25 de Dezembro de 2017
Estou zonza de saudade. Hoje vi uma foto tua em um lugar qualquer, numa visita que fez a um amigo, e estava tão bem, tão sorridente, tão feliz que não pude deixar de ficar triste. Triste porque não posso te ver, não posso te abraçar, não posso te falar nada. Tenho que ficar aqui, muda, você sem saber que eu te rememoro o dia inteiro, esquecendo-se de mim porque eu não valho a pena lembrar; nunca fui grande coisa na tua vida, você não sabe o que é na minha.
Há aquela frase bonita e pomposa do Carl Sagan, uma que os amantes gostam de dizer uns aos outros, e eu não largo ela da cabeça nessas minhas insônias tão irrequietas; ela me apazigua e também me faz chorar, faz-me sobretudo pensar que, apesar dos pesares, a coisa que importa é ter te conhecido e mesmo que sequer tivéssemos falado um com o outro, eu deveria ser grata pois meu presente eu já teria tido. Ponho-me em tempos longínquos, na pré-história, nas civilizações antigas, na Europa Medieval, todos esses tempos em que a tragédia maior não é a ameaça de ser esmagada por um mamute ou virar escrava ou morrer com feridas negras, mas não ter topado meu caminho com o teu. E tem também essa coisa do universo, essas galáxias inteirinhas por aí, cheinha de outros tantos planetas e, pasme, vida. Eu poderia ter caído num deles, assim como caí nessa Terra. E os multiversos? Aí tudo fica incontável, inestimável, resta somente ser grata.
Nasci então nesse tempo dentre outros tantos, nesse planeta dentre outros milhares, e achei de crescer nesse país, nessa cidade, frequentado aquela escola, ter conhecido tais pessoas, ter te tido no meio delas. É muita gente, é muita possiblidade, e enquanto fico embasbacada com essa verdade, outros usam-na para justificar o porquê de eu ter que esquecer você de vez; substituir-te pois há muitos outros nesse mundo. É verdade que conheci pouco de tudo e que ainda é cedo para dizer com tanta sofreguidão que te amo e só a ti posso amar. Mas não vejo de outra forma senão dessa. Colocarei os pés na estrada, sei que um dia farei algo assim, pegarei caronas, conhecerei gente, cruzarei fronteiras que só existem em mapas, e do alto de uma pirâmide maia eu me vejo sorrindo e feliz por ter caído nesse planeta onde naquela cidade que deixei você repousa; a Lombard Street é cheia de turistas nervosos, sei bem, mas ainda lá também me vejo esquecendo daquele povo para pensar um pouco em ti; e cada amizade temporária que eu faça, em cada língua que eu diga, em cada canto que eu for, eu irei falar sobre ti de forma tão saudosa que haverão de achar que fomos dois amantes.
Se tem algo que ainda me sustente é essa coisa de saber que os anos — e somente eles — provarão que eu amei somente a ti. Para que ir tão cedo se não poderei, na amargura da velhice, contar que amei a um único homem? Penso que assim acreditarão em mim, na velha encarquilhada que com certeza viveu demais da conta e por isso fala a verdade, amou mesmo G. e só a ele! Os que hoje encorajam-me a te substituir e tomar um rumo oposto ao teu irão rir e exclamar mas que coisa! não é que ela amava ele e somente a ele? Penso que assim morrerei na paz, quando provar ao mundo que fui durante toda a vida uma velha louca que te perseguiu em silêncio. Que orgulho, que orgulho de tal epitáfio! Ele será o fim de todo esse acumulado de possibilidades que tinham tudo para serem outras e acabaram por ser assim; e a coisa é essa, diante da vastidão desses tempos de tantos feitos e defeitos, da imensidão dos mundos e dos universos, onde num a gente se conhece e noutro sequer existimos, houve de eu, que também sou uma conjuntura de tantas outras pessoas — amores proibidos, talvez estupros e incestos, quem sabe estupros! — dividir uma era insossa como essa e um planeta hostil como esse com você; e te amar, amar somente a ti. Como sofro por tudo isso e como não consigo deixar de maravilhar-me por amar tanto o fato de que houve de ser esse o resultado desse aglomerado de coisas jogadas sem pensar em mim; minha infelicidade.
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