23 de Outubro de 2017

Apaguei as últimas trinta linhas – ou mais – que aqui havia escrito há nove dias e hoje resolvi retornar. Pus um fim nelas porque eu já não via sentido em nada dali. Comecei narrando os fatos cronologicamente, cometendo, assim, um erro. As coisas em relação a você estão mais envoltas no verniz do sentimental, quando começo a pôr tudo em ordem temporal, há uma perca do sentimento. Essa coisa, que é tudo para mim, reduziu-se a algo tão pequeno. Li as linhas e nada senti, não queria que tivesse essa mesma sensação (mesmo que saiba que jamais lerá a isso). Por que, então, retomei esse escrito? Confesso que já havia desistido dele. Aliás, eu desisti. Escrevo aqui já tendo desistido, é isso. Escrevo porque hoje dei por conta que sou horrível no que eu achava que fazia de melhor: escrever. Fui tonta por muito tempo. Achava-me escritora, veja só. Li meus escritos e os detestei. Vazios, grotescos, insensíveis e indiferentes a quem quer que os leia. Foi isso, abri os olhos e percebi que eu não sabia escrever, era somente um talento inventado, um conforto que eu guardava em minha mente. Pensava, bem, um dia serei eterna, escreverei vários livros e virarei uma escritora clássica. Juro que premeditei tais ilusões. Era meu alentozinho, o que sonhava em segundo plano (atrás dos sonhos que envolvem você, claro). Era tão bom ter esse conforto de saber que era boa em algo. Hoje, então, descobri que não sou. Mais ainda, o reconhecimento disso me fez perceber que não sou boa em tantas coisas que sempre quis ser boa. Não falo francês, não emagreci os quilos que desejei, não sou boa com pessoas e li pouco nessa vida. Sempre pensei nessas coisas as quais eu era falha, mas elas eram seguidas de "ah, mas eu sei ao menos escrever". Meu alentozinho. Hoje, não sou boa em nada. E quando me olhei no espelho, achando que seria capaz de encontrar algo de bom naquele reflexo, vi o quanto eu sou um ser humano ainda mais decante do que eu pensava. Essas olheiras, esses traços tão grotescos quanto a minha escrita, essas bochechas tão caídas como meus talentos. Sou um completo desastre, soube. Sou burra, sem talentos, sem amor. Ah, amor! Ai que entra você, a parte mais dolorosa desse desastre que hoje me dei por conta. Eu, uma coleção de insucessos, também encontrava a falta de amor no meio deles. Meu amor tão devoto, tão incompreendido, tão amoroso... para alguém que nunca vai aprecia-lo. Sou um desastre também nisso. Jamais o terei, era o outro fato.

Comecei a chorar enquanto encarava a essa verdade no espelho. Um choro estranho, onde meu nariz não ficou vermelho e nem meus olhos se estreitaram. Eram meus traços fixos servindo de passarela para uma única lágrima. Sem desespero, nutrido somente de uma corrosão interna e inacessível a mais ninguém além de mim. Uma dor íntima e particular, desesperada por ser tão sem desespero. O pior choro da minha vida. O gosto e o aroma do incrédulo. Eu era um fracasso e não havia ilusões que me persuadissem do contrário.

Que farei, então? Se hoje sei de toda essa verdade e meu futuro promete ser igual a tantos outros? Nada. Desistir é tão mais simples.

Como é doloroso ver a minha vida como ela é. No entanto, achará loucura, porém é de uma libertação enorme tudo isso. Não sei escrever, ótimo. Isso abre espaço a tantos sonhos que deixei quietos. Tempos atrás, tive vontade de abandonar o mundo, ir para a natureza, buscar a paz nos chacras e no silêncio. Mas, impendia-me de sonhar isso. Afinal, seria escritora, tinha que escrever, não me enfurnar em completa solidão. Havia divulgação, havia livros que precisava ler... empecilhos demais para ter essa vida natural. Agora penso em viver essa ideia louca e, melhor, sei que não há mais nada que me impeça. Você não me ama, não tenho talentos, jamais serei escritora. Que tenho eu que fazer senão me esconder do mundo? Não é uma má ideia.

Ah, esqueça, estou chorando. Penso em te abandonar e choro. Penso no quanto queria saber escrever e choro mais ainda. Chega, chega. Por que vim escrever, afinal? Sou tola demais. Não tenho talento e não sei o que pôr aqui. Vê como sou uma falsa escritora? Escritores sempre tem algo a dizer, com toda a maestria. Falta-me graça e careço de coisas para pôr no papel. Percebi que não percebo o mundo o suficiente, deixo passar os detalhes miúdos e, quando os percebo, os narro de forma grotesca, uma linha seguida da outra, uma sucessão sem beleza e empatia. Como serei escritora sendo assim? Que terei para contar de bom?

No fim, sou o que procurei fugir de ser: uma pessoa comum, que busca tudo e não consegue nada. Lembro-me, por exemplo, que comprei um violão destinada a aprender. Que fiz? Desisti. Ele está jogado no fundo do meu guarda roupa, todinho enferrujado. Há a apostila de francês, que já nem sei mais onde está. Desisti também. Tudo que tentei, desisti pensando "ah, ao menos sei escrever". Por que menti tanto durante todo esse tempo? Hoje dei um basta. Estou liberta das minhas próprias mentiras e pronta para não fazer coisa alguma.

Tem você, não tem? Como eu te amo! Estou chorando de novo. O que mais me dói, meu amor, é meu fracasso em relação a você. Saiba que eu passaria sem o francês, sem a escrita e sem o violão se eu tivesse você. Não me dedicaria a mais nada senão ao nosso amor. Talvez por isso eu seja um fracasso, eu já me devoto demais a você enquanto que vou desistindo de todo resto. Não, não, não estou lhe culpando pela minha falta de sucessos. A culpa é minha por mantê-los e sobretudo por continuar insistindo em você, que tem tudo para ser mais um desastre em minha coleção.

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