| C a p í t u l o 1 |

— Cara, aconteceu uma tragédia! — Miro alardeou ao entrar na minha sala no final do expediente.

— Que tragédia? Engravidou alguém? — brinquei, mantendo os olhos no relatório que estava lendo.

— Pode ser que sim. — A entonação preocupada me fez abandonar a leitura. — Uma mulher me ligou agora há pouco e disse que eu posso ser o pai do filho dela!

— E você acreditou? — Não contive a risada.

— É sério, Braz. — Puxou uma cadeira e se sentou de frente para mim. — Ela citou alguns nomes, inclusive o seu.

— O meu? — indaguei, sem entender.

— O seu, o meu e o de outros caras que também participaram da suruba na casa de Ferrão.

— Qual delas?

— Aquela, que uns primos dele também participaram. Até levaram umas gostosas. Tinha uma ruiva peituda com uma tatuagem na bunda, lembra?

— Uma que tinha um piercing na...

— Não — ele cortou. — A do piercing tinha o cabelo azul.

— Cara, como você lembra essas coisas? — perguntei, achando graça.

— É difícil esquecer os fios presos no meu pulso. — Ele usou um tom sacana.

— Será que ela é a mãe do seu filho, Mirão? — provoquei.

— Vira essa boca pra lá! Não sei qual delas ligou, mas não sou o único ferrado nessa história, não! O pai da criança pode ser qualquer um dos que enfiaram o pau nessa mulher! Seu nome também está na lista. E se for você?

— Impossível. Não transo sem camisinha. Estava devidamente encapado naquela noite. Você também, não?

— É claro, porra! Mas a gente sabe que essa merda pode falhar, cara. E se tiver falhado? — O desespero estava nítido em suas feições.

— Comigo funciona há quase quinze anos, não vai ser agora que vai dar errado — respondi calmamente.

— Você não está nem um pouco preocupado? — Miro me encarou, incrédulo.

— Ramiro, está na cara que isso é um golpe. — Balancei a cabeça, rindo da inocência de meu amigo. — O pai da criança deve ser um pé-rapado. A garota descobriu que os caras que participaram têm grana e está tentando dar o famoso golpe da barriga.

— Sei, não, Braz. Ela quer que eu faça o teste, perguntou se eu topo.

— E você vai fazer?

— Vou, né. Se for meu, vou ter que assumir. Fazer o quê? — Soltou um suspiro. — Que merda, cara... Que merda... — Os dedos voaram para a testa, complementando o semblante agoniado.

— Fica tranquilo. Você vai ficar uma graça de papai! — Gargalhei.

— Eu queria ter essa sua coragem de rir na cara do perigo. Quero ver o que você vai fazer se meu exame der negativo, e ela te ligar em seguida!

— Simples. Vou dizer que não sou o pai e, logo depois, vou mandá-la à merda.

— Aí, ela ajuizaria uma ação de investigação de paternidade, otário!

— Isso poderia me obrigar a fazer o teste? — sondei.

— Obrigar, não. O cara faz se quiser. Mas a recusa induz presunção juris tantum de paternidade.

— Fala direito.

— Mas é Direito! — Riu do próprio trocadilho.

— Explica logo essa merda, Ramiro — pedi, com a paciência no limite.

Ele deu uma risada, mas logo adotou uma fisionomia séria.

— Significa que o melhor é fazer o exame por livre e espontânea vontade. Porque, se a mãe ajuizar a ação, o suposto pai acabará fazendo o teste de qualquer maneira. É possível negar. Mas isso pode levar a uma interpretação judicial desfavorável. Se existirem indícios suficientes de paternidade, o juiz pode reconhecê-la, mesmo que o teste não tenha sido realizado. Ou seja, se o cara optar por não fazer o exame, pode tomar no cu sem ser o pai da criança. Portanto, se a mulher te ligar, aceita e faz.

— De jeito nenhum! Não vou facilitar a vida da oportunista — declarei, resoluto. — Se ela quiser testar o meu DNA, que acione a justiça. Apenas nesse caso eu faço o exame.

— Você vai dar todo esse trabalho para a mãe do seu filho? — Miro zoou, tentando mascarar a apreensão.

— Ela não é a mãe do meu filho, é só uma filha da mãe que acha que nascemos ontem. Mas eu sou vacinado. Nesse golpe eu não caio. — Guardei o relatório e fiquei de pé. — E aí, quer sair pra tomar uma?

— Tô precisando mesmo beber. — Ele também se levantou, apalpando os bolsos do terno. — Porra. Deixei a carteira na minha sala.

— Deixa que eu pago. — Comecei a sair.

— Você pagou semana passada. A gente passa lá, e eu pego. — Miro me acompanhou.

— Tem certeza de que não quer que eu pague? Você precisa economizar para as fraldas do seu filho — zombei.

— Você é desgraçado demais, cara. — Ele estava tão tenso que nem riu.

Já eu, dei risada até chegarmos ao elevador.

Em poucos minutos, estávamos no Departamento Jurídico.

— Doutor, a mulher que ligou anteriormente acabou de retornar a ligação, com a data e o horário do compromisso — a secretária informou, assim que nos aproximamos da sala de meu amigo. — Já inseri o evento e sincronizei a sua agenda.

— Obrigado, Briana. — Ele forçou um sorriso educado e seguiu adiante.

Assim que virou as costas, o semblante carregado de profissionalismo dela foi substituído por um olhar cheio de malícia, que o acompanhou até o instante em que entrou na própria sala.

Mordendo o lábio e enrolando uma mecha do farto cabelo loiro, ela girou a cabeça e se deparou comigo.

— Ai, que susto! — Levou a mão ao discreto decote do uniforme. — Esqueci que você estava aqui, traste. — Mirando a tela do iMac, deu alguns cliques e começou a bater as unhas compridas no teclado.

— Cuidado, Briana... — Abri um sorriso cretino. — Se continuar de olho no seu patrão, pode acabar no olho da rua.

— Você bem que podia convencê-lo a dar uma chance para a sua prima favorita. — Ela me fitou e sorriu de forma pretensamente pura.

— Isso nunca vai acontecer, priminha — debochei.

— Por favor, meu priminho lindo... — Lançou-me um olhar comovente.

— Esquece. Ramiro não transa com as próprias secretárias. Ele não fodeu nem a anterior. E olha que ela era muito mais bonita que você — provoquei.

— Idiota. — Briana fez uma careta. — Então o mínimo que você pode fazer é me apresentar ao irmão dele!

— Como você sabe que ele tem irmãos, se começou a trabalhar aqui esta semana? — investiguei.

— Tem mais de um? — Ela se animou.

— Dois.

— Um deles ligou pra cá ontem. Tem uma voz tão... máscula. — Suspirou. — Aposto que é gato. É, não é?

— Feio pra caralho.

Ela riu.

— Já vi que é lindo! Qual dos três é o mais bonito?

— Que pergunta fodida é essa, Briana? — resmunguei. — E eu lá acho macho bonito?

Íris castanhas se reviraram em resposta.

— Pelo menos me conta uma coisa... — Ela chegou mais perto. — O irmão da voz deliciosa é rico? Deve ser montado na grana, né? Ele trabalha na rede de hotéis da família? Ou também é advogado? E o outro? Faz o quê?

— Na verdade... — iniciei, mas fui interrompido pela súbita presença de Ramiro, que se aproximou do balcão.

— Briana, já estou indo — comunicou. — Bom fim de semana.

— Para o senhor também — disse, séria.

Miro começou a se afastar, e ela fisgou o lábio novamente, atenta aos movimentos dele.

Balancei a cabeça em recriminação, e recebi um delgado dedo médio em resposta. Devolvi o gesto e acompanhei meu amigo.

— Você já percebeu que Briana está louca para passar um tempo na sua cama, né? — questionei, quando alcançamos o elevador.

— Ela se contentaria com a mesa da minha sala. — Ele esticou o braço e apertou um dos botões do painel.

Dei uma risada.

— Deixa de ser sacana, Mirão. Dá um trato na coitada.

— Você sabe que eu não misturo sexo com trabalho. Além disso, agora há pouco, quando descobri que dia vou fazer o exame, fiz uma promessa. Se eu não for o pai da criança, vou ficar sem transar por um ano.

Tive uma crise de riso tão violenta que, quando a caixa metálica se abriu, eu ainda estava gargalhando.

Controlei o riso e ajeitei a postura às pressas ao ver a esposa do diretor executivo diante das portas abertas.

A mulher era um espetáculo. Devia ter uns quarenta e poucos anos. Ostentava belos traços e um corpo escultural, moldado pelo vestido justo e elegante. O magnata que se casara com aquela beldade era um filho da puta sortudo. E, também, meu chefe.

— Boa tarde. — Ramiro e eu cumprimentamos ao nos juntar a ela.

— Boa tarde. — A voz suave ressoou nas paredes frias enquanto o elevador se fechava.

Miro ocupou um dos lados, e eu me posicionei do outro.

No ambiente silencioso, o perfume feminino logo açoitou minhas narinas. Ela exalava uma fragrância delicada, mas marcante.

De repente, seu celular começou a tocar dentro da bolsa, que — eu tinha certeza — valia uma fortuna.

— Com licença, rapazes — pediu, ao checar o visor. — Preciso atender. — Quando assentimos, por mera formalidade, levou o aparelho à orelha e começou a falar em um inglês impecável.

A conversa mal começou e chegamos ao térreo. Com um aceno educado, ela saiu andando pelo saguão, os saltos altos repicando no piso lustroso e o rabo empinado balançando em um movimento deliciosamente hipnótico.

— Quer ser demitido, porra? — Levei um soco no braço. — É uma senhora bunda, mas uma boa manjada não vale o emprego que te paga um salário de seis dígitos.

Soltei uma risada e o encarei, me lembrando da promessa.

— Cara, como é que você promete o que não consegue cumprir? Quando o resultado der negativo, vai acabar molhando a rola, e o santo vai te castigar! Se afogar o ganso, ele envia a cegonha! — Gargalhei.

— Deixa de ser filho da puta, Braz — resmungou, visivelmente tenso.

— Relaxa, Mirão. — Bati em suas costas. — Logo você vai estar contando essa história em um boteco, rindo da época em achou que seria pai.

— Tomara, porque não estou pronto para essa merda, cara. Se um troço desses acontece comigo, acho que perco a cabeça.

Não contive o riso. Porém, por mais que estivesse me divertindo às custas dele, eu o entendia perfeitamente. Era um sujeito com quase trinta anos nas costas, mas não queria ter filhos. Nunca quis, porque sabia que não seria um bom pai.

Deixamos o prédio e fomos direto para o bar que ficava na mesma avenida, onde a maioria dos funcionários da empresa se reunia todos os sábados. O lugar estava lotado e, como de costume, muitas mulheres bonitas perambulavam pelo lounge, com seus drinques e coquetéis coloridos. Dentre elas, algumas participavam do happy hour de outras firmas. Várias trabalhavam nas lojas de alto padrão das redondezas. E havia as que estavam ali com amigas, apenas pela diversão noturna, que logo se iniciaria.

Naquele sábado, fui para casa com duas loiras. Nos seguintes, também voltei acompanhado. E foi em um deles que um garoto ensopado apareceu na minha porta.

Que saudade de postar aqui, gente!  

Estou muito ansiosa para saber o que vocês acharam do início da história!

Gostaram dos personagens que já apareceram? 

O que acham que vai acontecer no próximo capítulo?

Contem para mim nos comentários!

E, se gostaram desse comecinho, deixem estrelinhas, para me deixar felizinha!

A gente se lê em breve!

Mil beijos!


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