28 de Outubro de 2017
Não consigo pegar no sono. Passei toda a última semana dormindo antes das nove horas, regrada e obediente, para quê? Para hoje jogar tudo no lixo. Minha cabeça está a mil, fecho meus olhos e eles ordenam que eu volte a trabalhar em qualquer coisa. Dormir me parece tão absurdo nessas horas, uma verdadeira perda de tempo. Estou em um ápice criativo, sei bem, mas ainda quero dormir e ainda acho uma perda de tempo dormir. Estou inquieta. Acho que parte de mim morreu na última segunda feira. Quero dizer, foi nesse dia que eu tive aquela epifania; o clarão mostrou-me que não sou escritora, lembra? Então, lá se foi uns pedaços meus. Não se desintegraram, devem estar em alguma parte do mundo, mas acho pouco provável que eu volte a recupera-los.
Usava um pseudônimo para escrever, tudo que vinha de mim — esse intimo mal escrito e mal narrado — era oculto por aqueles dois nomezinhos. E.S. Fui E.S. por uma parte longa demais dessa minha curta vida — quase quatro anos. Vejamos, tenho dezessete, logo um quarto de tudo que respirei, almejei, amei, passei como E.S. Estudei como E.S, conquistei coisas como E.S., escrevi como E.S. Amei-te como E.S. Disse eu que E.S. levou embora tudo que era dela? Menti. Ela não levou as vezes que te amou. Talvez ela só não tenha te amado, talvez fora somente eu, M.R., que te amei, por isso não sinto a falta dessa parte de E.S. que supostamente se foi — ela só não existiu. Por que acabei de lhe contar isso? Não sei, para ter a desculpa de falar-lhe que eu te amo, quem sabe.
Não te vi na sexta, como eu pretendia. Não, eu não pretendia, eu tinha certeza que iria te ver. Não vi. Minto, vi sim. De costas, de longe, com o casaco cinza enrolado no pescoço. H.... me chamou para ver sei lá o que e eu fui, perdendo a chance de esbarrar contigo. Falaria comigo, abraçar-me-ia, oh, eu estava com um livro na mão, Crime e Castigo, qual trocadilho elaboraria para ele? Nem consigo supor; tuas sacadas são sempre inimagináveis de tão ruins. Por isso mesmo eu rio tanto com elas. Mas, tudo bem, perdi aquela chance mas haveria outra, uma hora e meia depois. Que fiz? Sai mais tarde, baseando o meu horário no teu da sexta: demora para desligar o computador e a recolher tuas coisas, fora as centenas de pessoas que você cumprimenta até chegar na sua moto. Não fez isso nessa sexta e, quando desci — crente que te veria em alguma reentrância da coincidência — já estava todo encapuzado em cima da garupa, olhando para o lado oposto ao que eu estava. Foi-se e eu não vi sua cara essa semana. Passei todo o resto da sexta incrédula por não ter te visto. Teria, então, que esperar duas semanas inteirinhas se quisesse conversar com você, era mesmo real. Isso não seria tão doloroso se tivesse acontecido há dois anos, ou até mesmo há um... ainda haveria tempo para ver-te em outras ocasiões. Agora, não tenho mais. Estou a semanas de te perder para sempre, não há quartas e sextas para desperdiçar e, que faço? Jogo uma semana no lixo.
Hoje, sábado, planejei de caminhar com E...., perto da praça de onde você mora — não sem motivo. Estava certa que te veria, assim como sabia que eu estava me iludindo por pensar que te veria. Eu sempre me contento com as possibilidades, então, eu estava ansiosa para as quatro e quarenta e cinco quando, na pior das hipóteses, nossos corações ficariam — ao menos — um tiquinho mais próximos. Que aconteceu? E.... disse que não iria mais. Por quê? Um cara que ela gosta estava na praça — ficou sabendo disso sei lá como — e não poderia ser vista por ele nos trajes que se usa para caminhar; legging, tênis, blusa rasgada e uma cara sem reboco. Seria louca de aparecer assim e ficou horrorizada ao imaginar a possibilidade. Vê, amor? Sequer tinha pensando sobre as minhas vestimentas — que seriam tão horríveis quanto qualquer uma outra que se usa para caminhar —, agarrei-me a ideia de te ver, como sempre agarro, e não ignorei todo o resto — o que eu estaria usando ao encontrar o teu olhar no meu. De forma sincera, não me importo a forma que me veja — se estou penteada ou não, maquiada ou não, vestida ou não. Não sou como as pessoas querem que eu seja pela maior parte do tempo, penso que se um dia chegasse a gostar de mim — que ideia absurda — deveria ser sobretudo por causa de mim. Entende? Ah, esqueça, não queria nem falar sobre isso. Não queria falar sobre coisa alguma. Queria ficar em silencio olhando para essa folha.
Fiquei e já desisti. Só eu falo por aqui, só eu posso, então irei falar.
Claro que não sabe o que eu quero, mas, se soubesse, saberia que agora eu quero ouvir Nocturne de Chopin. Na verdade, eu já a coloquei e também já a tirei. Queria reproduzir a primeira vez que eu a ouvi, com um céu estrelado em uma madrugada silenciosa. Nada é o mesmo; há vizinhos gritando por perto, a rua está vazia — de carro e de gente —, mas tudo me parece preenchido demais. Quando ouvi Nocturne pela primeira vez, foi como se a Terra tivesse se calado, não era possível que em algum lugar do mundo alguém estivesse palestrado, batendo em uma porta, tocando uma campainha, socando um rosto. Não me deixo acreditar que fosse possível tamanhos barulhos em algum canto do mundo.
A música morreu quando se deu por terminada naquela noite, agora a escuto e é como se ouvisse a mais do mesmo. A alma tão pessoal que a canção guardava escapou, deveria nunca ter a ouvido. Sabe, não é questão de saber a música de cor e se enjoar, eu realmente não sei. Já a escutei muito, mas nunca decoro os tan tan tan, nem meu ouvido se acostuma a eles. É sempre algo novo quando a escuto, porém nunca como da primeira vez. É a única canção que eu posso comparar a um texto meu. Guardo muito de mim e, quando ouso pôr para fora, são nesses textos lotados de besteirol. Escrevo e parte de mim se vai — como a E.S. se foi —, se não escrevo, aquilo, sei, morrerá comigo. Assim deveria ter sido com Nocturne. Ela sempre morou em mim, coloquei-a para fora, chorei, ela terminou, dei replay, ela já havia morrido e não voltou. Deixei que ela se fosse, eu sou a responsável pela sua morte.
Esses dias, então — completará uma semana —, decidi conjurar a música e a escrita e aniquila-los em um só. Escrevi um conto sobre uma personagem inventada — bem diferente de mim, até —, que em comum comigo só tinha uma coisa: a primeira vez que ouviu Nocturne. Chorou como eu, tentou reviver a música como eu, falhou como eu. Mas ela era tão mais dotada de vida, deprimente, porém, interessante. Havia questionamentos nela, coisas sem nexo que devem ter feito algum sentido em alguma parte dessa minha cabeça. Enfim, sou tão sem graça e ela tão com vida. Como consegui criar algo assim, não sei. Sou mesmo uma atriz!
Minha menina noturna acabou por se tornar um dos únicos escritos meus que eu gosto; acho que o único. Lê-lo me lembra A Noite Estrelada de Van Gogh. A cidade uma estátua, as estrelas, Chopin de fundo... eu, o quadro, a música e a menina noturna, estamos distantes demais e no entanto vivemos o mesmo instante, as mesmas estrelas, em épocas distintas, com preocupações destoantes, mas ainda sob o mesmo céu. Isso nos une e, no fim, é o que nos aniquila. Morreu tudo, só sobrou o quadro, a música e o meu conto; reedições.
Bem, talvez eu devesse colocá-lo aqui. Afinal, não farei outros contos para reunir em uma antologia, tampouco uma única folha faz um livro. Sozinho, esse conto se torna desprezível e se perderá com o tempo — um dia meu caderno irá virar lixo, um ano qualquer os registros de tudo serão apagados. Então, colocarei ele aqui, em uma oferenda a ti. Ele poderá fazer algum sentido amontoado entre essas linhas de pensamentos sem fundamento.
Noturna
Quando foi que permitiu-se chegar a tal estado de lassidão? Em alguma entrelinha dos dias, desconhecia o momento exato, ela tinha abandonado o mundo e a sua beleza. Não de súbito, as coisas fatais não ocorrem de repente, são precedidas pela junção de outros causos fatais, estes de dimensão minúscula... De toda forma, o resultado era aquele. Sem dar-se conta, tornou-se vítima do lasso. Adiava a vida, levantava-se e ia beber água, gelar a garganta. Depois, prometia, começaria. Retornava, sentava-se, mudava de ideia quanto a começar e, sem real necessidade, levantava-se para ir tomar outro gole d'água. Depois, tomaria banho, só depois começaria.
Um dia, alguém falou-lhe sobre estrelas cadentes, disse-lhe que nada tinham de estrelas, eram resquícios de meteoros que chegavam luminosos até nós. Desatou a rememorar a noite que havia começado um de seus começos já largados... abriu a janela, colocou pela primeira vez Nocturne de Chopin, olhou as estrelas, as verdadeiras, os seus feixes de luz sem padrão, roxos e azuis. Pensou, aquelas luzes viajaram por milhões de anos e só agora chegaram ao seu destino, por tão perfeito que era o instante. Poderiam apagar-se logo em seguida, existiram unicamente parar pertencer àquilo.
Chorou, pela beleza e sobretudo pelo efeito da canção. Aquela noite não se resumia ao céu, tampouco em seu choro ou a música. As coisas tantas casavam-se e misturavam-se a ponto de se tornarem indistinguíveis e impossíveis de serem seccionadas longe uma das outras. Era tudo tão acabado. Espectadora única da perfeição, viu ela sua gestação, seu início e tão logo, quando a canção terminasse, presenciaria ao seu fim. Olhou mais fundo para o preto do céu, nos espaços entre as estrelas, onde nada parecia existir, e uma luz fraca brotara para lembra-la da imensidão do desconhecido. Detalhes escondidos surgiam, contidos na perfeição sem se preocuparem de serem percebidos. Depois, a aniquilação. Havia aquilo tudo começado para prolongar-se na existência e morrer num instante aos olhos dela. Foi-se e ela própria jamais começaria. Ela já estava começada, inacabada. No presente, fechou os olhos e forçou lembrar-se da canção, querendo adivinhar a posição exata das estrelas no céu daquela noite. Estava tudo acabado. Extinguiu-se no mundo e em suas lembranças.
A pergunta, então, era-lhe outra. Quando foi que permitiu-se ser começada?
Reli-o e encontrei mais algumas semelhanças entre a menina noturna e eu. Faço essa mesma coisa de beber água para procrastinar. Sabe outra coisa que me liga a ela? Um dia alguém lhe falou sobre estrelas cadentes... Fiz esse conto na aula de geografia, o professor soltou alguma sobre estrelas cadentes serem apenas fragmentos de meteoros, lembrei-me de Chopin e da Noite Estrelada, esqueci da aula e escrevi.
Teria, então, E.S. virado uma estrela cadente em alguma galáxia? Seria um fim poético; do pó veio ao pó voltou, não é isso que diz a Bíblia? Ah, mas você não gosta de religião. Mas deve conhecer essa passagem.
Pois então... se eu tivesse uma escrita romântica diria que tudo — Chopin e sua música, Van Gogh e seu quadro, eu e minha menina noturna, você e sua moto, as sextas e as quartas — estaria a virar pó um dia, juntando-se em um bolo, tudo tão perto que, enfim, ficaríamos juntos, eu e você. A quem eu quero enganar com essa baboseira? Dane-se o daqui a bilhões de anos. Quero você, agora, seu corpo, sua boca e seus trocadilhos. E o depois? Ah, o depois tanto faz. Se virarei pó ou não, se me enterrarão em uma vala comum ou em um cova, se serei estrela cadente... Que importa tudo, eu me pergunto. Chega de visões belas sobre tudo, o platônico que diz que ficaremos juntos em um céu, em uma estrela, em um inferno. Sou tão amargurada com essas ilusões que beiram o ridículo... talvez por isso eu não esteja conseguindo dormir agora. Não empurro as coisas para um universo paralelo, estou presa nesse mundo em que minha única fantasia é te encontrar em alguma esquina. Ao menos isso é possível, não é?
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