei de cara com os dois sujeitos engravatados.

Três pares de olhos se estatelaram ao mesmo tempo. Os deles, ainda mais que o meu.

— Preciso te apresentar a Braz Belmonte, diretor financeiro; e Ramiro Biazate, um dos melhores advogados da empresa. Meus caros, esta é...

— Oi! — Saltei do banco, com o coração aos pulos, em uma súbita atitude improvisada. — Muito prazer, Ramiro e Bráulio!

— Bráulio! — Meu irmão teve uma crise de riso.

Ramiro pareceu achar graça do meu erro proposital, mas acho que estava tenso demais para rir. Ao olhar para ele, percebi que me fitava como se eu fosse um fantasma que voltara para assombrá-lo por toda a eternidade.

Mas os olhos ligeiramente arregalados não furtavam a beleza de seu rosto másculo, valorizado pelo maxilar forte, coberto pela barba curta.

O cabelo crespo e quase raspado lhe dava ares de oficial militar e era mais um adendo à aparência extremamente viril. Espessas sobrancelhas negras encimavam fileiras de cílios pretos. As íris marrons, praticamente do mesmo tom de sua pele, estavam atentas às minhas.

Eu estava prestes a romper nosso contato visual, movendo as vistas na direção de seu amigo babaca, quando a funcionária se aproximou.

— Com licença. — Colocou duas xícaras e um prato sobre a mesa. — Um mocha, um cheesecake e um latte, correto?

— Isso. Obrigado. — Luan agradeceu, contendo suas gargalhadas. — Bráulio, você e Bia vão fazer o pedido? As mesas estão todas ocupadas, e tem espaço na nossa.

— Se continuar me chamando de Bráulio, vou enfiar o meu na sua boca na próxima suruba, Ferrão. — Braz provocou mais risadas.

Para adiar o momento de enfrentá-lo, dei um passo, peguei meu café com leite vaporizado e bebi um gole.

Como se fosse álcool, a bebida fumegante me abasteceu com coragem.

Ousei encará-lo, caprichando na expressão de pura indiferença.

Mantive a pose de rainha do gelo, mas confesso que, ao encontrar o intenso olhar de Braz Belmonte, fiquei momentaneamente aturdida.

Era a primeira vez que o observava em plena luz do dia. Constatei, meio atônita, que seus olhos eram muito verdes. E absolutamente lindos. Um tom vívido circundava as pupilas fixas em mim.

Escuras sobrancelhas franzidas e pálpebras estreitadas escancaravam sua raiva.

Por um momento, achei que fosse abrir a boca e cuspir de imediato tudo o que havia acontecido no sábado anterior. Porém, em vez de bater com a língua nos dentes, desviou os olhos para a garçonete boquiaberta.

— Um expresso, querida. E você, Ramiro?

— Um macchiato — ele murmurou.

— Um expresso... e um... macchiato — ela repetiu, de um jeito abobalhado.

E quem poderia julgá-la? Não era todo dia que três caras altos, musculosos e ridiculamente bonitos — tirando meu irmão — apareciam exibindo seus ternos de alta costura no mesmo lugar.

— Sim, por favor. — Braz curvou os lábios largos e delineados.

A mulher quase caiu dura, e até eu fiquei impactada.

Era um homem detestável, mas tinha uma boca surreal e um sorriso devastador.

Quando a funcionária bunduda se afastou, rebolando lentamente, o safado acompanhou o caminhar sedutor com um olhar malicioso.

Então, se virou para mim. A raiva evaporara de suas feições simétricas, sendo substituída por deboche disfarçado de confusão.

— Eu te conheço de algum lugar? Tenho a impressão de que já te vi, mas seu rosto é tão comum que não tenho certeza.

— Ficou louco, Belmonte? Ela é linda! E o rosto dela é singular. — Luan me defendeu.

Tive vontade de beijar sua bochecha e abraçá-lo bem apertado, pedindo perdão por ter me imaginado enforcando seu pescocinho infantil mais cedo.

— Esta é... — continuou.

— Leona. — Forcei um semblante amigável e, distraída, movi os dedos pela porcelana quente. De modo instintivo, baixei as vistas, vislumbrando meu café e os lindos desenhos brancos que flutuavam na superfície. — Leona Leite. — Ergui os olhos, encarando os três.

A expressão de meu irmão se transformou em um misto de espanto e incredulidade. Movi o olhar para Braz.

— Ferrão, essa garota... — o otário começou, mas o repentino toque de um celular o interrompeu.

Luan enfiou a mão no bolso, resgatou o aparelho, olhou o visor e pediu licença para atender, distanciando-se um pouco.

Então, Braz se concentrou em mim.

— Quanto?

— Quê? — indaguei, confusa.

— Quanto você quer para parar de nos seguir e desaparecer das nossas vidas? Diga seu preço. — Ele pegou a carteira.

Fiquei simplesmente pasma. Até seu amigo ficou chocado.

— Que isso, cara? Você quer comprar a mulher?

— Não. Quero comprar a minha paz, já que essa pilantra está tentando roubá-la e posso pagar para mantê-la. — Seu olhar frio recaía sobre mim.

— Braz, eu acho que você está pegando pesado — Ramiro alertou.

— Quem está pegando pesado é essa menina! Você não está vendo que agora a golpista está tentando empurrar a cria para cima de Ferrão? E o trouxa está caindo no feitiço dela! Vamos, diga seu preço, Medusa de uma figa! — Abriu o compartimento de couro.

Fúria e indignação se revolveram em meu interior.

Sequer pensei antes de agir. Completamente fora de mim, movi a mão e atirei em seu tórax o líquido escaldante da xícara. O café molhou o terno e escorreu até cair sobre os sapatos reluzentes.

Um grito de dor escapou de sua garganta e, rapidamente, ele desabotoou o paletó, puxando o tecido da camisa outrora imaculada na região da mancha.

— Estou esperando. — A voz dele me tirou do transe. — Quanto você quer?

Pisquei, me dando conta de que a cena se desenrolara apenas na minha cabeça, como se eu fosse uma das espiãs de "Três Espiãs Demais".

— Faz um favor para mim, Braz? — Pousei a xícara cheia na mesa, apanhei minha bolsa no banco, pesquei a carteira e peguei quinhentos reais, juntamente com outras cédulas que estavam ali desde a minha última viagem. — Pague o nosso café. E pode ficar com o troco, babaca. — Com força, empurrei as notas nacionais junto com quinhentos euros e mais trezentas libras em seu peito, esbarrando em seu braço com certa violência.

Ao passar por meu irmão, agarrei sua manga.

— Que foi? — resmungou, com o telefone na orelha.

— Vem comigo. Agora. — Saí arrastando Luan.

— Depois te ligo. — Ele guardou o celular e acompanhou meus passos apressados.

— O que houve, Leona? — Olhou para trás. — E aquele dinheiro no chão?

— Só vem, Luan. — Continuei andando.

— Agora você pode me explicar o que aconteceu lá dentro? — perguntou, quando entramos no carro.

— Não aconteceu nada. Vamos logo, estamos atrasados. — Puxei o cinto de segurança.

— E o nosso café? — Ele afivelou do outro lado.

— Braz vai pagar o que pedimos. Liga o carro. — Apontei a ignição.

— Você está estranha. Ele te disse alguma merda? É só me falar que eu dou uma surra naquele filho da mãe!

— Liga o carro, Luan.

— Leona, eu te fiz uma pergunta!

— E eu estou mandando você ligar o carro! — gritei. — Sou sua irmã mais velha, você tem que me obedecer!

— Você não manda em porra nenhuma! Vou ligar porque quero! — Girou a chave.

Dei uma risada, e ele riu também.

— Que bicho te mordeu?

— Desculpa, tô de TPM — justifiquei, lamentando por ser uma mentira.

Naquelas circunstâncias, daria tudo por uma TPM. E não ousaria reclamar das cólicas futuras. Muito menos do fluxo intenso. Mas não haveria dor nem sangue pelos próximos meses. Eu sofreria e sangraria apenas por dentro, até o dia em que sofreria e sangraria no parto.

A desculpa que dei serviu para deixar Luan calado. Dirigiu o restante do curto percurso em silêncio.

Chegamos à empresa em menos de cinco minutos.

Depois que meu irmão estacionou o esportivo em sua vaga privativa, pegamos o elevador até a sala do diretor executivo, que ficava no último andar.

Assim que entramos, o vasto ambiente iluminado, principalmente em decorrência de suas paredes de vidro, brindou nossos olhos com uma vista espetacular. Dali, era possível ver a cidade, suas montanhas e seus arranha-céus cobertos por um infindável manto azul.

Mas vista nenhuma era tão bonita quanto a visão do homem loiro cercado pela mesa imensa e sentado na imponente cadeira de couro.

Assim que me viu, ele se levantou.

— Lovezinha!

— Papai! — Sorrindo, corri e me atirei em seus braços, meu lugar favorito no mundo inteiro.

Após alguns minutos de conversa, fomos informados por uma das secretárias executivas de que Braz Belmonte já estava à espera na sala de reuniões.

Havia chegado o meu grande momento. Finalmente!

Enquanto caminhávamos, fiquei para trás de propósito. Queria saborear cada segundo do abate. E, para isso, tudo tinha que acontecer em seu próprio tempo.

Os dois homens da minha vida atravessaram as portas largas e, ao vê-los, Braz se colocou de pé.

— Bom dia, senhor Guerratto. — Ouvi a voz polida escapando em um tom profissional.

— Bom dia, Belmonte. — Meu pai cumprimentou formalmente. — Creio que ainda não conhece minha filha. — Deu um passo para o lado, e Luan fez o mesmo do outro, revelando meu corpo baixo e pequeno. — Esta é Leona Guerratto, a gerente que vai substituir meu filho no seu departamento.

Ao ficar frente a frente com aquele escroto, mostrei um olhar maligno, imaginando óculos de sol voadores se encaixando em meus olhos ao som de "turn down for what".

Eu não era a Medusa, mas, naquele instante, juro que pensei que tivesse transformado o homem em pedra. Feito uma estátua, branca como mármore, ele me fitava com uma expressão horrorizada, como se estivesse diante de uma cabeça repleta de serpentes.

Nunca vou esquecer o misto de choque e pânico que se alastrou por aquele rosto.

E Braz Belmonte tinha toda razão em temer. Porque, dali em diante, eu transformaria sua vida em um inferno.  

Eu estava muito, muito ansiosa para postar este capitulinho!

Estava louca para revelar de uma vez que Leona é a Lovezinha!

Desde que ela apareceu, ainda bebê, em "O Descarado Dorme Ao Lado", tenho recebido comentários e mensagens de leitoras perguntando o nome dela, que não foi revelado de propósito, justamente porque eu já tinha este projeto em andamento.

 Queria contar a história dela em um romance separado e, também, queria fazer essa surpresinha para quem leu meus livros anteriores.

Gostaram?

Pegaram as pistas que eu fui deixando ao longo do capítulo? Espero que sim! Hahahaha!

Eu estava ansiosíssima pela reação de vocês! 

Tomara que tenham deixado muitos comentários! Quero ler tudinho!

Se estão animados com a história, não se esqueçam de votar clicando na estrelinha!

Mil beijos!

A gente se lê em breve!

P.S.: Gostaria de lembrá-los de que "Tudo Pode Mudar" não é uma continuação de "O Descarado Dorme Ao Lado".  É um romance independente, que pode ser lido mesmo por quem ainda não leu nada que eu escrevi antes. Portanto, se quiserem recomendar o livro para outros leitores, fiquem à vontade! 

P.P.S.: Agora que apareceram mais personagens, vou revelar mais avatares nas minhas redes sociais! São estas, para quem quiser acompanhar: 

Instagram: @kenya.garcez

Página no Facebook: @autorakenyagarcez

Twitter: @KenyaGarcez

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